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9 de jul. de 2020

[Poesia] EDGAR ALLAN POE – Um Sonho Num Sonho



Pedro Luso de Carvalho


EDGAR ALLAN POE não foi o nome anotado no registro civil, onde constava apenas Edgar Poe, nascido no dia 19 de janeiro de 1809, em Boston, Massachusetts, Estados Unidos da América, filho de artistas ambulantes, o pai um ator que teve uma vida obscura, falecido logo após o seu nascimento, a mãe, uma atriz inglesa, que morreu no ano de 1811, em extrema pobreza, quando o filho Edgar não tinha completado ainda três anos de idade.
Órfão, o menino Edgar foi adotado por Elizabeth e David Allan, casal escocês, sem filhos, que vivia na cidade de Richmond. Seu pai adotivo, comerciante abastado, deu-lhe o nome de família “Allan”. Então, ao juntar ao seu nome de registro a “Allan” ficou o nome que se tornaria famoso e que resistiria a passagem do tempo: Edgar Allan Poe. Esse genial contista, poeta, ensaísta faleceu a 7 de outubro de 1849, em Baltimore, Maryland, EUA, aos 40 anos de idade.
A nova família mudou-se para a Inglaterra em 1815. Poe passou a estudar na escola particular Stoke-Newington, no subúrbio de Londres. De volta aos Estados Unidos, em 1820, passou a estudar em Richmond, Virginia. Depois foi admitido na aristocrática Universidade de Virginia, fundada por Thomas Jefferson, poucos anos antes do seu ingresso.
Poe nunca se enquadrou com o modo de vida da Universidade, que estava habituada à férrea disciplina; ele, ao contrário, pessoa inquieta, tinha conduta irregular, se vista segundo a cultura desse grupo social. A bebida, o jogo, as maneiras pouco convencionais logo repercutiram no seio das famílias aristocráticas, que passaram a exigir do diretor a sua expulsão, o que acabou se concretizando.
No ano de 1829 morreu sua mãe adotiva. Nesse mesmo ano, Poe lançou a primeira edição de “Tarmelane and other poems”. Após o rompimento com seu pai passou a viver sob a proteção de Maria Clemm, sua tia. Com esta e sua prima, mudou-se para Baltimore. Em 1835 casou com a prima Virginia, que contava com apenas treze anos de idade. Virginia faleceu aos 27 anos, vítima da tuberculose, em consequência da pobreza em que vivia o casal.
Edgar AllanPoe obteve o reconhecimento na Europa, como escritor, primeiramente na França, onde teve como divulgador de sua obra, e o primeiro a traduzi-la para o francês, o conceituado poeta Charles Baudelaire (1821-1867). Mallarmé (1842-1898), um dos expoentes do Simbolismo francês, continuou a fazer a divulgação das histórias de mistério e de elementos macabros, que deram ao estilo gótico americano uma outra face. William Carlos Williams dizia que Poe foi o primeiro autor verdadeiramente americano.
A prosa de Edgar Allan Poe, com seus contos, mudou a literatura dos Estados Unidos da América, até então presa às convenções ditadas pela moral e pela religião. Influenciou escritores importantes, como diz, André Maurois, que estão ao seu nível: Kafka, Wells, Chesterton e Borges. Diz ainda Maurois: "Poe escreveu contos perfeitos de horror fantástico e inventou a narração policial”.
Mallarmé, um dos expoentes do Simbolismo, continuou a fazer a divulgação das histórias e poesias de Poe, que se viu consagrado nos dois anos que antecederam sua morte. Essa consagração deveu-se não apenas ao conto, mas também a sua poesia, cujos versos falam apenas de mundos interiores, sem qualquer menção ao mundo exterior, como, por exemplo, o magistral poema O Corvo, que Poe escreveu inspirado em Vírgínia Clemm, sua prima, que viria ser sua esposa.
Os CONTOS mais conhecidos de Edgar Allan Poe, são: A Máscara da Morte Rubra, O Poço e o Pêndulo, O Gato Preto, O Palácio Assombrado, O Crime da Rua Morgue.
Edgar Allan Poe pouco antes de ingressar em West Point, onde estudou durante dois anos, para seguir a carreira militar, da qual desistiu, já havia publicado o seu segundo volume de versos com uma revisão de Tamerlane e Al Aaraaf, que, em 1831 foi reeditado – os versos Israfele e Para Helena denunciavam o poeta que viria ser. Em 1833 ganhou um prêmio literário instituído pelo Saturday Visitor, com o conto Um manuscrito encontrado numa garrafa; nessa época, que contava com vinte e quatro anos de idade, Poe vivia em extrema pobreza. No ano de 1847, teve algumas de suas histórias traduzidas para o francês; Charles Baudelaire ao lê-las, assim se exprimiu: “experimentara estranha emoção”. Baudelaire aguardava as revistas norte-americanas que chegavam com a publicação dos contos e poesias de Poe.
Os POEMAS mais conhecidos de Poe, são: O Corvo (obra-prima de Poe), Tarmelão, Israfel, Para Helena, Ulalume, Os Sinos, Al Aaraaf Annabel Lee, entre outros.
No que respeita à poesia de Edgar Allan Poe, escreveu Charles Baudelaire: “Como poeta, Edgar Poe é um homem à parte. Representa quase sozinho o movimento romântico do outro lado do oceano. É o primeiro americano que, propriamente falando, fez do seu estilo uma ferramenta. Sua poesia, profunda e gemente, é, não obstante, trabalhada, pura, correta e brilhante, como uma jóia de cristal. Edgar Poe amava os ritmos complicados e, por mais complicados que fossem, neles encerrava uma harmonia profunda”.
Edgar Allan Poe era dotado de extraordinária imaginação, qualidade que se somava a outra, qual seja, a de ter sido intransigente no tocante à qualidade literária de sua obra; daí ter despertado o interesse na sua tradução do inglês para muitos idiomas – para o português, o poema O Corvo também foi traduzido por nomes famosos como Machado de Assis e Fernando Pessoa.
No que respeita à poesia de Poe, escreve Baudelaire: “Como poeta, Edgar Poe é um homem à parte. Representa quase sozinho o movimento romântico do outro lado do oceano. É o primeiro americano que, propriamente falando, fez do seu estilo uma ferramenta. Sua poesia, profunda e gemente, é, não obstante, trabalhada, pura, correta e brilhante, como uma joia de cristal. Edgar Poe amava os ritmos complicados e, por mais complicados que fossem, neles encerrava uma harmonia profunda”.
Vai transcrito abaixo o poema Um sonho num sonho, de autoria do  nosso homenageado, Edgar Allan Poe:

UM SONHO NUM SONHO
                Edgar Allan Poe




Este beijo em tua fronte deponho!
Vou partir. E bem pode, quem parte,
francamente aqui vir confessar-te
que bastante razão tinhas, quando
comparaste meus dias a um sonho.
Se a esperança se vai, esvoaçando,
que me importa se é noite ou se é dia...
ente real ou visão fugidia?
De maneira qualquer fugiria.
O que vejo, o que sou ou suponho
não é mais do que um sonho.

Fico em meio ao clamor, que se alteia
de uma praia, que a vaga tortura.
Minha mão grãos de areia segura
com bem força, que é de ouro essa areia.
São tão poucos! Mas fogem-me, pelos
dedos, para a profunda água escura.
Os meus olhos se inundam de pranto.
Oh! meu Deus! E não posso retê-los,
se os aperto na mão, tanto e tanto?
Ah! meu Deus! E não posso salvar
um ao menos da fúria do mar?
O que vejo, o que sou ou suponho
será apenas um sonho num sonho?




             *  *




REFERÊNCIAS:
MAUROIS, André. De Aragon a Montherlant. Tradução de Paulo Hecker Filho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1967, pg. 99-100.
POE, Edgar Allan. Poemas e ensaios. Tradução de Oscar Mendes e Milton Amado, 3ª ed. Revista. São Paulo: Editora Globo, 1999, p. 11-13, 45-46.
POE, Edgar Allan. Dictionnaire Encyclopédique Pour Tous. 24ª tirage. Paris: Petit Larousse, 1966.
POE, Edgar Allan. Antologia de Contos. Tradução de Brenno Silveira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1959.



         *  *  *



28 de jun. de 2020

[Poesia] CECÍLIA MEIRELES – Pergunta






– PEDRO LUSO DE CARVALHO


CECÍLIA MEIRELES apareceu no mundo literário do nosso país no ano de 1922, com publicações nas revistas Árvore Nova, Terra de Sol e Festa, no período de 1919 a 1927, nos quais escritores católicos defendiam a renovação das letras brasileiras na base do equilíbrio e do pensamento filosófico. O aparecimento da poetisa deu-se, portanto, por coincidência, na época em que eclodia o movimento modernista (1922), no qual os escritores nele envolvidos representavam uma outra tendência.

Cecília Meireles era descendente, pela linha materna, de açorianos de São Miguel. Nasceu no Rio de Janeiro, a 7 de novembro de 1901. Foram seus pais, Carlos Alberto Carvalho Meireles, funcionário do Banco do Brasil, falecido aos 26 anos de idade, três meses antes do nascimento da filha e de Matilde Benevides, professora municipal, falecida quando Cecília tinha três anos de idade. A menina Cecília ficou sob a tutela a avó materna, Jacinta Garcia Benevides, de origem açoriana, por ter sido a única pessoa sobrevivente da família. Cecília Meireles morreu no Rio de Janeiro, no dia 9 de novembro de 1964, aos 63 anos de idade.

Darcy Damaceno escreveu um importante ensaio sobre a obra da poetisa, intitulado Poesia Sensível e do Imaginário, que foi publicado como introdução ao livro Flor de poemas, de Cecília Meireles, de cujo ensaio, de Darcy Damasceno, alguns trechos serão transcritos, como segue:

A aproximação entre Cecília Meireles e os jovens congregados em torno de Tasso da Silveira e Andrade Murici, embora não implicando compromisso de ordem doutrinária, delineava a feição espiritual de sua arte, inspirada em elevado misticismo e acentuada comunhão de juízos literários, expressa na admiração por Cruz e Souza e os poetas simbolistas.

Com a publicação de Viagem o influxo simbolista perderia em relevo externo para introduzir-se em filosofia de vida e comprometimento estético. A similitude temática e formal, que ligava Cecília Meireles e os epígonos do Simbolismo, cedeu lugar à pluralidade de motivos e à eleição de certos metros; o vocabulário típico substituiu-se por um léxico mais variado, e os preceitos espiritualistas de pensamento filosófico, tradição e universalidade vieram singularmente concretizar-se no menos ortodoxo dos trovadores.

A premiação em 1938, pela Academia Brasileira de Letras, de Viagem, significou o reconhecimento de um empenho monacal no estudo de nossa tradição literária e na assimilação dos recursos expressivos da arte verbal. Com esse livro ingressava Cecília Meireles na primeira linha dos poetas brasileiros, ao mesmo tempo que se distinguia como a única figura universalizante do movimento modernista.

A visão da natureza física não é, na poesia de Cecília Meireles, apenas pormenorizada; também panorâmica. Ademais da meticulosidade na inventariação das coisas, ocorre nela a pintura larga, policrômica, na qual se retrata um cenário de árvores, nuvens, rios, bichos e homens.

Vemos assim avivarem-se os rastros da alma alertada contra os desenganos do mundo, desenganos que se enfeixam num tópico principal: o da brevidade da vida. A insegurança do ser humano, a fragilidade das coisas, a inconstância da sorte, a ideia de que tudo é sonho são temas que, direta ou indiretamente, daquele decorrem:

"tudo é um natural armar e desarmar de andaimes
entre tempos vagarosos,
sonhando arquiteturas."

Segue o poema Pergunta, de Cecília Meireles (In Meireles, Cecília. Flor de poemas. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1972, p. 1-2, 10, 15, 30, 35, 75-76):


P E R G U N T A
Cecília Meireles



Estes meus tristes pensamentos
vieram de estrelas desfolhadas
pela boca brusca dos ventos?

Nasceram das encruzilhadas
onde os espíritos defuntos
põem no presente horas passadas?

Originaram-se de assuntos
pelo raciocínio dispersos,
e depois na saudade juntos?

Subiram de mundos submersos
em mares, túmulos ou almas,
em música, em mármore, em versos?

Cairam das noites calmas,
dos caminhos dos luares lisos,
em que o sono abre mansas palmas?

Provêm de fatos indecisos,
acontecidos entre brumas,
na era de extintos paraísos?

Ou de algum cenário de espumas,
onde as almas deslizam frias,
sem aspirações mais nenhumas?

Ou de ardentes e inúteis dias,
com figuras alucinadas
por desejos e covardias?...

Foram as estátuas paradas
em roda da água do jardim...?
Foram as luzes apagadas?

Ou serão feitos só de mim,
estes meus tristes pensamentos
que bóiam como peixes lentos

num rio de tédio sem fim?





*  *  *





17 de jun. de 2020

[Poesia] LUIZ DE MIRANDA – Breu das Almas




PEDRO LUSO DE CARVALHO


LUIZ DE MIRANDA (Luiz Carlos, Goulart de Miranda, Uruguaiana, 1945) não é apenas um dos poetas gaúchos mais importantes; ele está colocado entre os melhores poetas modernos brasileiros, que deram seus depoimentos sobre a obra de Miranda: Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Raul Bopp, Guilhermino César, Nelson Werneck Sodré, José E. de Lima Alves,
Alguns dos poetas e críticos brasileiros mais representativos falam sobre a poesia de Luiz de Miranda (in Antologia de Poemas/Luiz de Miranda. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987), como veremos a seguir:

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: “Poesia aberta, comunicante, como um sopro de vida e insatisfação”.
FERREIRA GULLAR: “No caso de um poeta como Luiz de Miranda, as soluções formais resultam da necessidade de formular o vivido e sentido, emoções e ideias que são expressão de um compromisso claro com seu país e o seu tempo. A poesia de Luiz de Miranda fala de nós todos”.
RAUL BOPP: “A poesia de Luiz de Miranda revela a sensibilidade do verdadeiro e grande poeta. É uma contribuição definitiva à literatura brasileira”.
GUILHERMINO CÉSAR: “De qualquer modo, penso que Memorial assinala uma vertente; reúne-se ao que de melhor existe no Brasil”.
NELSON WERNECK SODRÉ: “Luiz de Miranda sabe que a solidão é provisória e decorre de derrota, exílio, distância, saudade. Escreveu longe e perto. Sua poesia se junta a de alguns, uns poucos, que souberam ver o que viu, sentir o que ele sentiu. A época, amarga e opaca e escura, é atravessada por essa poesia como um relâmpago. Sua luz denuncia auroras. Do provisório, entrevemos o definitivo”.
JOSÉ ÉDIL DE LIMA ALVES: “Poeta comprometido com a realidade do seu país e de seu continente, ele trilha os caminhos percorridos por um Pablo Neruda, um Atahualpa Yupanqui, um Ferreira Gullar, com seu canto enérgico de protesto”.

O poema que segue, BREU DAS ALMAS, de Luiz de Miranda, integra o livro “Trilogia da Casa de Deus”, Prêmio Nacional de Poesia 2001, da Academia Brasileira de Letras (In Trilogia da Casa de Deus./Luiz de Miranda. Porto Alegre: Editora Sulina, 2002, p. 143-144):


BREU DAS ALMAS
Luiz de Miranda
a Vanja Orico


Em mim, o silêncio do mar,
pulsando a remota invernia,
somente descem a ampulheta dos dias,
frêmitos e de prata impura,
na vidraça onde morre o vento.

Por milhares de anos foi assim,
um balde de ternura ao fim
da borrasca, da solidão e do medo.
Em mim, morrem todos os segredos,
tombam as tempestades
cobertas de esquecimento.
Puída e cheia de pó,
a alma canta o que fui de menino
a se perder para sempre
no trevoso breu dos anos,
mas ainda à noite me alucino
na contemplação dos velhos retratos,
fechados a sete chaves no meu quarto.

Homero e Dante me consolam
no plenilúnio do paraíso.
A morte vem sem aviso,
tecendo os noturnos do adeus.

Ninguém me ama,
e tarda, tarda muito, amanhecer,
mas viver, como disse antes,
é ir com todos
sem nunca se perder.

Vou pelas vielas da minha pátria,
tão esquecida, miserável e humilhada
nos gabinetes do poder.
Pátria pobrinha da minha alma,
te canto sempre em tom maior.
Entre lendas e beijos,
te coloco ao pé dos santos,
para que envolvida pelos seus mantos
permaneças viva e intocada.
Pátria minha, sempre amada.

Em mim está bem desperto
o pólen, a pétala, a pérola
que descem comigo ao inferno,
e voltamos lúcidos à vida,
do breu das almas e do inverno.
Não haverá mais partida ou despedida.


Porto Alegre,
1º de setembro de 2000.


*  *  *




6 de jun. de 2020

MANUEL BANDEIRA – Vou-me embora pra Pasárgada



Pedro Luso de Carvalho


MANUEL BANDEIRA -.Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho - nasceu a 19 de abril de 1886, em Recife, Pernambuco. Em 1890 a família transferiu-se para o Rio de Janeiro, retornando a Recife em 1892, e voltou novamente ao Rio de Janeiro em 1896. Aos dezessete anos, Manuel Bandeira ingressou no curso preparatório da Escola Politécnica de São Paulo, cm a intenção de formar-se em arquitetura, por influência de seu pai, que era engenheiro. Abandonou os estudos quando foi diagnosticado com tuberculose pulmonar.
De São Paulo, Bandeira volta ao Rio de Janeiro e depois passou a viver por curto espaço de tempo em regiões de clima frio, seguindo o conselho do médico, que entendia que tal mudança poderia ajudar na recuperação de sua saúde. Em 1913, embarca para a Europa; e, por indicação do escritor brasileiro João Luso, internou-se no sanatório de Clavadel, perto de Davos Platz, para se tratar doença. No sanatório, conheceu Paul Éluard, que também sofria de tuberculose. Aí na Europa o poeta retomou o estudo do idioma alemão, que havia iniciado no ginásio. A volta do poeta ao Brasil deu-se em 1914, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial.
No Rio de Janeiro, Bandeira dedicou-se à leitura de Goethe, Lenau e Heine. Passou a residir na rua N. S.ª de Copacabana (mais tarde avenida) e depois na rua Goulart, no Leme. Em 1916, faleceu a mãe do poeta. No ano seguinte, publicou A cinza das horas, o seu primeiro livro, escrito no rigor formal da Escola Parnasiana, que a abandonaria antes de 1922, afeito que estava na escrita de poesia com versos livres.
Manuel Bandeira entusiasmou a geração paulista, em 1919, quando a revolução modernista, que dá os seus primeiros passos, com a publicação de Carnaval, paga pelo seu pai. O livro foi analisado com poucas palavras pela A Revista, que era dirigida por Monteiro Lobato. João Ribeiro não poupou elogios ao poeta. Bandeira, que já se correspondia com Mário de Andrade, conheceu pessoalmente o escritor em 1920, dois anos antes da Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, da qual não quis participar pessoalmente, mas mandou aos organizadores do evento, para ser lido, o poema Os sapos, uma sátira ao movimento Parnasiano.
Foi nesse ano (1922), que visitou São Paulo, onde conheceu Paulo Prado, Couto de Barros, Tácito de Almeida, Menotti del Picchia, Luís Aranha, Rubem Borba de Morais, Yan de Almeida Prado, Jaime Ovalle, Rodrigo M. F. de Andrade, Dante Milano, Osvaldo Costa, Sérgio Buarque de Holanda e Prudente de Morais Neto. Com esses novos amigos costumava jantar no Restaurante Reis, onde comia o bife à moda da casa a preço módico.
O livro Poesias, no qual estão reunidas as obras: A cinza das horas, Carnaval, Ritmo dissoluto, de Manuel Bandeira, foi editado pela Revista da Língua Portuguesa, em 1924. No ano seguinte, Mário de Andrade convenceu Bandeira, por via epistolar, a colaborar com artigos para o Mês Modernista, do jornal A Noite (o poeta passa a receber do jornal 50 mil réis por semana, seus primeiros ganhos com a literatura).

Manuel Bandeira passou a escrever crítica musical para a revista A Ideia Ilustrada. Nos anos de 1928-1939, escreveu crônicas semanais para o Diário Nacional, de São Paulo. Desse ano até o ano seguinte escreveu críticas de cinema para o jornal A Noite, do Rio de Janeiro.Importante dar estaque à publicação de Poesias escolhidas, pela editora Civilização Brasileira, em 1937; as poesias, que passaram a integrar esse livro, foram  selecionadas pelo poeta, que também ouviu os conselhos de Mário de Andrade para a escolha dos poemas. No ano seguinte, com a morte de seu pai, o poeta mudou-se da Rua do Triunfo para a Rua do Curvelo nº 53 (hoje Dias de Barros), onde viveu por treze  anos, e escreveu três livros: Ritmo dissoluto, Libertinagem, Crônicas da Província do Brasil e muitos poemas de Estrela da manhã

Em 1940, Manuel Bandeira foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras. Posteriormente, nomeado professor de Literaturas Hispano-Americanas na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, cargo do qual se aposentou, em 1956. Começou o poeta a escrever crítica de artes plásticas em 1941, para A Manhã, do Rio. Em 1943, acumulou o seu trabalho de professor do Colégio Pedro II com o de professor de Literatura Hispano-Americana na Faculdade Nacional de Filosofia, cargo do qual se aposentou, em 1956. Em 1954, publica Itinerário de Pasárgada, edição do Jornal de Letras. Em 1956, escreveu para a Enciclopédia Delta-Larousse um estudo sobre Versificação em Língua Portuguesa.
Em 1956, Bandeira traduziu Macbeth, de Shakespeare, e La Machine Infernale, de Jean Cocteau. No ano seguinte, traduziu as peças Juno and the Paycock, de Sean O’Casey, e The Rainmaker, de N. Richard Nash. Essas peças foram representadas, respectivamente, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nos anos que se seguiram, dedicou-se a outras traduções. Nos anos de 1957-1961, escreveu crônicas bissemanais para o Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, e para a Folha de São Paulo. Em 1965, com Carlos Drummond de Andrade organizou, para as comemorações do 4º Centenário do Rio, o livro Rio de Janeiro em Prosa e Verso, com edição da Livraria José Olympio.
Nos anos de 1957 a-1961, escreveu crônicas bissemanais para o Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, e para a Folha de São Paulo. Em 1965, com Carlos Drummond de Andrade organizou, para as comemorações do 4º Centenário do Rio, o livro Rio de Janeiro em Prosa e Verso, com edição da Livraria José Olympio.
No dia 13 de outubro de 1968 faleceu Manuel Bandeira, acometido de hemorragia gástrica, no Hospital Samaritano, no bairro Botafogo, no Rio de Janeiro, às 12 horas e 50 minutos, aos 82 anos, tendo sido sepultado no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no Cemitério São João Batista.
Segue o poema de Manuel Bandeira, Vou-me embora pra Pasárgada (In Manuel Bandeira. Libertinagem & Estrela da manhã. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2005, p. 35-36):


VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA
Manuel Bandeira


Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tenho de tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.



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REFERÊNCIAS:
Bandeira, Manuel. Seleta de prosa e verso. Organização, estudos e notas de Manuel de Moraes. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1975.
Bandeira, Manuel. Libertinagem & Estrela da manhã. Apresentação de Godofredo de Oliveira Neto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005, p. 35-36.
Perez, Renard.. Escritores brasileiros contemporâneos. Manuel Bandeira. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1960, p. 263-269.
Gonzaga, Sergius. Curso de Literatura Brasileira/Sergius Gonzaga – Porto Alegre: XXI, 2004, p. 306-311.



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