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16 de jun de 2011

[Conto] JOSÉ CONDÉ - O Mapa


                    por Pedro Luso de Carvalho


        O mapa, é o primeiro capítulo da novela Vento de amanhecer em Macambira, de José Condé, que, com outra novela sua, Tempo, vida, solidão, e com o livro de contos As chuvas, integram Obras escolhidas de José Condé, 2ª ed., publicado no pela Civilização Brasileira em convênio com o Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, em 1978, p.18-19.

        A novela de José Condé, Vento de amanhecer em Macambira  também foi publicada pela Record, Rio de Janeiro, 1987. Fausto Cunha, que escreveu a apresentação da obra, assim se manifestou, no intróito: 

        “Este é, a meu ver, o melhor livro de José Condé. Não só aquele em que o escritor melhor se realiza como o que marca, na sua obra, a fase de amadurecimento de sua linguagem literária.” 

        O obra de José Condé está representada por novelas, romances e contos, como segue: (novelasCaminhos na sombra, 1945; Os dias antigos, 1955; Um ramo para Luísa, 1959; Santa Rita, 1961; Pensão riso da noite: Rua das mágoas, 1966; Tempo vida solidão, 1971; (romancesOnda selvagem, 1950; Terra de Caruaru (Prêmio Coelho Neto, da Academia brasileira de Letras), 1960; Noite contra noite, 1965; Como uma tarde em dezembro, 1969; (contosHistórias da cidade morta, 1951; As chuvas (obra póstuma), 1972.

        Alguns dados biográficos de José Condé e Madrugada (terceiro capítulo da novela "Vento do amanhecer em Macambira") encontram-se na postagem que fizemos aqui no blog Veredas; para acessá-los, clicar em  MADRUGADA



                                   [ESPAÇO DO CONTO]


                                                O MAPA
                                                                                  (José Condé)


        Vejo-me debruçado numa janela da Rua da Aurora, enquanto a noite baixava sobre o rio e a ponte. Contra a luz morrente os sobrados pareciam mais esguios, a sombra arroxeada se projetando imprecisa nas águas escuras do Capibaribe. Lembro-me bem: embora o céu prometese chuva, o ar vibrava sob o calor. De vez em quando, a aragem fresca trazia cheiros estranhos: óleo, maresia e peixe frito; mas também de cajueiros e jaqueiras distantes, da alvarenga abarrotada de abacaxis que estaria navegando na direção do Cais de Santa Rita. A aragem, entretanto, não me acalmava.

        “Vai ser um estirão de enlouquecer.”

        As palavras de Albérico iam e vinham, confusas, dentro de mim. Ah, se tivesse sido apenas isso!

        A lembrança do mapa azul largado em cima da mesa me levava a um pequeno ponto preto – impreciso e quase desnecessário – que seria meu destino: o Poti. Ficava à margem de uma linha grossa e sinuosa, em vermelho, cortando a gravura como uma cobra: o São Francisco. 

        Não iria jantar e meter-me em seguida na cama. Passaria a noite num cabaré do Recife, daí seguindo diretamente para o Ford e a estrada que me esperava com sua poeira, o calor, a enervação.

        A noite apossava-se completamente do rio e do casario da Rua da Aurora. Na ponte, um bonde rodava para os arrabaldes. Apesar dos postes a intervalos na amurada do Capibaribe, a água lamacenta confundia-se com o próprio céu numa só mancha salpicada, aqui e ali, de pequeninos olhos luminosos, olhos de bicho no cio espreitando a noite.

        Não demorou muito e a chuva caiu, maciça, morna, ferindo com aspereza a face do rio. Uma barcaça, lanterna à proa em sentinela, passou, monstruosa e indefinida. Os grossos pingos em vertical lavavam o casco e a lona que cobriam o carregamento. Alguém surgiu à popa, mas logo recuou para dentro.

        Novamente a lembrança do mapa azul em cima da mesa: o ponto insignificante diluído entre centenas de outros pontos e de outras linhas vermelhas, azuis, amarelas; novamente a observação inquietante de Albérico.

        E, no entanto, creia-me, alguns daqueles pontos negros no mapa tinham uma significação específica: lugares, casas, bichos, árvores, sobretudo criaturas às quais me sentia ligado por um passado e uma paisagem comuns.  


                                                                   
                                                            *   *    *


7 comentários:

  1. Que linda passagem, que belo primeiro capítulo... Lá vou eu atrás de um José Condé!

    Ah, esse Pedro Luso me dá um gasto com essas suas indicações sensacionais!

    abraços, meu amigo!
    Cesar

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  2. Olá, vim agradecer sua visita, seus elogios e por me seguir. Visitarei os seus outros blogs.
    Tenha um lindo final de semana.
    Bjos.

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  3. Cleide Costa23:25

    Estou começando uma nova descoberta no mundo literário!!! E o faço de forma muito apaixonada... Que texto interessante!!! Obrigada por possibilitar-me aproximar de José Condé!

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  4. jáder filho19:30

    Excelente esta passagem do maravilhoso José Condé, de quem sou conterrâneo e admirador do seu grande talento. O Brasil precisa conhecê-lo mais e melhor. Acabei de ler 'Venturas e Desventuras... de seu Quequé' mais uma vez, de uma não sei quantas de vezes. É de rir e de se deliciar com a riqueza de detalhes de você viajar junto ao caixeiro no trem. Estou começando a reler a história do velho cachaceiro Nhô, outra pérola (tudo isso em "Pensão Riso da Noite") Zé Condé, grande Zé Condé, que precisa - insisto nisso - ser descoberto, ou melhor: encontrado, por este Brasil. É de rir e de sentir. E muito! Abraços e obrigado por publicar este trecho de Macambira.

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    1. Caro Jáder,

      Sem dúvida, o seu conterrâneo é um escritor de grande talento, que deve ser lido por todas as pessoas que apreciam a boa literatura, e que, por intermédio dela, podem conhecer uma boa parte do nordeste brasileiro, em especial sua cidade natal, Caruaru.

      Por isso, é meu intento continuar publicando em meus blogs a obra de José Condé, que além de escritor foi um excepcional divulgador da literatura brasileira, com suas crônicas, artigos, etc, e tendo sido um dos fundadores do "Jornal das Letras".

      Um abraço,
      Pedro.

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  5. terminei de ler e reler, terra de Caruaru, apesar do conto, se firmar nas primeiras decadas do seculo XX, mudando o nome dos personagens, pode-se firmar a mesma historia, apenas com a mudança do titulo para: Terra de Iguatu.Acrecido, de sequestro e tortura e ainda sem o levante do valente Chico Lima. ÒH sertão.

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    1. Você tem razão, Braga, e o mesmo pode ser dito sobre outro livro do José Condé, "O vento do amanhecer em Macumbira", talvez o seu melhor livro. Nessa obra também podemos ler os seus 'capítulos', como se fossem contos, quando são apenas partes, que compõem essa excelente novela.

      Um abraço,
      Pedro.

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PEDRO LUSO