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15 de jun. de 2024

UM CASAMENTO - Pedro Luso de Carvalho

 

Drinque - Juarez Machado   /   Das Artes


   UM CASAMENTO

             Pedro Luso de Carvalho



Era madrugada de sábado,

uma garrafa sobre a mesa,

whisky quase pela metade,

o casal discute sem freios.


A linda mulher engordou,

a linda mulher bebe muito,

a linda mulher mal se cuida,

parece a vida desprezar.


Olha o descarado falando!

Você que não é mais o mesmo,

aquele que amei onde está?

Fui iludida, seu trapaceiro!


A garrafa quase vazia,

o sono derruba o casal,

a mulher dorme no chão frio,

o marido dorme ao seu lado.




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31 de mai. de 2024

TARDES DE ESPERA - Pedro Luso de Carvalho




     TARDES DE ESPERA

     – Pedro Luso de Carvalho



Havia um peso no ar na tarde,

a luz prisioneira da bruma,

a jovem tinha mãos geladas

e brilho nos olhos azuis.


Logo o manto da noite desce,

a tarde é uma lembrança,

soma de esperança da jovem;

espera seu amado na tarde.


É espera desesperada,

esperança por sucumbir,

promessa da volta quebrada,

ou mera precipitação.


As tardes se pareciam,

e o tempo mudou a jovem,

seus cabelos ficaram brancos,

e já não sabe a quem espera.




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15 de mai. de 2024

[crônica] O PASSADO É LOGO ALI - Pedro Luso de Carvalho

 



       O PASSADO É LOGO ALI - Crônica

                               – Pedro Luso de Carvalho



De que valeu o sacrifício no decorrer desse tempo? – perguntava o homem soturno, para si mesmo. E ainda se questionava: era isso o que a vida tinha para me dar, depois do tanto que fiz, depois de tantas renúncias?

O homem sentia que os caminhos, pelos quais andou, não eram motivos para se envaidecer, mas ter ciência disso de nada lhe servia, agora que já não tem mais o mesmo brilho nos olhos, agora que não tem o ímpeto que tinha para sempre avançar.

Recrimina-se, o homem, por não ter sabido escolher os seus caminhos, por não ter evitado as tantas encruzilhas traiçoeiras; e também pelo sofrimento que causou – tantos foram os seus amores –, deixando rastos de ninhos desfeitos.

O homem lembra-se da infância com saudade, e quer sentir o perfume das macieiras no pomar, amadurecendo; quer ouvir o cântico das águas do riacho correndo entre os arbustos; quer ver a lua no escuro da noite, brilhando entre as árvores.

O homem quer voltar àquele mágico tempo, em que era acolhido pelas árvores, com as quais tinha indestrutíveis laços de amor. Tempo em que o corpo do menino tinha a proteção dos ramos que o cobriam, quando havia sol ou chuva.

Então pressentiu, o homem soturno, que ainda poderia encontrar a salvação, pois tinha visto que o passado é logo ali.





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1 de mai. de 2024

INSENSATEZ - Pedro Luso de Carvalho

 

                 




   INSENSATEZ

         - Pedro Luso de Carvalho



Eu sempre tive grandes propósitos,

mas não queria o mundo assim,

e como estava não me servia.



Eu queria o sol multiplicado,

brilho sem conta na manhã cálida,

no orvalho a festa de muitos sóis.



E a natureza toda festiva,

é a natureza em euforia,

merecido desfrute da vida.



Mais tarde a mudança repentina,

e da brisa veio a tempestade,

do tépido sol veio o incêndio.



Do clarão e estalidos das chamas,

tanta morte de animais e gente,

e a natureza morre um pouco.



Onde ficaram os meus propósitos?

Onde está esse mundo melhor?

Esses são os meus sonhos perdidos.




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16 de abr. de 2024

AS DORES DO MUNDO – Pedro Luso de Carvalho

 




      AS DORES DO MUNDO

                     – Pedro Luso de Carvalho



São muitas as dores do mundo,

essas dores do mundo são minhas,

fome nos olhos do menino

acusa minha inutilidade.


São muitas as dores do mundo,

tenho no peito a marca da dor,

ao ver prisão por furto de pão,

então vi a justiça que não se fez.


São muitas as dores do mundo,

e muito mais viram os meus olhos,

crimes que muitos olhos viram,

lá na Ucrânia e na Faixa de Gaza.


São muitas as dores do mundo,

ausência de consolo na guerra,

ferocidade do bicho homem,

terra e sangue é sua paisagem.




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3 de abr. de 2024

[conto] UMA ALMA ATORMENTADA - Pedro Luso de Carvalho

 

Porto Alegre - RS / Brasil


UMA   ALMA   ATORMENTADA

          -  Pedro Luso de Carvalho



          Belizário Lemos sentia-se fracassado nessa altura da vida. Nem tudo havia saído como esperava. Formou-se em economia por influência do pai. Isso por que durante a ditadura militar os economistas estavam em alta. Eles quase não saiam da mídia, para, entre outras coisas, falar sobre conglomerados financeiros.

Economia é a profissão do futuro – profetizava o pai.

Se o senhor pensa assim, sigo seu conselho.

Depois de formado, Belizário pretendia aplicar na prática o pouco que aprendera na universidade. Escreveu cartas a muitas empresas oferecendo seus serviços. Também tentou concursos públicos. Tudo em vão.

Próximo de seus quarenta anos, Belizário não pensava em casamento. Trabalhar era seu único objetivo. A sua experiência nessa busca ensinara-lhe a ter paciência e perseverança. Mas agora desconfiava não poder contar com essas qualidades.

Alguns anos haviam se passado. Belizário ainda morava com os pais, que já estavam um pouco curvados pela idade. O pai tentou ajudá-lo, procurando um general do exército por quem tinha especial admiração.

Venho pedir-lhe, general, que o senhor interceda por meu filho.

O general foi objetivo na sua resposta:

O que pode um general de pijama fazer por seu filho?

Essa negativa do general levou Belizário a uma profunda depressão. Então não mais encaminhou seu currículo às empresas, desistiu dos concursos públicos, e tornou-se recluso em seu quarto. Foi durante esse período nebuloso que tomou uma drástica decisão:

Vou me matar!

Mas não seria dessa vez que o atestado de óbito de Belizário Lemos seria lavrado. Nessa primeira tentativa o medo travou o dedo no gatilho do velho revólver.

Na próxima vez eu me mato – disse para si.

Na segunda tentativa Belizário passou pela mesma frustração. Mas não desistiria. Nas noites insones planejava o suicídio. Nessa época, uma crise nervosa levou-o a quebrar a velha cristaleira com muitas peças raras. Foi o sinal para executar seu plano.

É hoje ou nunca!

Essa decisão ocorreu numa manhã ensolarada de outono. Belizário deixou seu quarto e saiu em direção a um edifício na Rua da Ladeira, no centro da cidade. Era o prédio escolhido para o que se propunha.

O elevador deixou Belizário no último andar. Faltava um lanço de escada para chegar ao terraço. Já no alto sentiu-se envolver por uma suave brisa do rio Guaíba. Não ficou indiferente à beleza da paisagem à sua frente. Lá embaixo a vida continuava na sua normalidade.

Na Rua da Ladeira, as pessoas entravam e saiam das lojas, dos bancos, dos bares.

Entre um edifício e outro jazia Belizário Lemos.





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18 de mar. de 2024

[Poesia] A CASA ABANDONADA - Pedro Luso de Carvalho

 




A CASA  ABANDONADA

        - Pedro Luso de Carvalho



Festas e risos na casa,

inveja de muitos,

amor no seio da casa

duas almas guardadas,

tesouro vigiado.



Um dia Maria partiu

na madrugada fria,

como fazem os ladrões,

sem se importar com quem ficou.



Lá ficou João que amava Maria,

de Maria não mais falava,

na casa triste,

carente dos risos

e da voz doce que o encantava.



Grande demais era a casa

para João,

tão pequeno,

sem Maria.



Hoje, os que passam à noite

em frente da silenciosa casa,

ouvem gritos de dor

e uma voz a chamar:

Maria! Maria!




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4 de mar. de 2024

[conto] O MENINO - Pedro Luso de Carvalho

 



O MENINO

                              - Pedro Luso de Carvalho



      Manuel, homem dedicado à família e ao trabalho, aos domingos deixava a fazenda bem cedo, com a mulher e o filho, para chegar à igreja da vila antes do início da missa. Não se esquecia da advertência do padre Onofre: “Às dez horas começa a Santa Missa, caros irmãos, com a pontualidade que deve ser respeitada”.

Embora fosse homem de poucas rezas, Manuel apreciava os sermões breves do padre Onofre. Diante dele, não se sentia pecador por não dedicar mais tempo à igreja. Mas não se esquecia do que sempre dizia, do púlpito: “A qualquer momento, podemos ser chamados para prestar contas ao Senhor”.

Era um domingo, Manuel dirigia o carro com desatenção, lembrando-se do filho de cinco anos, que perdeu. Nessas viagens, que faziam para assistirem à missa, sentia o frio de sua ausência. Desviava os olhos da estrada, às vezes, para olhar sua mulher. Vi-a triste, por não se conformar com a morte do menino.

No vilarejo, algumas pessoas perguntavam ao padre Onofre qual fora o motivo da morte do menino. Para acabar com a curiosidade, o padre resolveu fazer a pergunta ao Manuel. No dia e na hora marcada Manuel entrou na sacristia, onde o padre esperava por ele. Curvou-se para beijar o anel na mão do padre Onofre.

Padre, eu poderia ter evitado a morte do meu filho.

Estou aqui para ouvi-lo, Manuel.

Como o senhor sabe, meu filho era uma criança dócil. Era um anjo, como dizia a mãe.

O homem contou ao padre que, quando seu filho tinha pouco mais de quatro anos encantou-se com o arvoredo; falou da preferência do menino por quatro árvores, muito grandes, entre outras tantas, que cobriam uma parte do terreno da sua fazenda. “As quatro árvores tinham nomes, que foram dados por meu filho”, disse Manuel.

Fale mais sobre o menino – pediu-lhe o padre.

Cerquei essa parte da fazenda, como a mulher havia pedido.

Não se acanhe, prossiga.

Um tanto nervoso, Manuel explicou que foi sua intenção ampliar os estábulos da fazenda, e que, para isso, teria que limpar o terreno com o corte das árvores. Disse-lhe que havia falado à mulher sobre esses planos, e que ela se opôs com energia: “Não faça isso, essas árvores são os amiguinhos do nosso filho, homem”.

Continue – pediu-lhe padre Onofre.

Manuel contou ao padre Onofre que não quis ouvir a mulher, e que certo dia mandou o menino para a casa de uma tia, na cidade, para que ele não visse o corte das árvores. “Padre, quando o menino voltou para casa, correu ao encontro de suas árvores e encontrou apenas os tocos delas, muitos tocos” – disse, com esforço.

Quando meu filho viu os tocos das suas árvores, padre, passou a gritar como se estivesse louco.

Prossiga, Manuel.

Depois o menino abraçou um dos troncos, repetindo os nomes das suas árvores favoritas.

Continue – disse padre Onofre.

Após esse dia, padre, o menino não comeu mais. A mãe pedia que comesse alguma coisa, mas ele se recusava. Chamei um médico, ele receitou alguns remédios, mas o menino não tomou.

Condoído pelo estado de espírito de Manuel, que tinha os olhos marejados, muito nervoso, tremendo algumas vezes, padre Onofre levantou-se e colocou a mão sobre o ombro do homem, para confortá-lo. Esperou um pouco, depois pediu a ele para continuar.

Faz mais de um ano que perdemos nosso filho, padre Onofre – concluiu Manuel.

No meio da tarde, o homem despediu-se do padre Onofre. Na estrada, que cortava em duas partes o campo amplo à sua frente, Manuel levava consigo o mesmo sentimento de culpa. Talvez a ação do sol forte sobre o para-brisa do carro tivesse lhe dado à impressão de que seu filho o acompanhava, correndo sobre o asfalto.

Quando Manuel chegou em casa, sua mulher esperava-o ansiosa, querendo saber o que a conversa com o padre Onofre poderia acrescentar na vida do casal. Mantinha a esperança de que o padre tivesse iluminado o marido. A pressão no peito foi o sinal de que alguma coisa estava por acontecer, para aliviar a dor e a saudade.

Mulher, amanhã nós vamos começar a plantar muitas árvores; vamos refazer o arvoredo do nosso filho – disse Manuel, com firmeza.

As muitas árvores, que foram plantadas, cresceram robustas, criando um colar verde em torno da casa. Os passarinhos ali construíram os seus ninhos. Manuel e a mulher envelheceram. Em frente ao arvoredo eles sentiam a presença viva do filho, e, às vezes, o viam correr risonho por entre as árvores, como sempre fazia.




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23 de fev. de 2024

ANSIEDADE – Pedro Luso de Carvalho

 




ANSIEDADE

    - Pedro Luso de Carvalho



Há um grito preso no peito,

um grito de revolta e dor,

crianças morrendo de fome,

diante de pratos vazios.


O grito preso é punhal,

punhal a ferir consciência,

tanta fome para matar,

as crianças para salvar.


O grito permanece preso,

e no peito o mesmo punhal,

e a fome nas casas humildes

estenderá manto de morte.


Mas quem sabe solte esse grito,

esse punhal preso no peito,

quando honestos forem eleitos

e a fome uma mancha na história.




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13 de fev. de 2024

[Filosofia] SOMOS NÓS, OS LOUCOS? – Pedro Luso de Carvalho


       Grito 1984 - Iberê Camargo - Porto Alegre/Brasil    Das Artes         





                 SOMOS NÓS, OS LOUCOS?

                           - PedrLuso de Carvalho




Quando convivemos com pessoas mentalmente desequilibradas, podemos duvidar de nossa própria sanidade, caso essas pessoas consigam nos impor suas vontades e suas ideias.

É quase certo que conseguirão esse intento mediante ardis engendrados contra nós, que serão imperceptíveis.


 

 

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4 de fev. de 2024

FÚRIA DA NATUREZA – Pedro Luso de Carvalho




 

FÚRIA DA NATUREZA

Pedro Luso de Carvalho




As águas estão sossegadas,

o rio corre calmamente,

protegido pelas margens,

encantado pelo murmúrio.


Depois se mostra outro rio,

um rio em pleno desatino,

furioso como toda gente,

que faz das matas carvão.


O rio pede ajuda ao vento,

depois ventania e furacão,

pronto para tudo destruir,

animais e gente as vítimas.


Vinga-se então a natureza,

amostra do que virá depois,

mais destruição ainda virá,

já que a ambição nada vê.





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29 de jan. de 2024

DESCRENÇA – Pedro Luso de Carvalho

 




DESCRENÇA

       – Pedro Luso de Carvalho



A roda do mundo não muda,

é a mesma roda a girar,

gira e gira enlouquecida

com gente ruim a comandar.


Passa século e entra século

sempre do mesmo jeito,

sempre com a mesma fúria,

roda de dor e de morte.


Prossegue a roda do mundo,

busca incontida do lucro,

mistura de ouro e sangue,

e a roda sobre cadáveres.


A roda do mundo não para,

é dos poderosos a roda,

mães e filhos não importam,

antes da vida lucro e poder.




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