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8 de nov de 2010

EÇA DE QUEIROZ / Correspondência

       


        [PEDRO LUSO DE CARVALHO]


       EÇA DE QUEIROZ (José Maria Eça de Queiroz) nasceu a 25 de novembro de 1845, em Póvoa de Varzim, Portugal, e morreu a 16 de agosto de 1900, em Paris, França. Estudou Direito na Universidade de Coimbra. Tentou a advocacia, tornou-se jornalista e, por fim, a diplomacia. Como diplomata, serviu em Havana, Newcastle, Bristol e Paris. Em Portugal ocupou o cargo de administrador do Conselho de Leiria. Em seu país, integrou o grupo “Os vencidos da vida”, e introduziu a técnica do romance realista.

        Suas principais obras: [Romances] O crime do padre AmaroO primo BasílioA relíquiaOs MaiasA ilustre casa dos RamiresA cidade e as cerrasÚltimas páginas. [Conto] O Mandarim.


 A OLIVEIRA MARTINS

          1884.

          Querido Joaquim Pedro

        Apesar de ter retardado ontem o meu jantar até às nove da noite, não pude desbastar a minha montanha de prosa. Levar as provas para os areais da Costa Nova, não é prático – ó homem prático! Há lá decerto a brisa, a vaga, a duna, o infinito e a sardinha – coisas essenciais para a inspiração – mas falta-se essa outra condição suprema: um quarto isolado com uma mesa de pinho.

        Vocês, com tipóia na estação, barco no rio, foguetes à espera e talvez literatos locais – não podeis faltar hoje. Eu é que, com todas estas folhas de provas, inumeráveis como as dos bosques, não sei mesmo se poderei ir amanhã, quinta-feira, a tempo. Não o renuncieis pois, positivamente, ao nosso querido Luís Bandarra. Eu para lá me dirijo por toda esta semana. Filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quase peixe da ria, eu não preciso que mandem ao meu encontro caleches e barcaças. Eu sei ir pelo meu próprio pé ao velho e conhecido palheiro do José Estevão. Um telegrama, um mensageiro, avisará o autor de D. Sebastião.

        Amanhã, em todo caso, querendo Deus, saio à noite deste infecto Porto. Talvez sexta-feira fique na Granja, a respirar ar puro da verdade social que ali constantemente circula, emanado dos espíritos de Mariano, Henrique Macedo, e outros reforminhas. Já vês a incertidão dos meus planos. Dá todo este longo recado a Luís.

        Se eu pudesse ter amanhã as minhas coisas prontas, antes do comboio das duas e meia – único possível para chegar à Costa ainda de dia – então, realizaria a minha visita. De outro modo, só sábado ou domingo.

        Abraço a Stº Antero¹, sabedor de coisas de filosofia e sonetista. E abraço para ti.

        QUEIROZ.

        ___
       ¹Antero de Quental.

 
                                                                      *  *  *

        

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PEDRO LUSO