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14 de abr de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Tristezas do Brasil




TRISTEZAS DO BRASIL
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Neste andar, sinto a tristeza da terra,
há desprezo pela terra ferida,
cortaram árvores em plena vida,
pelo lucro, envenenaram rios.

Neste andar sinto nos pés terra seca,
desprezo dos ávidos pela terra,
importa da terra arrancar ouro
para os poderosos, vida farta.

Neste andar, sinto não ter resistência,
na densa bruma somem meus esforços.
No Brasil, inexpugnável muralha
feita de leis, escudo de apátridas.

Neste andar no nordeste, sol ardente,
secas, áridas terras do sertão,
rezas dos sertanejos pelas chuvas –
Deus dá pão para saciar a fome?




*  *  *




8 de abr de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Os Corvos






OS CORVOS
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Não incorreria no erro indesculpável
de aos corvos negar sabidos méritos.
Não é deles a missão da assepsia?

Limpo o solo de tudo o que é pútrido,
para ser plantada a terra está pronta,
no céu planam os corvos vigilantes.

Quase cometi injustiça, confesso,
não se nivelam corvos e políticos,
que das aves de rapina são presas.

Conhecem as suas presas os corvos.
As putrefatas carnes dos políticos
são, dessas aves, os fartos banquetes.





*  *  *





2 de abr de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – As Cartas




AS CARTAS
PEDRO LUSO DE CARVALHO


Com zelo guardo as cartas recebidas,
leituras tantas vezes repetidas.
Alívio para minhas dores d’alma.

Dizem essas cartas o que eu não via,
olhos toldados pela ambição vil.
Vejo agora a perda não resgatada.

Consolam-me essas cartas delicadas
nas noites de quieta solidão.
Cânticos daqueles anos perdidos.

Nas cartas vejo a lonjura do tempo,
agora presente nessas missivas.
Aonde andará minha missivista?




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23 de mar de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Vento de Outono



VENTO DE OUTONO
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Sentado no banco, úmido ainda
pelo sereno, da noite lágrimas.
Outono pródigo em folhas secas,
ensinança da vida e do tempo.

Deixo que o vento sopre suave,
com as folhas faça redemoinhos,
para o inverno guarde suas forças
será ciclones e tempestades.

Imóvel no banco do jardim,
às minhas indagações retomo,
rosário interminável de dúvidas.
Para me iluminar, onde luz?

Fiz aquilo que pude fazer,
o percurso foi curto, bem sei.
Pouco visível o andar do tempo,
a deixar o seu rastro no espelho.




*  *  *




18 de mar de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – A Porta




A PORTA
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Terei batido na porta errada,
não será esta a minha casa,
meu refúgio, onde entro sorrateiro?

Ao meu sinal a porta não abre,
em algum lugar esqueci a chave,
e já é noite, abrigo de fantasmas.

No interior da casa não há luz,
nenhum sinal de gente na casa,
assustam-me os ruídos que ouço.

Na noite já alta, clara noite,
tentativas vãs de abrir a porta
vou em busca do brilho de uma estrela.





*  *  *





10 de mar de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – A Minha Poesia





A MINHA POESIA
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Poesia, minha força na noite,
modo sereno de o medo afastar,
há perigo à espreita na noite,
de punhais, tantos ataques mortais.

Poesia, biombo onde me escondo,
pés alados para voo entre nuvens,
a minha renúncia à luta inglória –
aos vilões minha ira, meu repúdio.

Poesia até o meu último canto,
até o último degrau da escada.
Ainda é meu farol a poesia,
iluminando as ruas aonde ando.




*  *  *




2 de mar de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – O Pedido de uma Mãe





O PEDIDO DE UMA MÃE
PEDRO LUSO DE CARVALHO




Mulher altiva, vaidade viva
ante de mim, vitrina do luxo,
as mãos asas em voo de pássaro.

Veio de minas de diamantes,
ou da escuridão do mar profundo,
ou de raio com trovão, a aflição?

Senti que dela nada ouviria.
Feito coração a boca pintada,
semiabertos os lábios mudos.

Pago pelo trabalho que peço,
moça, por amor deixei meu filho –
com amargura, falou a mulher.

A juventude tirou-me o tempo, 
fiquei com fugidias lembranças
do filho, que à justiça imploro.




  
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22 de fev de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – No Decurso da Noite Longa




NO DECURSO DA NOITE LONGA
PEDRO LUSO DE CARVALHO




No decurso da noite longa
ouço o som
da fala do tempo
e o embate do vento
lacrimoso nas paredes da alma.

No decurso da noite longa
lembranças suspiram –
esperam reviver
momentos passados
no tempo, flecha solta do arco.

No decurso da noite longa
o remorso,
ferro em brasa
derretendo as beiras
da alma, em morte lenta.

No decurso da noite longa
sôfrego desejo
que eu tenho
de esquecer males e danos,
saldo de ímpetos incontidos.




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14 de fev de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – A Minha Cidade






A MINHA CIDADE
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Quem poderá medir a infinda tristeza,
por todos sentida, na minha cidade,
ruas e praças com encanto perdido?

Centro da cidade, sinto dor e pena,
as nódoas do tempo urdem tanta feiura.
Não será o centro palco da cidade?

Na manifesta dor, lágrima traiçoeira
pela dor da cidade, que me adotou,
ápice do brilho de um tempo dourado.

Lembranças tenho daquela Porto Alegre,
no centro enfeitada com praças e ruas,
moças nas ruas, passarelas de sonhos.

Alguém me diga onde estão as floridas ruas,
as belas ruas de Mário Quintana,
aonde, em lento andar, tecia poemas.





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3 de fev de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – A Mãe




A MÃE
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Este não é o quartinho,
onde meu filho embalei,
protesta a mãe, voz queixosa.

No breu desta fria cova
sugam-me o sangue morcegos,
lamenta-se a pobre mãe.

Este não é o quartinho
do meu filho que ninei,
queixa-se a mãe angustiada.

No foro, júri reunido,
diz à mãe um homem soturno:
o crime tem o seu preço.

A sentença fere a mãe:
o filho cumprirá pena
tão longe dela, e tão perto.




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