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18 de set de 2010

[Conto] JOSÉ CONDÉ - Madrugada

                          


                           por Pedro Luso de Carvalho


       Madrugada é o terceiro capítulo do livro Vento do amanhecer em Macambira, novela que integra, juntamente com Tempo, vida, solidão e com As chuvas,  Obras Escolhidas de José Condé, publicada pelo MEC, Brasília, e pela ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1978, p. 21-22.

        A 23 de outubro de 1918, em Caruaru, Pernambuco, nasce José Ferreira Condé. Em 1930 vai estudar no Rio de Janeiro com seu irmão Elísio, médico recém formado. Em 1934 José Condé passa a morar numa pensão do Catete com seu irmão João; aí prepara-se para prestar o vestibular de Direito. Conhece a moderna literatura brasileira, lendo Jorge Amado Rachel de Queiroz, Manuel Bandeira, José Lins do Rego.

         José Condé não tarda a ingressar na imprensa, com uma série de reportagens com escritores brasileiros. Começa a trabalhar na Editora José Olympio, onde permanece até 1939. Forma-se em Direito e é nomeado para a Agência Nacional, recém fundada. Deixa o emprego para trabalhar num escritório de advocacia. Retorna ao jornalismo. Do seu primeiro casamento, nascem três filhos. Passa a integrar o Instituto dos Bancários, com o cargo de procurador. Falece no Rio de Janeiro, em 27 de setembro de 1971.


        Para acessar o primeiro capítulo de Vento do amanhecer em Macambira (O mapa) de José Condé, clique em O MAPA.




                                              [ESPAÇO DO CONTO]

                                                     MADRUGADA
                                                                                                                    (José Condé)



         Há coisas e fatos – aquela viagem, por exemplo – que permanecem para sempre como um símbolo; condicionam um conhecimento mais profundo do mundo, sobretudo de nossa própria essência. Creio que até então estivera perdido o tempo todo. Súbito, a consciência desse estado. E, no entanto, naquela noite que antecedeu a partida, ali no cabaré, diante de Albérico e da mulher, tomando cerveja e ouvindo música, jamais poderia supor que 'aquilo' acontecesse – ou melhor: que já estivesse determinado pela vida.

         - Vamos embora – convidou Albérico.

         Saímos para a noite morna, as ruas vazias àquela hora, nossos passos no calçamento espantando o silêncio. Estivemos em mais dois ou três lugares, nem me recordo bem. No Pina, onde comemos peixe cozido e pirão; depois, num daqueles 'dancings' quase à beira-mar, com suas prostitutas e marinheiros, homens e mulheres corroídos pelo tédio. Já madrugada regressamos ao centro. O alvorecer começava a rondar os telhados. Não valeria a pena ir dormir para acordar uma hora depois. Então, atravessamos a ponte, na direção do Cais do Apolo, e nos sentamos no paredão do Capibaribe, à sombra de velhos e enegrecidos armazéns.

         Sentia-me cansado. Da vida, de mim mesmo. Quarenta anos. Que fizera, que sentido tinha minha existência? Vivera o quotidiano, o supérfluo.

         Não, apesar da insistência, não levei a mulher. Por que iria levá-la, que representaria para mim sua companhia?

         Digo-lhe: uma mulher como qualquer outra.

         Mas nada disso tem importância. Não, não é bem isso que quero dizer. Tudo na vida tem importância: a pedra, o bicho, a árvore, o homem – mesmo que ele não conheça o amor.

         Tudo aconteceu, pelo menos para mim. Isto: vivi a minha verdade.


                                                                   
                                                           *   *   *

         

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PEDRO LUSO