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2 de jan de 2011

[Conto] LUIS FERNADO VERÍSSIMO - Casados X Solteiros

L. F. Veríssimo


      

        Nesta primeira postagem aqui no Veredas, neste início de 2011, vamos transcrever o conto CASADOS X SOLTEIROS, escrito por Luis Fernando Veríssimo (in Amigos Secretos, Porto Alegre, Artes e Ofícios, 1994, p. 45-48).

        Luis Fernando Veríssimo, um dos escritores brasileiros mais importantes, nasceu em Porto Alegre, em 1936. No ano de 1969 o jornal Zero Hora, começa a publicar as suas crônicas. Nesse mesmo ano começou a trabalhar para a MPM Propaganda, como redator de publicidade. Mais tarde suas crônicas são publicadas nos jornais O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil  e Zero Hora.

       Publicou algumas dezenas de livros, dentre eles mencionamos os que obtiveram maior sucesso, dentre os menos atuais: O Popular (J.Olympio, 1973), Ed Mort e Outras Histórias (L&PM, 1979), O Analista de Bagé (L&PM, 1980), A Velhinha de Taubaté (L&PM, 1983), Aventuras da Família Brasil (quadrinhos, L&PM, 1985), O Suicida e o Computador (L&PM, 1992), Comédias da Vida Privada (L&PM, 1994),  Américas (Artes e Ofícios, 1994). 

        Segue, pois, o conto de Luis Fernando Veríssimo: 


                      [ESPAÇO DO CONTO]


                    CASADOS X SOLTEIROS
                                                           (L. F. Verissimo)


QUANDO AVISTOU o Caio chegando na praia, Bigode, técnico e capitão do time dos casados, levantou os braços para o céu. Graças a Deus!
- O jogo de domingo está no papo. Olha quem vem lá.
- Quem é?
- O Caio. Com ele no nosso time os solteiros estão per...
- Ele se divorciou.
- Não importa, o... Como, se divorciou?
- Se divorciou. Largou a mulher. Ou a mulher largou dele.
- Não me conta. O caio? Com aquele chute?
- Que que tem o chute a ver com...
- Não. É que, sei lá. Logo o Caio... Escuta.
- O quê?
- Divorciado, tecnicamente é solteiro?
- Acho que é.
- Não pode. Só falta essa. O Caio no time deles.
- Acho que não escapa.
- Não pode! É traição. Largar a mulher, tudo bem. Mas trair o time?!
- Mas ele agora é solteiro.
- Está errado. Os divorciados que formem um time deles. Casados e solteiros é um jogo de tradição nesta praia. Antigamente era melhor. Não tinha nada disso. Estava mal-casado, agüentava mas não largava o time. Agora por qualquer coisinha se divorciam. Se fosse um lateral, vá lá. Mas um centroavante. E com aquele chute!
- Mas tem o outro lado da coisa.
- Que outro lado?
- Casou. Com a mulher do Caio.
- O Jacintão?!
- Foi por causa dele que ela largou o Caio.
- Mas o que é isso?! E o Jacintão é bom de bola. No jogo do ano passado ele quase complicou a nossa vida..
- Não tem o chute do Caio.
- Mas é mais técnico. E outra coisa...
- O que?
- Vai ter a vantagem psicológica. Ganha do Caio na moral.
- E o Caio vai querer acertar o Jacintão. Vai fazer falta atrás de falta atrás de falta. Talvez até pênalti
- Exato!
- E o Bigode foi procurar o Jacintão, convertido à velha idéia de que há males que vêm para bem.

                                                            *  *  *  *  *  *


2 comentários:

  1. Pedro,

    Veríssimo é fantástico! Junto com o Mario Prata, formam a dupla dos melhores cronistas do humor e da irreverência brasileira de todos os tempos. Tenho vários livros deles.

    Do Veríssimo a minha predileta é "Um dia de merda". Um pouco escatológica, é verdade, mas de fazer cagar de rir, com o perdão do trocadilho de mal gosto. Quem não leu que procure no google e leia, já. Só não o faça se estiver na empresa. Pode haver problemas!


    Abços

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  2. Oi, Pedro!

    Ontem, me diverti muito lendo a crônica da Taís. Hoje, deparo-me, aqui, com um texto de Luís Fernando Veríssimo. Bom demais começar o ano lendo e relendo escritores cujos textos mantêm a saúde do nosso humor. Talvez caiba dizer que Érico, o Veríssimo pai, em inúmeros momentos de sua obra, já dava corpo à essência do brasileiro e sua capacidade de rir dos outros e de si mesmo; rir da vida.

    Pedro, meu amigo, desejo a você muita saúde, muitas alegrias neste novo ano. Que em 2011, talvez, - quem sabe? -, possamos viver num mundo mais humano, mais justo... Bjs e inté!

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PEDRO LUSO