>

12 de jun. de 2021

[Crônica] PEDRO LUSO - A frustração

 




  A FRUSTRAÇÃO

             – Pedro Luso de Carvalho                                                                


Sempre que estou para realizar algum ato, em meu próprio benefício, procuro ficar atento para uma possível frustração. Nada mais comum, no meu sentir, que se ter reação agressiva diante de uma decepção. Tendo-se a consciência da possibilidade dessa reação, é que se pode manter o controle, sem o qual, o mal da reação poderá ser maior que o sentimento de insatisfação.

Quem não sentiu o desconforto de uma frustração? No meu entender ninguém escapa desse sentimento, que estará presente muitas vezes ao longo da vida. Também é certo que a cada decepção, qualquer que seja o motivo, haverá reação por parte de quem se frustrou. Será distinto, porém, o tipo e o grau da reação, que sempre dependerá da situação e do impulso do desejo, que foi objeto de contrariedade.

Não se pode esquecer, no entanto, que esse mal, que poderá advir da frustração, poderá atingir tanto quem se sente frustrado como a quem dá causa a esse sentimento. Também neste outro lado, que envolve quem frustra, a reação agressiva poderá ter graus nas mais variadas escalas, desde um simples insulto quanto a morte, por ato de quem se sente frustrado, como acontece, por exemplo, no crime passional.

Têm-se muitos exemplos de reação agressiva, por parte de quem se sente frustrado, mas que não chegam a colocar em risco a vida de quem dá motivo à frustração. A vida em família é rica em exemplos de descontentamento por quem se sente insatisfeito no que reivindica, que tanto pode ocorrer entre o casal como com os seus filhos. Essas frustrações variam de acordo com a situação socioeconômica de cada família.

Embora muitos sejam os exemplos de frustração, não se pode esquecer de que se trata de um sentimento absolutamente normal. Será uma boa medida, no entanto, que se tenha cautela diante de uma reação exageradamente agressiva por parte de quem se vê frustrado, pois, nesse caso, poderá estar, essa pessoa, acometida de alguma doença mental, sem que seja percebida por quem é causador da frustração.




__________________________//_______________________






6 de jun. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Dobram os Sinos




 

DOBRAM OS SINOS

                     - Pedro Luso de Carvalho




Dobram os sinos

da igreja,

dor e amargura

do sineiro,

anunciando vidas

que se perderam.


Na luta vã

com o vírus

de ferozes garras,

invisíveis garras,

o sineiro chora

com os dobres

dos sinos

anunciando mortes,

infinitas mortes.


Em desespero

o sineiro toca

fortemente

os sinos

da sua igreja,

sem fiéis,

sem as missas

de Domingo.


Já cansado,

sob os sinos

em silêncio,

dorme o sineiro.




___________________//____________________






29 de mai. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – O Tempo

 

São Joaquim - SC / Brasil



    O TEMPO

                      - Pedro Luso de Carvalho



A infância passou,

a adolescência passou,

mas o tempo,

ficou vivo

na memória.

Um dia, fiz as malas,

e deixei no alto da Serra,

minha cidade Natal, São Joaquim,

deitada sobre o planalto,

para um dia voltar.

– voltarei ?

Levei para lugares distantes,

de névoas e sombras,

projetos e sonhos.

Levei o zunir dos ventos,

levei a brancura da neve,

e das geadas sobre os campos,

e o esplendor da lua branca.




                __________________//_____________________







22 de mai. de 2021

[Conto] PEDRO LUSO - O Chá das Velhas Senhoras


Ismael Nery / 1900 - 1934


O CHÁ DAS VELHAS SENHORAS

                                      – Pedro Luso de Carvalho

                          

                       

Às quartas-feiras, as três senhoras visitavam a amiga comum no seu antigo apartamento, no centro da cidade. O porteiro, que estava acostumado a recebê-las na portaria do prédio, sempre às quatro horas da tarde, não raro acertava o seu relógio quando elas chegavam.

A anfitriã – das quatro amigas, a mais velha – esperava-as com a mesa posta: pratos e xícaras de fina porcelana, facas e garfos de prata de boa qualidade, um bule trazido de uma de suas viagens a Veneza. No hall do apartamento, entre risos, trocavam abraços e, depois, já acomodadas na sala de visitas, aguardavam o momento em que seriam chamadas para o chá – às quatro e dez, como era o costume.

Sentadas à mesa, antes de servirem-se faziam algumas brincadeiras com a amiga mais nova, que a chamavam de caçula, porque ainda não tinha chegado aos setenta anos. Servia-se, cada uma delas, de chá, doces e salgados. Como a empregada retirava-se depois de deixar o chá sobre a mesa, as velhas senhoras serviam-se com a mobilidade que lhes permitia a idade.

Quando terminavam o chá, satisfeitas e um tanto acaloradas, voltavam aos velhos e elegantes sofás da sala. Aí, tagarelavam sobre uma variedade de assuntos, quase todos ligados ao passado. Faziam ácidas críticas aos antigos namorados e às suas rivais. Falavam sobre os bailes inesquecíveis do Clube do Comércio, de seus casamentos, das viagens que fizeram a Buenos Aires e à Europa, e do muito que compraram nessas andanças.

Quando não tinham mais o que dizer sobre as boas e más lembranças, passavam a falar do dia a dia de cada uma delas: doenças, médicos, enfermeiras, hospitais, remédios. Esses eram, na verdade, os assuntos preferidos das velhas senhoras. Esses assuntos nem sempre eram concluídos, pelo adiantado da hora.

Na reunião da semana, das três amigas, apareceram apenas duas delas. A anfitriã nada falou sobre essa ausência. As amigas cumpriram o ritual de muitos anos, depois deixaram a mesa e reiniciaram a conversa na sala de espera. Uma das amigas disse à anfitriã: "A nossa caçula teve um mal súbito, e nos deixou!". As duas amigas ficaram esperando uma reação de pesar da anfitriã, mas ouviram apenas ela dizer: "é, minhas amigas, era a sua vez!"

Os encontros, às quartas-feiras, foram mantidos como se nada tivesse ocorrido. Numa dessas tardes, apenas uma das amigas compareceu ao chá. A anfitriã não fez nenhuma referência à ausência da outra amiga. A anfitriã e a amiga sentaram-se na sala de espera, como sempre faziam. Depois, tomaram chá, comeram doces e salgados, como era o hábito.

De volta a sala de visitas, a anfitriã perguntou à amiga: "Alguma novidade?" A amiga abaixou a cabeça, tomada de desconforto, e disse: "Nossa querida amiga sofreu um enfarte, e não resistiu". A anfitriã fez-se de desentendida e mudou de assunto. Depois, no horário de costume, despediram-se.

Em outra quarta-feira, a velha senhora colocou os óculos para ver se o relógio de parede havia parado. Estava funcionando. Já eram quatro horas e quinze minutos. A mesa estava posta, e a amiga ainda não havia chegado. "Nunca houve um único atraso", pensou. Sentada à mesa, serviu-se de chá, de doces e salgados, como se estivesse acompanhada. Depois, sentou-se na confortável poltrona, na sala de visitas.

A empregada apareceu diante da velha senhora, depois que desligou o telefone, e, com ar de tristeza, disse-lhe: "A amiga da senhora baixou hospital... a coitadinha não resistiu ao enfisema…" A velha senhora anfitriã levantou-se da poltrona e dirigiu-se à janela, e aí permaneceu por algum tempo; depois, quase num sussurro, disse para si mesma: "Antes ela do que eu!".




____________________________//__________________________





14 de mai. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – A Máscara

 

Iberê Camargo - Brasil  /  Fantasmagoria  - 1987



                                       A MÁSCARA

                    - Pedro Luso de Carvalho




Para que tanto riso,

se lá fora a noite é escura,

se os fantasmas assustam

incrédulos passantes ?

Para que tanto riso,

se não há pão na mesa,

se a fome é má conselheira,

se há tanto descaminho?

Para que tanto riso,

se há desesperança,

se estão fechadas as igrejas,

se há fiéis desconsolados?

Para que tanto riso,

se abriram-se os presídios,

se os bandidos estão cá fora,

se em casa estamos presos?

Para que tanto riso,

se não há mais governo,

se há tanta injustiça

se o barco está à deriva?

Para que tanto riso

se há o domínio do medo,

se atrás da áspera máscara

escondem-se nossos rostos?




____________________//_______________________





5 de mai. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Ausências

 Vincent Van Gogh 


 

  AUSÊNCIAS

         - Pedro Luso de Carvalho




Do alto, urubus espreitam

em sinistros voos,

neste tempo de ausências

e de sofrimento.



Sob os telhados, corpos inertes,

presos à paredes vazias ,

tendo na boca um gosto amargo

do inevitável fel .



No breu das noites estendidas,

sem estrelas e sem luz,

demônios surdamente conspiram

tempo de ausências e dor.



Nas casas há tantas janelas

sem luz e sem paisagens

há jardins de murchas rosas,

em meio ao desespero.



Neste tempo de ausências e dor

vento forte, em lufadas,

percorre funéreo caminho

entre tumbas e ciprestes.





___________________//___________________







26 de abr. de 2021

[Poesia] – PEDRO LUSO – Uma voz na noite

 

Porto Alegre - RS / Brasil


UM CANTO NA NOITE

      - Pedro Luso de Carvalho




De onde vem essa voz,

canto de dor e tristeza,

doce voz de mulher,

noite sem a luz das estrelas.


De onde vem essa voz,

canto de dor e tristeza,

derradeiro canto na noite,

nas ruas vazias sem brilho.


De onde vem essa voz,

canto de dor e tristeza,

no peito feridas abertas,

voz de contralto a perder-se.


De onde vem essa voz,

canto de dor e tristeza,

raios tímidos de luz,

notas perdidas na aurora.




__________________//__________________






17 de abr. de 2021

[Conto] PEDRO LUSO – A morte encomendada

 





A MORTE ENCOMENDADA

PEDRO LUSO DE CARVALHO



Na estrada de terra formam-se pequenos tufos de poeira, com o tamborilar dos cascos do cavalo contra o chão. Afiadas esporas pressionam o ventre do animal. Venâncio quer chegar à casa do compadre antes do anoitecer. A tarde é quente e silenciosa. Apenas o som do trotar obstinado quebra o silêncio. Venâncio ajeita-se na montaria. Lembra-se do trato recém-feito. A família do estancieiro não lhe pagará antes que a sua morte seja vingada. “Será que o compadre matou o estancieiro?” – questiona-se.

Mesmo conhecendo seu compadre – bom marido e bom pai –, Venâncio não deixa que a dúvida mude os seus planos. Pensa somente no dinheiro. Vem-lhe a mente a festa do batizado do afiliado. Lembrança que logo se apaga. Importa é levar adiante o seu plano. Qualquer descuido pode custar-lhe a vida.

Daqui já avisto a casa do compadre – fala em voz alta, como se conversasse com o animal, que avança na cadência de sua marcha.

Um frio perpassa-lhe o corpo. Conhecia bem a valentia do compadre. Mas sabe que, com cuidado, logo terminará o serviço. Sente-se então animado ao pensar na recompensa. No dinheiro, que facilitará a criação de seus dois filhos.

No pequeno sítio, o compadre prepara-se para a doma. Já havia encilhado o cavalo. Ventas inchadas, o animal relincha e se joga contra a cerca. Joga as patas dianteiras para o alto, e desce agitado. Forte coice atinge o palanque, no qual está preso pelo cabresto. O compadre pensa, com uma ponta de orgulho: “Gosto desse cavalo safado”.

Ia montar, mas esperou a mulher, que vinha em sua direção. Ela diz ao marido que Venâncio havia chegado, e estava à sua espera. O homem fica incomodado com a visita inesperada. “Tanto serviço tem por fazer”, pensa. Precisa domar o cavalo para os trabalhos do sítio. Deixa o animal e vai ao encontro de Venâncio. A mulher segue-o, caminhando atrás dele.

Buenas, Venâncio! – A que devo a visita?

Buenas, compadre! – Estou de passagem, e parei para ver o afiliado.

A criança chora no berço, no quarto ao lado da sala. A mulher pega o filho nos braços e o embala. Ouve pedaços da conversa dos dois homens. O tom da voz de Venâncio deixa-a inquieta. Nunca o viu assim. Um mau pressentimento faz com que aperte o filho contra o peito.

Mulher, o Venâncio vai ficar para um prato de sopa.

Está bem – responde ao marido. – Não demoro.

Os homens continuam conversando na sala. Venâncio tropeça ainda mais nas palavras. Com o lenço, seca o suor do rosto. A mulher vem avisar que a sopa está servida. Sentam-se à mesa. Terminada a sopa, os dois homens voltam à sala para continuar a conversa.

Compadre, me permite pegar meu afiliado? – Faz tempo que não vejo o guri.

A mulher não precisa ser chamada. Entra na sala com a criança e a entrega ao padrinho. Da cozinha, ouve a conversa dos dois homens, e os vê sentados, um diante do outro. Naquele instante, assusta-se com o estampido que ouve, e entra desesperada na sala, quando Venâncio entrega-lhe o filho e sai rapidamente. No chão, o marido agoniza.




_________________________//_______________________






7 de abr. de 2021

[ Poesia] PEDRO LUSO - Numa tarde vazia

 

Crepúsculo de Porto Alegre / Brasil - foto Stella Breitman



NUMA TARDE VAZIA

     - Pedro Luso de Carvalho




Naquela tarde vazia,

o sol a morrer no horizonte

sento-me à mesa,

no vazio da cafeteria.


Assusta-me este abandono,

os fregueses todos sumidos

Sinto-me invisível ali,

pareço não mais existir.


A garçonete parece-me de cera,

absorta e presa ao balcão

até espremer os olhos esverdeados,

e quem sabe, um leve sorriso.


Pensativo na solidão do crepúsculo,

mal respirando sob a máscara,

vi rodopiar sob a calçada

um velho jornal levado pelo vento.


A garçonete por detrás da máscara,

se sorriu nunca saberei,

mesmo tão próxima de mim,

ao deixar na mesa, quem sabe, o meu último café.



____________________//___________________







30 de mar. de 2021

[poesia] PEDRO LUSO - O Novo Coronavírus

 



O NOVO CORONAVÍRUS

                           - Pedro Luso de Carvalho




Do velho coronavírus não lembro,

mas se presume que existiu,

certamente sem a fúria do novo

que contamina a muitos e mata.



O que sei é que o vírus veio em bando,

está o vírus aqui, ali, acolá,

invisível em todos os lugares,

na mão estendida, no abraço, no beijo.



Mas agora se tem mais fome e luto.

Com tanta morte não se tem descanso,

em especial com os tantos pobres,

pois riscos para ricos são menores.



Depois que esse vírus for derrotado

ficarão ecos das agônicas dores,

do denodado trabalho dos médicos,

enfermeiras – ciência e doação.





_________________________//_______________________






23 de mar. de 2021

[Conto] PEDRO LUSO – Um homem e seu destino



 


                            UM HOMEM E SEU DESTINO

                                                                – Pedro Luso de Carvalho



Esta é a história de Juvenal Lima. Parte dela passou-se na época em que o país vivia as agruras da Ditadura Vargas. Durante certo período de sua adolescência, Juvenal passou ouvindo conversas entre seus pais sobre Getúlio Vargas. O pai dizia que Getúlio era o protetor dos trabalhadores, enquanto a mãe acusava-o de prender e torturar intelectuais de respeito.

Foi nessa época que Juvenal viu-se obrigado a prestar serviço militar. Depois de um ano de farda, voltou ao convívio dos civis. Formou-se como técnico em contabilidade. Em pouco tempo já estava empregado. Casou-se, e dois anos depois nasceu a primeira filha. Não tardou, a mulher já estava outra vez grávida. A expectativa de Juvenal era ter um filho homem. Nasceu mais uma menina.

O trabalho era duro, no escritório. Era um fazer lançamentos de notas fiscais em livros contábeis que não tinha mais fim. Não era sua natureza queixar-se. Quando Juvenal retornava do trabalho, era mal recebido pela mulher, que estava sempre envolvida com as crianças. Mãe e filhas pareciam formar um só corpo. Ele era apenas um estorvo. Com o passar do tempo, mal suportava os fins de semana. Esperava com ansiedade pela segunda-feira.

A vida de Juvenal Lima era desprovida de graça e de emoção. O seu dia-a-dia era um eterno repetir-se. O tempo parecia ter estabelecido uma rígida regra para ele: da casa para o trabalho, do trabalho para a casa. A mulher exigia-lhe pronta obediência. Juvenal obedecia. Quanto aos vizinhos, dividiam-se nos que tinham pena dele e nos que o desprezavam.

Olha lá o Juvenal correndo para a casa – dizia alguém.

Coitado, vai de cabeça baixa, com medo de olhar para as mulheres – comentava outro.

Por todos os motivos, a mulher e as filhas pouco significavam para ele. Apenas dois prazeres davam sentido à sua vida: o trabalho e a música. O tango e a milonga eram suas paixões. Durante o dia, esquecia-se dos aborrecimentos fazendo os seus lançamentos contábeis. À noite, em casa, fechava-se numa pequena sala para ouvir rádios da Argentina e de Montevidéu. Gardel era o seu cantor preferido. Encantava-se com a magia de Troilo ao bandoneon.

Abaixe esse maldito rádio, homem dos infernos – gritava a mulher.

Contrariado, mas sem contestar, Juvenal baixava o volume, e aproximava-se bem do rádio para poder ouvir suas músicas.

O jantar está servido – a mulher avisava. – Apague essa porcaria de rádio, e não me faça esperar.

No dia seguinte, Juvenal caminhava rápido pela Avenida Borges de Medeiros. Estava quase embaixo do viaduto quando um homem deu-lhe um forte esbarrão, que o derrubou. Levantou-se um pouco atordoado. O homem havia desaparecido. Desconfiado, levou a mão ao bolso do paletó, quando se deu conta que a carteira havia sido roubada, com seus documentos. Por sorte, guardava o dinheiro num bolso interno da calça.

Sentia-se ainda um pouco tonto e com forte dor de cabeça. Decidiu-se então não ir para o trabalho. Iria à tarde, e se justificaria ao patrão. Depois de tomar um analgésico na farmácia, dirigiu-se à Praça da Matriz, onde escolheu um banco embaixo de uma árvore e sentou-se.

Já havia passado mais de duas horas quando resolveu almoçar, ali perto. O restaurante estava cheio. Esperou um pouco até vagar uma mesa. Pediu o prato do dia. Na mesa ao lado, um casal comentava o noticiário da rádio. O homem disse à mulher que uma pessoa, de nome Juvenal Lima, havia sido esmagada por um ônibus. Juvenal estremeceu com o que ouviu.

Depois de ouvir a conversa do casal, Juvenal saiu do restaurante. Não estava mais em condições de ir para o trabalho à tarde, como era sua intenção. Desnorteado, voltou à Praça da Matriz, sentou-se num banco e ali ficou por algum tempo.

A mulher e as filhas já devem ter ouvido a notícia de minha morte – disse para si mesmo, um tanto assustado.

Juvenal levou muito tempo para decidir que não iria dormir em casa. "Vou ver se encontro um quarto naquele hotelzinho da Riachuelo", decidiu-se.

Depois de tomar café, no hotel, Juvenal leu o jornal, que trazia na sua primeira página a reportagem sobre a morte de Juvenal Lima. A fotografia do homem esmagado embaixo do ônibus deu-lhe certa euforia. Folheou o jornal para ver se encontrava mais alguma coisa sobre o acidente, e viu, num canto de página, o convite para seu enterro, feito pela mulher e pela firma da qual era empregado.

Naquele mesmo dia, Juvenal comprou passagem de ônibus para Montevidéu. De lá foi de navio para Buenos Aires. Ficou paralisado ante a beleza da metrópole, naquele entardecer. Em poucos minutos estava no centro da cidade. Na Calle Florida, mulheres e homens passeavam, elegantemente vestidos. Muitos deles entravam e saiam de bares, cafés, restaurantes. Palavras eram insuficientes para dizer tudo que sentia.

Com o passar do tempo, Juvenal não estranhou ter se integrado de forma tão definitiva à vida da cidade. Falava com rara destreza o espanhol. Nem parecia ser brasileiro. Mal se lembrava de sua chegada em Buenos Aires, e do homem que falsificou sua nova identidade, a mesma pessoa que lhe encaminhou para uma firma, que precisava de um contabilista, onde foi admitido.

Aos poucos, Juvenal foi observando como se trajavam os portenhos, principalmente aqueles que frequentavam casas de tango. Deixou para trás o seu corte de cabelo, quase raspado. Com os cabelos já crescidos pode penteá-los como faziam os dançarinos de tango, dando-lhe ao rosto um ar de dramaticidade.

À noite, passou a frequentar as famosas casas de tango. Dançava tal qual um bailarino profissional. Perdeu a timidez, e conversava com desenvoltura. Conquistava as mulheres com extrema facilidade. Certa noite, numa casa de espetáculos, excursionistas brasileiros olhavam, em silêncio absoluto, um casal de dançarinos a deslizar pelo salão, corpos unidos, a mulher entrelaçando suas longas pernas nas pernas do homem.

Gente, aquele dançarino não é o Juvenal Lima? – a brasileira perguntou.

Todos os brasileiros, seus companheiros de excursão, riram muito dela por dizer tamanha besteira.

Coitado do falecido – disse outro excursionista.

Enquanto isso, no salão, Juvenal Lima apresentava-se com sua formosa parceira, naquela dança impregnada de paixão e dramaticidade, ao som de La Cumparsita.




_______________________//______________________