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28 de mar. de 2020

JORGE LUIS BORGES – O credo de um poeta





O CREDO DE UM POETA

– PEDRO LUSO DE CARVALHO


JORGE LUIS BORGES nasceu a 24 de agosto de 1899, em Buenos Aires, Argentina. Foi fabulista, poeta, contista, ensaísta e mitólogo. Educado num lar bilíngue, aprendeu a escrever em inglês antes de sua língua pátria. Na casa em que morava com a família, o menino Jorge passava boa parte de seu tempo na ampla biblioteca de seu pai.
Já adulto Borges sofreu a influência de poetas espanhóis da vanguarda radical. Seu nome passou a ter visibilidade nos anos 1920, como poeta e ensaísta. As obras em prosa passaram a ser admiradas nos anos de 1930.
Do fim dos anos 1950 até a sua morte – 14 de junho de 1986, em Genebra, Suíça - Borges fez muitas palestras e voltou a escrever poemas, já que sua deficiência visual dificultava sua escrita em prosa.
Segue um trecho de O credo de um poeta, de Jorge Luis Borges (In Borges, Jorge Luis. Esse ofício do verso. 2ª reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 103):


O Credo De Um Poeta 

           (fragmentos)


Meu propósito era falar sobre o credo do poeta, mas, olhando para mim, descobri que tenho apenas um tipo claudicante de credo. Esse credo talvez possa ser útil para mim, mas dificilmente é para os outros.
Aliás, acho que todas as teorias poéticas são meras ferramentas para escrever um poema. Suponho que haja tantos credos, tantas religiões, quantos são os poetas. Embora no final eu diga sobre os meus gostos e desgostos no tocante à escrita da poesia, acho que vou começar com algumas memórias pessoais, não só de escritor, mas também de leitor.
Tenho para mim que sou essencialmente um leitor. Como sabem, eu me aventurei na escrita; mas acho que o que li é muito mais importante que o que escrevi. Pois a pessoa lê o que gosta – porém não escreve o que gostaria de escrever, e sim o que é capaz de escrever.


                                                                   (Jorge Luis Borges)




      *  *  *



17 de mar. de 2020

[Poesia] PEDRO LUSO – O Dia Dourado





O DIA DOURADO

PEDRO LUSO DE CARVALHO


para  TAÍS LUSO DE CARVALHO




Duas torres, duas mãos elevadas
em prece, luz a clarear caminhos.
Soam os sinos da igreja,
da missa dominical, o anúncio.
Rezas dos pecadores,
rezas para não caírem em tentação.

Um dia veio o amor
feito a perfumada flor.
Esperei a amada no altar
para em cânticos celebrar.
Voltamos mais vezes à igreja,
minha amada e eu.
Mais vezes voltamos,
para nossos filhos batizar.
Mais outras vezes voltamos,
para do dia dourado lembrar.





  *    *    *





8 de mar. de 2020

[Poesia] PEDRO LUSO – Da Ambição




DA AMBIÇÃO

-- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Basta apenas um atento olhar
para que eu possa ver
nos olhos faiscantes,
que me olham,
nódoa de desmedida ambição.

De onde vem os ambiciosos?
Vem dos berços de ouro,
dos berços esfarrapados,
vem de todos os lugares,
de cidades e metrópoles.

E são muitos os ambiciosos!
São gente sem alma,
que destroem sonhos,
que roubam projetos
numa ânsia de perpetuação.

E são muitos os ambiciosos!
Eles são vento do Antártico.
Roubam todos os pobres,
quando lhes tiram escola,
quando lhes tiram hospitais.

E são muitos os ambiciosos!
O dia da cobrança chegará!
Sim, chegará esse dia!
No Inferno haverá um lugar
à espera de toda essa gente.

Saberão esses encharcados
de tanta ambição e vilania,
que o Inferno não é Brasília.




   *  *  *




25 de fev. de 2020

[Poesia] PEDRO LUSO – O Facho de Luz



O FACHO DE LUZ
Pedro Luso de Carvalho


Lá fora, junto aquele poste,
há um facho de luz em círculo,
dentro dele disforme sombra,
não sei se de homem ou de bicho.

Tento ver no facho de luz
além da estranha sombra,
no círculo de luz, embaixo.

Nada se mostra senão sombra,
mesmo a pressentir sofrimento,
seja dor de homem ou de bicho.

Atento ao facho de luz
a ferir o escuro da noite,
procuro decifrar a sombra
embaixo, na luz e no breu.

É sombra de homem ou de bicho?
Por certo, nunca saberei.




 *   *   *




15 de fev. de 2020

[Poesia] PEDRO LUSO – Na Janela





NA JANELA

– Pedro Luso de Carvalho



Guardo a imagem do homem
na janela,
a esconder-se
no outro lado da vidraça,
quando por ali eu passava.

Eu era menino, ainda lembro
daquele homem,
do seu vulto,
a esconder-se na alva cortina,
que mais mostrava que escondia.

Quando eu passava pela casa,
na quietude
das manhãs,
tomado de medo do homem,
olhava-o com o canto dos olhos.

Com as perninhas a tremer,
sem fôlego,
corria, corria,
até chegar à minha escola.

Todos diziam que era louco,
o pobre homem.
Uma criança,
foi tudo o que nele pude ver.




*  *  *




6 de fev. de 2020

[Poesia] PEDRO LUSO – Crepúsculo






CREPÚSCULO

-- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Daqui do alto, onde estou,
vejo a rua toda à frente,
estendida entre prédios
até sumir
na perspectiva,
ilusão do olhar,
e cair nas calmas águas
encrespadas pelo vento,
mansas águas do Guaíba.

Nesse olhar fascinado,
vejo o sol cair lá adiante
no horizonte,
é o pôr do sol
na tarde que morre
na multicolorida claridade.

Fez-se anunciada a noite,
já bem próxima,
anúncio do breu
e dos mistérios da noite.

Retirei-me mansamente
da ladeira, aonde estava,
por medo das sombras,
enquanto gente ingênua
e gente maldosa
vagam na noite
sem rumo certo
com almas cinzentas,
até um novo amanhecer.




 *  *  *





30 de jan. de 2020

[Poesia] PEDRO LUSO – A Maldade





     A MALDADE

      - PEDRO LUSO DE CARVALHO




A maldade já vem pronta,
terá seu jeito aos poucos
em definitiva forma,
e estará à vista
dos que queiram ver.

A maldade já vem pronta,
vem nos olhos,
na boca,
no jeito de falar
com voz em falsete.

A maldade já vem pronta,
precisa tão só de espaço,
então se mostrará
e fará vítimas,
sem delas se condoer.

A maldade já vem pronta,
não se importará com a dor
da mão estendida
para o afago perdido,
sol que se apaga no peito.

A maldade já vem pronta,
descuido da genética,
não o sonho dos pais,
vem mansamente
ao nascer o ente maldoso.




*  *  *




23 de jan. de 2020

[Poesia] PEDRO LUSO – Os Cupins





OS CUPINS

-- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Neste verão os cupins vivem aqui,
na querida Porto Alegre,
cidade de todos
que aqui moram,
minha cidade por adoção
e de outros filhos adotivos,
como o ilustre poeta
Mário Quintana,
que aqui chegou bem antes.

Meu canto é sobre cupins,
do tema não fugirei,
já que são assuntos
em conversas tantas
de mulheres aflitas
e de homens zonzos,
com tantas falas e zumbidos.

Há tantos cupins na casa,
voando na tarde,
na noite adentro,
por aqui
por ali
com ares de trapezistas
dos melhores circos,
depois perdem as asas
qual flores despetaladas.

Sem asas furam madeiras
deixando no chão
sobras dos seus jantares
e suas asinhas incolores.

Pensei em vender a casa,
mas Taís, mulher de fibra,
não concordou,
daqui não quer sair.

A impressão que ficou
é que Taís amor pegou
aos bichinhos voadores,
destruidores de móveis,
portas e janelas
bem longe de nossas vistas,
num trabalho silencioso,
devastador trabalho.

Como recordação,
ficam as madeiras
corroídas
e as asinhas
descoloridas
em todas as peças da casa.




*  *  *



16 de jan. de 2020

[Poesia] PEDRO LUSO – Sol de Verão





SOL DE VERÃO
-- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Filha, agora é tempo de sol!
Tempo de dias ensolarados,
tempo de enoites estreladas,
tempo de noites enluaradas!
Sol ao amanhecer,
sol ao meio-dia,
sol na tarde quente!
Sol, muito sol, filha!
Turistas chegando,
agitação nas cidades,
cidades nas serras,
gente nas matas,
gente nos rios,
gente nas ruas enfeitadas!
Cidades do mar,
gente nas praias,
com pés submersos
em crespas águas,
na maciez da areia!
Há tanta gente alegre, filha!
Sorrisos voam
como pássaros,
de um lugar para outro!
Voltou o sol de verão, filha!
Veio com a luz da esperança.




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9 de jan. de 2020

[Poesia] PEDRO LUSO – Os Judeus





OS JUDEUS
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



Do dia para noite,
ricos respeitados
no desfrute de iluminadas vidas,
homens instruídos
instruídas mulheres,
veem seus castelos ruírem
ante a loucura
de quem via o invisível,
a superioridade
da ariana raça,
impondo humilhação
e dor ao povo judeu.

Os germânicos acreditaram,
não todos, mas foram muitos,
no celerado líder
com a força do aval
para submeter aos judeus,
crianças, mulheres e homens,
à prisão e à fome,
à tortura e à morte
(sem compadecimento)
nas câmaras de gás,
em campos de concentração,
onde o silêncio amedrontava.

Depois da tortura e da morte
de milhões e milhões de judeus,
foram abertos os campos
(concentração do terror)
para permanecer no tempo
(como sinal de alarme),
a denúncia de tantos crimes,
com heróis semivivos
a lembrar a barbárie,
para que nada fique escondido
no tempo presente e futuro,
para que nada fique esquecido.




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