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9 de set. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Vento Forte

 

Hendrick Martensz Sorgh - Pintor barroco holandês (c.1610-1670)




VENTO FORTE

         - Pedro Luso de Carvalho




De onde vens, vento forte,

trazes, por acaso, boas novas?

Aqui, pouco mudou, infelizmente,

a não ser a esperança que se renova.


De onde vens, vento forte,

trazes por acaso, boas novas?

Esse vento, que por aqui está rondando,

está zunindo por todas as partes.


De onde vens, vento forte,

trazes, por acaso, boas novas?

Aqui, ansiamos pela antiga vida,

impera aqui um desejo de felicidade.


De onde vens, vento forte,

trazes por acaso boas novas?

Aqui desejamos todos sair às ruas,

queremos todos rever e abraçar os amigos.


De onde vens, vento forte,

trazes, por acaso, boas novas?

Aqui  já está na hora de abrir as portas,

queremos braços abertos e risos incontidos.





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1 de set. de 2021

[crônica] PEDRO LUSO – Hoje tem reunião de condomínio




             HOJE TEM REUNIÃO DE CONDOMÍNIO

                                                         – Pedro Luso de Carvalho




O marido ouve o toque da campainha, mas como não é seu feitio atender ao telefone, interfone e tampouco campainha, deixa esse incômodo para sua mulher.

A campainha tocou, mulher.

A mulher sai correndo em direção à porta. Chega esbaforida, depois de ter tropeçado no tapete e batido a perna na quina da mesa. Abre a portinhola e recebe uma rajada de vento.

Desculpe-me acordar a senhora – diz o zelador do prédio.

Não me acordou, é quase meio-dia...

O zelador entrega-lhe um envelope e pede que assine o protocolo de recebimento. A mulher assina na linha sobre o nome do marido.

Era o zelador – diz a mulher ao marido. – Ele deixou este envelope.

O homem abre o envelope e lê a convocação do síndico para uma reunião extraordinária.

No dia e hora marcados, lá estão alguns moradores na sala de reunião. Como não há quórum, o síndico aguarda algum tempo para a segunda chamada, e depois abre a reunião com quinze condôminos.

Boa noite a todos. Hoje vamos analisar três orçamentos para a pintura do edifício.

Quanto vai custar a pintura? – pergunta um homem, já curvado pela idade.

Nos orçamentos temos preços diferenciados, talvez possamos ficar com o mais barato.

E quanto é esse mais barato? – pergunta uma mulher. – Todos aqui sabem que o meu falecido marido deixou uma minguada pensão.

Eu também ando apertada – manifesta-se outra moradora. – Como vocês também sabem, o meu marido está desempregado a um bom tempo.

Então mande esse folgado parar de beber e procurar um emprego – diz a solteirona do prédio.

Isso não é da sua conta, mal educada. Por que você não procura um marido e deixa de encher o saco?

O síndico diz que todos devem contribuir para que a reunião corra com normalidade, para que possam resolver o problema da pintura externa do prédio.

Vou ler aos senhores os itens que fazem parte do orçamento com o menor preço – fala com voz baixa, para que se esforcem para ouvi-lo.

É bom que essa leitura termine antes que comesse minha novela – diz a mulher vistosa, com as pernas à mostra.

A novela, meu Deus! – exclama outra moradora. – Eu não posso perder o último capítulo. – Se me dão licença...

Depois que a mulher deixa a sala, antes que se decida pela pintura, uma após outra, das nove mulheres, levantam-se e saem. Ficam na sala apenas seis condôminos.

O síndico mal recomeça a falar sobre os orçamentos quando os seis homens entreolham-se cúmplices, numa surda troca de ideias, e retiram-se com discrição.

Na sala fica apenas o síndico, com o olhar fixo nos orçamentos. Logo, diz para si mesmo: “eu é que não vou ficar aqui plantado, justamente hoje, e perder o final da minha novela”.





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21 de ago. de 2021

[ POESIA ] PEDRO LUSO - Um Novo Amanhã

 





UM NOVO AMANHÃ

                               - Pedro Luso de Carvalho





Acordo cedo para meus planos,

quero aproveitar o que for possível,

então abro as janelas dormidas,

deixo o sol entrar espraiado

raios de luz através da vidraça,

brilho na cama em desordem.


Lá fora há brilho nos campos,

brilho nos vales e nas planícies,

o sol desfaz as sombras da noite

e brilha nas cumeeiras das casas.

Um sinal que tudo está em ordem,

que o brilho do sol vai mais longe.


Então fecho a janela do quarto,

sem fazer ruído, por mínimo que seja,

quero toda a luz, todo o calor,

quero que toda o planeta sinta o mesmo,

quero que tudo esteja na mais

perfeita ordem.


Que o sol ultrapasse montes e montanhas,

que viaje por todos os lagos do mundo,

que beije todos os rios, lagos e oceanos,

que cubra de luz todos os continentes,

que esse dia seja um novo amanhã,

este amanhã esperado com tanto ardor.





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11 de ago. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Manhã de Domingo

Parque Farroupilha / Porto Alegre



MANHÃ DE DOMINGO

- Pedro Luso de Carvalho

 


Brilha o sol na manhã de domingo,

nos arbustos o doce canto dos pássaros,

tudo isso e mais o vento suave e morno

que sinto no rosto, e a sensação de paz,

perene paz, nesta manhã de domingo.


Então, avanço na rua quietamente,

no meu caminhar lento, mas firme,

logo descortino à minha frente,

a amplidão do parque radioso,

tantas cores de rosas no roseiral.


Passeio absorto entre os canteiros

e finjo que a vida está como antes,

sem ameaças, apenas o canto dos pássaros,

correrias e o riso alegre das crianças,

fazendo-me crer que tudo está normal,

e que as máscaras coloridas

são brincadeiras nesta manhã de domingo.




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28 de jul. de 2021

[Filosofia] PEDRO LUSO – Da Injustiça

 

Guernica - de Pablo Picasso



DA INJUSTIÇA

Pedro Luso de Carvalho



A prática de atos de injustiça é própria do ser humano. É-lhe igualmente própria a prática de atos de reação, quando se vê injustiçado. Portanto, não é difícil prever-se quando se tocarão essas duas linhas paralelas; e, quando isso ocorrer, o magistrado, que for chamado para sentenciar, somente fará justiça se conhecer as leis e se for dotado de nobreza de caráter.

Mas, independentemente da sentença que seja dada, quer contra quem pratica atos de injustiça, quer contra quem se excede na defesa de sua vida e de sua honra, permanecerá o sentimento de culpa para o primeiro e de ira para o segundo, mesmo que de forma inconsciente para ambos.

No plano ideal, queríamos um ser humano de conduta reta, que não cometesse a prática de atos de injustiça. Tivesse ele tal capacidade, as linhas paralelas da ação e da reação jamais se cruzariam. Fosse isso possível, estaríamos diante de um deus e não de um ser humano.





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18 de jul. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Terá sido um sonho?


Vincent van Gogh - O Semeador



TERÁ  SIDO  UM  SONHO?

              - Pedro Luso de Carvalho




Acordo cedo nesta manhã,

no quarto o peso da escuridão.

Ansioso, abro a janela,

há necessidade imperiosa de sol.


O sol ilumina a sala,

deixando uma esteira de luz.

Há vida em toda a casa,

antes refém da escuridão.


Vejo o campo iluminado ao longe,

raios de luz sobre campos e jardins,

num mundo de harmonia e de paz,

harmonia e paz em toda a terra.


Vivemos nossas vidas como sempre,

e que triviais são os nossos dramas.

Então, terá passado a pandemia,

ou terá sido um sonho simplesmente?




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10 de jul. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO - Indiferença

 

O Grito - 1984 / Iberê Camargo



INDIFERENÇA

                 - Pedro Luso de Carvalho



Há um corpo estendido no chão,

entrave para os que passam por ali,

na manhã friorenta da cidade,

o homem é apenas mais um,

simplesmente um número frio,

mais um número para a estatística,

que se infla de hora em hora.



Há um corpo estendido no chão,

uma folha de jornal voando,

trazida pelo vento na clara manhã,

que se acomoda no corpo do homem,

que mantém a máscara no rosto,

deixando à mostra os olhos vítreos

parecendo ver nuvens brancas no céu.



Há um corpo estendido no chão,

corpo quase invisível na manhã,

quando o relógio do tempo parou,

na agônica hora do homem,

rodeado por tanta indiferença

em meio aos apressados passos,

a ansiedade presa nas máscaras.




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4 de jul. de 2021

[conto] PEDRO LUSO – A Vida do Padre

Durval Pereira  1918 - 1984  / São Paulo - Brasil




A VIDA DO PADRE

                                 – Pedro Luso de Carvalho



Amélia diz ao marido que lhe falta fé, e que enquanto estiver distante de Deus viverá em pecado. Mesmo com a sua insistência nessa pregação, Eusébio acaba por se acostumar a ela. Talvez a juventude do casal tenha contribuído para que não perdessem a paciência.

Mas chega o dia em que Eusébio rende-se aos apelos da mulher, e então passa a frequentar com ela a igreja do bairro. Todos os domingos o casal é visto na missa das dez e, tempos depois, também nas novenas, para a alegria do pároco.

Na igreja, Eusébio é visto como exemplo de fé; exemplo que, no pensar das beatas, deveria ser seguido pelos seus maridos. “É um santo homem”, dizem as mulheres, que não se conformam em ver distantes da Casa de Deus os homens com quem se casaram.

A capela montada num dos quartos do apartamento, passa a ser o centro da vida do casal; é onde encontram paz e sentem a fé mais fortalecida, a cada dia. No trabalho, Eusébio espera o final do expediente para ir ao encontro de Amélia, para fazerem as suas orações.

O sentimento de amizade, que iria mais longe, substitui o amor, que antes existia entre o casal. Divorciam-se para que Eusébio possa ingressar no Seminário. Amélia está convicta de que se tornar padre é a sagrada missão de Eusébio, cuja vocação fora escolhida por Deus.

No seminário, Eusébio estuda teologia com afinco, enquanto Amélia acompanha-o de longe, não o esquecendo em suas orações e ansiando pelo dia em que o veria ordenado padre. Esse dia chega, para a alegria de Eusébio e de Amélia.

Eusébio sente-se feliz em sua paróquia. Na capital, distante de Eusébio, Amélia acompanha a vida do padre, reza por ele, e sente-se um pouco responsável pelo respeito e pela admiração que o padre granjeou pelo seu trabalho de evangelização.

Passado algum tempo, chega à Amélia a notícia de que Eusébio fora afastado da Igreja, depois que se tornou público o seu romance com uma moça da cidadezinha, com quem passou a viver. Amélia soube ainda que a moça é respeitada por todos, e que carinhosamente a chamam de “mulher do padre”.




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27 de jun. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – O Político do Brasil

 

Congresso Nacional - Brasília




O POLÍTICO DO BRASIL

                               - Pedro Luso de Carvalho




Brasil altaneiro?

Pobre Brasil!

Escravos, não só negros,

mas todas as etnias,

que no Brasil aportaram.


Brasil altaneiro?

Pobre Brasil!

Donos dos escravos,

cruéis donos sem alma,

senhores feudais.


Brasil altaneiro?

Pobre Brasil!

Roubam os políticos

neste imenso país,

sem alma e sem lei


Brasil altaneiro?

Pobre Brasil!

Doença e morte

fome e miséria

venda nos olhos da justiça.


Brasil altaneiro?

Pobre Brasil!

o pobre viverá sua sina,

o político, o paraíso fiscal,

salvo as honrosas exceções.





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18 de jun. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Não me esqueças

 

Themistokles von Eckenbrecher  -  Laerdalsoren, em Sognefjord, 1901.




NÃO ME ESQUEÇAS

                      - Pedro Luso de Carvalho




Não me esqueças,

não me esqueças jamais!

Era a súplica na carta,

em letras miúdas e delicadas.


Não me esqueças,

não me esqueças jamais!

Saio para o sol,

para o frescor das manhãs,

para a festa de cores

das noites estreladas.


Não me esqueças,

não me esqueças jamais!

Se um dia me encontrares

sem vida, em lugar ermo,

leva-me para longe daqui.


Não me esqueças,

não me esqueças jamais!

Sepulta meu corpo

ao pé da montanha,

na beira da estrada,

para que os viajantes

espantem o silêncio.





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12 de jun. de 2021

[Crônica] PEDRO LUSO - A frustração

 




  A FRUSTRAÇÃO

             – Pedro Luso de Carvalho                                                                


Sempre que estou para realizar algum ato, em meu próprio benefício, procuro ficar atento para uma possível frustração. Nada mais comum, no meu sentir, que se ter reação agressiva diante de uma decepção. Tendo-se a consciência da possibilidade dessa reação, é que se pode manter o controle, sem o qual, o mal da reação poderá ser maior que o sentimento de insatisfação.

Quem não sentiu o desconforto de uma frustração? No meu entender ninguém escapa desse sentimento, que estará presente muitas vezes ao longo da vida. Também é certo que a cada decepção, qualquer que seja o motivo, haverá reação por parte de quem se frustrou. Será distinto, porém, o tipo e o grau da reação, que sempre dependerá da situação e do impulso do desejo, que foi objeto de contrariedade.

Não se pode esquecer, no entanto, que esse mal, que poderá advir da frustração, poderá atingir tanto quem se sente frustrado como a quem dá causa a esse sentimento. Também neste outro lado, que envolve quem frustra, a reação agressiva poderá ter graus nas mais variadas escalas, desde um simples insulto quanto a morte, por ato de quem se sente frustrado, como acontece, por exemplo, no crime passional.

Têm-se muitos exemplos de reação agressiva, por parte de quem se sente frustrado, mas que não chegam a colocar em risco a vida de quem dá motivo à frustração. A vida em família é rica em exemplos de descontentamento por quem se sente insatisfeito no que reivindica, que tanto pode ocorrer entre o casal como com os seus filhos. Essas frustrações variam de acordo com a situação socioeconômica de cada família.

Embora muitos sejam os exemplos de frustração, não se pode esquecer de que se trata de um sentimento absolutamente normal. Será uma boa medida, no entanto, que se tenha cautela diante de uma reação exageradamente agressiva por parte de quem se vê frustrado, pois, nesse caso, poderá estar, essa pessoa, acometida de alguma doença mental, sem que seja percebida por quem é causador da frustração.




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6 de jun. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Dobram os Sinos




 

DOBRAM OS SINOS

                     - Pedro Luso de Carvalho




Dobram os sinos

da igreja,

dor e amargura

do sineiro,

anunciando vidas

que se perderam.


Na luta vã

com o vírus

de ferozes garras,

invisíveis garras,

o sineiro chora

com os dobres

dos sinos

anunciando mortes,

infinitas mortes.


Em desespero

o sineiro toca

fortemente

os sinos

da sua igreja,

sem fiéis,

sem as missas

de Domingo.


Já cansado,

sob os sinos

em silêncio,

dorme o sineiro.




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29 de mai. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – O Tempo

 

São Joaquim - SC / Brasil



    O TEMPO

                      - Pedro Luso de Carvalho



A infância passou,

a adolescência passou,

mas o tempo,

ficou vivo

na memória.

Um dia, fiz as malas,

e deixei no alto da Serra,

minha cidade Natal, São Joaquim,

deitada sobre o planalto,

para um dia voltar.

– voltarei ?

Levei para lugares distantes,

de névoas e sombras,

projetos e sonhos.

Levei o zunir dos ventos,

levei a brancura da neve,

e das geadas sobre os campos,

e o esplendor da lua branca.




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22 de mai. de 2021

[Conto] PEDRO LUSO - O Chá das Velhas Senhoras


Ismael Nery / 1900 - 1934


O CHÁ DAS VELHAS SENHORAS

                                      – Pedro Luso de Carvalho

                          

                       

Às quartas-feiras, as três senhoras visitavam a amiga comum no seu antigo apartamento, no centro da cidade. O porteiro, que estava acostumado a recebê-las na portaria do prédio, sempre às quatro horas da tarde, não raro acertava o seu relógio quando elas chegavam.

A anfitriã – das quatro amigas, a mais velha – esperava-as com a mesa posta: pratos e xícaras de fina porcelana, facas e garfos de prata de boa qualidade, um bule trazido de uma de suas viagens a Veneza. No hall do apartamento, entre risos, trocavam abraços e, depois, já acomodadas na sala de visitas, aguardavam o momento em que seriam chamadas para o chá – às quatro e dez, como era o costume.

Sentadas à mesa, antes de servirem-se faziam algumas brincadeiras com a amiga mais nova, que a chamavam de caçula, porque ainda não tinha chegado aos setenta anos. Servia-se, cada uma delas, de chá, doces e salgados. Como a empregada retirava-se depois de deixar o chá sobre a mesa, as velhas senhoras serviam-se com a mobilidade que lhes permitia a idade.

Quando terminavam o chá, satisfeitas e um tanto acaloradas, voltavam aos velhos e elegantes sofás da sala. Aí, tagarelavam sobre uma variedade de assuntos, quase todos ligados ao passado. Faziam ácidas críticas aos antigos namorados e às suas rivais. Falavam sobre os bailes inesquecíveis do Clube do Comércio, de seus casamentos, das viagens que fizeram a Buenos Aires e à Europa, e do muito que compraram nessas andanças.

Quando não tinham mais o que dizer sobre as boas e más lembranças, passavam a falar do dia a dia de cada uma delas: doenças, médicos, enfermeiras, hospitais, remédios. Esses eram, na verdade, os assuntos preferidos das velhas senhoras. Esses assuntos nem sempre eram concluídos, pelo adiantado da hora.

Na reunião da semana, das três amigas, apareceram apenas duas delas. A anfitriã nada falou sobre essa ausência. As amigas cumpriram o ritual de muitos anos, depois deixaram a mesa e reiniciaram a conversa na sala de espera. Uma das amigas disse à anfitriã: "A nossa caçula teve um mal súbito, e nos deixou!". As duas amigas ficaram esperando uma reação de pesar da anfitriã, mas ouviram apenas ela dizer: "é, minhas amigas, era a sua vez!"

Os encontros, às quartas-feiras, foram mantidos como se nada tivesse ocorrido. Numa dessas tardes, apenas uma das amigas compareceu ao chá. A anfitriã não fez nenhuma referência à ausência da outra amiga. A anfitriã e a amiga sentaram-se na sala de espera, como sempre faziam. Depois, tomaram chá, comeram doces e salgados, como era o hábito.

De volta a sala de visitas, a anfitriã perguntou à amiga: "Alguma novidade?" A amiga abaixou a cabeça, tomada de desconforto, e disse: "Nossa querida amiga sofreu um enfarte, e não resistiu". A anfitriã fez-se de desentendida e mudou de assunto. Depois, no horário de costume, despediram-se.

Em outra quarta-feira, a velha senhora colocou os óculos para ver se o relógio de parede havia parado. Estava funcionando. Já eram quatro horas e quinze minutos. A mesa estava posta, e a amiga ainda não havia chegado. "Nunca houve um único atraso", pensou. Sentada à mesa, serviu-se de chá, de doces e salgados, como se estivesse acompanhada. Depois, sentou-se na confortável poltrona, na sala de visitas.

A empregada apareceu diante da velha senhora, depois que desligou o telefone, e, com ar de tristeza, disse-lhe: "A amiga da senhora baixou hospital... a coitadinha não resistiu ao enfisema…" A velha senhora anfitriã levantou-se da poltrona e dirigiu-se à janela, e aí permaneceu por algum tempo; depois, quase num sussurro, disse para si mesma: "Antes ela do que eu!".




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