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13 de set de 2010

[Conto] MACHADO DE ASSIS / Três Tesouros Perdidos



                            por  Pedro Luso de Carvalho

        
       O escritor Joaquim Maria MACHADO DE ASSIS tem um lugar especial na literatura brasileira, como diz Álvaro Lins; e, mais: “Atingiu no conto a perfeição de forma e de concepção”.

        Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839, onde faleceu, no dia 29 de setembro de 1908. Seu sepultamento deu-se no Cemitério São João Batista, com grandes homenagens, oficial e pública.



        O conto Três tesouros perdidos faz parte de Obras completas de Machado de Assis, Páginas Recolhidas. Rio de Janeiro: W.M. Jackson Inc. Editores, 1952, págs. 221-224.


[ESPAÇO DO CONTO]


TRÊS TESOUROS PERDIDOS
(Machado de Assis)



        Uma tarde, eram 4 horas, o Sr. X... voltava à sua casa para jantar. O apetite que levava não o fez reparar em um cabriolé que estava parado à sua porta. Entrou, subiu a escada, penetra na sala e ... dá com os olhos em um homem que passeava a largos passos como agitado por uma interna aflição.

         Cumprimentou-o polidamente; mas o homem lançou-se sobre ele com uma voz alternada, diz-lhe:

         - Senhor, eu sou F ... marido da senhora Dona E...

        - Estimo muito em conhecê-lo, responde o Sr. X ...; mas não tenho a honra de conhecer a senhora Dona E...

         - Não a conhece! Não a conhece! ... quer juntar a zombaria à infâmia?

         - Senhor!...

         E o Sr. X... deu um passo para ele.

         O Sr. F..., tirando do bolso uma pistola, continuou:

         - Ou o senhor há de deixar esta côrte, ou vai morrer como um cão!

         - Mas, senhor, disse o Sr. X..., a quem a eloquência do Sr. F.... tinha produzido um certo efeito, que motivo tem o senhor?...

         - Que motivo! É boa! Pois não é um motivo andar fazendo a corte à minha mulher?

         - A corte à sua mulher! não compreendo!

         - Não compreende! oh! não me faça perder a estribeira.

         - Creio que se engana...

         - Enganar-me! É boa!... mas eu o vi... sair duas vezes de minha casa...

         - Sua casa!

         - No Andaraí... por uma porta secreta... Vamos! ou...

         - Mas, senhor, há de ser outro, que se pareça comigo...

         - Não; não; é o senhor mesmo... como escapar-me este ar de tolo que ressalta de toda a sua cara? Vamos, ou deixar a cidade, ou morrer... Escolha!

         Era um dilema. O Sr. X... compreendeu que estava metido entre um cavalo e uma pistola. Pois toda a sua paixão era ir a Minas, escolheu o cavalo.

         Surgiu, porém, uma objeção.

         - Mas, senhor, disse ele, os meus recursos...

         - Os seus recursos! Ah! tudo previ... descanse... eu sou um marido previdente.

         E tirando da algibeira da casaca uma linda carteira de couro da Rússia, diz-lhe:

         - Aqui tem dois contos de réis para os gastos da viagem; vamos, parta! Parta imediatamente. Para onde vai?

         - Para Minas.

         - Oh! a pátria do Tiradentes! Deus o leve a salvamento... Perdôo-lhe mas não volte a esta côrte... Boa viagem!

         Dizendo isto, o Sr. F... desceu precipitadamente a escada, e entrou no cabriolé, que desapareceu em uma nuvem de poeira.

         O Sr. X... ficou por alguns instantes pensativo. Não podia acreditar nos seus olhos e ouvidos; pensava sonhar. Um engano trazia-lhe dois contos de réis, e a realização de um dos seus mais caros sonhos. Jantou tranquilamente, e daí a uma hora partiu para a terra de Gonzaga, deixando em sua casa apenas um moleque encarregado de instruir, pelo espaço de oito dias, aos seus amigos sobre o seu destino.

         No dia seguinte, pelas onze horas da manhã, voltava o Sr. F. Para a sua chácara de Andaraí, pois tinha passado a noite fora.

         Entrou, penetrou na sala, e indo deixar o chapéu sobre uma mesa, viu ali o seguinte bilhete:

         “Meu caro esposo! Parto no paquete em companhia do teu amigo P... Vou para a Europa. Desculpa a má companhia, pois melhor não podia ser. - Tua E...”

         Desesperado, fora de si, o Sr. F... lança-se a um jornal que perto estava: o paquete tinha partido às 8 horas.

         - Era P... que eu acreditava meu amigo... Ah! Maldição! Ao menos não percamos os dois contos! Tornou-se a meter-se no cabriolé e dirigiu-se à casa do Sr. X..., subiu; apareceu o moleque.

         - Teu senhor?

         - Partiu para Minas.

         O Sr. F... desmaiou.

         Quando deu acordo de si estava louco... louco varrido!

         Hoje, quando alguém o visita, diz ele com um tom lastimoso:

         - Perdi três tesouros a um tempo: uma mulher sem igual, um amigo a toda prova, e uma linda carteira cheia de encantadoras notas... que bem podiam aquecer-me as algibeiras!...

          Neste último ponto, o doido tem razão, e parece ser um doido com juízo.


       


REFERÊNCIAS:
LINS, Álvaro. BUARQUE DE HOLLANDA, Aurélio. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, vol. II, 1966.


 
 *  *  *


5 comentários:

  1. Grande Machado. Obrigado por nos presentear com essas relíquias inestimáveis.
    Abraço,
    Gabriel Fernandes

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  2. Machado de Assis é um mestre! Quando usa a ironia deixa seus contos assim, deliciosos de ler.

    Obrigada pelo conto

    Abraços

    Deva

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  3. É sempre um prazer ler Machado de Assis, um dos escritores cujos contos e romances levaram-me, ainda na adolescência, a desenvolver o gosto pela Literatura.

    Bjs, Pedro. E inté!

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  4. Tenho um livro de contos do Machado, lá há coisas esplêndidas, como um um conto que trata de uma cerca rinha entre a agulha e a linha, e outros maravilhosos.

    Este eu não conhecia. Ótimo e criativo, como todos.

    Abraço

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  5. Anônimo10:11

    Machado de Assis, nosso grandioso Machado, com seus contos lindos e inestimáveis...

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PEDRO LUSO