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1 de jul de 2010

FAGUNDES VARELA & Sua Poesia



                   por  Pedro Luso de Carvalho

       
       FAGUNDES VARELA (Luís Nicolau Fagundes Varela) estudou Direito em São Paulo e no Recife, mas não concluiu o curso. Casou duas vezes. O casamento não fez feliz o poeta solitário, hipocondríaco e boêmio, que nasceu em Rio Claro, Estado do Rio de janeiro, em 17 de agosto de 1841, e morreu em Niterói, em 18 de fevereiro de 1875, aos 34 anos.
   
         Obras de Fagundes Varela: Noturnos, Vozes da América, Cantos Meridionais, Cantos do Ermo e da Cidade, Anchieta ou o Evangelho nas Selvas, Cantos Religiosos.
       
        O sofrimento, pela morte de seu filho, inspirou Fagundes Varela a escrever Cântico do Calvário, que no dizer de Álvaro Lins é considerado o seu mais belo poema e um dos mais comoventes de nossa literatura. (Pela extensão do poema, deixo de transcreve-lo neste espaço.) Fagundes Varela sofreu influencia dos romanticos anteriores, entre outros, Gonçalves Dias e Álvares de Azevedo. Fagundes Varela foi dos últimos a usar o tema do indianismo, cujas bases foram lançadas por Gonçalves Dias; e, como diz Álvaro Lins, "trouxe, porém, uma contribuição própria e característica: a poesia de tendencia mística".

        Ronald de Carvalho diz que "Fagundes Varela não é unicamente um dos nossos bons liristas, mas também, e principalmente, um dos nossos melhores poetas descritivos. Esse dom de pintor, que foi singular em Gonçalves Dias, e que é muito da índole dos nossos escritores, ele o teve como raros na poesia brasileira. (...) Há em sua obra inspirações de toda ordem, da alma e da natureza, da vida rústica e civilizada, da fantasia e da realidade, do mundo fictício e presente". Segue o poema A flor do maracujá, bom exemplo da poesia de Fagundes Varela:

                             
                            [ESPAÇO DA POESIA]

                          A FLOR DO MARACUJÁ
                                     (Fagundes Varela)
 


         Pelas rosas, pelos lírios
         Pelas abelhas, sinhá,
         Pelas notas mais chorosas
         Do canto do sabiá,
         Pelo cálice de angústias
         Da flor do maracujá!


         Pelo jasmim, pelo goivo,
         Pelo agreste manacá,
         Pelas gotas de sereno
         Nas folhas do gravatá,
         Pela coroa de espinhos
         Da flor do maracujá!


         Pelas tranças da mãe d'água
         Que junto da fonte está,
         Pelos colibris que brincam
         Nas alvas plumas do ubá,
         Pelos cravos desenhados
         Na flor do maracujá!


         Pelas azuis borboletas
         Que descem do Panamá,
         Pelos tesouros ocultos
         Nas minas do Sincorá,
         Pelas chagas roxeadas
         Da flor do maracujá!


         Pelo mar, pelo deserto,
         Pelas montanhas, sinhá!
         Pelas florestas imensas
         Que falam de Jeová!
         Pela lança ensaguentada
         Da flor do maracujá!


         Por tudo o que o céu revela!
         Por tudo o que a terra dá
         Eu te juro que minh'alma
         De tua alma escrava está!...
         Guarda contigo este emblema
         Da flor do maracujá!


         Não se enojem teus ouvidos
         De tantas rimas em - a -
         Mas ouve meus juramentos,
         Meus cantos ouve, sinhá!
         Te peço pelos mistérios
         Da flor do maracujá!


                                                     
                                                    * * *

   
REFERENCIAS:

LINS, Álvaro e Aurélio Buarque de Hollanda. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. vol. II. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1966.
CARVALHO, Ronald. Pequena Historia da Literatura Brasileira. 9ª ed. Rio de Janeiro: F. Brigiet Editores, 1953.
   
                                               *  *  *  *  *  *

2 comentários:

  1. Lindissimo este poema "A flor de maracujá".. Não conhecia este poeta brasileiro que morreu bem jovem
    Devido à sua sensibilidade e lirismo é natural que se encantasse pela flor de maracujá para mim, das mais bonitas que conheço...e a simbiose que faz entre a sua beleza e o amor pela sua sinhá é maravilhosa.
    Parabens pela escolha.
    beijo
    Graça

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  2. Pedro,

    Linda poesia do Varela. Não sei direito, mas esse amor que ele sente parece algo divino, tão grande quanto o de Cristo. Observe a semelhança simbólica da flor do maracujá com Cristo no calvário, os detalhes: a angustia, os cravos, a coroa de espinhos, as chagas... Além disso ele chama a atenção p a beleza encontrada na natureza para revelar a beleza do seu amor.

    Muito lindo...

    bjs

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PEDRO LUSO