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20 de nov de 2010

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO / SALOMÉ




        A nova poesia portuguesa tem em Mário de Sá-Carneiro um dos seus poetas mais originais e mais representativos. “Sente-se nele – diz Álvaro Lins – uma ponta de gênio talvez irrealizado e mutilado pelo destino”. Lins ao fazer essa afirmação cita como exemplo, a sua novela A Confissão de Lúcio, no qual o escritor explora um tema original, embora não tenha logrado realizá-lo de forma completa. Diz ainda que a obra de Sá-Carneiro nos faz lembrar o Retrato de Dorian Grey, de Oscar Wilde.

        A excelência da obra de Mário de Sá-Carneiro também pode ser aferida pelos seus poemas, que exerceram grande influência nas letras portuguesas contemporâneas. Os seus poemas tiveram o apreço de Fernando Pessoa, que, sabemos, é um dos mais importantes poetas da língua portuguesa. Os versos de Sá-Carneiro são marcados por um simbolismo raro e, como lembra Lins, “às vezes macabro, notável tanto pelo jogo verbal como pela excentricidade das imagens”. Sá-Carneiro matou-se em Paris, vestido de smoking, no quarto do hotel em que estava hospedado. Sobre uma das feições de sua poesia, observa João Gaspar Simões: “A poesia fere aqui uma nota inédita: metáforas constantes, fulgurância de imagens, transposição de sensações”.

        Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, Portugal, a 19 de maio de 1890, e morreu em Paris, França, no dia 26 abril de 1916, com apenas 26 anos de idade.

        Obras principais: Dispersão, 1914; A Confissão de Lúcio, 1914; Céu em fogo, 1915; Indícios de Oiro, 1937 – A Editorial Ática de Lisboa, publicou 2 volumes, A Confissão de Lúcio (1945) e Poesias (1946) – das Obras Completas de Mário de Sá-Carneiro.

                     SALOMÉ

                           Mário de Sá-Carneiro


Insônia roxa. A luz a virgular-me em medo,
Luz morta de luar, mais Alma do que a lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se pra mim num espasmo de segredo...


Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio... Alabastro!... A minha alma parou...
E o seu corpo resvala a projetar estátuas...


Ela chama-me em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto...
Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me:


Mordoura-se a chorar – há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...




REFERÊNCIA:
LINS,Álvaro. BUARQUE DE HOLLANDA, Aurélio. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Volume I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, págs. 355 e 358.

  

Um comentário:

  1. Pedro,


    Poesia estenteanto e excelente post, como muitos que leio aqui!


    Um abraço, Marluce

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PEDRO LUSO