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13 de jan de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Castigo





CASTIGO
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



Alguém lembrará do bem que fiz?
Castigo se nada for lembrado,
depois que aplainei tantos caminhos,
para que andassem os pés descalços.

Alguém lembrará do bem que fiz?
Há os que pensam ser devedores
ante a mão que se abre em doação,
como sendo gesto de domínio.

Alguém lembrará do bem que fiz?
Não sendo esquecido pela mão
estendida, pródiga no auxílio,
as marcas não ficarão no tempo.

Alguém lembrará do bem que fiz?
Aguardem os beneficiados,
na caminhada terão castigo
no crepúsculo, beira da noite.




*   *   *




1 de jan de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – O Relógio do Tempo




O RELÓGIO DO TEMPO
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



Faltava pouco para a meia-noite,
no breu da noite diante da porta
da casa, chave apertada na mão,
procurava refazer-me da ânsia.

Bem diante de mim, a fechadura
da porta, frio metal feito faca,
a desafiar-me sem piedade,
ante às minhas forças exauridas.

Tomado por misterioso ímpeto,
girei a dura chave na fechadura,
a porta abriu-se com leve rangido,
na casa deserta vi apenas sombras.

Caminhei por um longo corredor,
a cada passo portas para abrir,
até chegar na porta derradeira,
onde vi o grave relógio do tempo.




*  *  *



17 de dez de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – O Sonho do Menino





O SONHO DO MENINO
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



A frágil mãe esquenta a sopa,
que faz com batata e arroz.
Nada mais tem no barraco.

Depois do alimento o sono,
na noite estrelada, o sonho,
na esteira de luz envolto.

Do céu vem dourada tenda
(sonho do menino pobre),
viajando entre as estrelas.

Frente a tenda de luz,
embarca o menino pobre.
Com estrelas vai morar.





*   *   *




3 de dez de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - A Maçã do Pecado




A MAÇÃ DO PECADO
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



É mansa a fala dos dois homens,
a falarem dos bons tempos
na tarde que beira a noite,
com sons ocos dispersos nas ruas.

Fenece a mansidão da conversa,
as ideias não se convergem,
a política, maçã do pecado,
impõe-se com desmedida fúria.

Ninguém mais na sala de visitas,
condôminos de tudo alheios,
braços giram desnorteados,
cessa a fala, amigos enfurecidos. 

Sons ocos chegam mais brandos,
um dos homens agora ferido,
o outro segura na mão a faca,
na noite alta, cúmplice no crime.




*   *   *



21 de nov de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - O Jazz Na Noite






O JAZZ NA NOITE
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Ouço o som abafado pela surdina,
som rouco e quente do trompete,
no calor da noite espraiada
(segredos mantidos no breu).

Junta-se ao trompete o saxofone,
a derreter-se em tantos lamentos,
a absorver a tristeza da noite,
pela dor do amor desfeito.

A esses dois sons a noite traz outro,
o piano mágico de Duke Ellington,
a impor ordem na noite de lua,
homenagem merecida do Jazz .




*   *   *





12 de nov de 2018

[ Poema ] PEDRO LUSO - O Circo





O CIRCO 
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Grande era o circo,
a lona enorme,
um mundo à parte,
gente grande e crianças
reunidas no mesmo encanto.

A moça com pouca roupa
num equilíbrio e coragem,
de pé sobre os cavalos,
um homem valente com chicote
e um leão solto num desafio.

Ainda me lembro da girafa:
sem me dar conta,
espichava  meu pescoço
como via a girafa fazer
(como às vezes ainda acontece).

Lembro-me do dia triste
em que o circo partiu,
com o elefante, o leão,
os macacos e os palhaços,
só não sabia que os levaria comigo.




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29 de out de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - Reconstrução






RECONSTRUÇÃO
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Não nos descuidemos muito,
é grande e acolhedora
a nossa casa.

Não nos descuidemos muito,
a casa está sobre solo firme,
sem danos nos alicerces.

Não nos descuidemos muito,
juntos consertaremos portas,
e também janelas.

Não nos descuidemos muito,
logo a casa estará arrumada,
e nossa alma aliviada.







*   *   *






12 de out de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - Esperança





ESPERANÇA
- PEDRO LUSO DE CARVALHO




Que não morra a esperança,
(para muitos esperança finada),
que seja ela o nosso norte,
(não seja âncora que aprisiona).

Que se acalme este vendaval,
(impróprio vendaval que não cessa),
intrometido vendaval de males,
nesta Primavera viva, estação de flores.

Que ventos cálidos agora soprem
neste tempo de ódios e de dor,
que haja viço nesta terra arrasada,
que nesta estação vicejem as flores.





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28 de set de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - Homens Vazios






HOMENS VAZIOS
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Neste tempo vago,
tempo de homens vazios,
vejo-os no meu vagar
em meio a escombros.

Vago neste tempo presente,
respinga-me essa lama
pisada por homens vis,
que trilham o lamaçal.

Busco a salvação neste vagar,
neste vago tempo,
tempo de homens vazios,
sem pátria, sem lei.

Serão salvos esses homens,
malditos homens
mergulhados na lama?
Serei acusado por omissão?




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16 de set de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – A Marca do Tempo







A MARCA DO TEMPO
PEDRO  LUSO  DE  CARVALHO



Vejo, de onde estou, o homem
marcado pelo tempo, no banco
descolorido pela maresia.

O mar recebe afagos do sol.
As ondas brindam o homem
com a água tépida do mar.

O homem aperta os olhos gastos
para além do horizonte, quer saber
o que lhe espera nas lonjuras.

As horas se sucedem. Apaga-se o brilho
do sol, apenas se ouve o rumor repetido
das ondas que se encrespam na praia.





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4 de set de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Museu Nacional






MUSEU NACIONAL

- PEDRO LUSO DE CARVALHO




Faz-se presente a desgraça,
é o fogo que queima,
queima sem cessar,
impiedosamente.

Os responsáveis tentam apagar o fogo,
homens e mulheres falam,
falam sem cessar
querendo o fogo apagar.

Desculpa plausível
não haverá,
o fogo queimou sem cessar
a alma do Brasil.

Parte da História é queimada,
fica empobrecido o país,
o povo sofre e chora
pela memória perdida.





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24 de ago de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - Silenciar





SILENCIAR
- PEDRO LUSO DE CARVALHO




Silenciai,
há cânticos de pássaros
na praça ensolarada.

Silenciai,
há um som de guitarra
adormecendo as estrelas.

Silenciai,
há um choro de criança
no seu primeiro despertar.

Silenciai,
há uma alma serena
a navegar num mar de sonhos.

Silenciai,
há alguém a despedir-se
de uma vida que se finda.




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15 de ago de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Um Mundo Guardado






UM MUNDO GUARDADO

- PEDRO LUSO DE CARVALHO




As mãos trêmulas
da velha senhora
acariciam uma cômoda
de cedro antigo,
a guardar os seus sonhos.

Nas gavetas da cômoda
estão os colares, as cartas,
os brincos lá estão,
como estão os anéis
da velha senhora.

Transforma seu mundo
quando abre as gavetas
vendo a vida que teve,
ao ver o brilho das joias
e nas cartas, juras de amor.

Os olhos ainda a brilhar,
a velha senhora gira a chave
e fecha seu mundo,
mantendo fechado o brilho
das joias e o silêncio das juras.





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