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2 de ago. de 2020

[Poesia] CRUZ E SOUZA – Lua




           – PEDRO LUSO DE CARVALHO

CRUZ E SOUZA (João da Cruz e Souza), nasceu em Desterro, atual Florianópolis, SC, a 24 novembro de 1861, e faleceu em Sítio, atual município de Antônio Carlos, MG, a 19 de março de 1898. Seus pais eram escravos, negros; descendência africana, que, segundo Álvaro Lins, “deu um caráter particular ao simbolismo de sua poesia”.
No Brasil, Cruz e Souza é o poeta mais discutido e influente da escola simbolista – enquanto que os nome mais importantes na França são Rimbaud, Verlaine e Mallarmé. Cruz e Souza foi vítima de uma campanha extremamente agressiva por parte de pessoas que faziam parte do meio literário brasileiro, que não o aceitavam como chefe da escola, pelas audaciosas inovações de seus versos, e também pelo preconceito de cor.
Desafortunado também na sua vida particular, o poeta viu a tuberculose tirar a vida de sua mulher e de seus quatro filhos. Embora infeliz por essas perdas e por vive num ambiente de pobreza, contou com um grupo de amigos e discípulos dedicados. Ronald de Carvalho assim se posicionava acerca da poesia de Cruz e Souza, dizendo que “apesar de todas as suas insuficiências, a força de um precursor. Ele introduziu em nossas letras aquele 'horror de forma concreta', de que já o grande Goethe se lastimava no século XVIII”.
Obras de Cruz e Souza: Broquéis (1893), Missal, (1893), Evocações (1898), Faróis (1900) [Rio de Janeiro], e Últimos sonetos [Paris, 1905].
Segue o poem de Cruz e Souza, Lua (in Broqéis, Cruz e Souza. Rio de Janeiro: 1893, p. 49-51:


LUA
Cruz e Souza


Clâmides frescas, de brancuras frias,
Finíssimas dalmáticas de neve
Vestem as longas árvores sombrias,
Surgindo a Lua nebulosa e leva...

Névoas e névoas frígidas ondulam...
Alagam lácteos e fulgentes rios
Que na enluarada refração tremulam
Dentre fosforescências, calafrios...

E ondulam névoas, cetinosas rendas
De virginais, de prônubas alvuras...
Vagam baladas e visões e lendas
No flórido noivado das Alturas...

E fria, fluente, frouxa claridade
Flutua como as brumas de um letargo...
E erra no espaço, em toda a imensidade,
Um sonho doente, cilicioso, amargo...

Da vastidão dos páramos serenos,
Das siderais abóbadas cerúleas
Cai a luz em antífonas, em trenos,
Em misticismos, orações e dulias...

E entre os marfins e as pratas diluídas
Dos lânguidos clarões tristes e enfermos,
Com grinaldas de roxas margaridas
Vagam as Virgens de cismares ermos...

Cabelos torrenciais e dolorosos
Boiam nas ondas dos etéreos gelos.
E os corpos passam níveos, luminosos,
Nas ondas do luar e dos cabelos...

Vagam sombras gentis de mortas, vagam
Em grandes procissões, em grandes alas,
Dentre as auréolas, os clarões que alagam,
Opulências de pérolas e opalas.

E a Lua vai clorótica fulgindo
Nos seus alperces etereais e brancos,
A luz gelada e pálida diluindo
Das serranias pelos largos flancos...

Ó Lua das magnólias e dos lírios!
Geleira sideral entre as geleiras!
Tens a tristeza mórbida dos círios
E a lividez da chama das poncheiras!

Quando ressurges, quando brilhas e amas,
Quando de luzes a amplidão constelas,
Com os fulgores glaciais que tu derramas
Dás febre e frio, dás nevrose, gelas...

A tua dor cristalizou-se outrora
Na dor profunda mais dilacerada
E nas dores estranhas, ó Astro, agora,
És a suprema Dor cristalizada!...


* *


REFERÊNCIA:
LINS, Álvaro e Buarque de Hollanda, Aurélio. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Vol. 2. Rio de Janeiro, Civilização brasileira, 1966, p. 273-275.

* * *



25 de jul. de 2020

[Poesia] T. S. ELIOT - Os Homens Ocos



PEDRO LUSO DE CARVALHO

T. S. ELIOT é o nome literariamente adotado por Thomas Stearns Eliot. O escritor norte-americano nasceu em St. Louis, Missouri. Estudou na Universidade de Harvard, onde concluiu o curso de medicina, em 1910. E depois, também em Harvard, doutorou-se em Filosofia. Mais tarde, tornar-se-ia um dos poetas modernos mais discutidos na Europa e nos Estados Unidos. Eliot também foi responsável por importantes ensaios, e, como dramaturgo, por peças de teatro, dentre elas, Assassinato na Catedral (1935).
Em 1914, Thomas Eliot passou a residir na Inglaterra. Após a deflagração da Primeira Guerra Mundial, lecionou filosofia na conceituada universidade de Oxford. Com 25 anos, Eliot resolveu que não mais voltaria a morar nos Estados Unidos. Quando contava com 39 anos de idade, no ano de 1927, tornou-se cidadão britânico. Em 1948 , recebeu o Premio Nobel de Literatura. A sua morte, em 4 de janeiro de 1965, na Inglaterra, deixaria uma importante lacuna na literatura.
Segue o poema de T.S. Eliot “Os Homens Ocos”, escrito em 1925, traduzido pelo poeta e crítico literário Ivan Junqueira, já falecido, membro da Academia Brasileira de Letras (In Escritores em ação. Coordenação de Malcolm Cowley. Literatura e Teoria Literária, vol. 15. Rio de Janeiro, Editora Paz & Terra,1982, p. 159-1810):

OS HOMENS OCOS
 T. S. Eliot


Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.
               II
Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.
Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo
- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular
               III
Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.
E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.
               IV
Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos
Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio
Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.
              V
Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada
Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa
Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.



*  *  *



9 de jul. de 2020

[Poesia] EDGAR ALLAN POE – Um Sonho Num Sonho


PEDRO LUSO DE CARVALHO

EDGAR ALLAN POE não foi o nome anotado no registro civil, onde constava apenas Edgar Poe, nascido no dia 19 de janeiro de 1809, em Boston, Massachusetts, Estados Unidos da América, filho de artistas ambulantes, o pai um ator que teve uma vida obscura, falecido logo após o seu nascimento, a mãe, uma atriz inglesa, que morreu no ano de 1811, em extrema pobreza, quando o filho Edgar não tinha completado ainda três anos de idade.
Órfão, o menino Edgar foi adotado por Elizabeth e David Allan, casal escocês, sem filhos, que vivia na cidade de Richmond. Seu pai adotivo, comerciante abastado, deu-lhe o nome de família “Allan”. Então, ao juntar ao seu nome de registro a “Allan” ficou o nome que se tornaria famoso e que resistiria a passagem do tempo: Edgar Allan Poe. Esse genial contista, poeta, ensaísta faleceu a 7 de outubro de 1849, em Baltimore, Maryland, EUA, aos 40 anos de idade.
A nova família mudou-se para a Inglaterra em 1815. Poe passou a estudar na escola particular Stoke-Newington, no subúrbio de Londres. De volta aos Estados Unidos, em 1820, passou a estudar em Richmond, Virginia. Depois foi admitido na aristocrática Universidade de Virginia, fundada por Thomas Jefferson, poucos anos antes do seu ingresso.
Poe nunca se enquadrou com o modo de vida da Universidade, que estava habituada à férrea disciplina; ele, ao contrário, pessoa inquieta, tinha conduta irregular, se vista segundo a cultura desse grupo social. A bebida, o jogo, as maneiras pouco convencionais logo repercutiram no seio das famílias aristocráticas, que passaram a exigir do diretor a sua expulsão, o que acabou se concretizando.
No ano de 1829 morreu sua mãe adotiva. Nesse mesmo ano, Poe lançou a primeira edição de “Tarmelane and other poems”. Após o rompimento com seu pai passou a viver sob a proteção de Maria Clemm, sua tia. Com esta e sua prima, mudou-se para Baltimore. Em 1835 casou com a prima Virginia, que contava com apenas treze anos de idade. Virginia faleceu aos 27 anos, vítima da tuberculose, em consequência da pobreza em que vivia o casal.
Edgar AllanPoe obteve o reconhecimento na Europa, como escritor, primeiramente na França, onde teve como divulgador de sua obra, e o primeiro a traduzi-la para o francês, o conceituado poeta Charles Baudelaire (1821-1867). Mallarmé (1842-1898), um dos expoentes do Simbolismo francês, continuou a fazer a divulgação das histórias de mistério e de elementos macabros, que deram ao estilo gótico americano uma outra face. William Carlos Williams dizia que Poe foi o primeiro autor verdadeiramente americano.
A prosa de Edgar Allan Poe, com seus contos, mudou a literatura dos Estados Unidos da América, até então presa às convenções ditadas pela moral e pela religião. Influenciou escritores importantes, como diz, André Maurois, que estão ao seu nível: Kafka, Wells, Chesterton e Borges. Diz ainda Maurois: "Poe escreveu contos perfeitos de horror fantástico e inventou a narração policial”.
Mallarmé, um dos expoentes do Simbolismo, continuou a fazer a divulgação das histórias e poesias de Poe, que se viu consagrado nos dois anos que antecederam sua morte. Essa consagração deveu-se não apenas ao conto, mas também a sua poesia, cujos versos falam apenas de mundos interiores, sem qualquer menção ao mundo exterior, como, por exemplo, o magistral poema O Corvo, que Poe escreveu inspirado em Vírgínia Clemm, sua prima, que viria ser sua esposa.
Os CONTOS mais conhecidos de Edgar Allan Poe, são: A Máscara da Morte Rubra, O Poço e o Pêndulo, O Gato Preto, O Palácio Assombrado, O Crime da Rua Morgue.
Edgar Allan Poe pouco antes de ingressar em West Point, onde estudou durante dois anos, para seguir a carreira militar, da qual desistiu, já havia publicado o seu segundo volume de versos com uma revisão de Tamerlane e Al Aaraaf, que, em 1831 foi reeditado – os versos Israfele e Para Helena denunciavam o poeta que viria ser. Em 1833 ganhou um prêmio literário instituído pelo Saturday Visitor, com o conto Um manuscrito encontrado numa garrafa; nessa época, que contava com vinte e quatro anos de idade, Poe vivia em extrema pobreza. No ano de 1847, teve algumas de suas histórias traduzidas para o francês; Charles Baudelaire ao lê-las, assim se exprimiu: “experimentara estranha emoção”. Baudelaire aguardava as revistas norte-americanas que chegavam com a publicação dos contos e poesias de Poe.
Os POEMAS mais conhecidos de Poe, são: O Corvo (obra-prima de Poe), Tarmelão, Israfel, Para Helena, Ulalume, Os Sinos, Al Aaraaf Annabel Lee, entre outros.
No que respeita à poesia de Edgar Allan Poe, escreveu Charles Baudelaire: “Como poeta, Edgar Poe é um homem à parte. Representa quase sozinho o movimento romântico do outro lado do oceano. É o primeiro americano que, propriamente falando, fez do seu estilo uma ferramenta. Sua poesia, profunda e gemente, é, não obstante, trabalhada, pura, correta e brilhante, como uma jóia de cristal. Edgar Poe amava os ritmos complicados e, por mais complicados que fossem, neles encerrava uma harmonia profunda”.
Edgar Allan Poe era dotado de extraordinária imaginação, qualidade que se somava a outra, qual seja, a de ter sido intransigente no tocante à qualidade literária de sua obra; daí ter despertado o interesse na sua tradução do inglês para muitos idiomas – para o português, o poema O Corvo também foi traduzido por nomes famosos como Machado de Assis e Fernando Pessoa.
No que respeita à poesia de Poe, escreve Baudelaire: “Como poeta, Edgar Poe é um homem à parte. Representa quase sozinho o movimento romântico do outro lado do oceano. É o primeiro americano que, propriamente falando, fez do seu estilo uma ferramenta. Sua poesia, profunda e gemente, é, não obstante, trabalhada, pura, correta e brilhante, como uma joia de cristal. Edgar Poe amava os ritmos complicados e, por mais complicados que fossem, neles encerrava uma harmonia profunda”.
Vai transcrito abaixo o poema Um sonho num sonho, de autoria do  nosso homenageado, Edgar Allan Poe:

UM SONHO NUM SONHO
                Edgar Allan Poe




Este beijo em tua fronte deponho!
Vou partir. E bem pode, quem parte,
francamente aqui vir confessar-te
que bastante razão tinhas, quando
comparaste meus dias a um sonho.
Se a esperança se vai, esvoaçando,
que me importa se é noite ou se é dia...
ente real ou visão fugidia?
De maneira qualquer fugiria.
O que vejo, o que sou ou suponho
não é mais do que um sonho.

Fico em meio ao clamor, que se alteia
de uma praia, que a vaga tortura.
Minha mão grãos de areia segura
com bem força, que é de ouro essa areia.
São tão poucos! Mas fogem-me, pelos
dedos, para a profunda água escura.
Os meus olhos se inundam de pranto.
Oh! meu Deus! E não posso retê-los,
se os aperto na mão, tanto e tanto?
Ah! meu Deus! E não posso salvar
um ao menos da fúria do mar?
O que vejo, o que sou ou suponho
será apenas um sonho num sonho?




             *  *




REFERÊNCIAS:
MAUROIS, André. De Aragon a Montherlant. Tradução de Paulo Hecker Filho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1967, pg. 99-100.
POE, Edgar Allan. Poemas e ensaios. Tradução de Oscar Mendes e Milton Amado, 3ª ed. Revista. São Paulo: Editora Globo, 1999, p. 11-13, 45-46.
POE, Edgar Allan. Dictionnaire Encyclopédique Pour Tous. 24ª tirage. Paris: Petit Larousse, 1966.
POE, Edgar Allan. Antologia de Contos. Tradução de Brenno Silveira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1959.



         *  *  *



28 de jun. de 2020

[Poesia] CECÍLIA MEIRELES – Pergunta






– PEDRO LUSO DE CARVALHO


CECÍLIA MEIRELES apareceu no mundo literário do nosso país no ano de 1922, com publicações nas revistas Árvore Nova, Terra de Sol e Festa, no período de 1919 a 1927, nos quais escritores católicos defendiam a renovação das letras brasileiras na base do equilíbrio e do pensamento filosófico. O aparecimento da poetisa deu-se, portanto, por coincidência, na época em que eclodia o movimento modernista (1922), no qual os escritores nele envolvidos representavam uma outra tendência.

Cecília Meireles era descendente, pela linha materna, de açorianos de São Miguel. Nasceu no Rio de Janeiro, a 7 de novembro de 1901. Foram seus pais, Carlos Alberto Carvalho Meireles, funcionário do Banco do Brasil, falecido aos 26 anos de idade, três meses antes do nascimento da filha e de Matilde Benevides, professora municipal, falecida quando Cecília tinha três anos de idade. A menina Cecília ficou sob a tutela a avó materna, Jacinta Garcia Benevides, de origem açoriana, por ter sido a única pessoa sobrevivente da família. Cecília Meireles morreu no Rio de Janeiro, no dia 9 de novembro de 1964, aos 63 anos de idade.

Darcy Damaceno escreveu um importante ensaio sobre a obra da poetisa, intitulado Poesia Sensível e do Imaginário, que foi publicado como introdução ao livro Flor de poemas, de Cecília Meireles, de cujo ensaio, de Darcy Damasceno, alguns trechos serão transcritos, como segue:

A aproximação entre Cecília Meireles e os jovens congregados em torno de Tasso da Silveira e Andrade Murici, embora não implicando compromisso de ordem doutrinária, delineava a feição espiritual de sua arte, inspirada em elevado misticismo e acentuada comunhão de juízos literários, expressa na admiração por Cruz e Souza e os poetas simbolistas.

Com a publicação de Viagem o influxo simbolista perderia em relevo externo para introduzir-se em filosofia de vida e comprometimento estético. A similitude temática e formal, que ligava Cecília Meireles e os epígonos do Simbolismo, cedeu lugar à pluralidade de motivos e à eleição de certos metros; o vocabulário típico substituiu-se por um léxico mais variado, e os preceitos espiritualistas de pensamento filosófico, tradição e universalidade vieram singularmente concretizar-se no menos ortodoxo dos trovadores.

A premiação em 1938, pela Academia Brasileira de Letras, de Viagem, significou o reconhecimento de um empenho monacal no estudo de nossa tradição literária e na assimilação dos recursos expressivos da arte verbal. Com esse livro ingressava Cecília Meireles na primeira linha dos poetas brasileiros, ao mesmo tempo que se distinguia como a única figura universalizante do movimento modernista.

A visão da natureza física não é, na poesia de Cecília Meireles, apenas pormenorizada; também panorâmica. Ademais da meticulosidade na inventariação das coisas, ocorre nela a pintura larga, policrômica, na qual se retrata um cenário de árvores, nuvens, rios, bichos e homens.

Vemos assim avivarem-se os rastros da alma alertada contra os desenganos do mundo, desenganos que se enfeixam num tópico principal: o da brevidade da vida. A insegurança do ser humano, a fragilidade das coisas, a inconstância da sorte, a ideia de que tudo é sonho são temas que, direta ou indiretamente, daquele decorrem:

"tudo é um natural armar e desarmar de andaimes
entre tempos vagarosos,
sonhando arquiteturas."

Segue o poema Pergunta, de Cecília Meireles (In Meireles, Cecília. Flor de poemas. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1972, p. 1-2, 10, 15, 30, 35, 75-76):


P E R G U N T A
Cecília Meireles



Estes meus tristes pensamentos
vieram de estrelas desfolhadas
pela boca brusca dos ventos?

Nasceram das encruzilhadas
onde os espíritos defuntos
põem no presente horas passadas?

Originaram-se de assuntos
pelo raciocínio dispersos,
e depois na saudade juntos?

Subiram de mundos submersos
em mares, túmulos ou almas,
em música, em mármore, em versos?

Cairam das noites calmas,
dos caminhos dos luares lisos,
em que o sono abre mansas palmas?

Provêm de fatos indecisos,
acontecidos entre brumas,
na era de extintos paraísos?

Ou de algum cenário de espumas,
onde as almas deslizam frias,
sem aspirações mais nenhumas?

Ou de ardentes e inúteis dias,
com figuras alucinadas
por desejos e covardias?...

Foram as estátuas paradas
em roda da água do jardim...?
Foram as luzes apagadas?

Ou serão feitos só de mim,
estes meus tristes pensamentos
que bóiam como peixes lentos

num rio de tédio sem fim?





*  *  *