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12 de mar de 2011

TAIS LUSO / Os Novos Ricos

Crônica: OS NOVO RICOS / Taís Luso 

         
        É muito divertido de se ver as extravagâncias dos novos-ricos. Mas o mais curioso é que alguns emergentes nos dão a impressão de que tudo o que ostentam vem de berço, como se eles fizessem parte de uma dinastia. Tudo muito natural. Sendo assim, a coisa fica bastante animada. E essa migração, de uma classe social para outra, chama muita atenção.

        Os cachorros dos novos-ricos frequentam manicura, pedicura, tosa e modelista. As fêmeas andam de fitinhas e gargantilhas de strass. E se forem pequeninos andam no colo, aquele lance de nenê da mamãe. 

        A casa do novo-rico tem de ser top: recebe a visita de um decorador - já conhecido no mundo das celebridades - para decorar a nova morada com muito luxo. E começa por cavar uma piscina, com um belo jardim para sair na revista Caras, com a patroa no seu melhor modelito. 

        Seguem-se visitas às várias galerias de artes. Se não houver a figura do decorador, as obras de arte continuarão no velho esquema de combinarem com o sofá, com as cortinas e almofadas. Tudo ton-sur-ton. Ainda não deu tempo para as criaturas soltarem as amarras do passado e assimilarem o presente. Sim, porque os novos-ricos estão com o passado em suas entranhas, apesar de frequentarem os melhores restaurantes, se estrebucharem atrás de grifes e comprarem a famosa bolsinha Louis Vuitton. Esta compra é fatal.

        As empregadas domésticas entram na goma: uniforme dos pés à cabeça, passam a falar baixinho e adquirem um comportamento misterioso, principalmente ao telefone: falar com a patroa torna-se algo mais difícil do que falar com o Ministro das Comunicações. Mas faz parte, a madame é muito ocupada.

        Bom gosto não se compra com dinheiro, e por isso se vê tanta extravagância. Os velhos amigos voam! Os novos-ricos têm interesses diferentes: um deles é explodir como mais uma socialite nos céus desta pátria amada / idolatrada / salve, salve...

       Para os homens valem outras coisas, mas não menos engraçadas: o belo carro top, com duzentas luzinhas no painel - que lembre a cabine de um Boeing 777 - deixa os novos emergentes alucinados. Após o supersônico carango, entra no esquema o laptop mais avançado do mercado; um celular afinadíssimo; caneta de ouro; relógio Rolex, Patek Phillipe... E bebida! E na bebida, a maior exigência fica por conta do vinho. E o bom emergente faz questão de anunciar o preço de seu vinho... Aliás, fazem questão de gritar o valor de tudo. É um problema de status, prestígio.

        O emergente metido a enólogo, tem um envolvimento com o vinho como se fosse a sua eleita, e fica aloprado ao entrar numa adega. Para alguns deslumbrados, o vinho tem de ser degustado e seus mistérios desvendados! Olhem que coisa romântica... O ritual do vinho só perde para o chá dos japoneses - com cinco horas de preparo. Beber com um emergente nunca será um prazer, será um estresse. Mas, continuando com as originalidades dos emergentes, a temperatura do vinho tem de ser exata: o excesso de temperatura poderá deixar o vinho agressivo, pouco agradável, como o inverso fará com que o vinho adormeça, neutralizando o aroma e sabor. (Nossa!)

        É da maior importância que o vinho seja da melhor safra, da uva tal, e conhecer a vinícola - procurada alucinadamente no rótulo. Faz parte da cultura geral. 

        Mas tem mais: o melhor cálice é o de cristal sem emenda - liso e com silhueta de tulipa - para poder girar o vinho, feito carrossel mexicano. Isto fará o vinho respirar e soltar os aromas. E assim ser cheirado inúmeras vezes. Estão entendendo o espírito da coisa? Então sigo...

        A idade do vinho é importantíssima: sendo vermelho rubi, é um vinho jovem; vermelho acastanhado, vinho mais envelhecido. Então você decide se quer um véio ou um novinho, frutado ou com gosto de madeira.

      Você tem de amar o vinho! Ser-lhe fiel! Beber pensando nele: sentir se é encorpado ou leve; se generoso, aveludado, rascante... Mas se for um vinho filante (doente), o cara tem um ataque! O estudo técnico de um vinho é como um Processo de Software. É muito importante, você precisa entender isso; faz parte da nova personalidade dos emergentes. 

        O vinho sempre será algo de extrema importância nos bate-papos: prepare-se para uma aula sobre as uvas sauvignon, merlot, pinot noir, pinotage, chardonnay, gewürztraminer... E o negócio vai longe, pois falar na rolha, no sabor, no perfume, na uva, na cor, na acidez, na idade, de onde veio é coisa pra muitas horas. Porém, não repare se o emergente ficar de olho na garrafa feito cão de guarda... Faz parte. 

        Espere mais um pouquinho que talvez você descubra o sexo da bebida, uma vez que uva é feminino e vinho é masculino. Mas então é isso aí, gente; foi só uma introdução pois o assunto é infinito. As extravagâncias são inúmeras, pois marinheiro de primeira viagem comete estas coisas meio esquisitas.

       Os homens não compram uma Louis Vuitton , não enfeitam os cachorros, não colocam uniforme nas empregadas, não enchem a casa de cristais, mas quando emergem ficam loucos por coisas que ninguém entende. Até por uma taça de tulipa, sem emenda!

        Mas no final, tudo isso é a cara do Brasil; e a gente acaba entendendo. Mas o que vale é que os novos-ricos devem se divertir um bolão; e nós também! 


                                                                        por Taís Luso de Carvalho




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Taís Luso
         A Crônica OS NOVOS RICOS, de Taís Luso de Carvalho foi publicada pela revista VOTO - política e negócios -, de Porto Alegre, RS, fevereiro/2011, fl. 69.

        Taís Luso, Artista Plástica e Cronista, é  natural de Porto Alegre, RS.

        Taís Luso está presente em oito coletâneas de contos, crônicas e poesia: 500 Outonos - Org. de A.Giraldo / 2000; Sinfonia Falada - ed. Via 7 / 2001; Entrelinhas - ed. Alcance / 2002; Desafios - Alpas XXI / 2002; Emoções - Org.de A.Giraldo, São Paulo / 2001; Encontro de Escritores – ed. Borck / 2001; Reverberações - Org. A.Giraldo / 2001; Luz e Sombra – Org. A.Giraldo / 2002.

        Também está presente na Revista de Artes Dartis - com crônicas e obras de arte - nos números : 14 – 21 – 24 – 26 – 27 – 28 – 29 – 30 – 31 – 36 – 39 – 40.

        E, ainda, na Revista VOTO, com a crônica Os Novos ricos; no Jornal Fala Brasil, nºs 126 e 127; no jornal Correio do Povo com a crônica A Paz ( 3º lugar).

        TAIS LUSO publica suas crônicas no seu blog PORTO DAS CRÔNICAS e seus textos sobre artes no seu blog DAS ARTES

 



5 comentários:

  1. Essa crônica está excelente! Eu já a havia lido no blogue da Tais.

    Agora, lendo-a de novo, me ocorreu que essa coisa da afetação que envolve o mundo do vinho é mesmo um clichê típico do novo rico, não é?

    Engraçado é que apesar de tão óbvio, tão evidente o ridículo disto (para quem observa), a pessoa envolvida com todo aquele clima de se sentir importante, magnânimo, por cima dos pobres mortais, não percebe.

    Acho que no dia em que perceber, vai se envergonhar do que fez e falou! Todo mundo que já passou por uma vergonha "retroativa" sabe como é.

    abço e bjos a vcs
    Cesar

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  2. Olá, Pedro. Tudo bem? Sou seguidor de teu blog e gostaria de pedir-te licença para divulgar o meu: lingueratura.blogspot.com
    Um grande abraço e até mais!

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  3. Brilhante Taís.
    Nós estamos na era do TER e muitos esquecem-se de SER... Ser essência, ser de fato um ser...
    Uma descrição detalhada.
    Tudo isto sendo reforçado pelas novelas da nossa televisão brasileira que relata tudo isto em pratos de porcelana chimesa.
    Pois estou convidando-te para que poste algo teu no INFINITO, sábado que vem, nas Sala de Visitas.
    Caso queira envie-me um mail - maluccat@bol.com.br
    Vou adorar ter-te por lá.
    Abraços a ti e ao Pedro.

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  4. Amigos,

    Está já na hora de fazer uma nova postagem neste blog, depois de ter deixado aqui em cima esta excelente crônica da Taís (minha mulher, modéstia à parte!) "OS NOVOS RICOS", que antes foi publicada numa revista da melhor qualidade, aqui de Porto Alegre, qual seja, "VOTO" - Política e Negócio -, cuja capa faz parte do referido post.

    Resta-me agradecer a visita de quem por aqui esteve (nem todos os leitores deixam comentários), e, em especial, a três pessoas, que deixaram seus comentários:

    CESAR CRUZ,
    SANDRO FERREIRA DA SILVA e
    MALU

    Embora o trabalho da Taís, no campo da crônica e das artes plástica, seja bastante apreciado, eu não poderia esperar um número maior de comentários nesta postagem, já que este blog - VEREDAS -, é o mais novo dos meus outros cinco (5) blogues, e que ainda não tem um (1) ano de existência.

    A minha próxima postagem, neste espaço, dedico à TAÍS LUSO, qual seja, "NATUREZA", um poema em prosa de MARIO QUINTANA, seu poeta favorito.

    Abraços a todos,
    Pedro.

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  5. Anônimo03:03

    Thanks awfully for your report! I really respect what you’re writing here.

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PEDRO LUSO