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26 de nov de 2010

[CRÔNICA] RUBEM BRAGA / Blumenau



                     por Pedro Luso de Carvalho


        RUBEM BRAGA nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, a 12 de janeiro de 1913. Graduou-se em Direito e guardou na gaveta o essse seu diploma de bacharel para dedicar-se ao jornalismo, escrevendo crônicas, comentários políticos e reportagens para diversos jornais e revistas de são Paulo, Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre e Rio de Janeiro, onde residia. Na segunda Guerra Mundial, acompanhou a Força Expedicionária Brasileira na campanha de 1944-1945, como correspondente do Diário Carioca. Em 1946 fez a cobertura da primeira eleição de Perón, na Argentina. Também trabalhou para esse jornal em 1956, fazendo a reportagem sobre a segunda eleição de Eisenhower nos Estados Unidos. Mas não ficou por aí, visitou inúmeros países das Américas, Europa, Africa e Índia. Foi um dos sócios da Editora do Autor e da Editora Sabiá no período de 1967 a 1971. Trabalhou no jornalismo da TV-Globo e escreveu crônicas para revistas. Foi um dos cronistas mais importantes do nosso país. Publicou duas dezenas de livros com suas crônicas, dentre eles O verão e as mulheres (que é, na verdade, a 4ª edição de A Cidade e a Roça), escreveu o romance Casa do Braga, e fez a adaptação de algumas obras importantes e traduziu Terra dos Homens, Antoine de Saint-Exupéry. Faleceu no Rio de Janeiro, no dia 19 de dezembro de 1990.

         A crônica Blumenau, que segue, compõe o livro de Rubem Braga, O verão e as mulheres, Rio de Janeiro, Record, 1986, p. 52-53:



                                                  [ESPAÇO DA CRÔNICA]

                                                           BLUMENAU
                                                                                                      (Rubem Braga)

       
        Foi um fim de semana assim de pegar-um-rabo-de-foquete, e quando ainda havia muitos vapores do álcool noturno a gente amanhecia em Joinville; então havia um rapaz que fora meu companheiro de viagem no Itatinga em 1938, minto, 1939, depois havia o governador e o vice-governador e muitos banquetes e discursos, mas sempre se podia escapar um pouco para andar só numa rua quieta de Joinville, as casas de telhados agudos, as janelas de cortinas brancas e gerânios estalando de rubros no céu louro. E na outra noite, a gente estava jogando pingue-pongue num clube de Blumenau; era eu, mais Paulo Mendes Campos e dois rapazinhos louros locais, contra quatro mocinhas louras de sobrenome alemão. A certa altura a partida deveria ser resolvida entre mim e a mais bonita das mocinhas, que se chamava Maria Cristina e tinha apelido de Kika; as outras gritavam – Kika! Kika! - Paulinho traindo a causa, também começou a torcer pela Kika, os dois rapazinhos louros também passaram a gritar – Kika! Afinal eu também aderi e gritava – Kika! Afinal ela mordeu o róseo lábio inferior e deu uma cortada de canto de mesa que me obrigou a um salto de palhaço sem resultado. A cidade é tão bela que se parece com Cachoeiro de Itapemirim e Florença, mas me comoveu sobretudo a estrada: é uma fazendola atrás da outra, tudo cultivado, as vaquinhas pastando com inteligência, mesmo a casa dos mais pobres tem seu sótão, suas cortinas, suas flores e dignidade; não se vê nada parecido com a miséria, a tristeza, o deserto e a solidão do vasto Brasil. E nos arrabaldes há muitas fábricas, mas é tudo espalhado e a paisagem não é fabril, é bucólica, o ar é limpo, as operárias são louras e possuem bicicletas; tudo isso descansa e produz bem-estar; as pessoas são iguais perante a lei e provavelmente existe, além do céu azul, um Deus também louro e bom, de cachimbo louro, tomando cerveja em um grande copo de pedra com musiquinha gravada pelos anjos, como este que vejo e ouço na casa do burgomestre acolhedor. Sim, Deus deve ser um grande e bom e gordo burgomestre, que as pessoas respeitam com estimação.



                                                         *  *  *

       

Um comentário:

  1. Dizem que Rubem Braga escreveu 20 mil crônicas. Não duvido. Tenho em casa uns 4 livros de crônicas do homem, algo como 400 textos. Pessoalmente, acho que Rubem Braga foi o melhor cronista que tivemos em todos os tempos, mas isso é uma opinião muito pessoal. Acho isso, pois a sutileza humana nas crônicas dele são únicas. Faz lembrar muito o estilo de Tchkhov nos contos, que trata das coisas pequeninas da existência humana, mas de uma forma especial, sublime, mas ao mesmo tempo simples. Coisa pra mestre.

    Entre tantas, cito uma que gosto demais "Um braço de mulher".

    Abraços, Pedro
    Cesar

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PEDRO LUSO