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19 de jun. de 2022

[Poesia] NOITE DE FRIO – Pedro Luso de Carvalho

 

Moradores de Rua 




NOITE DE FRIO

         – Pedro Luso de Carvalho




Nesta fria noite de inverno,

noite de vento minuano,

vento minuano zunindo

nas cumeeiras de casas,

vento rangendo nas árvores,

e cá dentro o fogo ardendo,

fogo crepitando na lareira

diante de corpos aquecidos.


Lá fora os desafortunados,

corpos cobertos por trapos,

corpos imundos e a fome,

castigo do vento na noite,

vento gélido na alma,

vento martirizando,

zunindo nas ruas e avenidas,

onde dormem os miseráveis.


Não se nega a força do vento,

como nobreza não se nega

ao sentir como sua a dor

e de todos ser solidário

prato de sopa quente,

sopa que ao vento desafia

na gélida noite de inverno,

diante da dor dos desvalidos.




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12 de jun. de 2022

[Poesia] SANTO CASAMENTEIRO – Pedro Luso de Carvalho

 

Basílica de Santo Antônio de Embaré - Santos - SP/Brasil



SANTO CASAMENTEIRO

Pedro Luso de Carvalho




Maria espera que toquem os sinos,

os sinos que a missa anunciará.

Maria traz no peito a fé qual hino,

fé ardente que sempre viverá.



Maria reza diante do altar,

ajoelhada como faz há anos,

o seu Santo Antônio para adorar,

liberta de medo e de desengano.



Tal é a sua crença em Santo Antônio,

por esses tantos anos que espera,

que lhe reserva o melhor matrimônio.

Maria já sente viver nova era.



Maria aguarda com serenidade,

entre suas preces tantas e planos.

Santo Antônio por piedade,

resguardará Maria dos enganos.





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5 de jun. de 2022

[Crônica] A IMPORTÂNCIA DA LEITURA - Pedro Luso de Carvalho

 

Feira do Livro de Porto Alegre - RS / Brasil


 A  IMPORTÂNCIA  DA  LEITURA                  

                                                                    - Pedro Luso de Carvalho


Pela importância que tem a leitura deve-se começar bem cedo, já na infância, a sua prática. Mas para isso devem os pais estar bem atentos à forma de estímulos a ser empregada, com livros que despertem o interesse da criança, textos curtos e muitos desenhos coloridos. Também devem escolher histórias capazes de diverti-los.

O fato é que muitos são os motivos que desviam as crianças e adolescentes da leitura, como, por exemplo, o esporte, o celular e as redes sociais, que poderão resultar em fracasso inicial, mas pais e professores não deverão deixar de insistir nessa importante tarefa, mas sim rever as fórmulas que foram por eles aplicadas, para que possam saber onde se deu o erro, para que possam mudar de método.

Faz-se necessário, também, que se pense no custo dos livros, cuja aquisição pode ser difícil para muitas famílias, que enfrentam sérias dificuldades em razão da grave crise econômica do Brasil. Para os pais que ganham um salário-mínimo, ou um pouco mais, não sobra dinheiro para a compra de livros para os filhos, cujos preços estão alto demais.

Por isso, os pais que ganham salários muito baixos terão que procurar livros sem nenhum custo nas bibliotecas das escolas onde seus filhos estudam, nas bibliotecas públicas (que são poucas, fora das capitais dos respectivos Estados), ou então poderão comprar livros mais baratos nos “sebos”, como são conhecidas as concorridas livrarias que vendem livros usados.

As pessoas que não puderam criar o hábito da leitura na infância ou na adolescência não devem desistir, pois sempre haverá tempo para se aproximarem dos livros, o que muitas vezes ocorre. A pessoa adulta poderá tornar-se uma grande leitora, com fôlego para muitas leituras. Também é verdade que a tarefa torna-se mais difícil para a pessoa adulta, mas é sabido que a força de vontade certamente compensará todas as dificuldades.




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29 de mai. de 2022

[Poesia] O BAILE – Pedro Luso de Carvalho

 

 Femme au Robe Orange - Brasil



O BAILE

     – Pedro Luso de Carvalho




Na pista de dança

do clube,

som e luzes,

argumento de sobra

aos dançarinos.


E a quase certeza,

de diversão

e alegria,

nesta noite de sábado,

que se inicia.


Músicos da orquestra,

exibição da arte,

abrem o espetáculo,

claro sinal aos casais

de que se inicia o baile.


Melodia e ritmo,

corpos em movimento,

pés ágeis e cúmplices,

e o permitido abraço,

para a dança.


Nesse envolvimento,

deslizam os casais

no salão –

concretude da arte

nesta noite de baile.




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22 de mai. de 2022

[Poesia] A MENINA E A CHUVA – Pedro Luso de Carvalho

 

Praça da Alfandega - Porto Alegre / Brasil




A MENINA E A CHUVA

               – Pedro Luso de Carvalho




A chuva caia incessantemente

na tarde já na beira da noite.

A menina olhava da janela

a rua molhada lá embaixo,

aonde andava trôpega gente.


E continuava a chuva fina,

que se estenderia na tarde.

E a menina ainda lá na janela

diante de uma gota d’água,

gota que na vidraça brilhava.


O deslumbramento da menina

com a brilhante gota da chuva

a descer pelo fio de luz,

chegou na vidraça e explodiu.

Então, do deslumbre fez-se a névoa.




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15 de mai. de 2022

[Crônica] APARTAMENTO À VENDA – Pedro Luso de Carvalho

 

Porto alegre - RS / Brasil



APARTAMENTO À VENDA

               – Pedro Luso de Carvalho



O casal comprou o apartamento no centro da cidade, ainda na sua fase de construção. A incorporadora comprometeu-se entregar o imóvel no prazo de doze meses, na forma do contrato. Depois que se aposentaram, marido e mulher ansiavam pela mudança. Estavam entediados com a vida que levavam no bairro, há muitos anos.

O casal estava familiarizado com o centro de Porto Alegre, onde trabalharam por muitos anos, como funcionários da Assembleia Legislativa, cuja sede fica em frente à Praça da Matriz. Aí costumavam descansar após o almoço, sob suas grandes árvores, de onde avistavam o Rio Guaíba, entre os edifícios.

Portanto, logo estariam livres dos problemas com as quais se deparavam no bairro, com as tantas dificuldades para fazerem suas compras, e ainda a distância do Teatro São Pedro, onde viam quase todas as peças que eram levadas, sempre na dependência do ônibus, do lotação, e às vezes do táxi, com preço mais salgado.

A localização do apartamento, que compraram, não podia ser melhor para eles, que sempre gostaram da Rua dos Andradas, mais conhecida como Rua da Praia, desde os primeiros anos da cidade. Ao lado, fica a Igreja das Dores, em frente a Casa de Cultura Mário Quintana, de onde se vê o Centro Cultural Usina do Gasômetro.

O marido frequentaria os bares, nas imediações da Praça da Alfândega, onde se encontraria com velhos amigos, muitos já aposentados. A mulher não teria dificuldade para frequentar missas e novenas na Igreja das Dores, mesmo sem a companhia do marido, que era um pecador, como sempre dizia às amigas.

Depois da exaustiva espera, o casal iria para o novo lar. Marido e mulher chegaram antes do caminhão de mudança. Percorreram um longo corredor, no andar térreo, até chegarem em frente ao número onze. O marido estava visivelmente nervoso quando abriu a porta do apartamento pela vez primeira.

A mulher ascendia as luzes, enquanto o marido abria as duas janelas, uma lateral e outra de fundos, quando sente uma pressão forte no peito ao ver que o apartamento estava embutido entre dois altos muros, com pouca iluminação natural e desprovido de qualquer vista, em razão da existência dos malditos muros de cimento.

No mesmo dia, o caminhão retornou com a mudança para a velha casa ensolarada, no bairro Petrópolis. Os móveis foram colocados nos seus lugares de origem, como estavam antes. O marido ajuizou ação contra a empreiteira para desfazer a compra, com a vantagem de ter sido indenizado com altos valores.

Hoje, marido e mulher estão felizes no antigo ninho, com o dinheiro que não estava nos seus planos, mas, como costumam dizer: “chegou em boa hora!”. Fizeram depois os necessários reparos na casa, além do plantio de árvores, que servem de moldura ao bem cuidado jardim. E dizem sempre: “O nosso bairro é um paraíso!”.





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8 de mai. de 2022

[Poesia] MEU RETORNO – Pedro Luso de Carvalho

 

Pampa Gaúcho




MEU RETORNO

                – Pedro Luso de Carvalho




Vejo daqui do alto a cidade,

neste meu esperado retorno.

Foram alguns anos ausente,

mas parecia eterno o tempo.


Agora posso abrir os braços,

a cidade e o pampa abraçar,

neste meu retorno desejado,

diante de tantas barreiras. 


Embaixo a cidade e luzes,

pouso sereno do avião,

desço festivo no regresso,

sentimento de um renascer.


Volto sem nenhuma riqueza,

que recompensa posso ter?

Posso ter a minha cidade

e também o pampa sem fim.


Ajusto arreios no cavalo,

ajeito rédeas e os estribos,

e no estribo coloco o pé,

monto e saio galopeando.


E vejo a imensidão do pampa

neste mágico reencontro,

agora que se impõe uma paz

no silêncio da madrugada. 




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2 de mai. de 2022

[Poesia] PERIGOS DA CIDADE – Pedro Luso de Carvalho

 

Porto Alegre - RS / Brasil



PERIGOS DA CIDADE

                          Pedro Luso de Carvalho




O risco está na rua,

aonde passas distraído

num mundo de sonhos,

dores e remorsos –

manchas na alma.


Está ainda na esquina,

ângulo e armadilha

– duas ruas, dois riscos –

aonde caminhas tonto

pelo calor e brilho do sol.


O risco está na praça,

onde a rua desemboca,

quando passeias na tarde,

em que sentas e dormes

com os risos das crianças.


O perigo está na cidade,

na rua e na esquina,

na avenida e na praça,

onde o bandido espreita,

incansavelmente.





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24 de abr. de 2022

[Crônica] SOBRE A INVEJA – Pedro Luso de Carvalho

 

Juarez Machado /  Dance Avec Moi



SOBRE A INVEJA

                    – Pedro Luso de Carvalho




A inveja, esse sentimento de desgosto ou pesar pelo bem ou pela felicidade de outrem (in Dicionário Aurélio), pode ser sentido com surpreendente frequência entre um número extraordinário de pessoas, com as quais convivemos em muitos lugares que frequentamos: no trabalho, nas escolas, nos clubes, nos parques etc.

São alvos dos invejosos as pessoas capazes, realizadas e felizes, que atuam nas mais variadas áreas da sociedade. Pessoas desprovidas de boas qualidades, ao contrário, não despertam esse sentimento de desgosto ou pesar por não terem felicidade alguma para demonstrar ao invejoso.

A inveja pode aparecer com clareza em quase todos os atos praticados pela pessoa invejosa, por se tratar de sentimento de difícil controle. Diante de uma estante de livros de um amigo, por exemplo, o invejoso poderá perguntar: “Você lê mesmo todos esses livros?” Ou então poderá afirmar, sem o menor constrangimento: “Esse monte de livros está aí apenas para servir de decoração”.

Outros exemplos podem mostrar, a quem estiver atento a uma conversa, o modo de agir da pessoa invejosa: “Machado de Assis?” pergunta, para depois afirmar: “Machado está ultrapassado”.

Pior será quando, nos depararmos, em certas ocasiões, com quem nos aconselha, por inveja, a seguir outro caminho que não o escolhido por nós, sob o pretexto de que nele há muitos riscos.

Prestemos atenção a essas pessoas que são movidas pelo amargo sentimento da inveja.





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18 de abr. de 2022

[Poesia] LIÇÕES DA NATUREZA – Pedro Luso de Carvalho





 LIÇÕES DA NATUREZA

                     – Pedro Luso de Carvalho



Sentei-me para escrever.

Queria dizer coisas boas

como na infância dizia,

mas nada escrevo,

pois este é outro tempo.


Levanto-me da cadeira

vou à janela

vejo nuvens escuras

na escura tarde,

vejo o vento forte

vindo do Norte,

na praça em frente,

vento nas árvores

açoites nas copas

folhas arrancadas

galhos quebrados,

firmes só os troncos.


De repente o sinal.

Somem as nuvens

brilha o sol

calor do sol

árvores aquecidas

no forte embate,

do vento e do sol –

o vento vencido.


Copas recompostas

folhas e galhos refeitos

cada um no seu lugar,

e vejo da janela

o vento agora calmo,

antes o vento forte,

a retornar para o Norte.




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11 de abr. de 2022

[Poesia] O GATO PRETO – Pedro Luso de Carvalho






O GATO PRETO

Pedro Luso de Carvalho



A noite parecia ser grande ameaça,

não era qualquer noite como outras,

as lâmpadas apagadas nos postes,

naquela noite de escuridão e medo.


Não vi o gato preto atravessar a rua,

o gato e a noite eram da mesma cor.

O gato, enigma e mistério da noite,

que com miados rasgou o silêncio.


Se na escuridão imperava o medo,

o que posso dizer do gato preto,

na repentina aparição na noite,

na rua deserta da cidade morta?


O medo tirava o ritmo do coração,

no escuro morada dos fantasmas,

fantasmas em danças macabras,

em alucinante dança jamais vista.


Depois, na manhã dourada de sol

na grama do cemitério acordei,

aí onde ronronava o gato preto

próximo a túmulos e ciprestes.




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4 de abr. de 2022

[Crônica] FAÇA O QUE EU DIGO – Pedro Luso de Carvalho

 




        FAÇA O QUE EU DIGO

            - Pedro Luso de Carvalho      



Todos certamente conhecem alguém que está sempre à nossa disposição para dar seus conselhos, pouco se importando se o pedem ou se alguém têm a intenção de recebê-los. Essas pessoas, que têm um gosto especial pelas suas próprias opiniões, iniciam as suas sessões de aconselhamentos logo que ouvem uma simples queixa de alguém que está próximo. Essa queixa pode ser o sinal para um rosário de conselhos.

O pior é que nem todas as pessoas que caiem na rede dos conselheiros estão preparadas para esse tipo de enfrentamento. Daí a dificuldade que tem para livrar-se dessas pessoas opiniáticas e intrometidas.

Faz-se necessário, pois, que estejam preparados para resolverem problemas criados por essas pessoas inconvenientes, que estão sempre prontas para o seu assédio, com o fito de interferir em vidas alheias. Essa situação é agravada pelo fato de que os conselheiros acreditam que todos os escutam atentamente, e as suas recomendações serão observadas.

À primeira vista, o incômodo que os conselheiros causam pode parecer de pouca importância, e que com paciência livram-se deles. Ledo engano. Pode-se ouvir tudo o que dizem, mas não que suas opiniões emitidas serão aceitas por quem as ouve.

Mas, parar de falar, os conselheiros não param. Na realidade, eles somente param depois de dizerem tudo o que pensam ser valioso para os seus ouvintes. Estes, no entanto, pagam o preço por serem educados, embora já carentes de paciência. Pior ainda, os aconselhados sentem-se em desespero por não encontrarem nenhum meio eficaz para administrar essa situação, e, então, são tomados de incontrolável fúria, que só não transparecerá graças ao seu esforço mental.

Depois dos esforços para suportar a fala dos conselheiros, vem o aborrecimento das suas vítimas. Por isso, é necessário o uso de todos os meios possíveis para que parem com seus conselhos. E como medida preventiva, evita-se esses assédios com lembretes para isso, com os nomes deles (mentores) num pequeno caderno ou no celular, que fique ao seu alcance, para que possam identificá-los; o passo seguinte será a fuga do aconselhado (vítima) do local em que se encontra o conselheiro.

Essa medida preventiva, contra a ação desses conselheiros não pode ficar restrita ao caderno ou no celular, nos quais constam os seus nomes (conselheiros), já que outros tantos, que ainda não são conhecidos, andam por aí, sôfregos, à procura de alguém para dar a suas sábias orientações de vida, para dizerem o que os aconselhados devem fazer, nesta ou naquela situação.

E, pobre de quem tentar convencer os conselheiros de que devem deixar que cada um resolva os seus problemas, nos limites de suas possibilidades. Premidos pela incontrolável compulsão de falar, saem às tontas em busca de alguém para dar os seus sábios conselhos.

Diga-se, que os conselheiros fazem costumeiramente uma exposição de motivos ao aconselhado, visando sempre orientá-lo para que tenha uma vida melhor, segundo pensam esses mentores. Depois dizem à sua vítima abordada, que ela deve saber ouvir os seus bons conselhos, que visam o seu bem. E sempre que encerram a conversa, dizem à infeliz vítima, que os ouve:

Faça o que eu digo.




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