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15 de out de 2010

[Conto] CLARICE LISPECTOR - Uma Galinha

Clarice Lispector
                                                   
                       por  Pedro Luso de Carvalho
                                                    
     
        Os tempos que corriam na Rússia após a Revolução Bolchevick de 1917, não indicavam segurança para a família judia da escritora. Seus pais decidiram então emigrar para a América, Estados Unidos ou Brasil – ainda não estavam bem decididos. Na fuga da família, nasceu Clarice Lispector na aldeia da Ucrânia, Tchechenik. Após a escolha pelo Brasil, a família aportou em Maceió, capital de Alagoas, em 1921, época em que Clarice Lispector estava com dois meses de idade.
       
        Em 1924, a família muda-se para Recife, onde residiu por nove anos. Logo depois de alfabetizada Clarice Lispector conhece a literatura. Quando contava com 13 anos, a família muda-se novamente, dessa vez para o Rio de Janeiro.
       
        Em 1943, casa-se com o colega da faculdade Maury Gurgel Valente. Com o marido diplomata passa a viver em vários países, dentre eles, Itália, Suíça, Inglaterra e EUA.
       
        Nesse mesmo ano forma-se em Direito. Nunca exerceu a advocacia. Realizou-se como jornalista e escritora.
       
        Vítima de câncer de útero, Clarice Lispetor morre um dia antes de completar 57 anos, a 9 de dezembro de 1977. Seu sepultamento deu-se no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro.


        O conto Uma galinha, que segue, de Clarice Lispector, integra o seu  livro Laços de família (In Lispetor, Clarice. 9ª ed..Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1978, p.31-34.

    
                                                        [ESPAÇO DO CONTO]
                                             
                                              UMA GALINHA
                                                                                                    (Clarice Lispector)



            Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.
       
        Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.
       
        Foi pois uma surpresa quando a viram abriras asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do telhado. Um instante ainda vacilou – o tempo da cozinheira dar um grito – e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado,alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto do chaminé. O dono da casa lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta hesitante e trêmula escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado.
       
        Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outro com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.
       
        Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma.
       
         Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos.
       
        Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração tão pequeno solevava e abaixava as penas enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu-se desvencilhar-se do acontecimento despregou-se do chão e saiu aos gritos:
       
         Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! Ela quer o nosso bem!
       
        Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:
       
         Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!
       
         Eu também! Jurou a menina com ardor.
       
        A mãe, cansada, deu de ombros.
       
        Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: “E dizer que a obriguei a correr naquele estado!” A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.
       
        Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga – e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausando como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.
       
        Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho – era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.
       
        Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.



                                                                *  *  *
        

14 comentários:

  1. Pedro, Clarice é um ícone que nos faz deliciar com seus textos profundamente inusitados e reflexivos.
    A mulher, que desafiou a ESFINGE.
    Abraço amigo

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    1. Obrigado Malu, por sua visita.
      Você sempre será bem-vinda aqui no blog.
      Quando puder, volte.

      Abraços.

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  2. Já tinha lido esta Biografia....
    Belo texto...fácil de ler e perceber...
    Abraço

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    1. Obrigado Andrade, por sua visita.
      Quando sobra um tempinho, passe por aqui.

      Um abraço.

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  3. Pedro,

    Dizer aqui como a obra de Clarice Lispector é sensacional seria tão lugar-cumum que prefiro falar de outra coisa. Dessa galinha. Às vezes me sinto como essa Galinha da Clarice: escravo dos meus dias, seguindo uma estúpida programação natural, sempre como algoz fungando atrás de mim, me pegando pela asa, vez ou outra. Esse conto, para mim, é uma espécie de universo paralelo do ser humano contemporâneo, um realismo fantástico ao estilo do Murilo Rubião, cujo paralelo oculto é justamente a nossa tola vidinha.

    Abraço

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    1. Amigo Cesar,
      Não preciso dizer que sempre tiramos proveito de seus inteligentes comentários.

      Um abraço.

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  4. Boa escolha, Pedro.
    Gostei de reler o conto de Clarice.

    Um abraço.

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    1. Muito bom ver você de novo, Sônia.
      Quando puder, espero que volte.

      Abraços.

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  5. Anônimo17:42

    Pedro, o conto estabelece uma relação simbólica entre a galinha e mulher da vida real, enfocando vários aspectos sociais e culturais, como a desvalorização da mulher, atribuição de alguns adjetivos de inferioridade, comparação entre os sexos sobrepondo o sexo masculino, entre outros aspectos levantados no texto, especialmente a maternidade, que ainda influencia no emocional do ser humano, fazendo com que a mulher goze de alguns privelégios, nem que seja por pouco tempo.

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    1. Gostei de sua interpretação.
      Apareça mais vezes.
      Um abraço.

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  6. Obrigado pela oportunidade.
    Eu não conhecia o texto.
    Beijos!

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    1. Obrigado Janice,pela visita.
      Espero que volte mais vezes.

      Abraços.

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  7. Anônimo15:57

    Amo Clarice Lispector!
    Muito obrigada pelo post.


    - Ariane Borges

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    1. Obrigado, Ariane, pela visita.
      Volte sempre que puder.

      Abraços.

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