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5 de dez. de 2022

[Poesia] A REVOLTA DA NATUREZA – Pedro Luso de Carvalho

 

José Cesário / Costa de mar




    A REVOLTA DA NATUREZA

                    Pedro Luso de Carvalho


 

Quando a Natureza for rejeitada

e ecoarem infinitos trovões,

quanto bastem para o acerto de contas,

pelos impensados atos dos homens.



Os trovões explodirão vezes repetidas,

seguidos de muitos relâmpagos, fachos

penetrantes de luz, para que os homens

enlouqueçam – condenação merecida.



A terra ficará então ressecada e sem frutos,

os rios adormecidos em seus míseros leitos,

os lagos apenas pequenos pontos d’água,

as florestas serão cemitérios de riquezas,



os oceanos com suas histórias de navios

e de gente serão o túmulo maior,

o céu ficará toldado por corrosiva fuligem

e do sol não mais existirá calor e brilho.





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24 de nov. de 2022

[Poesia] A NOITE – Pedro Luso de Carvalho

 






A NOITE

Pedro Luso de Carvalho




A janela do quarto,

na semiobscuridade,

bate repetidamente.



É o vento

trazendo lembranças

e fantasmas

das lonjuras do tempo.



Vento forte

quebrando a solidão

do bronze das estátuas,

esquecidas

nas praças desertas.



A cidade dorme

com suas feridas expostas.






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12 de nov. de 2022

[Poesia] CAMINHANTES – Pedro Luso de Carvalho

 




CAMINHANTES

– Pedro Luso de Carvalho




Eu preciso escolher o meu caminho,

mas para isso necessito de ajuda,

pois me custa fazer isso sozinho,

o que está feito logo tudo muda.


Quero saber onde posso pisar,

dos meus pés sei da força e da fraqueza,

e que gente de paz possa encontrar,

neste caminho de tanta incerteza.


Dos caminhantes ouvirei lamentos,

sob a luz da lua ou do sol que brilha,

queixas e poeira que somem no vento,

conversas que se estendem na trilha.


E quando no meu destino chegar,

de alma leve mas de corpo moído,

ajeito o corpo para descansar,

e depois tudo será esquecido.





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31 de out. de 2022

[conto] O Segredo da Longevidade - Pedro Luso de Carvalho

 

  

                   Obra -  Paula Modersohn-Becker




O SEGREDO DA LONGEVIDADE


                                             - Pedro Luso de Carvalho



Um amigo falou-me, não faz muito tempo, sobre o seu relacionamento, um tanto exótico, com uma moradora do mesmo prédio, que ele morava. Ela já havia passado dos 90 anos, ele estava perto dos 40 anos.

Durante o tempo que aí morou ele manteve-se solteiro. E ela nunca se casou. Talvez essa condição de solteira, que carregou por toda a vida, tenha gerado o sentimento de ódio, que por ele nutria.

Já no primeiro encontro que tiveram, ele não teve bom pressentimento. Ela não escondia sua aversão pelo vizinho, embora ele não lhe desse motivo. Esse sentimento aparecia nos olhos turvos da esquisita vizinha.

Procurava desviar-se dos dardos envenenados com ódio, que a velha senhora lançava contra ele, quando se encontravam no hall do prédio ou num dos elevadores; ele nunca soube por que fora escolhido para ser o alvo de suas frustrações.

Com o passar do tempo, ela ficou mais agressiva e mais debilitada. Fazia seus curtos passeios à tarde acompanhada por uma moça, caminhando com dificuldade, passinhos muito miúdos, quase arrastados.

Embora mal conseguisse falar, meu amigo tinha sempre a impressão de ouvi-la dizer, quando se cruzavam: “Você ainda terá de me aguentar por muito tempo”.

A ele não restou outra solução do que uma visita a um psiquiatra. Na primeira consulta, já tinha o diagnóstico: a velha senhora ainda estava viva, mas graças à motivação e a força que lhe dava essa rusga que mantinha com o vizinho.

E foi em atenção ao conselho do psiquiatra, que se mudou para outro apartamento, situado em outro bairro. Passado um pouco mais de um mês, ele leu num jornal a comunicação da família sobre o falecimento da velha senhora.




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18 de out. de 2022

[Poesia] PODER E FRAQUEZA – Pedro Luso de Carvalho

 




PODER E FRAQUEZA

           – Pedro Luso de Carvalho




Da voz firme, poderosa voz,

da garganta sai um forte rugido,

ordem para que seja cumprida,

voz com a dureza dos poderosos,

uma ordem para quem nada pode.


Como se negar cumprir tal ordem,

se o circo todo foi preparado,

e tudo armado do jeito certo,

como fazem esses desalmados,

homens sem pátria e sem coração.


Infelizes os que a ordem recebem,

tomados de medo ou de ganância,

entram nas teias da corrupção,

emaranhado pouco visível,

onde o honesto torna-se ladrão.


E como tudo podem os poderosos,

e dormem em paz na podridão,

poderosos que tudo compram,

jantam com juízes da alta corte,

fazem o que sempre fizeram.


O pobre povo de outra linhagem,

povo pobre vagueia esquecido,

enquanto o vento leva promessas,

promessas que não se cumprirão,

engodo num tempo de eleição.




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5 de out. de 2022

[Poesia] SONHO E FUGA – Pedro Luso de Carvalho

 

Érico Santos - Chalé da Praça XV - Porto Alegre / RS



SONHO E FUGA

– Pedro Luso de Carvalho




Não posso querer mais do que tenho,

pois tudo que tenho já é muito,

nem espaço tenho para tudo,

e tudo que não cabe na mente

fica guardado no coração.


Não posso querer mais do que tenho,

guardei os sonhos todos que sonhei,

sonhos que trago lá das lonjuras,

época que sonhar era ordem,

perspectiva para a juventude.


Não posso querer mais do que tenho,

e isso tudo cansei de dizer,

devia parar mas não parei,

é triste sina do sonhador –

neste mundo real minha fuga.


Não posso querer mais do que tenho

e tampouco escondo minha fuga,

pois o certo é que os sonhos guardo,

quero esquecer o que há fora deles,

nesse mundo de miséria e dor.





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25 de set. de 2022

[Poesia] Poema e o Tempo – Pedro Luso de Carvalho

 

Figueira




POEMA E O TEMPO

             – Pedro Luso de Carvalho



Procuro o que escrevi sob o sol,

lembro-me claramente do dia,

foi na cálida e clara manhã,

sob a sombra morna da figueira,

o campo tão perto do horizonte.


Procuro o que escrevi sob o sol,

melodia e ritmo pude ouvir,

o poema era rosário e reza,

fiéis em rezas diante do altar –

havia fé no distante tempo.


Procuro o que escrevi sob o sol,

sentida mágoa foi o que restou,

pelos sofrimentos que causei

e por males que me causaram,

numa estrada feita de ilusão.


Procuro o que escrevi sob o sol,

que ainda possa ler o que escrevi,

versos inocentes do passado,

não para provar que fui bom,

só busco meu poema perdido.




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15 de set. de 2022

[conto] CASAL DISCUTE A RELAÇÃO – Pedro Luso de Carvalho

 

Paul Signac - 1863 / 1935 - Obra Sunday 1880



CASAL DISCUTE A RELAÇÃO

Pedro Luso de Carvalho




Iolanda mal podia esperar pela hora do jantar, que havia preparado para o marido. A expectativa da conversa, que teria com ele, deixava-a apreensiva. Há muito tempo queria discutir a relação do casal.

Leopoldo chega na hora que havia combinado com Iolanda. Demora-se no banheiro. Quer fazer boa figura para sua bela esposa. Acordes de música muito suave, chegavam até ele.

O jantar correu como havia sido planejado por Iolanda. Sente-se tranquila, com o resultado. Não lhe passou despercebido que o marido havia gostado dos pratos servidos.

Depois, sentados em confortáveis poltronas, Iolanda inicia a conversa. O marido fica um pouco desconfortável com o que poderia ocorrer. Não acha razoável que contem, um para o outro, suas intimidades.

Querido, o que você fez , nestes sete anos?

Por favor, Iolanda! O que poderia ter feito?

Iolanda já havia estudado tudo o que teria para dizer ao marido. Destaca muitos momentos bons que viveram, mas não esquece dos maus momentos. E diz ter ciúmes das mães dos seus pacientes.

Iolanda, eu sou médico dessas crianças!

Então, por que tanta atenção com as mães delas?

Leopoldo não gosta do tom da conversa. Está arrependido por ter se deixado convencer pela mulher. Sabe que estava certo quando lhe disse que não deviam falar sobre suas vidas de casados.

Querido, quer dizer que não teve amante?

Claro que não, Iolanda!

Nessa altura da conversa, Leopoldo diz que é melhor para eles que parem. A mulher insiste em continuar. O marido reafirma sua intenção de parar. Diz que não lhe agrada esse rumo da conversa.

Querido, você pode ser sincero, e falar da outra mulher.

Por favor, Iolanda!

Pois bem, querido, mas eu tive um amante, por dois anos.

Leopoldo fica chocado. Está cansado e abatido. Não se sente em condições físicas e emocionais para continuar. Iolanda parece não ver o que se passa com ele, e continua:

Conheci ele no shopping...

Leopoldo permanece calado. Procura levantar-se da poltrona, mas a mão da mulher no seu ombro faz com que se recoste novamente. Seu desejo é deixar a sala rapidamente.

Fomos amantes por mais de dois anos...

Leopoldo olha para mulher sem compreender direito o que está acontecendo. Não consegue sequer imaginar outro homem na vida de Iolanda. “É inconcebível essa ideia”, diz num sussurro.

Agora, homem, fale de sua amante.

Não tenho nada para dizer.

O casal fica em silêncio por algum tempo. Iolanda custa a acreditar ter confessado seu adultério ao marido. Desorientada, diz para si mesma: “Meu Deus, se pudesse voltar atrás”. Não tem ânimo para levantar-se.

Leopoldo levanta-se e sai da sala. Depois de alguns minutos, retorna puxando uma mala de viagem, e se dirige à porta social. Aí fica parado por alguns segundos, depois sai. Iolanda sabe que não há nada mais que possa fazer.





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3 de set. de 2022

[Poesia] A CURVA DO TEMPO – Pedro Luso de Carvalho

 




     A CURVA DO TEMPO

                 – Pedro Luso de Carvalho



Tudo parecia certo e definitivo,

todas as coisas bem alinhadas

e os passos de todos no ritmo,

os mesmos passos da marcha,

passos certos no desfile da vida.


E havia  planos e esperança,

e tudo bem pensado e sentido,

planos que se realizavam –

planos para um curto tempo

ou para tempo mais adiante.


Mas não era certo o que via,

e me apercebia do engano,

o tempo traça o seu rumo,

com suas imutáveis regras –

e a ninguém compete fazê-lo.


Assim que tudo aconteceu,

exclusiva ordem do tempo,

e assim vingaram os planos,

não nossos frágeis planos,

vingaram planos do tempo.


Assim veio a terrível peste,

como outras tantas pestes,

as pestes de outros tempos

com o mal que causaram,

qual a peste deste tempo.




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22 de ago. de 2022

[Conto] O QUADRO DE PORTINARI – Pedro Luso de Carvalho

 




O QUADRO DE PORTINARI

              – Pedro Luso de Carvalho




Dora sentou numa poltrona da sala de visitas para descansar um pouco. Ali ficou por algum tempo, olhos fechados defendiam-se da forte luminosidade que entrava pela janela, em frente ao mar. Logo, forte vento levantou as cortinas com violência.

Dora ficou preocupada com uma valiosa obra de arte ali exposta e correu para fechar a janela. Depois, passou os olhos pelas paredes da sala e viu que faltava o quadro cobiçado pelos comerciantes de obras de arte.

Assustada, ela levantou-se da poltrona e exclamou:

Santo Deus, meu valioso Portinari desapareceu!

Ainda nervosa, procurou o quadro em todas as peças do apartamento, sem encontrá-lo.

No dia seguinte, a luminosidade do apartamento deu um pouco de ânimo à Dora, diante da dura realidade.

O famoso Portinari era a certeza de que ela teria uma confortável aposentadoria, pois o quadro certamente valia alguns milhões de reais.

Dois dias depois, ela pediu a um advogado para levar o fato ao conhecimento da polícia. Depois desse dia, o nome de Dora passou a fazer parte dos noticiosos das mídias. Por isso, ficou conhecida por um bom número de pessoas em seu bairro.

Numa dessas noites frias de inverno, Dora foi levar alguns pratos de sopa para moradores de rua, que vivem sob um viaduto, numa rua perto de seu apartamento.

Com ajuda de vizinhos, levou uma grande panela de sopa até o viaduto. Ela alcançou o prato de sopa ao pobre homem, que o pegou com avidez.

Depois de comer, o homem devolveu o prato e agradeceu timidamente. Dora, que o tinha observado enquanto comia, notou que sobre o caixote havia uma estranha bandeja colorida que lhe servia de mesa, e perguntou-lhe:

Posso levar também aquela bandeja?

O pobre homem alcançou-lhe a bandeja.

Nervosa, por ter recuperado o seu valioso Portinari, chegou em casa exaurida.

No dia seguinte, Dora levou o quadro a uma conceituada Galeria de Artes para vendê-lo. O preço alcançado pelo leiloeiro foi de grande monta.

Depois desse dia, ninguém mais viu Dora no bairro.

Algumas pessoas falam que ela foi vista em ruas de Paris ao lado de um homem alguns anos mais novo que ela, ambos vestidos com muita elegância.




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15 de ago. de 2022

[Poesia] POVO SEMPRE À MARGEM – Pedro Luso de Carvalho

 

Kiev (Ucrânia) atacada pela Rússia - foto CNN




POVO SEMPRE À MARGEM

                     – Pedro Luso de Carvalho





As cordas da lira arrebentaram,

já que todos vivem suas vidas

na luta desigual,

onde poucos podem muito

e muitos pouco podem.



As cordas da lira arrebentaram,

ante a plêiade de corruptos

com jeito para subtrair,

onde a justiça só é feita

se for pobre o criminoso.



As cordas da lira arrebentaram

por haver carência de justiça,

mas o dia dos ajustes virá,

cedo ou tarde virá esse dia,

então o bem se imporá ao mal.



As cordas da lira arrebentaram,

hoje ninguém mais a quer ouvir.

Som ausente e cordas feridas –

a melodia cede lugar às bombas,

a explodirem em nossos ouvidos.






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