>

23 de fev de 2012

[Conto] JULIÁN MURGUÍA / Lagoão Fechado

Julián Murguía
   
                 por Pedro Luso de Carvalho


        JULIÁN MURGUÍA nasceu em Melo, departamento de Cerro Largo, Uruguai, próximo da fronteira com o Brasil, no ano de 1930, e morreu na capital desse país (Uruguai), em 1995. Engenheiro agrônomo, fez mestrado na Nova Zelândia. Nos últimos anos da ditadura militar do Uruguai (1981-1984), exilou-se em Porto Alegre (Brasil) . Em 1984 foi agraciado com 1º Prêmio no XIII Concurso Latino-americano de Contos, em Puebla, no México. O escritor teve seus trabalhos publicados no Brasil, México, Espanha e Argentina.

        Obras principais: Cuentos para Juan Manuel, contos e crônicas, 1980; Más filosa que la espada, crônicas, 1987; Cuentos del país de los gaúchos, contos 1991; Contos do país dos gaúchos, 1992; O amigo que veio do sul, livro infantil, 1993; A guerra das formigas, 1994; O tesouro de Canhada Seca, 1995.        
     
        Segue o conto  O lagoão fechado, um dos 16 contos que compõem o livro de Julián Murguía, Contos do País dos Gaúchos: tradução de Sergio Faraco. 3ª ed. - Porto alegre: Mercado Aberto/IEL, 1995, p. 75-76.



                            [ESPAÇO DO CONTO]


                             O LAGOÃO FECHADO
                                                 (Julián Murguía)



        Campo sem água não é campo. Para ser campo de verdade precisa ter um arroio, um lagoão, uma sanga. E mato.

        Uma sanga sem mato não é uma sanga. É um valão com água. Um talho no campo.

        O mato recebe, envolve e protege a sanga. E a torna mais redonda, mais íntima.

       Assim, quando a gente chega perto dela, entra noutro mundo. Um mundo de sombra e viço, bem diferente do mundo do campo: calor e céu aberto ficam para trás.

       Não há nada mais amistoso do que a sanga. O arroio e o lagoão, caudalosos e largos, são o fim do caminho. Intransponíveis e pouco acolhedores, emprestam somente suas margens. O mato não chega a abrigá-los, pois se abrem para o céu.

        A sanga, em troca, é mais estreita, permitindo o cruzamento em vários trechos. Ela nos recebe e não nos intercepta. Entrega-se a nós e oferece tudo o que tem, como uma amiga.

        Mas nos permite seguir em frente e deixá-la para trás.

        Como uma amiga de verdade.

                                                                *

        Havia um lagoão naquela sanga. Um pequeno lagoão de água quieta e tranqüila, sempre fresca.

        Os salsos, os cachales, ¹³  as guabirobas e um tarumã gigantesco a dotavam de uma cúpula verde, alta e fechada.

        Chegar perto daquele lagoão era como entrar na nave de uma igreja: silêncio, a luz difusa, a sensação de uma solidão fechada.

       A água quieta tinha um quê de mistério. Era escura, quase negra, porque nela o céu não se refletia.Escura, quieta, atemorizante. Nunca tive coragem de me banhar ali. Pescava, sim, mas só de dia.

        Era ali que traziam os bois com as pipas, carregando-as de escuridão e de frescor. Porque eram estas as duas coisas que saíam daquele lagoão.


                                                                *

¹³ Árvore de porte médio, cujos frutos são apreciados pelo homem do meio rural e certos animais. Ocorre no Uruguai e no litoral do Rio Grande do Sul, onde eventualmente por chal-chal. Nome científico: Allophylus edulis. (N. do T.)


                                                            * * *


Nenhum comentário:

Postar um comentário

LOGO O SEU COMENTÁRIO SERÁ PUBLICADO.

OBRIGADO PELA VISITA.

PEDRO LUSO