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6 de fev. de 2021

[Poesia] - RAINER MARIA RILKE – A Solidão

 




                                           - Pedro Luso de Carvalho


RAINER MARIA RILKE nasce em Praga, quando esta integra o Império Austro-Húngaro, a 4 de dezembro de 1875. No cartório de registro civil foi averbado o nome de René Karl Wilhelm Josef Maria Rilke. O prenome René foi mudado anos mais tarde para Rainer.

Até aos cinco anos de idade, a mãe de René impõe ao menino uma educação de menina. Esse foi o meio encontrado por ela para aplacar a dor da perda da filha recém-nascida. Tal distorção na educação do filho não impede que ele se torne um dos mais importantes escritores de língua alemã, tanto em prosa como em poesia.

O caminho que Rilke percorre até ser reconhecido como expressivo escritor impõe-lhe determinação para vencer os seus inúmeros obstáculos. Um fato de grande significado, a religiosidade que a mãe Sophie impõe a ele desde a mais tenra idade, deixa para sempre sua marca. Religiosa fanática, Sophie educa o filho de acordo com os ensinamentos da Igreja Católica.

Rilke tem uma infância infeliz. Sofre com a separação dos pais, cujo casamento não pode ser sustentado pelo desnível sociocultural do casal. Sophie Entz vem de uma rica família pequeno-burguesa. Joseph Rilke, um ex-oficial e inspetor ferroviário, é homem simples e rude para os padrões de sua família. Mas é o arrebatamento religioso da mãe que causa maior sofrimento ao menino. Mais tarde Rilke afasta-se do cristianismo, com forte recusa de Cristo e da Igreja.

O que foi dito sobre o arrebatamento religioso de Sophie, pode ser aquilatado pela carta que ela, sua mãe, lhe escreve em 1922, quando Rilke conta na época com 47 anos: “À meia-noite na mesma hora em que nascera nosso Salvador – e já que era noite de sexta-feira para sábado – você se tornou um filho de Maria, com a bênção da madona misericordiosa”.

A fase escolar é para Rilke de tal forma tormentosa que, quando estuda em internato militar (1886-1891), no dia em que completa dezenove anos escreve uma carta para sua amiga Valerie von David Rohnfeld fazendo-lhe um retrospecto de sua vida:

Você conhece a história sem brilho de minha infância falha, e conhece também aquelas pessoas que carregam a culpa por eu não conseguir guardar nada ou quase nada de agradável daqueles dias de minha formação (...). Na minha forma infantil de compreensão, acreditava que minha paciência me aproximava do mérito de Jesus Cristo. Certa vez, ao receber uma forte tapa no rosto, tão forte que meus joelhos tremeram, disse ao meu agressor injusto – posso ouvir ainda hoje – em voz baixa: Eu tolero isto porque Cristo também tolerou, em silêncio, sem lamentação, e enquanto você me batia eu rezava a meu bom Deus para que te perdoasse...”.

Diz mais Rilke, em sua carta para Valerie: “Então fugi, recuando até o último vão da janela, segurando minhas lágrimas para que somente à noite, quando pairasse a respiração regular dos garotos no amplo dormitório, elas rompessem impetuosas e calorosamente. E na noite em que se comemoravam os anos de meu nascimento, não sei quantos, ajoelhei-me na cama e, de mãos postas, pedi pela morte. Naquele tempo, uma doença me pareceria um sinal certo de elevação, só que ela não vinha. Em compensação, começou a se desenvolver naquela época o impulso de escrever, que mesmo no seu princípio, ainda ingênuo, já me servia de consolo”.

O fato de Rilke não se defender ante essa agressão, não respondendo com qualquer meio de defesa, quer física, quer verbal, denota que assume o papel de Cristo, sentindo-se legitimado religiosamente, e, com isso, onde deveria estar presente a autopreservação via em seu lugar assentar-se um sentimento de masoquismo, posição essa que o faz sofrer, até que, adulto, despede-se do culto de Cristo e de sua Igreja, aos dezoito anos, um ano antes de escrever a carta para sua amiga Valerie, quando fez, em 2 de abril de 1893, sua Confissão de Fé, como se vê no primeiro verso do poema:



Vós cristãos piedosos de boca para fora,

a mim julgais ateu e ides embora

para longe de mim,

só porque diferente de vós todos

não me deixo levar pelos engodos

das armadilhas do cristianismo.



Como muda, no tocante à religiosidade, Rilke passa a traçar o seu próprio caminho como escritor; assim passa do simbolismo para a busca do que significaria a arte e a morte, com algumas de suas obras: Livro de horas, Elegias de Duíno, Sonetos a Orfeu – este é considerado por muitos críticos o seu melhor livro de poemas – e Os cadernos de Malte Laurides Brigge (seu único romance).

Rainer Maria Rilke é acometido de leucemia, doença que o leva à morte no dia 2 de janeiro de 1926, aos 51 anos, no sanatório de Valmont, na Suíça.

Segue o poema de Rainer Maria Rilke, A Solidão, in Antologia de Poetas Estrangeiros – Seleção de Afonso Telles Alves, tradução do poema de Jair Campos. São Paulo: Editora Logos 1960 p 198:



A SOLIDÃO

- Rainer Maria Rilke




A solidão é como chuva.

Sobe do mar nas tardes em declínio;

das planícies perdidas na saudade

ele se eleva ao céu, que é seu domínio,

para cair do céu sobre a cidade.



Goteja na hora dúbia quando os becos

anseiam longamente pela aurora,

quando os amantes se abandonam tristes

com a desilusão que a carne chora;

quando os homens, seus ódios sufocando,

num mesmo leito vão deitar-se: é quando

a solidão como os rios vai passando...




____________________//____________________


REFERÊNCIAS:

KOOGAN LAROUSSE. Pequeno Dicionário Enciclopédico. Rio de Janeiro:

Editora Larousse do Brasil, 1979.

KUSCHEL, Karl-Josef. Os escritores e as escrituras. São Paulo: Edições Loyola, 1999.




27 comentários:

  1. Una serie di versi notevoli, di questo splendido, e interessante autore, che non conoscevo...
    Buona domenica e un caro saluto, Pedro,silvia

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  2. Olá, Pedro!
    É magnífica esta publicação.
    Desconhecia o poeta/prosador alemão, e foi muito bom ler sobre a sua vida desde a infância distorcida, tormentosa e infeliz até à idade adulta e Confissão de Fé.
    O poema "A Solidão" é um encanto.
    Rainer Maria Rilke, anotei!
    Beijo, bom domingo, protejam-se bem.

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  3. Boa tarde Pedro,
    Uma história de vida pungente que me emocionou.
    Não conhecia este poeta alemão, por esse facto agradeço-lhe a belíssima partilha.
    O poema é excelente e diz bem dos seus sentimentos e padecimentos.
    Um beijinho e bom domingo, com saúde.
    Ailime

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  4. Fantástica publicação. Não conhecia. Adorei a junção poética! ;)
    -
    Envolvo-me no silencio das flores
    -
    Beijos e um excelente Domingo.:)

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  5. un AUTORE CHE BENE CONOSCO AVENDO LETTO ALCUNI SUOI LIBRI DI POESIE, LO RITENGO AUTORE SQUISITO, MA NON SAPEVO DI TUTTI QUESTI TRAVAGLI NELLA SUA VITA E POI LA MORTE PER MALATTIA, MA A BEN VEDERE DALLE SUE LIRICHE TRASPARE SEMPRE QUEL FILO DI MALINCONIA, MA LO RITENGO UNO DEI MIEI AUTORI PREFERITI. aNCHE DALLA POESIA SOLITUDINE CHE HO LETTO NEL SITO, TRASPARE QUELLA MALINCONIA CHE LO HA SEMPRE ACCOMPAGNATO. GRAZIE PER AVERLO POSTATO. UN CARO SALUTO AMICO PEDRO DA GRAZIA. SCUSA IL MAIUSCOLO.

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  6. A solidão é muito triste e costumamos pensar que ela existe nos idosos que, depois dos filhos criados são " largados à sua sorte ", tantas vezes abandonados por aqueles a quem tudo deram. Sim, todos conhecem esta solidão e todos pedem para não sofrerem dela quando a idade mais avançada chegar. Dificilmente nos lembramos da solidão sofrida por muitas criancas que, apesar de terem pais, vivem uma vida sofrida onde a dor é uma constante e a compreensão, simplesmente não existe. A vida deste poeta, Rainer é a prova do sofrimento de um menino que viu sua mãe colocar o seu fanatismo religioso acima da felicidade do filho, fanatismo que o fez sofrer e, como não podia deixar de ser, teve conseqüências nefastas no que diz respeito à vida religiosa dele. Mais tarde percebeu que o Cristo que lhe deram a conhecer não merecia a devoção que lhe dedicava e, com toda a certeza, ao longo da sua vida procurou e acabou por encontrar aquele Jesus que pregou o amor e a compreensão entre os homens. Também eu, Pedro, acabei desiludida com o Cristo que me ensinaram na catequese e procurei o outro, o verdadeiro, o da justiça , do amor ao próximo e da paz. Cada um de nós deve procurar a sua verdade e, se, não tiver o nome de Jesus, terá um outro com o mesmo valor. Amigo Pedro, demoro muito a chegar aqui, mas, acredita, vou sempre mais enriquecida com todas as informações que connosco partilhas. Muito obrigada e SAÚDE para todos aí em casa,Beijinhos
    Emilia

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  7. Los acontecimientos de la niñez, marca la vida de las personas cuando llegan a la vida adulta.

    Besos

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  8. Interessante publicação e bonita poesia.Abraços,obrigada por compartilhar.

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  9. O final do poema é fantástico Pedro.
    A solidão dos rios, das aguas e da vida em linda analogia.
    Um grande trabalho para a postagem
    Abraço amigo e boa semana.

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  10. Rilke está entre os poetas de língua alemã que mais admiro. Leio de vez em quando as Elegias de Duíno. É magnífico. Gostei da pequena biografia que escreveu sobre o autor. O poema que li aqui é maravilhoso.
    Uma boa semana, meu Amigo Pedro. Cuide-se bem.
    Um beijo.

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  11. Gostei da partilha deste maravilhoso poema e da biografia de um poeta que só conhecia de nome.
    Abraço, saúde e boa semana

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  12. Rilke, um dos principais poetas do século 20. Fico a meio do caminho entre a carreira literária e a militar. Deixou-nos, além dos poemas, o livro Cartas a um jovem poeta, correspondências trocadas com Franz Kappus, entre 1903 e 1908.
    Eis um excerto de uma dessas cartas, datada de 17 de fevereiro de 1903:
    [...]
    Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações?"
    Vale buscá-lo nas bibliotecas e se debruçar sobre a sua poesia.
    Bela patilha, meu amigo Pedro.
    Cuide-se!
    Forte abraço,

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  13. Qué profundo y bello el poema!.
    Una biografía muy interesante.
    Una pena su enfermedad.
    Un beso. Feliz semana.

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  14. Dele, conhecia CARTAS A UM JOVEM POETA, nada mais. Que vida complicada, não?? O fanatismo destrói e deixa marcas. Pela primeira vez leio sobre a vida do poeta e lhe agradeço por isso, Pedro. O poema é muito belo. Mais uma excelente postagem cultural. Grande abraço!

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  15. Não é a pandemia,
    catarata é que me leva
    a cometer os erros de grafia.
    LEIA-SE NA PRIMEIRA LINHA Ficou
    e NA ANTEPENÚLTIMA partilha
    E reitero, meu amigo, CUIDE-SE
    E na antepenúltima linha

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  16. Pedro
    GOstei dos poemas que escolheu de Rainer Maria Rilke, para aqui partilhar, junto da sua biografia, que gostei imenso de conhecer, pois ignorava por completo, algo pessoal deste autor.
    Muito obrigada!
    Boa semana.
    Beijinhos
    :)

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  17. Mais um autor que adorei conhecer, por aqui!... Como sempre a biografia, ajudou-me imenso a entender o que influenciou as linhas mestras do mesmo... excelente publicação, como sempre, Pedro!
    Beijinhos! Votos de uma boa semana, e um óptimo Fevereiro... aqui em Portugal... em confinamento bravo, ainda... novas estirpes mais contagiosas circulando... pelo que já se aconselha o uso de 2 mascaras em simultâneo, apesar da vacinação já estar a começar a decorrer...
    Tudo de bom!
    Ana

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  18. Oi,Pedro, muito bom ler esta excelente postagem! não conhecia a sua biografia. Sobre Rilke conheço uns versos de um soneto de Vinicius de Moraes escritos em sua homenagem. Conheço de cor a primeira estrofe:
    "Depois foi só / o amor era mais nada/ sentiu-se triste e pobre como Jó / um cão veio lamber-lhe a mão na estrada/ depois foi só"
    continua o poema mas eu sempre quis saber sobre o motivo do
    que Vinicius queria dizer. Agora sei. Obrigada!
    Um abraço

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  19. Gostei de conhecer melhor a biografia de Rainer Rilke...
    Um escritor aue nos ajuda a melhor compreender como uma infância infeliz marca
    negativamente uma vida inteira.
    Dias bons, meu amigo. Beijo.
    ~~~~~~~

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  20. A vida dos grandes poetas muitas vezes é bem difícil. Acho que isso faz parte.

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  21. Obrigada por nos mostrar mais essa preciosidade.

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  22. Olá, amigo Pedro!
    Quem prefere se deitar com a solidão por medo ou comidismo não é digno de amor próprio.
    Adorei o poema que não conhecia.
    Estou com um blog novo agora e será num prazer vê-lo por lá, se desejar:
    https://flordocampo3.blogspot.com/
    Sempre num mostrar outros olhares poeticos por aqui.
    Esteja bem, amigo!
    Beijinhos Fraternos

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  23. Não conhecia mas fiquei curioso e vou pesquisar mais sobre este autor.
    https://xavierpujolguarro.blogspot.com/2014/06/amor-la-pera.html

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  24. Não conhecia e vou pesquisar mais sobre este autor.
    Um abraço e bom fim-de-semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    Livros-Autografados

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  25. Obrigada amigo Pedro por me dar a conhecer este poeta.
    O poema revela bem a sua atormentada vida. A solidão está descrita de forma intensa e sofrida por a viveu .
    Sem dúvida que este poeta merece-me uma pesquisa.

    Um beijinho e muita saúde.

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  26. Boa noite, caro amigo Pedro.Muito bom poder vir aqui e conhecer, Rainer Maria Rilke. A biografia dele nos dá um pouco de conhecimento sobre ele, não o conhecia, mas vou pesquisar mais. Teve uma vida curta e muito sofrida, o que amplia para nós com o seu poema"A Solidão". Em todos os versos nos registra sua dor. Excelente partilha, obrigada. Boa noite!

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  27. A análise da biografia de Rainer Maria Rilke, ajuda-nos a perceber o efeito devastador que a religião pode ter no ser humano.
    Apreciei imenso a qualidade do poema "A Solidão". Grande poeta!

    Beijinho.

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Pedro Luso de Carvalho