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29 de nov de 2010

[CONTO] JULIÁN MURGUÍA / O campo

        
        
         O campo era verão e era a alegria.

         O campo estava longe e muito só. Espraiado entre sangas e coxilhas, rodeado de azul-celeste, o campo era cor, calor e canto. Viver feliz sem tempo, isso era o campo.

         Quando terminavam as aulas eu me transformava num redemoinho de urgências angustiosas.

          - Onde está a caixinha com as linhas de pescar? E a minha bóia azul? E a amarela?

          Remexia em caixas e caixões e daquela confusão iam saltando anzóis, velhos bodoques, chumbadas, uma arapuca, canivete e até cola de pegar passarinho.

         Com a roupa eu não me importava. Coisa de mulher. E mamãe, a pobre, corria atrás de camisas, calças, providenciava um par de alpargatas novas e insistia com o casaco, “imagina se refresca”.

         Me ver partir, calculo, era um espetáculo. Quase não podia andar, os braços com aquela carga de caniços, grandes e pequenos, gaiolas vazias, a caixa de linhas, uma pandorga, bodoques, o jogo de damas e a malinha com a roupa.

        Certa vez eu ia saindo assim de casa – em seguidinha iam passar para me pegar – e vinha pela rua uma carroça desengonçada, com o carroceiro a gritar:

        - Compro lata velha, ferro velho! E olha a garrafa que compro também!

        Quando me viu, parou a carroça e disse:

        - Eh, guri, vem cá que a gente faz negócio.

        Fiquei roxo de raiva.

                                  *

        O campo era a glória. Um enorme pano verde, tão grande quanto a liberdade. Grandes planuras e ondulações suaves que se perdiam de vista no infinito, mosqueadas de gado avermelhados e ovelhas brancas.

        De um lado das casas, questão de duas quadras, outra sanga e mais um banhado e um vimeiro. Atrás da sanga, uma coxilha, e atrás da coxilha cerros baixos de suaves vertentes, com capões de talas¹  em seus cumes.

        As sangas atravessavam espessos matos naturais, e o campo, aqui e ali, deixava-se tomar de tão altos chircais que alguns ocultavam um homem a cavalo.

        Os lagoões em que davam as sangas eram ricos de lambaris, bagres, traíras, e no campo havia bicho de tudo que era espécie. Aquilo fervia de vida.

                                 *

         Zona fronteiriça, rica também de homens e coragem.

        Cheguei a conhecer velhos gaúchos de chiripá e pé no chão, gente guapa na esquiva da lei e da miséria. Contrabandistas que passavam à noite, sigilosos como sorros. Gente que falava uma mistura de espanhol e português, um portunhol que, ao invés de fazê-los bi-nacionais, tornava-os estrangeiros nas duas pátrias.

        O Campo estava longe e muito só. Cheio de paz e solidão. Mas naqueles campos a solidão estava crivada de olhos e palpitações.


[ ¹ Árvore espinhosa e de apreciada madeira, de expressiva ocorrência no Uruguai. Suas raízes são tintórias e as folhas têm propriedades medicinais. Nome científico: Celti tala. (N. do T.)

       
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[O conto O campo, é o primeiro dos 16 contos que compõem o livro de Julián Murguía, Contos do País dos Gaúchos: tradução de Sergio Faraco. 3ª ed. - Porto alegre: Mercado Aberto/IEL, 1995, p. 13-15.]

        JULIÁN MURGUÍA nasceu em Melo, departamento de Cerro Largo, Uruguai, próximo da fronteira com o Brasil, no ano de 1930, e morreu na capital desse país (Uruguai), em 1995. Engenheiro agrônomo, fez mestrado na Nova Zelândia. Nos últimos anos da ditadura militar do Uruguai (1981-1984), exilou-se em Porto Alegre (Brasil) . Em 1984 foi agraciado com 1º Prêmio no XIII Concurso Latino-americano de Contos, em Puebla, no México. O escritor teve seus trabalhos publicados no Brasil, México, Espanha e Argentina.

        Obras principais: Cuentos para Juan Manuel, contos e crônicas, 1980; Más filosa que la espada, crônicas, 1987; Cuentos del país de los gaúchos, contos 1991; Contos do país dos gaúchos, 1992; O amigo que veio do sul, livro infantil, 1993; A guerra das formigas, 1994; O tesouro de Canhada Seca, 1995.




Um comentário:

  1. Anônimo02:14

    Amigo Pedro,
    sou Paulo Mendes, escrevo uma coluna dominical no Correio do Povo, de Porto Alegre. Sou fã de Murguia. Tu, por acaso, tens algum contato dele para que eu possa mandar um chasque para o gaudério?
    Um gde abraço.
    Meus contatos
    pmendes@correiodopovo.com.br
    prmendes@cpovo.net
    51-9635-3702

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PEDRO LUSO