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4 de jan de 2012

[Poesia] EGIPTO GONÇALVES – A Bucólica Margem





               por  Pedro Luso de Carvalho



        Egito Gonçalves nasceu em Matosinhos, uma vila que foi o centro de uma grande indústria de sardinhas em conservas. Passou a viver na cidade do Porto desde 1948, aí residindo até a sua morte, em 2001. Seu nome completo era José Egito de Oliveira Gonçalves. Exerceu ao longo de sua vida atividades diversas. Publicou seus primeiros livros em 1950. Em 1951 fundou a revista A Serpente (1951), tendo depois participado na fundação e direção de outras revistas literárias: A Árvore (1952-54), Notícias do Bloqueio (1957-61), Plano (1965-68), e Limiar (de que saiu o primeiro número em 1992). Foi escritor e tradutor.

Rio Douro
       Ao poeta Egito Gonçalves foram concedidos os seguintes prêmios: Prêmio de Tradução Calouste Gulbenkian, da Academia das Ciências de Lisboa pela seleção de Poemas da Resistência Chilena (1977); Prêmio Internacional Nicola Vaptzarov, da União de Escritores Búlgaros (1985); e, mais: Prêmio de Poesia do Pen Clube, o Prêmio Eça de Queirós e o Grande Prêmio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro E No Entanto Move-se (1995). Sua obra encontra-se traduzida para o espanhol, francês, búlgaro, polonês, turco, romeno e catalão. Egito Gonçalves (José Egito de Oliveira Gonçalves) faleceu na cidade do Porto, Portugal, em 29 de Janeiro de 2001.

                                 
                                  [ESPAÇO DA POESIA]



                               A BUCÓLICA MARGEM
                                           
                                                                      (Egipto Gonçalves)




        Sento-me então a olhar o rio,
        os pensamentos formam cardumes
        que contra a corrente se insurgem
        mas as águas são inexoráveis;
        olhando-as, a superfície cintila,
        propaga-se como se fossem notas
        de um piano na garupa de um cavalo
        que se dirige para o mar.

        O Douro bebe as cores da cidade,
        sobre elas eu abro o coração
        em que te encontras, as colinas
        emolduram as raizes que à terra
        nos ligam. Para os meus olhos
        é momento de pausa: as coisas
        que interrogo não resistem à maré,
        não dão respostas; perdem-se no mar
        como tudo o que a memória não reteve.

        Mas este rio
        já foi longamente folheado, nele
        escrevemos
        o romance que nos deu uma casa,
        nos cortou o cabelo, nos afastou
        das rugas, nos entregou o azul
        (tecido, nuvem, divã, janela...)
        o voo das artérias, lugar do corpo,
        portas que amanhecem, espelho
        onde fazemos fluir a vida. 
        Acordes
        da guitarra que forja o horizonte,
        que guia o sinuoso voo das gaivotas
        e acaricia a pele que rasga atalhos
        no interior dos sonhos. Estarei
        vivo enquanto assim me guardar
        teu coração. E no seu lucilar,
        esta água imita o fogo
        que devora sombras e escombros,
        libertando a asa que no sangue
        respira. A foz está próxima,
        mas o horizonte é o teu olhar.
        No leitor do carro, a guitarra flexível
        sublinha o que divago; os acordes
        disparam,
        encontram-me na trajectória do seu alvo.





REFERÊNCIAS:
ROZÁRIO, Denira. Palavra de Poeta / Portugal. Introdução de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994.
TORGAL, Adosinda Providência; FERREIRA, Madalena Torgal. Relâmpago, nº 6. Porto: Publicações Dom Quixote, 2001.



                                                               *  *  *  *  *  *


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PEDRO LUSO