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18 de nov de 2010

NORBERTO BOBBIO - Marginalização dos velhos

       

         É preciso deixar claro que a marginalização dos velhos – escreve Norberto Bobbio - , numa época em que o curso de história acelera-se cada vez mais, é um dado que não se pode verdadeiramente ignorar. Nas sociedades tradicionais, estáticas, que evoluem lentamente, o velho sintetiza o patrimônio cultural da comunidade, e tem ascendência sobre os demais membros dessa sociedade. O velho sabe, por experiência, o que os outros ainda não sabem, e têm de aprender com ele, seja na esfera da moral, dos costumes ou das técnicas de sobrevivência. Os velhos não mudam as regras fundamentais que regem a vida do grupo, respeitante à família, ao trabalho, ao lazer, à cura dos doentes, à atitude diante do mundo, às relações com os outros grupos, e tampouco mudam sua bagagem de conhecimentos, que é transmitida de pai para filho. Nas sociedades evoluídas, a mudança sempre mais rápida, não só dos costumes entre os que sabem e os que não sabem. Cada vez mais o velho torna-se aquele que não sabe, comparados aos jovens que sabem, e que sabem, entre outras razões, porque eles têm maior facilidade de aprendizagem.

        Já Campanella – prossegue Bobbio -, no final de A cidade do sol [1623], fazia exclamar o viajante genovês: “Oh! Se você soubesse o que eles dizem de nosso século, através da astrologia ou do conhecimento de nossos profetas, dos profetas dos hebreus ou de outros povos. Em cem anos, vivemos uma história mais rica do que a que o mundo conheceu em quatro mil anos” ³. Hoje em dia seria necessário dizer não cem anos, mas dez. Quando falava de livros, Campanella fazia alusão à invenção da imprensa, isto é, justamente a uma invenção técnica, assim como o computador é mais uma invenção técnica, que aumentou extraordinariamente o número de livros, a tal ponto que hoje se imprime provavelmente tantos livros quantos foram impressos ao longo do século de que fala Campanella.


³ [T. CAMPANELLA, A cidade do sol, Genebra, Droz, 1972, em tradução francesa.]



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        O texto acima faz parte do capítulo intitulado Mas, de que sabedoria se trata?, que integra o livro de NORBERTO BOBBIO, O final da longa estrada: considerações sobre a moral e as virtudes (tradução de Léa Novaes), Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 2005, p. 82-83.

        NORBERTO BOBBIO foi professor de filosofia em várias universidade da Itália e outros países. Foi presidente da Academia das Ciências de Turim. Na política, foi senador vitalício; e é considerado o pai espiritual da esquerda italiana - travou luta contra o fascismo, cujo resultado foi a grande influência que exerceu sobre a causa das liberdades civis e políticas. Como escritor, sua produção ultrapassou a cinquenta obras.

        Norberto Bobbio nasceu em Turim, Itália, a 18 de outubro de 1909, onde faleceu, a 9 de janeiro de 2004, com a idade de 94 anos.



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PEDRO LUSO