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25 de jan. de 2021

[Poesia] EGIPTO GONÇALVES – A Bucólica Margem

 

Egipto Gonçalves


                                  

                              - Pedro Luso de Carvalho


Egipto Gonçalves nasceu em Matosinhos, uma vila que foi o centro de uma grande indústria de sardinhas em conservas. Passou a viver na cidade do Porto desde 1948, aí residindo até a sua morte, em 2001. Seu nome completo era José Egipto de Oliveira Gonçalves. Exerceu ao longo de sua vida atividades diversas. Publicou seus primeiros livros em 1950. Em 1951 fundou a revista A Serpente (1951), tendo depois participado na fundação e direção de outras revistas literárias: A Árvore (1952-54), Notícias do Bloqueio (1957-61), Plano (1965-68), e Limiar (de que saiu o primeiro número em 1992). Foi escritor e tradutor.

Ao poeta Egipto Gonçalves foram concedidos os seguintes prêmios: Prêmio de Tradução Calouste Gulbenkian, da Academia das Ciências de Lisboa pela seleção de Poemas da Resistência Chilena (1977); Prêmio Internacional Nicola Vaptzarov, da União de Escritores Búlgaros (1985); e, mais: Prêmio de Poesia do Pen Clube, o Prêmio Eça de Queirós e o Grande Prêmio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro E No Entanto Move-se (1995). Sua obra encontra-se traduzida para o espanhol, francês, búlgaro, polonês, turco, romeno e catalão. Egipto Gonçalves (José Egipto de Oliveira Gonçalves) faleceu na cidade do Porto, Portugal, em 29 de Janeiro de 2001. Segue o poema  'A Bucólica Margem':



                     A BUCÓLICA MARGEM

                                              (Egipto Gonçalves)



Sento-me então a olhar o rio,

os pensamentos formam cardumes

que contra a corrente se insurgem

mas as águas são inexoráveis;

olhando-as, a superfície cintila,

propaga-se como se fossem notas

de um piano na garupa de um cavalo

que se dirige para o mar.



O Douro bebe as cores da cidade,

sobre elas eu abro o coração

em que te encontras, as colinas

emolduram as raízes que à terra

nos ligam. Para os meus olhos

é momento de pausa: as coisas

que interrogo não resistem à maré,

não dão respostas; perdem-se no mar

como tudo o que a memória não reteve.



Mas este rio

já foi longamente folheado, nele

escrevemos

o romance que nos deu uma casa,

nos cortou o cabelo, nos afastou

das rugas, nos entregou o azul

(tecido, nuvem, divã, janela...)

o voo das artérias, lugar do corpo,

portas que amanhecem, espelho

onde fazemos fluir a vida.

Acordes

da guitarra que forja o horizonte,

que guia o sinuoso voo das gaivotas

e acaricia a pele que rasga atalhos

no interior dos sonhos. Estarei

vivo enquanto assim me guardar

teu coração. E no seu lucilar,

esta água imita o fogo

que devora sombras e escombros,

libertando a asa que no sangue

respira. A foz está próxima,

mas o horizonte é o teu olhar.

No leitor do carro, a guitarra flexível

sublinha o que divago; os acordes

disparam,

encontram-me na trajectória do seu alvo.





REFERÊNCIAS:

ROZÁRIO, Denira. Palavra de Poeta / Portugal. Introdução de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994.

TORGAL, Adosinda Providência; FERREIRA, Madalena Torgal. Relâmpago, nº 6. Porto: Publicações Dom Quixote, 2001.





16 de jan. de 2021

[Poesia] LUÍS DELFINO / A Saída

 

Luis Delfino


               - Por Pedro Luso de Carvalho


LUÍS DELFINO, cujo nome completo era Luís Delfino dos Santos, nasceu a 25 de agosto de 1834, na localidade de Desterro, atual capital do Estado de Santa Catarina, Florianópolis; portanto, teve Cruz e Souza como seu conterrâneo. No Rio de Janeiro, formou-se em medicina. Destacou-se tanto como médico e como poeta. No Senado da República, representou o seu Estado natal. Nenhum livro de sua poesia foi publicado em vida. Teve publicada apenas a sua tese médica. Já a sua produção poética foi publicada em jornais e revistas. Seu filho, Tomás Delfino, encarregou-se de reunir grande parte dessa produção poética, que se encontrava dispersa. Álvaro Lins destaca que o traço mais curioso da personalidade literária de Luís Delfino “é haver ele refletido os três movimentos poéticos do século: o romantismo, o parnasianismo e o simbolismo”.

Obras do poeta, todas publicadas no Rio de Janeiro: Algas e Musgos, sem data; Poemas, 1928; Poesias Líricas, 1934; Íntimas e Aspásias, 1935; A Angústia do Infinito, 1936; Atlante esmagado, 1936; Rosas Negras, 1938; Esboço da Epopeia Americana, 1939; Arcos de Triunfo, 1940; Imortalidades (I, II e III vols.), 1941 e 1942.

Luís Delfino morreu na cidade do Rio de Janeiro, a 31 de janeiro de 1910, aos 76 anos de idade.

Segue o soneto de Luís Delfino, intitulado A Saída (In Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Álvaro Lins e Aurélio Buarque de Hollanda. vol. II. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, p. 115-116.):



                                 A SAÍDA


O galo canta: o ar, que freme, é quente:

Desce ruflando pelo vale o vento;

Há no horizonte os rolos de uma enchente

Do mar, que invade e doira o firmamento.



Toca a sineta; vem saindo a gente

Da senzala, num jorro sonolento:

Depois da reza, a passo tardo e lento,

Enxada ao ombro, dois a dois em frente,



Ao eito vão pelo carreiro aberto:

O mato cheira, rumorejam ninhos

No cafezal, de branca flor coberto...



Há um grande chilrar de passarinhos...

E enquanto o escravo vai... segue-o de perto

A risada da luz pelos caminhos...



(Rosas Negras, Rio de Janeiro, 1938, pág. 49.)



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6 de jan. de 2021

[Poesia] FAGUNDES VARELA - A flor de maracujá

 




                               - Pedro Luso de Carvalho


FAGUNDES VARELA (Luís Nicolau Fagundes Varela) estudou Direito em São Paulo e no Recife, mas não concluiu o curso. Casou duas vezes. O casamento não fez feliz o poeta solitário, hipocondríaco e boêmio, que nasceu em Rio Claro, Estado do Rio de janeiro, em 17 de agosto de 1841, e morreu em Niterói, em 18 de fevereiro de 1875, aos 34 anos.

Obras de Fagundes Varela: Noturnos, Vozes da América, Cantos Meridionais, Cantos do Ermo e da Cidade, Anchieta ou o Evangelho nas Selvas, Cantos Religiosos.

O sofrimento, pela morte de seu filho, inspirou Fagundes Varela a escrever Cântico do Calvário, que no dizer de Álvaro Lins é considerado o seu mais belo poema e um dos mais comoventes de nossa literatura. (Pela extensão do poema, deixo de transcrevê-lo neste espaço.)

Fagundes Varela sofreu influência dos românticos anteriores, entre outros, Gonçalves Dias e Álvares de Azevedo. Fagundes Varela foi dos últimos a usar o tema do indianismo, cujas bases foram lançadas por Gonçalves Dias; e, como diz Álvaro Lins, “trouxe, porém, uma contribuição própria e característica: a poesia de tendência mística”.

Ronald de Carvalho diz que “Fagundes Varela não é unicamente um dos nossos bons liristas, mas também, e principalmente, um dos nossos melhores poetas descritivos. Esse dom de pintor, que foi singular em Gonçalves Dias, e que é muito da índole dos nossos escritores, ele o teve como raros na poesia brasileira. (...) Há em sua obra inspirações de toda ordem, da alma e da natureza, da vida rústica e civilizada, da fantasia e da realidade, do mundo fictício e presente”. Segue o poema A flor do maracujá, bom exemplo da poesia de Fagundes Varela:



                    A FLOR DO MARACUJÁ

                                                (Fagundes Varela)

 


Pelas rosas, pelos lírios

Pelas abelhas, sinhá,

Pelas notas mais chorosas

Do canto do sabiá,

Pelo cálice de angústias

Da flor do maracujá!



Pelo jasmim, pelo goivo,

Pelo agreste manacá,

Pelas gotas de sereno

Nas folhas do gravatá,

Pela coroa de espinhos

Da flor do maracujá!



Pelas tranças da mãe d'água

Que junto da fonte está,

Pelos colibris que brincam

Nas alvas plumas do ubá,

Pelos cravos desenhados

Na flor do maracujá!



Pelas azuis borboletas

Que descem do Panamá,

Pelos tesouros ocultos

Nas minas do Sincorá,

Pelas chagas roxeadas

Da flor do maracujá!



Pelo mar, pelo deserto,

Pelas montanhas, sinhá!

Pelas florestas imensas

Que falam de Jeová!

Pela lança ensanguentada

Da flor do maracujá!



Por tudo o que o céu revela!

Por tudo o que a terra dá

Eu te juro que minh'alma

De tua alma escrava está!...

Guarda contigo este emblema

Da flor do maracujá!



Não se enojem teus ouvidos

De tantas rimas em - a -

Mas ouve meus juramentos,

Meus cantos ouve, sinhá!

Te peço pelos mistérios

Da flor do maracujá!



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REFERENCIAS:

LINS, Álvaro e Aurélio Buarque de Hollanda. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. vol. II. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1966.

CARVALHO, Ronald. Pequena Historia da Literatura Brasileira. 9ª ed. Rio de Janeiro: F. Brigiet Editores, 1953.






28 de dez. de 2020

[Poesia] CESÁRIO VERDE - De tarde

 



                     - Pedro Luso de Carvalho

José Joaquim Cesário Verde nasceu a 25 de fevereiro de 1855, na capital de Portugal, Lisboa. Muito cedo começou a trabalhar na loja de ferragens da família (seu pai era comerciante e lavoreiro).

Supõe-se que Cesário Verde era autodidata, já que não se tem conhecimento de sua formação escolar. Depois de ter completado 18 anos, passou a escrever para diversos jornais e revistas.

A influência do parnasianismo e do realismo é uma característica de sua poesia. E isso não é difícil de ser constatado em razão da escolha dos temas, que são extraídos do cotidiano da vida portuguesa. Resulta, daí, uma poesia de inconteste originalidade. "Ele criou, em Portugal, a poesia do concreto, do vulgar ou do quotidiano" - afirma João Gaspar Simões. - "A sua descoberta mais evidente consistiu em valorizar poeticamente a linguagem por que se designam as coisas concretas".

Silva Pinto, amigo fraterno do poeta, reuniu-lhe as produções dispersas, menos algumas condenadas pelo autor, e foram publicadas postumamente, em 1887, com o título de O livro de Cesário Verde.

Cesário Verde faleceu a 18 de julho de 1886, com apenas 31 anos, em Lisboa, cidade em que nasceu e da qual se tornou o seu grande cantor, em versos de grande objetividade descritiva.

        Obra: O livro de Cesário Verde, Lisboa, 1887 - publicada postumamente.

   O poema de Cesário Verde, que segue, com o título 'De tarde', confirma o que acima foi dito sobre sua poesia (LINS, Álvaro. BUARQUE DE HOLLANDA, Aurélio. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Vol. I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, p. 279, 282-283):




DE TARDE

                              - Cesário Verde




Naquele piquenique de burguesas,

Houve uma coisa simplesmente bela,

E que, sem ter história nem grandezas,

Em todo o caso dava uma aquarela.



Foi quando tu, descendo do burrico,

Foste colher, sem imposturas tolas,

 A um granzoal azul de grão-de-bico

    Um ramalhete rubro de papoulas.



Pouco depois, em cima duns penhascos,

Nós acampamos, inda o sol se via;

E houve talhadas de melão, damascos,

E pão-de-ló molhado em malvasia.



Mas, todo púrpuro, a sair da renda

Dos teus dois seios como duas rolas,

Era o supremo encanto da merenda

O ramalhete rubro das papoulas!




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13 de dez. de 2020

[Poesia] FEDERICO GARCIA LORCA – Dois Poemas

 



                               - Pedro Luso de Carvalho


No que se refere a morte do grande poeta espanhol Federico Garcia Lorca, transcrevemos o que o jornal El Liberal, de Madri, publicou no dia 2 de novembro de 1936 (in Ian Gibson, O assassinato de Garcia Lorca, Trad. de Ernani Ssó, Porto Alegre, L&PM Editores, 1988, p. 271):

Mas será possível? Federico Garcia Lorca, o imenso poeta, assassinado pelos facciosos?

Uma última esperança de que tamanho crime não tenha se realizado leva-nos a perguntar: mas será possível a monstruosa aberração que supõe o assassinato do mais alto poeta espanhol dos nossos dias?

Todos os jornais publicaram a notícia que, segundo um jornal de Albacete, procedia de Guadix.

Conhecemos bem a louca e fria perversão dos traidores. Mas um nobilíssimo impulso da nossa alma nos leva a duvidar da veracidade da horrível informação.

Federico Garcia Lorca fuzilado pelos degenerados facciosos! Será possível tanta maldade? E embora temamos que sim, que essa gente é capaz de tudo, queremos acolher uma última esperança, repetimos, queremos acreditar que tudo, até a escala da maldade dos fascistas, tem um limite.

A Espanha inteira, toda a Espanha democrática e republicana, vive momentos de angústia e os viverá enquanto não seja retificada ou ratificada a inimaginável maldade dos verdugos.

Federico Garcia Lorca foi fuzilado em agosto de 1936, em Granada, no início da Guerra Civil Espanhola, e seu corpo nunca foi encontrado. Estava com 38 anos de idade, quando foi assassinado, e já era considerado um dos maiores poetas e teatrólogos da Espanha.

Os poemas que aqui serão transcritos, o primeiro, com tradução, A Lua e a Morte, e, o segundo, Gacela del amor desesperado, no idioma do poeta, integram a Antologia Poética de Federico Garcia Lorca, obra bilíngue, com tradução de William Agel de Mello, São Paulo, Martins Fontes, 2001, p.39-41; 218, 220:




A LUA E A MORTE

FEDERICO GARCIA LORCA


A lua tem dentes de marfim,

Quão velha e triste assoma!

Estão os álveos secos,

os campos sem verdores

e as árvores murchadas

sem ninhos e sem folhas.

Dona Morte, enrugada,

passeia pelos salgueirais

com seu absurdo cortejo

de ilusões remotas.

Vai vendendo cores

de cera e de tormenta

como uma fada de conto

má e enredadora.



A lua comprou

pinturas da Morte.

Nesta noite turva

está a lua louca!



Eu, enquanto isso, ponho

em peito sombrio

uma feira sem músicas

com tendas de sombra.



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GACELA DEL AMOR DESESPERADO

FEDERICO GARCIA LORCA


La noche no quiere venir

Para que tú vengas,

ni yo pueda ir.



Pero yo iré,

Aunque um sol de alcranes me coma la sien.



Pero tú vendras

Com la lengua quemada por la lluvia de sal.



El día quiere venir

para que tú no vengas,

ni yo pueda ir.



Pero yo iré

entregando a los sapos mi mordido clavel.



Pero tú vendras

por las turbias cloacas de la oscuridad.



Ni la noche ni el día quierem venir

para que por ti muera

y tú mueras por mi.



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4 de dez. de 2020

[Poesia] CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE – Amar


 


                      - Pedro Luso de Carvalho

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE nasceu em Itabira, Minas Gerais, a 31 de outubro de 1902. Como integrante do grupo belo-horizontino, participou do movimento literário modernista. Com seus companheiros de geração, editou A Revista, nos anos de 1925-1926.

Como jornalista, desempenhou importantes cargos nos jornais Diário de Minas, Minas Gerais, entre outros. Escreveu crônicas, nos anos de 1954 a 1968, para o Jornal carioca, Correio da Manhã, com o título geral de “Imagens”. Depois passou para o Jornal do Brasil, onde manteve uma coluna no Caderno B.

Funcionário público, exerceu funções no Governo de Minas Gerais; depois, no Rio de Janeiro, foi chefe do gabinete do Ministro da Educação, Gustavo Capanema, de quem era amigo. Integrou a equipe do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Aposentou-se após 35 anos de serviço.

Drummond, que definiu a si próprio como o poeta que se encontrava em busca do “sentimento do mundo”, faleceu no Rio de Janeiro no dia 17 de agosto de 1987, aos 85 anos (incompletos). Legou-nos uma obra poética e literária de inestimável valor.

Segue, de Carlos Drummond de Andrade, o poema Amar - In, Claro Enigma/Carlos Drummond de Andrade. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1991, p 49-50.



A M A R  

- Carlos Drummond de Andrade 



Que pode uma criatura senão,

entre criaturas, amar?

Amar e esquecer,

amar e malamar,

amar, desamar, amar?

Sempre, e até de olhos vidrados, amar?



Que pode, pergunto, o ser amoroso,

sozinho, em rotação universal, senão

rodar também, e amar?

Amar o que o mar traz à praia,

o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,

é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?



Amar solenemente as palmas do deserto,

o que é entrega ou adoração expectante,

e amar o inóspito, o áspero,

um vaso sem flor, um chão de ferro,

e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.



Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,

doação ilimitada a uma completa ingratidão,

e na concha vazia do amor a procura medrosa,

paciente, de mais e mais amor.



Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa

amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.