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18 de set de 2016

[crônica] PEDRO LUSO – Momento de dúvida



[ESPAÇO DA CRÔNICA]



   MOMENTO DE DÚVIDA
     – PEDRO LUSO DE CARVALHO


Naquele dia de eleição, saí de casa às pressas para chegar a tempo na minha seção eleitoral. Quando lá cheguei, a votação já estava por ser encerrada. Os mesários responsáveis pela seção pareciam estafados. Um deles, o mesário-presidente, pediu-me o título de eleitor, depois folheou um livro grande à procura do meu nome.
Estava em frente à urna eletrônica mexendo nos meus bolsos para ver se encontrava um papelzinho, que havia escrito com os nomes dos candidatos, para fazer minha escolha. Como não o encontrei, procurei socorrer-me de uma lista de candidatos, com letras enormes, que via na sala através do vidro da cabine.
Escolhi aleatoriamente um dos nomes que estava na lista, colada na parede da sala. Digitei o número do candidato, e logo a sua foto, que encheu a tela da urna, mostrou-me uma pessoa desonesta. Na segunda tentativa, digitei o número de uma candidata, e a foto da urna mostrou-me uma mulher também não confiável.
Na minha terceira tentativa digitei o número de outro candidato, e a sua fotografia, que veio à tela, disse-me que ele não seria capaz de honrar o voto de quem quer que seja. Portanto, como ocorreu com os candidatos antes referidos, também este, da terceira tentativa, não teria o seu nome sufragado na urna por mim.
Essa incerteza que tive em quem votar tirou-me a noção do tempo. Ao lado da urna, onde me encontrava, ouvi o cochicho nervoso dos mesários, que, por já ter passado das cinco horas, teriam de encerrar a votação. Então tomei a decisão: digitei a tecla de voto nulo para deputado e também para os demais candidatos.
Deixei a cabine e me desculpei com os mesários, pelo atraso que causei. Depois, cheguei a pensar em dizer a eles que anulei o meu voto, mas desisti. Não me esqueço, no entanto, que saí da seção, na qual anulei o voto, com o espírito leve, por saber que não me tornaria cúmplice de políticos, na prática de seus crimes.

   
      
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11 de set de 2016

[crônica] PEDRO LUSO – Os tempos modernos



  [ESPAÇO DA CRÔNICA]
  
 OS TEMPOS MODERNOS
 – PEDRO LUSO DE CARVALHO



Naquela tarde de outono eu caminhava distraído por uma das ruas do bairro onde moro, quando encontrei um amigo, que não via há alguns anos. Como estávamos em frente a uma cafeteria, fiz o convite para entrarmos, onde poderíamos iniciar a nossa conversa.
Quando terminamos as nossas xícaras de café, já estávamos bastante adiantado na conversa, que há minutos fora começada. No início, recordamos daqueles tempos em que nos preocupávamos com os resultados dos exames vestibulares, que havíamos feito.
Depois, falamos sobre assuntos variados, sem fazermos uma única menção à política e aos políticos, temas que estiveram sempre presentes em nossas conversas de estudantes idealistas, que desconheciam a sordidez e a ignomínia de que eles são capazes.
Hoje, já próximo à primavera, lembrei-me dos fatos que me foram contados por esse amigo, relacionados com a sua família, para a qual muito se dedicou, sem em nada transigir, a começar pela educação do casal de filhos, em colaboração com a esposa.
Contou-me o amigo, que há tempo passa por sérias dificuldades depois que o enfarto tirou a vida da esposa, e depois que a filha envolveu-se com drogas, por influência do namorado, que a influenciou também a abandonar o seu curso universitário.
Falou-me, com tristeza, da netinha que está sob os seus cuidados, porque sua filha não aceita a criança, recusando-se assumir a sua responsabilidade de mãe, embora ele tivesse feito todo o esforço , sem êxito, para convencê-la a voltar para casa.
Quando perguntei ao meu amigo, como estava o seu filho, que eu havia conhecido na sua adolescência, ele baixou a cabeça por alguns instantes, um pouco ofegante, depois respondeu, olhando-me nos olhos: “Ele também abandonou tudo, por causa das drogas”.
Não demorei a ver que esse amigo não é mais a mesma pessoa que conheci quando estávamos prestes a ingressar na universidade. Não apenas pela passagem dos anos, mas principalmente por todos os problemas que se vê obrigado a enfrentar na sua relação familiar.
Quando percebi que meu amigo estava desconfortável com nossa conversa, estendi-lhe a mão, para dele me despedir. No momento da despedida, ouvi dele a queixa: “É isso, amigo, a minha desgraça é a consequência desses malditos tempos modernos”.
Dito isso, deu-me as costas e retomou a caminhada rumo à sua casa. Eu fiquei ali, na calçada, por mais algum tempo, até ver afastar-se o meu amigo, precocemente envelhecido, com passos lentos, quase arrastados, arremedo do que foi o jovem idealista. jovem idealista.



   
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4 de set de 2016

[crônica] PEDRO LUSO – Apartamento à venda





    [ESPAÇO DA CRÔNICA]


    APARTAMENTO À VENDA
        – PEDRO LUSO DE CARVALHO


O casal comprou o apartamento no centro da cidade, ainda na sua fase de construção. A incorporadora comprometeu-se entregar o imóvel no prazo de doze meses, na forma do contrato. Depois que se aposentaram, marido e mulher ansiavam pela mudança. Estavam entediados com a vida que levavam no bairro, há muitos anos.
O casal estava familiarizado com o centro de Porto Alegre, onde trabalharam por muitos anos, como funcionários da Assembleia Legislativa, cuja sede fica em frente à Praça da Matriz. Aí costumavam descansar após o almoço, sob suas grandes árvores, de onde avistavam o Rio Guaíba, entre os edifícios.
Portanto, logo estariam livres dos problemas com as quais se deparavam no bairro, com as tantas dificuldades para fazerem suas compras, e ainda a distância do Teatro São Pedro, onde viam quase todas as peças que eram levadas, sempre na dependência do ônibus, da lotação, e às vezes do táxi, com preço mais salgado.
A localização do apartamento, que compraram, não podia ser melhor para eles, que sempre gostaram da Rua dos Andradas, mais conhecida como Rua da Praia, desde os primeiros anos da cidade. Ao lado, fica a Igreja das Dores, em frente a Casa de Cultura Mário Quintana, de onde se vê o Centro Cultural Usina do Gasômetro.
O marido frequentaria os bares, nas imediações da Praça da Alfândega, onde se encontraria com velhos amigos, muitos já aposentados. A mulher não teria dificuldade para frequentar missas e novenas na Igreja das Dores, mesmo sem a companhia do marido, que era um pecador, como sempre dizia às amigas.
Depois da exaustiva espera, o casal iria para o novo lar. Marido e mulher chegaram antes do caminhão de mudança. Percorreram um longo corredor, no andar térreo, até chegarem em frente ao número onze. O marido estava visivelmente nervoso quando abriu a porta do apartamento pela vez primeira.
A mulher ascendia as luzes, enquanto o marido abria as duas janelas, uma lateral e outra de fundos, quando sente uma pressão forte no peito ao ver que o apartamento estava embutido entre dois altos muros, com pouca iluminação natural e desprovido de qualquer vista, em razão da existência dos malditos muros de cimento.
No mesmo dia, o caminhão retornou com a mudança para a velha casa ensolarada, no bairro Petrópolis. Os móveis foram colocados nos seus lugares de origem, como estavam antes. O marido ajuizou ação contra a empreiteira para desfazer a compra, com a vantagem de ter sido indenizado com altos valores.
Hoje, marido e mulher estão felizes no antigo ninho, com o dinheiro que não estava nos seus planos, mas, como costumam dizer: “chegou em boa hora!”. Fizeram depois os necessários reparos na casa, além do plantio de árvores, que servem de moldura ao bem cuidado jardim. E dizem sempre: “O nosso bairro é um paraíso!”.


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28 de ago de 2016

[crônica] PEDRO LUSO - A mulher de meia-idade





            [ESPAÇO DA CRÔNICA]
       
          A MULHER DE MEIA-IDADE
           – PEDRO LUSO DE CARVALHO

Sei que me lembrarei em todas as eleições daquela mulher de meia-idade, que conheci na secção em que voto, há pouco mais de dois anos, quando se deu a última eleição para a presidência da República.
Por estar ela ainda bem viva na memória, pressinto que nos encontremos na mesma secção eleitoral, no dia três de outubro, quando votaremos para escolher prefeito e vereadores do município.
É bem verdade que é meu desejo encontrar aquela mulher de meia-idade, como é verdade que não tenho nenhuma vontade de ir às urnas para depositar o meu voto, por não sentir nisso nem emoção nem interesse.
É verdade que me sinto inquieto quando penso em encontrá-la, em razão dos fatos ocorridos naquela época, há dois anos, quando se deu a eleição para presidência da República. Estará bem, a mulher de meia-idade?
Parece-me que foi ontem que a vi apoiada em duas muletas, fazendo um esforço sobre-humano para chegar à secção em que votava, pois já estava na hora de terminar a votação. Faltavam apenas dois minutos.
A mulher de meia-idade apoiava-se nas muletas e as lançava para diante do corpo para depois impulsionar-se para frente, completando a caminhada ao puxar as pernas atrofiadas, que eram arrastadas por ela.
Naquele momento, tive o ímpeto de ajudar a mulher de meia-idade para que ela pudesse chegar a tempo à urna, mas logo desisti desse intento, pois entendi que ela poderia desaprovar o meu pretenso gesto.
No dia das eleições, três de outubro, pretendo ficar em frente ao prédio da secção eleitoral, em que ela e eu votamos, na esperança de encontrá-la. Quero rever essa mulher tenaz, que a vi arrastar-se para votar.
Ficarei no pátio do prédio, à sombra de uma figueira, onde irei votar – por ser o voto obrigatório –, à espera daquela obstinada mulher de meia-idade, se é que ela ainda tem alguma esperança nos políticos.


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21 de ago de 2016

[crônica] PEDRO LUSO – Talento perdido




  [ESPAÇO DA CRÔNICA]


TALENTO PERDIDO
PEDRO LUSO DE CARVALHO


Como vem se repetindo há anos, sempre que os políticos se mexem para escolher os seus candidatos à presidência da República vem-me à lembrança o feito daquele amigo extrovertido e carismático, que meteu na cabeça que poderia voar.
Em pouco tempo, ele me convenceu de que o seu projeto de voar daria certo. Eu e alguns amigos ficamos convencidos que ele iria realizar a proeza de voar, com as asas que ele mesmo havia construído, e que pretendia patenteá-las.
Embora eu tivesse sido convencido, por força da sua capacidade de persuasão, de que não seria difícil para ele voar, arrisquei-me aconselhá-lo a candidatar-se a vereador. Ele argumentou que voar daria menos trabalho.
Certo dia, ele combinou encontrar-se comigo e mais três amigos para falar de seu voo. “Vai ser na próxima segunda-feira”, afirmou. Saltaria de um edifício de vinte andares, no centro da cidade. Nesse dia, lá estávamos para presenciar o feito do amigo.
Escolhemos um prédio alto, que ficava em frente ao edifício escolhido por ele para empreender o seu voo. Ficamos, meus amigos e eu, no terraço, acima do vigésimo andar, ao lado das duas caixas de água do prédio.
De repente nosso amigo surgiu no terraço do prédio em frente ao que estávamos, também acima do vigésimo andar, com duas asas enormes presas nos seus braços, estampando no rosto avermelhado um largo sorriso.
Ele então acenou para nós, numa espécie de aviso de que iria voar, e depois foi até os fundos do terraço, de onde voltou correndo até a beira do prédio e saltou com as asas abertas para o voo, quando vimos seu corpo projetar-se no espaço vazio.
Eu fiquei ali, no alto do edifício, com meus três amigos, com medo de olhar lá para baixo. Lembro-me apenas de ter dito a eles que o nosso falecido amigo bem que poderia ter escolhido a política, pois para isso talento não lhe faltava.

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14 de ago de 2016

[crônica] PEDRO LUSO – O hábito da leitura






      [ESPAÇO DA CRÔNICA]


       O HÁBITO DA LEITURA
     – PEDRO LUSO DE CARVALHO



Não raro recebo mensagens de jovens e de adultos que dizem que gostariam de ter o hábito da leitura, pois não se sentem com o ânimo necessário para se aventurarem em leituras que exigem deles o dispêndio de muito tempo.
Dizem alguns, que se sentem frustrados quando fecham o livro iniciado sem chegarem ao final da história ou do poema. Dizem, ainda, que gostariam de continuar com a leitura iniciada, mas desistem.
Então, pedem que lhes indique qual o método que poderá levá-los a aprendizagem da leitura. (Isso, em se tratando de ficção, já que muitos estão interessados em outras leituras, que não ficção ou poesia.)
A resposta para essa pergunta, que pode parecer fácil é, ao contrário, bastante difícil. Para cada pessoa deve-se aplicar um método que se adapte com sua idade, escolaridade, sensibilidade, aspirações.
Daí podemos concluir que as pessoas mais indicadas para dar esse tipo de orientação são os professores, já que no dia a dia da vida escolar podem observar quais são as tendências e aspirações de seus alunos.
Quanto aos adultos, que não mais frequentam bancos escolares, deverão eles escolher o que mais se aproxima de seu gosto, que pode ser romance, conto, crônica ou poesia. Isso não quer dizer que não possam aderir a todos esses gêneros.
Depois que esse adulto estabelecer uma hora adequada para a prática da leitura, em lugar igualmente adequado, estará iniciada a rotina para as suas leituras, desde que não desista dessa importante empreitada.
Portanto, para as pessoas adultas, que não mais frequentam os bancos escolares, a aquisição do hábito da leitura dependerá unicamente deles próprios. Portanto, vontade e determinação é a receita para atingirem esse objetivo.


  
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7 de ago de 2016

[crônica] PEDRO LUSO – Pintor Antonio Dias





       [ESPAÇO DA CRÔNICA]
      
       PINTOR ANTONIO DIAS

         – PEDRO LUSO DE CARVALHO                                                                                                


                
Na visita que fiz a Pedro Escosteguy e sua esposa Marília, no Rio de Janeiro, há algumas décadas, conheci Antônio Dias, que havia chegado de Paris com sua mulher e se encontravam hospedados no apartamento do casal, no Leme. Essa reunião com a família do Escosteguy deveu-se às festividades natalinas e à entrada do novo ano.
Ainda guardo as boas lembranças daqueles trinta dias que passei no Rio, onde travei conhecimento com o movimento de vanguarda das artes plásticas, no qual estavam inseridos Antonio Dias, Pedro Escosteguy, Carlos Vergara, Glauco Rodrigues, Helio Oiticica, Rubens Gerchman, entre outros.
Para quem era ainda estudante e não estava ligado às artes plásticas, como era o meu caso, essa experiência foi enriquecedora. O que eu conhecia de pintura não era nenhum pouco parecido com o que criavam aqueles pintores, que escandalizavam os adeptos da pintura clássica e moderna com uma arte plástica de vanguarda que rompia os padrões predominantes.
Numa das madrugadas que Antonio Dias pintava no ateliê de Escosteguy, nessas férias de fim de ano, ouvi dele uma queixa contra a Escola Nacional de Belas Artes, do Rio, na qual havia ingressado e desistido depois de seis meses: “Levei quase um ano para reencontrar minha pintura, depois que deixei a escola belas artes”.
Os anos foram se sucedendo, mas aqui e ali sempre li alguma coisa sobre Antonio Dias em livros, revistas ou jornais do Rio e de São Paulo. Há alguns anos encontrei numa livraria de livros usados Caminhos da danação, de Péricles Leal, romance cuja capa tem a arte de Antonio Dias (ed. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1966).
Pessoalmente, tive apenas um segundo encontro com Antonio Dias, que se deu no Auditório da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no dia 24 de junho de 1996, quando ele veio a Porto Alegre para apresentar e autografar o livro póstumo de Pedro Geraldo Escosteguy, Poesia reunida, a convite da viúva Marília Escosteguy.
Compareci nessa noite de autógrafos com Taís, minha mulher; ouvimos Antonio Dias falar sobre o livro de Pedro Geraldo Escosteguy, Poesia reunida, e depois colhemos de Antonio o seu autógrafo: “Para Taís e Pedro com a minha amizade. Antonio Dias”.
Quando conversávamos com Antonio Dias no salão nobre da universidade, após a sessão de autógrafos, ele retirou o livro de minhas mãos e desenhou uma espécie de bandeira com longa haste no alto da mesma página autografada; depois nos despedimos de Antonio. (No blog de artes da Taís há uma excelente matéria sobre o pintor; para ler, clique em: Antonio Dias.)
  

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30 de jul de 2016

[crônica] PEDRO LUSO – Políticos profissionais




  [ESPAÇO DA CRÔNICA]


POLÍTICOS PROFISSIONAIS
PEDRO LUSO DE CARVALHO


No mundo da política profissional, não se espera que existam homens e mulheres que militem em prol da sociedade. Eles escolhem esse caminho para facilitar as suas próprias vidas, com seus elevados salários, se comparados com a maioria dos salários dos demais brasileiros.
São esses homens e essas mulheres – os políticos – que estão sempre atentos para a criação de fórmulas mágicas para, na penumbra das casas legislativas, aumentarem os seus vencimentos e, assim, engordarem mais ainda as suas contas bancárias.
Esses mesmos políticos não pensam nos aposentados, que veem murcharem os valores de suas aposentadorias ao longo do tempo. Sequer se preocupam com a injustiça do que lhes cobra o Imposto de Renda, como se fosse renda a aposentadoria.
Para que essas deformações e injustiças sociais deixem de existir faz-se necessário que seja abolida a reeleição para todos os cargos, de vereador a presidente da República. O mandato único dificultará a prática de atos ilícitos, com a apropriação do dinheiro público.
Como o ser humano é ávido, em grande parte, o mandato único limitará a ação desonesta dos políticos. A reeleição, ao contrário, presta-se para o uso indevido do dinheiro que é do povo; dinheiro que deve ser canalizado para saúde, segurança, educação.
Muitos homens e muitas mulheres poderão passar toda uma vida sem cometer quaisquer atos ilícitos, desde que, no poder do cargo público, fiquem longe das poderosas empresas privadas, que lhes poderá acenar com as famigeradas propinas, quando contratam grandes obras.
Não me iludo, no entanto, que fica no plano do ideal a mudança, pelos políticos, da Constituição da República, com novo regramento para um único mandato – sem possibilidade de reeleição - em todos os âmbitos. O certo é que, com reeleição, o nosso dinheiro sumirá.



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24 de jul de 2016

[crônica] PEDRO LUSO – Hoje tem reunião de condomínio


          [ESPAÇO DA CRÔNICA]


      HOJE TEM REUNIÃO DE CONDOMÍNIO
            – PEDRO LUSO DE CARVALHO


O marido ouve o toque da campainha, mas como não é seu feitio atender ao telefone, interfone e tampouco campainha, deixa esse incômodo para sua mulher.
A campainha tocou, mulher.
A mulher sai correndo em direção à porta. Chega esbaforida, depois de ter tropeçado no tapete e batido a perna na quina da mesa. Abre a portinhola e recebe uma rajada de vento.
Desculpe lhe acordar, dona – diz o zelador do prédio.
Não me acordou, é quase meio dia...
O zelador entrega-lhe um envelope e pede que assine o protocolo de recebimento. A mulher assina na linha sobre o nome do marido.
Era o zelador – diz a mulher ao marido. – Ele deixou este envelope.
O homem abre o envelope e lê a convocação do síndico para uma reunião extraordinária.
No dia e hora marcados, lá estão alguns moradores na sala de reunião. Como não há quórum, o síndico aguarda algum tempo para a segunda chamada, e depois abre a reunião com quinze condôminos.
Boa noite a todos. Hoje vamos analisar três orçamentos para a pintura do edifício.
Quanto vai custar a pintura? – pergunta um homem, já curvado pela idade.
Nos orçamentos temos preços diferenciados, talvez possamos ficar com o mais barato.
E quanto é esse mais barato? – pergunta uma mulher. – Todos aqui sabem que o meu falecido marido deixou uma minguada pensão.
Eu também ando apertada – manifesta-se outra moradoura. – Como vocês também sabem, o meu marido está desempregado a um bom tempo.
Então mande esse folgado parar de beber e procurar um emprego – diz a solteirona do prédio.
Isso não é da sua conta, mal educada. Por que você não procura um marido e deixa de encher o saco?
O síndico diz que todos devem contribuir para que a reunião corra com normalidade, para que possam resolver o problema da pintura externa do prédio.
Vou ler aos senhores os itens que fazem parte do orçamento com o menor preço – fala com voz baixa, para que se esforcem para ouvi-lo.
É bom que essa leitura termine antes que comesse minha novela – diz a mulher vistosa, com as pernas à mostra.
A novela, meu Deus! – exclama outra moradora. – Eu não posso perder o último capítulo. – Se me dão licença...
Depois que a mulher deixa a sala, antes que se decida pela pintura, uma após outra, das nove mulheres, levantam-se e saem. Ficam na sala apenas seis condôminos.
O síndico mal recomeça a falar sobre os orçamentos quando os seis homens entreolham-se cúmplices, numa surda troca de ideias, e retiram-se com discrição.
Na sala fica apenas o síndico, com o olhar fixo nos orçamentos. Logo, diz para si mesmo: “eu é que não vou ficar aqui plantado, justamente hoje, e perder o final da minha novela”.


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17 de jul de 2016

[crônica] PEDRO LUSO – Pessoas Desiguais





[ESPAÇO DA CRÔNICA]

PESSOAS DESIGUAIS
  PEDRO LUSO DE CARVALHO


Sabemos que pessoas extrovertidas usam a palavra inadequadamente mais vezes que o fazem as introvertidas. As pessoas extrovertidas não têm dificuldade em expressar-se verbalmente; não há acanhamento que lhes possa atrapalhar, quando querem expor suas ideias.
Com pessoas introvertidas acontece o contrário. Para se manifestarem sobre algum assunto, reservam tempo para pensar. Às vezes, mantêm-se caladas e apenas nos ouvem, ou fingem estarem ouvindo. Parece que conhecem melhor o peso da palavra.
Alguém poderá perguntar-nos com qual dessas pessoas preferimos conviver – extrovertidas ou introvertidas? Não há resposta fácil. Talvez a convivência com pessoas extrovertidas seja menos difícil, porque podemos antever como será seu comportamento.
Por outro lado, não temos dúvida de que pessoas introvertidas dificilmente tentam impor suas ideias, como fazem as extrovertidas. A discrição é uma de suas boas qualidades. Então, nos assalta outra dúvida: não seria melhor o convívio com pessoas introvertidas?
Não encontramos a solução para esse dilema.



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10 de jul de 2016

[conto] PEDRO LUSO – Casal discute a relação




         [ESPAÇO DO CONTO]


CASAL DISCUTE A RELAÇÃO
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Iolanda mal podia esperar pela hora do jantar, que havia preparado para o marido. A expectativa da conversa, que teria com ele, deixava-a apreensiva. Há muito tempo queria discutir a relação do casal.
Leopoldo chega na hora que havia combinado com Iolanda. Demora-se no banheiro. Quer fazer boa figura para sua bela esposa. Acordes de música muito suave, chegavam até ele.
O jantar correu como havia sido planejado por Iolanda. Sente-se tranquila, com o resultado. Não lhe passou despercebido que o marido havia gostado dos pratos servidos.
Depois, sentados em confortáveis poltronas, Iolanda inicia a conversa. O marido fica um pouco desconfortável com o que poderia ocorrer. Não acha razoável que contem, um para o outro, suas intimidades.
– Querido, o que você fez , nestes sete anos?
– Por favor, Iolanda! O que poderia ter feito?
Iolanda já havia estudado tudo o que teria para dizer ao marido. Destaca muitos momentos bons que viveram, mas não esquece dos maus momentos. E diz ter ciúmes das mães dos seus pacientes.
– Iolanda, eu sou médico dessas crianças!
– Então, por que tanta atenção com as mães delas?
Leopoldo não gosta do tom da conversa. Está arrependido por ter se deixado convencer pela mulher. Sabe que estava certo quando lhe disse que não deviam falar sobre suas vidas de casados.
– Querido, quer dizer que não teve amante?
– Claro que não, Iolanda!
Nessa altura da conversa, Leopoldo diz que é melhor para eles que parem. A mulher insiste em continuar. O marido reafirma sua intenção de parar. Diz que não lhe agrada esse rumo da conversa.
– Querido, você pode ser sincero, e falar da outra mulher.
– Por favor, Iolanda!
Está bem, querido, eu tive um amante, por dois anos.
Leopoldo fica chocado. Está cansado e abatido. Não se sente em condições físicas e emocionais para continuar. Iolanda parece não ver o que se passa com ele, e continua:
– Conheci ele no shopping...
Leopoldo permanece calado. Procura levantar-se da poltrona, mas a mão da mulher no seu ombro faz com que se recoste novamente. Seu desejo é deixar a sala rapidamente.
– Fomos amantes por mais de dois anos...
Leopoldo olha para mulher sem compreender direito o que está acontecendo. Não consegue sequer imaginar outro homem na vida de Iolanda. “É inconcebível essa ideia”, diz num sussurro.
– Agora, homem, fale de sua amante.
– Não tenho nada para dizer.
O casal fica em silêncio por algum tempo. Iolanda custa a acreditar ter confessado seu adultério ao marido. Desorientada, diz para si mesma: “Meu Deus, se pudesse voltar atrás”. Não tem ânimo para levantar-se.
Leopoldo levanta-se e sai da sala. Depois de alguns minutos, retorna puxando uma mala de viagem, e se dirige à porta social. Aí fica parado por alguns segundos, depois sai. Iolanda sabe que não há nada mais que possa fazer.



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