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15 de mai de 2011

[Conto] CARLOS CARVALHO / In extremis

Carlos Carvalho

           


                por  Pedro Luso de Carvalho
        
        
        CARLOS CARVALHO (Carlos José Gomes de Carvalho) nasceu em Porto Alegre, RS, no ano de 1939, onde faleceu, no ano de 1985, aos 46 anos. Nas décadas de 1970 e 1980 destacou-se na dramaturgia. Versátil, não se limitou a escrever para o teatro, também foi poeta e contista. Ao Teatro deu sua contribuição não apenas com suas peças, mas também como ator e diretor. 
    
         O livro de contos, Calendário do medo deu ao seu autor, Carlos Carvalho, o II Prêmio no Concurso Nacional de Contos do Estado do Paraná. - FUNDEPAR.

        Na Casa de Cultura Mario Quintana, uma das salas de espetáculos leva o nome  Carlos Carvalho, uma homenagem da Secretaria de Cultura de Porto Alegre ao dramaturgo.

       O conto que segue, In extremis, integra o livro de Carlos Carvalho, Calendário do medo, 3ª ed. Porto Alegre, Editora Movimento, 1975, p. 68-69.


                              [ESPAÇO DO CONTO]

                                IN EXTREMIS

                                                                         (Carlos Carvalho)



        Sabia que a casa estava morrendo, condenada. O tempo, consumido em várias gerações, pesava como um câncer, corroendo o mármore, selando portas, deixando um rastro de ferrugem nos metais. Do vestíbulo à cozinha expandia seus domínios. Forte, a casa gemia, lançava ruídos como um animal contorcido estala as vértebras na agonia.

        Até os fantasmas que outrora habitavam as zonas de penumbra, abandonavam o sítio em despedida. E à noite, no quarto recolhido, esquecia o arrastar das chinelas de Monsieur, os suspiros prolongados de Mademoiselle, o ranger da cadeira de rodas de Madame.

        Incontáveis noites passara em vigília, captando sons, identificando-os, fazendo-os vizinhos e amigos por nuances que somente um ouvido enfermiço pode perceber. E no escutar noturno, a mão que se afundava no corpo em busca de prazer, que aninhava na concha o amor solitário e repetido, quedava inerte, junto à outra no peito em oração. Depois, o sono envolvia a quietude.

        Até o dia em que as chinelas de Monsieur silenciaram no armário, a cadeira de Madame estacionou no fundo do corretor e os suspiros de Mademoiselle extinguiram-se na distância. Estavam sós, ele e a casa em agonia.

        Podia sentir sob os pés os alicerces minados como ossos atingidos. Embatida por levas de gerações, a casa resistia, enquanto o mal, forte, inflexível, nutrido por lembranças – telas, mármores, baixelas enverdecidas no abandono do repasto – o mal crescia. Restos de um tempo nobiliárquico e perdido: as botas de montaria do Monsieur, a bengala encastoada de Madame. Pelas pedras da parede vertia um choro: a casa, combalida, se esvaía.

        E se na resistência ao mal, a casa estremecia, vibravam os cristais cantando a música perdida. E à noite, no sarau, a morte era o único conviva.

        Às vezes, no aconchego do leito, saciado o amor no linho do lençol, ensaiava cantigas de infância, no afã de encontrar o tempo esquecido. Nulo esforço, pois não mais se ouvia: cerrava os olhos do corpo, as portas da memória; deixava-se embalar pela lenta agonia. Amanhã, talvez, com sol e à força de querer, a casa deixaria. Hoje não, que ainda resta tempo e espaço a serem preenchidos.

      Mas quando a noite incorporou-se ao sono e o silêncio instalou-se mais forte nos domínios, compreendeu que era tardia a fuga: último varão, cúmplice final da casa em agonia enrodilhou-se no leito quando as paredes ruíram, abrigando-o para sempre, como berço ou ataúde. 

                                                             
                                                                       *        *        *

4 comentários:

  1. Muito bom esse conto. Eu não conhecia, gostei de conhecer.
    Pedro, no final do último parágrafo, não seria abrigando-o para sempre? Lá está escrito obrigando-o.

    Um abraço.

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  2. Sônia,

    Nem preciso dizer que a sua visita e o seu comentário sempre me dão muita alegria, pelo que fico muito grato; e também agradeço a sua observação, dizendo:

    "Pedro, no final do último parágrafo, não seria abrigando-o para sempre? Lá está escrito obrigando-o."

    É isso mesmo, Sônia, é "abrigando-o para sempre". Ocorreu um lapso na digitação.Obrigado por sua observação, que foi muito importante.

    Abraços,
    Pedro

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  3. Sensacional, este conto. Não conhecia o autor. Tantos feras que não conhecemos, muitos que até já morreram!

    Vou comprar este livro. Suas dicas são sempre excelentes, Pedro.

    Abraço
    Cesar

    ps. por falar em feras que não conhecemos, lembre-se de buscar o Roniwalter Jatoba. Vc vai adorar.

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  4. Hermosos edificio, como me gusta.Me trae muchos recuerdos de mi país. La historia es muy interesante.

    http://socialculturalyhumano.blogspot.com/

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PEDRO LUSO