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12 de nov de 2018

[ Poema ] PEDRO LUSO - O Circo





O CIRCO 
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Grande era o circo,
a lona enorme,
um mundo à parte,
gente grande e crianças
reunidas no mesmo encanto.

A moça com pouca roupa
num equilíbrio e coragem,
de pé sobre os cavalos,
um homem valente com chicote
e um leão solto num desafio.

Ainda me lembro da girafa:
sem me dar conta,
espichava  meu pescoço
como via a girafa fazer,
(como às vezes ainda acontece).

Lembro-me do dia triste
em que o circo partiu,
com o elefante, o leão,
os macacos e os palhaços,
só não sabia que os levaria comigo.




       *   *   *






29 de out de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - Reconstrução






RECONSTRUÇÃO
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Não nos descuidemos muito,
é grande e acolhedora
a nossa casa.

Não nos descuidemos muito,
a casa está sobre solo firme,
sem danos nos alicerces.

Não nos descuidemos muito,
juntos consertaremos portas,
e também janelas.

Não nos descuidemos muito,
logo a casa estará arrumada,
e nossa alma aliviada.







*   *   *






12 de out de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - Esperança





ESPERANÇA
- PEDRO LUSO DE CARVALHO




Que não morra a esperança,
(para muitos esperança finada),
que seja ela o nosso norte,
(não seja âncora que aprisiona).

Que se acalme este vendaval,
(impróprio vendaval que não cessa),
intrometido vendaval de males,
nesta Primavera viva, estação de flores.

Que ventos cálidos agora soprem
neste tempo de ódios e de dor,
que haja viço nesta terra arrasada,
que nesta estação vicejem as flores.





*   *   *








28 de set de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - Homens Vazios






HOMENS VAZIOS
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Neste tempo vago,
tempo de homens vazios,
vejo-os no meu vagar
em meio a escombros.

Vago neste tempo presente,
respinga-me essa lama
pisada por homens vis,
que trilham o lamaçal.

Busco a salvação neste vagar,
neste vago tempo,
tempo de homens vazios,
sem pátria, sem lei.

Serão salvos esses homens,
malditos homens
mergulhados na lama?
Serei acusado por omissão?




*    *    *






16 de set de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – A Marca do Tempo







A MARCA DO TEMPO
PEDRO  LUSO  DE  CARVALHO



Vejo, de onde estou, o homem
marcado pelo tempo, no banco
descolorido pela maresia.

O mar recebe afagos do sol.
As ondas brindam o homem
com a água tépida do mar.

O homem aperta os olhos gastos
para além do horizonte, quer saber
o que lhe espera nas lonjuras.

As horas se sucedem. Apaga-se o brilho
do sol, apenas se ouve o rumor repetido
das ondas que se encrespam na praia.





*    *    *





4 de set de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Museu Nacional






MUSEU NACIONAL

- PEDRO LUSO DE CARVALHO




Faz-se presente a desgraça,
é o fogo que queima,
queima sem cessar,
impiedosamente.

Os responsáveis tentam apagar o fogo,
homens e mulheres falam,
falam sem cessar
querendo o fogo apagar.

Desculpa plausível
não haverá,
o fogo queimou sem cessar
a alma do Brasil.

Parte da História é queimada,
fica empobrecido o país,
o povo sofre e chora
pela memória perdida.





* * *






24 de ago de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - Silenciar





SILENCIAR
- PEDRO LUSO DE CARVALHO




Silenciai,
há cânticos de pássaros
na praça ensolarada.

Silenciai,
há um som de guitarra
adormecendo as estrelas.

Silenciai,
há um choro de criança
no seu primeiro despertar.

Silenciai,
há uma alma serena
a navegar num mar de sonhos.

Silenciai,
há alguém a despedir-se
de uma vida que se finda.




* * *





15 de ago de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Um Mundo Guardado






UM MUNDO GUARDADO

- PEDRO LUSO DE CARVALHO




As mãos trêmulas
da velha senhora
acariciam uma cômoda
de cedro antigo,
a guardar os seus sonhos.

Nas gavetas da cômoda
estão os colares, as cartas,
os brincos lá estão,
como estão os anéis
da velha senhora.

Transforma seu mundo
quando abre as gavetas
vendo a vida que teve,
ao ver o brilho das joias
e nas cartas, juras de amor.

Os olhos ainda a brilhar,
a velha senhora gira a chave
e fecha seu mundo,
mantendo fechado o brilho
das joias e o silêncio das juras.





                  *   *   *





1 de ago de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – A CASA ABANDONADA






A CASA ABANDONADA
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Festas e risos na casa,
inveja de muitos,
amor no seio da casa
duas almas guardadas,
tesouro vigiado.

Um dia Maria partiu
na madrugada fria,
como fazem os ladrões,
sem se importar com quem ficou.

Lá ficou João que amava Maria,
de Maria não mais falava,
na casa triste,
carente dos risos
e da voz doce que o encantava.

Grande demais era a casa
para João,
tão pequeno,
sem Maria.

Hoje, os que passam à noite
em frente da silenciosa casa,
ouvem gritos de dor
e uma voz a chamar:
Maria!  Maria!




*   *   *






18 de jul de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Terra Ferida






TERRA FERIDA
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Olhos cansados do velho,
presos olhos no horizonte,
pedras e arbustos,
terras removidas,
rios desviados
dos leitos,
mortandade de peixes,
tristeza e dor
por tudo que se perdeu.

O velho mantém fixos os olhos,
secos olhos,
no horizonte à frente,
sem lágrimas para chorar.

Na linha ao longe,
que separa o céu e a terra,
o último suspiro,
do sol que se afunda.






 *  *  *





10 de jul de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Revolta


[ Reedição ]

REVOLTA  
– PEDRO LUSO DE CARVALHO    
                                              

Ando na calçada da rua
escura, ouço o som oco
dos meus passos
no solitário vagabundear.

Vejo tantas marquises
sobre velhas lojas,
tantas portas gradeadas
e corpos cobertos de trapos.

Assalta-me pena e culpa,
muita culpa – grito
contido da revolta,
da denúncia que não faço.

Os urubus devoraram
os meus projetos,
devoraram os sonhos
todos que tinha, de igualdade.

Foi cômodo desistir da luta,
e agora os párias dormem
sob as marquises
nesta noite de frio cortante.

São os párias derrotados
sem o fragor da batalha,
vivendo em ruas e becos,
são urubus que se regalam
com nossas pútridas consciências.



*    *    *


29 de jun de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Caprichos da Natureza





CAPRICHOS DA NATUREZA
PEDRO LUSO DE CARVALHO


O luar vem no rasto da tarde,
morna tarde desse mês dourado
de outono, neblina já invade
o solo no verão tão queimado.

As folhas secas no outono morno
no chão espalhadas e coloridas,
a cada estação do ano retorno,
na roda do tempo repetidas.

Alteram-se elas no correr do ano,
outono não se fez imutável,
cedeu o seu lugar sem desengano
ao frio inverno, não tão afável.




*    *    *




14 de jun de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - Noite e Fantasmas




NOITE E FANTASMAS
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Escrevo este poema na noite,
meus fantasmas em torno,
breu feito de mistério.


Longa é a noite, vã a espera
de ver brotar uma flor,
feito rosa na roseira.

Meu coração pede que pare,
mas temo os fantasmas,
que castigos impõem.

Perdi noites luminosas, risos
e cânticos, perdi palavras,
a alma perdi na noite.



* * *