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30 de mai de 2011

[Poesia] RAUL DE LEONI - Supertição

Raul de Leoni
              por Pedro Luso de Carvalho         
             

      RAUL DE LEONI nasceu em Petrópolis, Estado Rio de Janeiro, a 30 de outubro de 1895, e morreu em Itaipava, RJ, no dia 21 de novembro de 1926, aos 31 anos, vítima da tuberculose. Legou-nos as obras Ode a um poeta morto (1919) e Luz Mediterrânea (1922). Aos 21 anos formou-se em Direito. Foi nomeado secretário de legação, por Nilo Peçanha, cargo que logo viria a renunciar para assumir outro, o de fiscal da Inspetoria de Seguros.

        Sobre o poeta, escreveu Rodrigo Melo Franco de andrade, no seu prefácio à Luz Mediterrânea: “Para Raul de Leoni as idéias representam seres vivos. Das aventuras de cada uma delas, é que extrai a poesia, como os épicos a extraíam dos episódios da carreira dos herois. Ele foi, entre nós, e o foi com singular grandeza, o único poeta de emoção puramente filosófica”.
Rio de Janeiro

        O poema Superstição, de Raul de Leoni, foi extraído da obra Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Antologia da Língua Portuguesa. vol. II, 2ª ed., de Álvaro Lins e Aurélio Buarque de Hollanda, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, p. 427-428.


                           [ESPAÇO DA POESIA]


                              SUPERSTIÇÃO
                                                              (Raul de Leoni)

     
        As almas, como as flores, no lugar
        Em que viveram deixam, longamente,
        Sua íntima essência errando no ar,
        Numa vaga fluidez reminiscente...

        Vede essas velhas casas que, a passar
        Pelos olhos do tempo indiferente,
        Foram o sereníssimo ambiente
        De uma longa história familiar!...
        Há no seu gênio obscuro, misteriosas
        Influências humanas, insensíveis
        Contágios de alma que não percebemos,
        Frias fatalidades traiçoeiras
        Adormecidas no silêncio antigo...

        Exalam do segredo das entranhas
        Forças sutis e sugestões estranhas
        Que nos descem ao fundo dos sentidos
        E se vão infiltrando, lentamente,
        Na alma dos visitantes distraídos...

        Ao lhes transpormos as sombrias portas,
        Nunca sabemos o que nos espera
        Nesses tristes jardins de sombras mortas
        Fantasmas de uma antiga primavera...
        Dentro tudo morreu... mas, presa a um fio
        Intangível,
        Uma vida fantástica, invisível
        Vive em essência no ar sonâmbulo e vazio...

        As almas, como flores, no lugar
        Em que viveram deixam, longamente,
        A sua exalação errando no ar,
        Numa vaga fluidez reminiscente...

                                           
                                                                                       
                                                                                  *  *  *  *  *  *
     

4 comentários:

  1. Belo poema. Mais um poeta que eu desconhecia. Obrigado por mais este!

    Comprei e li, de uma assentada, o esplêndido e forte Calendário do Medo, livro de contos do Carlos Carvalho, escrito em 76. Me impactou a forma narrativa seca, curta e eficaz, que gera contos curtíssimos mas abaladores.

    Adorei a dica. Obrigado!

    abraços,
    Cesar

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  2. Linda plaza, hermosa.Me gusto' la poesía y la información escrita. Seguiré visitando tu Blog.Un saludo fraterno amigo.

    http://socialculturalyhumano.blogspot.com/

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  3. Maravilhoso poema, como tudo no seu blog,ótimo até para pesquizas, caso alguem precise.Adorei o seu mundo de grandes nomes, grandes poetas.
    Só temos que agradecer, pois tudo é cultura.
    Já sou seguidora.
    Obrigado.
    http://wwwavivarcel.blogspot.com/.

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  4. Olá, Pedro!

    Impressionou-me a sensibilidade do poeta ao sentir almas impregnadas, histórias vividas naquelas casas velhas, como se o tempo fosse capaz de destruir apenas as coisas, mas nunca a essência delas.

    Eu não conhecia Raul Leoni e por mais esta descoberta, entre outras, é que cada vez que o visito, me sinto extremamente gratificada. Obrigada pelo que nos oferece.
    Um abraço,
    Celêdian

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