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12 de jan de 2011

ALBERT CAMUS / O Homem Absurdo





Albert Camus
        Há muito escrevi sobre a obra de Albert Camus, cujo trabalho poderá ser acessado no link que ficará no final deste texto. Nesta postagem transcrevo, na íntegra, O Homem Absurdo, que integra o livro O Mito de Sísifo, de Albert Camus:
                             
        “Meu campo” - diz Goethe - “é o tempo”. Eis propriamente o enunciado absurdo. O que é, de fato, o homem absurdo? Aquele que, sem negá-lo, nada faz pelo eterno. Não que a nostalgia lhe seja alheia. Mas prefere a ela sua coragem e seu raciocínio. A primeira lhe ensina a viver sem apelo e a satisfazer-se com o que tem, o segundo lhe ensina os seus limites. Seguro de sua liberdade com prazo determinado, de sua revolta sem futuro e de sua consciência perecível, prossegue sua aventura no tempo de sua vida. Este é seu campo, lá está sua ação, que ele subtrai a todo juízo exceto o próprio. Uma vida maior não pode significar para ele uma outra vida. Seria desonesto. Nem mesmo falo aqui dessa eternidade ridícula que chamam de posteridade. Madame Roland era indiferente à posteridade.

        Não se trata de dissertar sobre a moral. Tenho visto pessoas bem moralistas agindo errado e todos os dias comprovo que a honestidade precisa de regras. O homem absurdo só pode admitir uma moral, aquela que não se separa de Deus: a que se dita. Mas ele vive justamente à margem desse Deus. Quanto às outras morais (incluo também o imoralismo), o homem absurdo não vê senão justificativas, e não há nada a justificar. Aqui parto do princípio de sua inocência.

        Tal inocência é temível. “Tudo é permitido”, exclama Ivan Karamanov. Também isto cheira a absurdo, desde que não seja entendido de maneira vulgar. Não sei se ficou claro: não se trata de um grito de libertação e de alegria, mas de uma constatação amarga. A certeza de um Deus que daria seu sentido à vida ultrapassa em muito a atração do poder de fazer o mal impunemente. A escolha não seria difícil. Mas não há escolha e então começa a amargura. O absurdo não liberta, amarra. Não autoriza todos os atos. Tudo é permitido não significa que nada é proibido. O absurdo apenas dá um equivalente às conseqüências de seus atos. Não recomenda o crime, seria pueril, mas restitui sua inutilidade ao remorso. E também, se todas as conseqüências são indiferentes, a experiência do dever é tão legítima como qualquer outra. Pode-se ser virtuoso por capricho.

        Todas as morais se fundamentam na idéia de que um ato tem conseqüências que o legitimam ou anulam. Um espírito impregnado de absurdo somente julga que essas conseqüências devem ser consideradas com serenidade. Está disposto a pagar o preço. Em outras palavras: para ele, mesmo que possa haver responsáveis, não há culpados. No máximo concordará em usar a experiência passada para fundamentar seus atos futuros. O tempo fará viver o tempo e a vida servirá à vida. Nesse campo, ao mesmo tempo limitado e pleno de possibilidades, tudo em si mesmo lhe parece imprevisível, exceto a sua lucidez. Que regra se poderia extrair, então, dessa ordem irracional? A única verdade que lhe pode parecer instrutiva não é nada formal: ela se abriga e se desenrola nos homens. Não são, então, regras éticas o que o espírito absurdo pode buscar ao fim do seu raciocínio, mas sim ilustrações e o sopro de vidas humanas. Os poucos esboços a seguir são deste tipo. Eles prosseguem o raciocínio absurdo dando-lhe sua atitude e seu calor.

        Será preciso desenvolver a idéia de que um exemplo não é forçosamente um exemplo a ser seguido (menos ainda, se isto for possível, no mundo absurdo) e que estas ilustrações não são, portanto, modelos? Além de exigir vocação, seria ridículo, guardando as proporções, deduzir de Rousseau que se deve andar de quatro e de Nietzsche que convém maltratar a própria mãe. “É precioso ser absurdo”, escreve um autor moderno, “não é preciso ser tolo”. As atitudes de que falaremos só adquirem seu sentido quando são considerados seus contrários. Um funcionário dos correios é igual a um conquistador se a consciência lhes for comum. Todas as experiências são indiferentes a esse respeito. Há as que ajudam e as que prejudicam o homem. Ajudam se ele for consciente. Do contrário, não tem importância: as derrotas de um homem não julgam as circunstâncias, mas a ele mesmo.

        Só escolho homens que aspiram a se esgotar ou dos quais tenho consciência, por eles, de que se esgotam. Isto não chega muito longe. Por ora só quero falar de um mundo em que tanto os pensamentos como as vidas são privados de futuro. Tudo o que faz o homem trabalhar e se agitar utiliza a esperança. O único pensamento não enganoso é, então, um pensamento estéril. No mundo absurdo, o valor de uma noção ou de uma vida se mede por sua infecundidade.



(In CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Tradução de Ari Roitman e Paulina Watch,3ª ed., Rio de Janeiro: Record, 2006, p. 79-81.)


Para acessar nosso trabalho anterior, sobre a obra de Camus, clicar em: ALBERT CAMUS / Romances e Contos.


2 comentários:

  1. Muito propício para o tempo de hoje.
    E, de absurdo.
    Não que não seja nostálgica... sou até demais, mas prefiro, com certeza, sempre, a RAZÃO, pois esta permanece na essência de todos os valores.
    Abraço

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  2. Pedro,

    O Mito de Sísifo é um livro fininho, porém parrudo no sentido da densidade de seu conteúdo. Comprei-o em nov por sua indicação. Já há anos sou fã do Camus, mas ainda não havia lido muita coisa do homem que não fosse ficção. Enfim, adorei o livro. Terminei-o com a absoluta certeza de que aproveitei e compreendi com exatidão apenas uns 20% do que ali está contido. Sensação que sempre tenho ao ler os pensadores e filósofos. São obras não necessariamente volumosas, mas que há de se viver uma vida relendo-as para se apreender de fato sua real alma.

    E "O Mito" é um desses livros.

    Abraços
    Cesar

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