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18 de jan. de 2022

[Poesia] OS DESVALIDOS - Pedro luso de Carvalho

 





OS DESVALIDOS


                            - Pedro Luso de Carvalho




O vento sopra forte no morro,

zunindo entre muitos casebres,

apagando uma chama de vela

derretendo na mesa vazia.


Nas noites de todas estações,

nas noites de fome e desespero,

onde pode ter prato de sopa

diante dos olhos do menino.


E a mãe escondendo sua tristeza,

do pobre filho sem amanhã.

Mas não se satisfaz esse vento,

não lhe basta um único casebre.


Em outros casebres quer o vento,

quer a fome para outros meninos,

de olhos esbugalhados e tristes,

já que o vento não leva essa fome.


E quer mais esse vento que sopra,

quer ele mais e mais desvalidos,

que nascem e morrem em casebres,

sem ter lágrimas para chorar.




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11 de jan. de 2022

[Poesia] VERÃO E PRAIA - Pedro Luso de Carvalho

 

Balneário Camboriú / Santa Catarina - Brasil

                  


VERÃO E PRAIA


       - Pedro Luso de Carvalho




Aqui tudo parece estar bem,

no calor da tarde, mar a frente

sob sol abrasador do verão,

com gente bronzeada na praia.


Aqui tudo parece estar bem,

em todos os dias do verão,

sempre tão pródiga a natureza

tecendo rendas na fina areia.


Aqui tudo parece estar bem,

na praia sob este sol da tarde

parecendo coração de mãe,

acolhendo a todos igualmente.


Aqui tudo parece estar bem,

a praia está repleta de gente,

e delas nada pode ser dito,

sejam elas anjos ou demônios.


Aqui tudo parece estar bem,

nesta sagrada época do ano,

gente boa e má sob este sol,

todos juntos neste paraíso.




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2 de jan. de 2022

[conto] O ROSTO DA MULHER - Pedro Luso de Carvalho

 

A Dor - 1909  /  Lasar Segall


O ROSTO DA MULHER


                                                                          - Pedro Luso de Carvalho



O professor Aderbal tinha vida organizada. Lecionava no período da manhã. À tarde voltava para almoçar com a mãe, viúva desde sua infância. Ao longo do percurso, deleitava-se com a vista do rio Guaíba. Morava na mesma casa que nasceu, há quase quarenta anos. A mãe extremosa esperava-o, como sempre fizera ao longo desses anos. Para ela o tempo não havia passado. Era ainda o seu menino.

Fiz o seu bife com batatas fritas – disse a mãe.

Depois do almoço, Aderbal voltava ao quarto. Acomodado na escrivaninha, preparava a aula do dia seguinte. A satisfação que lhe dava o trabalho era o suficiente para esquecer a mulher que conhecera na livraria, há alguns meses.

Na escola, Aderbal sentiu-se impelido a contar essa sua primeira aventura amorosa a outro professor, mas declinou da ideia.

O que poderá pensar de mim?

Os dias foram passando e o professor guardava o segredo. Mas não esquecia a mulher. Sentia-se hipnotizado pelo perfume que ela usava. Lembrava-se ainda da oportunidade perdida. Ela estava ao seu lado na livraria, mas não ousou olhar. Ficou dela apenas o perfume. Os traços do rosto, a boca e os olhos ficariam para a imaginação.

Aderbal fez da visita à livraria, aos sábados, uma religião. Não conhecia o rosto da amada, mas o perfume seria o aviso. Por isso, não perdia a esperança de encontrá-la. Falou da mulher e do perfume ao gerente da livraria. Tornaram-se quase íntimos, e contava com o auxílio desse homem para encontrá-la.

Depois das férias escolares Aderbal encontrou-se com um dos professores da escola e resolveu falar sobre essa história de amor. Falou da mulher e do perfume. Falou do encontro na livraria e do rosto que não viu. E pediu segredo ao colega.

O segredo fica comigo, não se preocupe.

O colega sabe como são maldosas as pessoas.

A exótica história do professor Aderbal espalhou-se logo entre professores e alunos. Mais tarde chegou ao conhecimento da diretora, que, ainda incrédula, chamou-o com urgência. Aderbal chegou assustado.

Por favor, queira sentar-se.

Aderbal sentou-se. O rosto suado denunciava o seu temor diante da diretora.

Quero ouvir do senhor toda a verdade.

Essas palavras desnortearam Aderbal. Num ímpeto contou toda a história. Falou da mulher, do perfume e do rosto que não viu. Depois ficou calado por algum tempo. O silêncio foi quebrado pela diretora:

O médico da escola espera pelo senhor.

Aderbal saiu abatido. Dirigiu-se ao consultório do médico, que o esperava. Contou mais uma vez tudo que ocorrera com ele, sem tirar nem por uma única palavra.

A partir de hoje o senhor terá de tomar alguns remédios.

Mas, doutor...

O senhor pode retirar-se – ordenou o médico.

Em menos de um mês o professor Aderbal tomou conhecimento de sua aposentadoria por doença. Aposentadoria que não era esperada, que não a queria. Lecionava há pouco mais de uma década, e ainda tinha muitos anos pela frente. Tinha muito que ensinar e muito que aprender com os alunos.

Agora, longe da escola, Aderbal não sabia como preencher o tempo. Sua vida estava limitada a casa, ao lado da mãe. Saia apenas para ir à livraria, aos sábados pela manhã. Não perdera a esperança de encontrar a mulher do inebriante perfume.

Dois anos haviam se passado. Aderbal permanecia por horas olhando pela janela. Da rua as crianças olhavam o professor com curiosidade. Divertiam-se ao vê-lo agitado através da vidraça. Foi nessa época que Aderbal contou à mãe que havia encontrado a mulher.

Meu filho, isso não é possível, disse surpresa. Você nunca viu o rosto dessa moça!

A mãe aos poucos foi se acostumando com essa nova fase do filho e procurava ajudá-lo não o contradizendo. Fingia acreditar na existência da mulher do perfume. Apenas se preocupava com os horários dos seus remédios e com sua alimentação. Quanto ao resto, entregava a Deus.

Aderbal já havia se esquecido da escola e dos alunos. Durante o dia aguardava o jantar com ansiedade, para depois retirar-se para o quarto. Aí esperava a amada. Então ela entrava com uma nuvem a esconder-lhe o rosto.

Ajeite-se ao meu lado, querida, que a cama está quentinha...




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17 de dez. de 2021

[Poesia] UM NOVO PLANETA – Pedro Luso de Carvalho

 




UM NOVO PLANETA

         Pedro Luso de Carvalho



Descortina-se daqui de onde estou,

do alto do monte, vales e planícies,

os rios no paralelo das margens,

lagos e lagoas em mansas águas.


Na minha memória está ainda claro

tudo o que lá no monte aconteceu,

perto do céu em dia claro de luz,

iluminando o meu novo caminho.


Nesse lugar senti o tremor do corpo,

coração irregular em disparada,

pude ver lá na linha do horizonte

luz forte que parecia explosão.


Vi que, de grande nave se tratava,

a nave fortemente iluminada,

com luzes raras e de raras cores,

naquele seu nervoso acende apaga.


Eu estava sozinho no alto do monte,

quando essa grande nave ali parou,

ali na minha frente iluminada,

parecendo ser disco voador.


Se era tal disco voador não sei,

eu posso afirmar que na nave entrei,

acomodei-me, e a nave partiu,

rumo ao planeta de onde ela veio.




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6 de dez. de 2021

[Poesia] A VELHA CASA - Pedro Luso de Carvalho

 




A VELHA CASA

Pedro Luso de Carvalho




Na rua quem passa vê a casa,

velha casa de tantas memórias,

ali onde está plantada no solo. 


Mantêm-se austera a velha casa,

em meio a flores do jardim,

onde das janelas vê o mundo. 


No passado soube defender-se,

enfrentou ventos e vendavais,

chuvas e coriscos e trovões.


Sob seu teto impera proteção,

e agora que esse vírus faz vítimas,

quer dele distância a velha casa.


E na nobre postura de rainha,

alicerçada ali em nobre rua

a velha casa desafia o tempo.




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28 de nov. de 2021

POLÍTICOS PROFISSIONAIS – Pedro Luso de Carvalho


Antonio Portinari / Criança morta - 1944


   POLÍTICOS PROFISSIONAIS 

( Crônica )    


                            - Pedro Luso de Carvalho


No mundo da política profissional, não se espera que existam homens e mulheres que militem em prol da sociedade. Eles escolhem esse caminho para facilitar as suas próprias vidas, com seus elevados salários, se comparados com a maioria dos salários dos demais brasileiros.

São esses homens e essas mulheres – os políticos – que estão sempre atentos para a criação de fórmulas mágicas para, na penumbra das casas legislativas, aumentarem os seus vencimentos e, assim, engordarem mais ainda as suas contas bancárias.

Esses mesmos políticos não pensam nos aposentados, que veem murcharem os valores de suas aposentadorias ao longo do tempo. Sequer se preocupam com a injustiça do que lhes cobra o Imposto de Renda, como se fosse renda a aposentadoria.

Para que essas deformações e injustiças sociais deixem de existir faz-se necessário que seja abolida a reeleição para todos os cargos, de vereador a presidente da República. O mandato único dificultará a prática de atos ilícitos, com a apropriação do dinheiro público.

Como o ser humano é ávido, em grande parte, o mandato único limitará a ação desonesta dos políticos. A reeleição, ao contrário, presta-se para o uso indevido do dinheiro que é do povo; dinheiro que deve ser canalizado para saúde, segurança, educação.

Muitos homens e muitas mulheres poderão passar toda uma vida sem cometer quaisquer atos ilícitos, desde que, no poder do cargo público, fiquem longe das poderosas empresas privadas, que lhes poderá acenar com as famigeradas propinas, quando contratam grandes obras.

Não me iludo, no entanto, que fica no plano do ideal a mudança, pelos políticos, da Constituição da República, com novo regramento para um único mandato – sem possibilidade de reeleição - em todos os âmbitos. O certo é que, com reeleição, o nosso dinheiro sumirá.




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18 de nov. de 2021

Poesia] PERDAS / Pedro Luso de Carvalho

 




PERDAS

         Pedro Luso de Carvalho



Os corpos sumiram no tempo,

esse túnel que sugou sonhos,

deixando os retalhos n’alma.


Hoje procuram esses corpos,

perdidos na curva do tempo,

feito de ferrugem e sombra.


Corpos talvez já esquecidos,

por quem queria sobreviver,

despojos da luta invisível.


Que é dos jeitos faceiros,

que é dos sorrisos dantes,

que é do brilho dos olhos?


Nesse tempo houve perdas;

hoje, um passado sem luz,

lágrimas que não secaram.




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10 de nov. de 2021

[Poesia] DISTANCIAMENTO / Pedro Luso de Carvalho

 

Nighthawks 1942 -  Edward Hopper




       DISTANCIAMENTO

              - Pedro Luso de Carvalho



Esta não é uma tarde qualquer,

não é como outras tantas tardes,

dos bons e saudosos tempos,

sob o sol de todas as estações.


Esta não é uma tarde qualquer,

não é como outras tantas tardes,

dos folguedos todos da infância,

mundo à parte d’outros mundos.


Esta não é uma tarde qualquer,

não é como outras tantas tardes,

não é como outras que eu vivi,

no deslumbrar da juventude.


Esta não é uma tarde qualquer,

não é como outras tantas tardes

em que vivi bem mais à frente,

com meus êxitos a comemorar.


Esta não é uma tarde qualquer,

não é como outras tantas tardes,

esta tem um peso de chumbo,

peso que eu mal posso suportar.


Esta não é uma tarde qualquer,

não é como outras tantas tardes,

é uma tarde de distanciamento,

uma inútil tarde de fria solidão.



 

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2 de nov. de 2021

[conto] TALENTO PERDIDO / Pedro Luso de Carvalho

Lyonel Feiniguer / The Man of Potin - 1921


 TALENTO PERDIDO

                -  Pedro Luso de Carvalho



Como vem se repetindo há anos, sempre que os políticos se mexem para escolher os seus candidatos à presidência da República vem-me à lembrança o feito daquele amigo extrovertido e carismático, que meteu na cabeça que poderia voar.

Em pouco tempo, ele me convenceu de que o seu projeto de voar daria certo. Eu e alguns amigos ficamos convencidos que ele realizaria a proeza de voar, com as asas que ele mesmo havia construído, e que pretendia patenteá-las.

Embora eu tivesse sido convencido, por força da sua capacidade de persuasão, de que não seria difícil para ele voar, arrisquei-me aconselhá-lo a candidatar-se a vereador. Ele argumentou que voar daria menos trabalho.

Certo dia, ele combinou encontrar-se comigo e mais três amigos para falar de seu voo. “Vai ser na próxima segunda-feira”, afirmou. Saltaria de um edifício de vinte andares, no centro da cidade. Nesse dia, lá estávamos para presenciar o feito do amigo.

Escolhemos um prédio alto, que ficava em frente ao edifício escolhido por ele para empreender o seu voo. Ficamos, meus amigos e eu, no terraço, acima do vigésimo andar, ao lado das duas caixas de água do prédio.

De repente nosso amigo surgiu no terraço do prédio em frente ao que estávamos, também acima do vigésimo andar, com duas asas enormes presas nos seus braços, estampando no rosto avermelhado um largo sorriso. Então acenou para nós, numa espécie de aviso de que voaria, e depois foi até os fundos do terraço, de onde voltou correndo até a beira do prédio e saltou com as asas abertas para o voo, quando vimos seu corpo projetar-se no espaço vazio.

Eu fiquei ali, no alto do edifício, com meus três amigos, com medo de olhar lá para baixo. Lembro-me apenas de ter dito a eles que o nosso falecido amigo bem que poderia ter escolhido a política, pois para isso talento não lhe faltava.




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24 de out. de 2021

[Poesia] VINCENT VAN GOGH / Pedro Luso de Carvalho

 

O Semeador / Vincent Van Gogh





Vincent van Gogh

                 - Pedro Luso de Carvalho




Cansaço, desânimo, tremor

nas mãos fortes e mágicas,

indesejado saldo da noite,

com lutas corporais

na noite travadas,

quando derrotou

imagináveis seres,

estranhos seres

de um planeta distante.


Depois, mãos firmes,

sem nenhum tremor,

Vincent abre a janela

e, diante do verde

dos campos,

dos coloridos jardins,

é seduzido pela luz

e pelo brilho do sol,

com tanta luz e cores.




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15 de out. de 2021

[Poesia] AS MÃOS FECHADAS / Pedro Luso de Carvalho

 

Giorgio de Chirico / Pintura metafísica



MÃOS FECHADAS

           - Pedro Luso de Carvalho




Mas para que as mãos fechadas,

se há clamor para se abrirem,

mão para outra mão apertar,

em cortês gesto de saudação,

pois rondam dias de sombra,

até que venham dias de luz.


Mas para que as mãos fechadas,

se há clamor para se abrirem,

se amigos temos para saudar,

são poucos, e muito valem,

pois a qualidade é que pesa,

há bons e maus na quantidade.


Mas para que as mãos fechadas,

se há clamor para se abrirem,

embora esteja tonto o mundo,

e tanta gente na mesma trilha,

com os projetos e os sonhos,

faróis a iluminarem caminhos.





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