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28 de out de 2010

CRUZ E SOUZA – O Simbolista mais influente



        CRUZ E SOUZA (João da Cruz e Souza), nasceu em Desterro, atual Florianópolis, SC, a 24 novembro de 1861, e faleceu em Sítio, atual município de Antônio Carlos, MG, a 19 de março de 1898. Seus pais eram escravos, negros; descendência africana, que, segundo Álvaro Lins, “deu um caráter particular ao simbolismo de sua poesia”.

        No Brasil, Cruz e Souza é o poeta mais discutido e influente da escola simbolista – enquanto que os nome mais importantes na França são Rimbaud, Verlaine e Mallarmé. Cruz e Souza foi vítima de uma campanha extremamente agressiva por parte de pessoas que faziam parte do meio literário brasileiro, que não o aceitavam como chefe da escola, pelas audaciosas inovações de seus versos, e também pelo preconceito de cor.

        Desafortunado também na sua vida particular, o poeta viu a tuberculose tirar a vida de sua mulher e de seus quatro filhos. Embora infeliz por essas perdas e por vive num ambiente de pobreza, contou com um grupo de amigos e discípulos dedicados. Ronald de Carvalho assim se posicionava acerca da poesia de Cruz e Souza, dizendo que “apesar de todas as suas insuficiências, a força de um precursor. Ele introduziu em nossas letras aquele 'horror de forma concreta', de que já o grande Goethe se lastimava no século XVIII”.

        Obras de Cruz e Souza: Broquéis (1893), Missal, (1893), Evocações (1898), Faróis (1900) [Rio de Janeiro], e Últimos sonetos [Paris, 1905]. Transcrevo Lua, que integra o livro de Cruz e Souza, Broquéis, Rio de Janeiro, 1893, págs. 49-51.)


                   LUA

Clâmides frescas, de brancuras frias,
Finíssimas dalmáticas de neve
Vestem as longas árvores sombrias,
Surgindo a Lua nebulosa e leva...

Névoas e névoas frígidas ondulam...
Alagam lácteos e fulgentes rios
Que na enluarada refração tremulam
Dentre fosforescências, calafrios...

E ondulam névoas, cetinosas rendas
De virginais, de prônubas alvuras...
Vagam baladas e visões e lendas
No flórido noivado das Alturas...

E fria, fluente, frouxa claridade
Flutua como as brumas de um letargo...
E erra no espaço, em toda a imensidade,
Um sonho doente, cilicioso, amargo...

Da vastidão dos páramos serenos,
Das siderais abóbadas cerúleas
Cai a luz em antífonas, em trenos,
Em misticismos, orações e dúlias...

E entre os marfins e as pratas diluídas
Dos lânguidos clarões tristes e enfermos,
Com grinaldas de roxas margaridas
Vagam as Virgens de cismares ermos...

Cabelos torrenciais e dolorosos
Bóiam nas ondas dos etéreos gelos.
E os corpos passam níveos, luminosos,
Nas ondas do luar e dos cabelos...

Vagam sombras gentis de mortas, vagam
Em grandes procissões, em grandes alas,
Dentre as auréolas, os clarões que alagam,
Opulências de pérolas e opalas.

E a Lua vai clorótica fulgindo
Nos seus alperces etereais e brancos,
A luz gelada e pálida diluindo
Das serranias pelos largos flancos...

Ó Lua das magnólias e dos lírios!
Geleira sideral entre as geleiras!
Tens a tristeza mórbida dos círios
E a lividez da chama das poncheiras!
Quando ressurges, quando brilhas e amas,
Quando de luzes a amplidão constelas,
Com os fulgores glaciais que tu derramas
Dás febre e frio, dás nevrose, gelas...

A tua dor cristalizou-se outrora
Na dor profunda mais dilacerada
E nas dores estranhas, ó Astro, agora,
És a suprema Dor cristalizada!...

     
 (Broquéis, Rio de Janeiro, 1893, págs. 49-51.)


REFERÊNCIA:
LINS, Álvaro e Buarque de Hollanda, Aurélio. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Vol. 2. Rio de Janeiro, Civilização brasileira, 1966, p. 273-275.



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PEDRO LUSO