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25 de set. de 2022

[Poesia] Poema e o Tempo – Pedro Luso de Carvalho

 

Figueira




POEMA E O TEMPO

             – Pedro Luso de Carvalho



Procuro o que escrevi sob o sol,

lembro-me claramente do dia,

foi na cálida e clara manhã,

sob a sombra morna da figueira,

o campo tão perto do horizonte.


Procuro o que escrevi sob o sol,

melodia e ritmo pude ouvir,

o poema era rosário e reza,

fiéis em rezas diante do altar –

havia fé no distante tempo.


Procuro o que escrevi sob o sol,

sentida mágoa foi o que restou,

pelos sofrimentos que causei

e por males que me causaram,

numa estrada feita de ilusão.


Procuro o que escrevi sob o sol,

que ainda possa ler o que escrevi,

versos inocentes do passado,

não para provar que fui bom,

só busco meu poema perdido.




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15 de set. de 2022

[conto] CASAL DISCUTE A RELAÇÃO – Pedro Luso de Carvalho

 

Paul Signac - 1863 / 1935 - Obra Sunday 1880



CASAL DISCUTE A RELAÇÃO

Pedro Luso de Carvalho




Iolanda mal podia esperar pela hora do jantar, que havia preparado para o marido. A expectativa da conversa, que teria com ele, deixava-a apreensiva. Há muito tempo queria discutir a relação do casal.

Leopoldo chega na hora que havia combinado com Iolanda. Demora-se no banheiro. Quer fazer boa figura para sua bela esposa. Acordes de música muito suave, chegavam até ele.

O jantar correu como havia sido planejado por Iolanda. Sente-se tranquila, com o resultado. Não lhe passou despercebido que o marido havia gostado dos pratos servidos.

Depois, sentados em confortáveis poltronas, Iolanda inicia a conversa. O marido fica um pouco desconfortável com o que poderia ocorrer. Não acha razoável que contem, um para o outro, suas intimidades.

Querido, o que você fez , nestes sete anos?

Por favor, Iolanda! O que poderia ter feito?

Iolanda já havia estudado tudo o que teria para dizer ao marido. Destaca muitos momentos bons que viveram, mas não esquece dos maus momentos. E diz ter ciúmes das mães dos seus pacientes.

Iolanda, eu sou médico dessas crianças!

Então, por que tanta atenção com as mães delas?

Leopoldo não gosta do tom da conversa. Está arrependido por ter se deixado convencer pela mulher. Sabe que estava certo quando lhe disse que não deviam falar sobre suas vidas de casados.

Querido, quer dizer que não teve amante?

Claro que não, Iolanda!

Nessa altura da conversa, Leopoldo diz que é melhor para eles que parem. A mulher insiste em continuar. O marido reafirma sua intenção de parar. Diz que não lhe agrada esse rumo da conversa.

Querido, você pode ser sincero, e falar da outra mulher.

Por favor, Iolanda!

Pois bem, querido, mas eu tive um amante, por dois anos.

Leopoldo fica chocado. Está cansado e abatido. Não se sente em condições físicas e emocionais para continuar. Iolanda parece não ver o que se passa com ele, e continua:

Conheci ele no shopping...

Leopoldo permanece calado. Procura levantar-se da poltrona, mas a mão da mulher no seu ombro faz com que se recoste novamente. Seu desejo é deixar a sala rapidamente.

Fomos amantes por mais de dois anos...

Leopoldo olha para mulher sem compreender direito o que está acontecendo. Não consegue sequer imaginar outro homem na vida de Iolanda. “É inconcebível essa ideia”, diz num sussurro.

Agora, homem, fale de sua amante.

Não tenho nada para dizer.

O casal fica em silêncio por algum tempo. Iolanda custa a acreditar ter confessado seu adultério ao marido. Desorientada, diz para si mesma: “Meu Deus, se pudesse voltar atrás”. Não tem ânimo para levantar-se.

Leopoldo levanta-se e sai da sala. Depois de alguns minutos, retorna puxando uma mala de viagem, e se dirige à porta social. Aí fica parado por alguns segundos, depois sai. Iolanda sabe que não há nada mais que possa fazer.





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3 de set. de 2022

[Poesia] A CURVA DO TEMPO – Pedro Luso de Carvalho

 




     A CURVA DO TEMPO

                 – Pedro Luso de Carvalho



Tudo parecia certo e definitivo,

todas as coisas bem alinhadas

e os passos de todos no ritmo,

os mesmos passos da marcha,

passos certos no desfile da vida.


E havia  planos e esperança,

e tudo bem pensado e sentido,

planos que se realizavam –

planos para um curto tempo

ou para tempo mais adiante.


Mas não era certo o que via,

e me apercebia do engano,

o tempo traça o seu rumo,

com suas imutáveis regras –

e a ninguém compete fazê-lo.


Assim que tudo aconteceu,

exclusiva ordem do tempo,

e assim vingaram os planos,

não nossos frágeis planos,

vingaram planos do tempo.


Assim veio a terrível peste,

como outras tantas pestes,

as pestes de outros tempos

com o mal que causaram,

qual a peste deste tempo.




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22 de ago. de 2022

[Conto] O QUADRO DE PORTINARI – Pedro Luso de Carvalho

 




O QUADRO DE PORTINARI

              – Pedro Luso de Carvalho




Dora sentou numa poltrona da sala de visitas para descansar um pouco. Ali ficou por algum tempo, olhos fechados defendiam-se da forte luminosidade que entrava pela janela, em frente ao mar. Logo, forte vento levantou as cortinas com violência.

Dora ficou preocupada com uma valiosa obra de arte ali exposta e correu para fechar a janela. Depois, passou os olhos pelas paredes da sala e viu que faltava o quadro cobiçado pelos comerciantes de obras de arte.

Assustada, ela levantou-se da poltrona e exclamou:

Santo Deus, meu valioso Portinari desapareceu!

Ainda nervosa, procurou o quadro em todas as peças do apartamento, sem encontrá-lo.

No dia seguinte, a luminosidade do apartamento deu um pouco de ânimo à Dora, diante da dura realidade.

O famoso Portinari era a certeza de que ela teria uma confortável aposentadoria, pois o quadro certamente valia alguns milhões de reais.

Dois dias depois, ela pediu a um advogado para levar o fato ao conhecimento da polícia. Depois desse dia, o nome de Dora passou a fazer parte dos noticiosos das mídias. Por isso, ficou conhecida por um bom número de pessoas em seu bairro.

Numa dessas noites frias de inverno, Dora foi levar alguns pratos de sopa para moradores de rua, que vivem sob um viaduto, numa rua perto de seu apartamento.

Com ajuda de vizinhos, levou uma grande panela de sopa até o viaduto. Ela alcançou o prato de sopa ao pobre homem, que o pegou com avidez.

Depois de comer, o homem devolveu o prato e agradeceu timidamente. Dora, que o tinha observado enquanto comia, notou que sobre o caixote havia uma estranha bandeja colorida que lhe servia de mesa, e perguntou-lhe:

Posso levar também aquela bandeja?

O pobre homem alcançou-lhe a bandeja.

Nervosa, por ter recuperado o seu valioso Portinari, chegou em casa exaurida.

No dia seguinte, Dora levou o quadro a uma conceituada Galeria de Artes para vendê-lo. O preço alcançado pelo leiloeiro foi de grande monta.

Depois desse dia, ninguém mais viu Dora no bairro.

Algumas pessoas falam que ela foi vista em ruas de Paris ao lado de um homem alguns anos mais novo que ela, ambos vestidos com muita elegância.




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15 de ago. de 2022

[Poesia] POVO SEMPRE À MARGEM – Pedro Luso de Carvalho

 

Kiev (Ucrânia) atacada pela Rússia - foto CNN




POVO SEMPRE À MARGEM

                     – Pedro Luso de Carvalho





As cordas da lira arrebentaram,

já que todos vivem suas vidas

na luta desigual,

onde poucos podem muito

e muitos pouco podem.



As cordas da lira arrebentaram,

ante a plêiade de corruptos

com jeito para subtrair,

onde a justiça só é feita

se for pobre o criminoso.



As cordas da lira arrebentaram

por haver carência de justiça,

mas o dia dos ajustes virá,

cedo ou tarde virá esse dia,

então o bem se imporá ao mal.



As cordas da lira arrebentaram,

hoje ninguém mais a quer ouvir.

Som ausente e cordas feridas –

a melodia cede lugar às bombas,

a explodirem em nossos ouvidos.






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7 de ago. de 2022

[crônica] DIVÓRCIO FRUSTRADO - Pedro Luso de Carvalho

 

Otto Dix - 1899 / 1969       Obra: Os Pais




DIVÓRCIO FRUSTRADO –

- Pedro Luso de Carvalho



Certo dia, deparei-me com uma situação pouco comum, quando atendi no meu escritório um casal de idosos que ansiava pelo divórcio.

Antes de ouvir seus motivos para a drástica medida, pedi que a senhora falasse primeiro, cortesia que as mulheres merecem. Então, ela não se fez de rogada e logo disse que não dava mais para viverem juntos já que os filhos tinham suas vidas em suas casas e ela na sua, sequer podia ouvir a televisão nas duas refeições principais do casal.

Depois da fala da mulher, o marido disse que ela ouvia os noticiosos em volume muito alto para ele, que o deixava com dor de cabeça. A mulher atalhou para declarar a sua surdez, acrescentando que há muito tempo ele usava dois aparelhos nos ouvidos, sem os quais pouco ouvia.

Como se vê, nessas alturas da consulta eu já havia compreendido que a questão era de simples solução, como logo disse a eles, num tom amistoso de quem quer o bem de ambos.

Pelo que entendi, o seu marido reclama do alto volume da TV, e a senhora diz, por outro lado, que durante as notícias ele deveria tirar os aparelhos auditivos, sem os quais quase nada ouviria. Daí, minha senhora – disse eu, depreendo que a sua audição também não está boa.

Dito isso, sugeri a ela uma consulta ao otorrino, no que acabou aceitando o meu conselho, antes de decidir-se pelo divórcio.

Dias depois recebi no escritório duas garrafas de vinho, presente do casal, com um envelope que continha um singelo bilhete agradecendo por ter salvo o casamento deles, o qual terminava com a manifestação da mulher: o senhor tinha razão, pois estou me dando muito bem com o meu aparelho auditivo, e os noticiosos estão uma beleza!





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31 de jul. de 2022

[Poesia] A ESTRADA – Pedro Luso de Carvalho

 




A ESTRADA

        – Pedro Luso de Carvalho



Fiz meus planos com esmero

e todos os desejos calculados,

tudo real, objetivamente real,

e tudo fiz dentro das medidas,

e nada fora dos meus cálculos.


Mas meus planos eram sonhos,

somente sonhos, nada de real,

embora pensasse ter sido real,

ideias vãs sem mínima razão,

de alguém sem nenhum juízo.


Então isso tudo perdeu-se,

tudo era sonho ou desatino,

planos ou sonhos perdidos,

meus loucos planos de vida

sem nenhum desfecho real.


Do tempo os ensinamentos,

que a duras penas aprendi,

pés para a estrada já feita,

não quero trilho ou rastro,

aceito a estrada e o destino.





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24 de jul. de 2022

[Crônica] NOSSO DOMINGO NA REDENÇÃO – Pedro Luso de Carvalho

 

Parque da Redenção - Porto Alegre / RS - Brasil -  ( foto aérea DHRONIX )  



NOSSO DOMINGO NA REDENÇÃO

            - Pedro Luso de Carvalho



Finalmente, chegou o domingo. O sol entrou pela vidraça e clareou a mesa, onde estávamos tomando café. Uma observação: aqui em casa dizemos simplesmente café para a nossa primeira refeição, que não é tão simples assim. É possível que aqui em Porto Alegre essa refeição também seja chamada de café.

Quando terminamos o café já estávamos prontos para ganhar a rua ensolarada, já perto das 10 horas. Ficamos um pouco eufóricos em meio às pessoas que enchiam as calçadas.

Nossa Senhora – disse a Taís – nós parecemos duas crianças saindo de casa para brincar!

Isso tinha um pouco de verdade, e pode ser explicado pelo fato de termos ficado presos em casa por uma semana, devido à chuva incessante e ao frio intenso.

Quando estávamos bem perto do Parque da Redenção, banhado pelo sol, vimos com alegria a rua José Bonifácio cheia de gente alegre e sorridente.

Todo o mundo reunido ali no famoso Brique da Redenção, pessoas que passeavam acompanhadas, outras sozinhas sem estarem solitárias, e, em meio a tanta gente, também passeavam com os seus donos, cães de várias raças ou sem raça definida, e de todos os tamanhos, levados como importantes membros de suas famílias.

Não preciso dizer que a nossa manhã se estendeu para além do meio-dia, e somente retornamos à casa quando o sol despedia-se de nós com as cores do crepúsculo no horizonte ainda tão perto de todos, que também se despediam dele e do Parque da Redenção, que nos aqueceu o corpo e a alma nesse domingo.




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15 de jul. de 2022

[Poesia] A BRAVA LUTA – Pedro Luso de Carvalho

 

Os Retirantes - 1944 / Cândido Portinari




A  BRAVA  LUTA

                   – Pedro Luso de Carvalho





Arregacei as mangas para a luta,

não a luta armada dos exércitos,

mas a luta pelo pão de cada dia,

luta sem trégua com poderosos

alheios a dor de quem tem fome.



Então, enchi meus pulmões de ar,

como se o ar pudesse ficar preso,

guardados para tempos difíceis,

mas sei ser impossível guardá-lo,

então, que respirem o ar possível.



Eu quis a luta e a quero ainda,

já que outra saída eu não teria,

pois sei que lutar é a ordem,

desde que seja às claras a luta,

neste tempo feito de maldade.



Esse contraste já não é pouco,

em toda parte eu vejo miséria,

combate entre ricos e pobres,

de gente má contra gente boa,

luta inútil neste país enfermo.







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6 de jul. de 2022

[Poesia] A MOÇA SOLITÁRIA - Pedro Luso de Carvalho

 





   A MOÇA SOLITÁRIA

                            – Pedro Luso de Carvalho




No teatro, imitação da vida,

a moça ouve risos tantos

esperando por Werther.


São elas íntimas de Charlotte

a bela heroína de Massenet,

da ópera mágico criador.


Werther chega para libertar

das silenciosas amarras

a moça solitária.


Sabe a solitária moça, Werther

se apossou de alheio ninho –

da tragédia sente agouro.


E a morte de Werther acontece

desfazendo os sonhos todos

da triste moça solitária.


Depois de chorar com Charlotte

a morte de Werther, a ópera

na memória se aninha.


Na rua deserta, túnel da noite,

a moça solitária caminha

no ritmo do coração.





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26 de jun. de 2022

[Crônica] DIÁLOGO - Pedro Luso de Carvalho

 

Son of Man - Magritte 1964



DIÁLOGO

                        – Pedro Luso de Carvalho



Quando vemos duas ou mais pessoas conversarem nossas mentes registram a existência do diálogo. É pelo diálogo que as pessoas fazem a troca de ideias. É ele o meio mais amigável e eficaz para essa permuta. O mesmo não se dá com o discurso, que serve unicamente para o orador transmitir as suas próprias ideias.

Para a pessoa que tem a compulsão de falar, o diálogo é quase impossível. Pensa ela conversar quando, na realidade, está mais próxima do discurso. Ela necessita de alguém para ouvir o que tem para dizer, pois não tem o dom do diálogo. Ela não tem ideias para trocar, mas pensa que terá muito para ensinar.

Existem muitas pessoas assim, que em vez de conversarem defendem teses intermináveis diante de quem os ouve. Mais ainda: elas não gostam de ser interrompidas quando falam, embora afirmem que querem apenas conversar. Despidas de autocrítica, pensam ter mais cultura e vivência que todos.

O discurso exige lugar adequado e plateia que se disponha a ouvir o orador sobre determinado assunto; bastante diferente, pois, da conversa entre amigos ou de negócios. O diálogo propiciará êxito em qualquer assunto, uma vez que se fala melhor quando se tem o cuidado de ouvir o que tem a dizer o seu interlocutor.

A pessoa que fala compulsivamente, que não dá atenção com quem conversa, que não se dispõe a ouvir as ideias de uma ou mais pessoas dificilmente terá amigos. Os projetos de amizade não irão longe. Não são muitas as pessoas que se dispõem a servir de meros ouvintes para engordar o ego da pessoa faladora.

Não aprenderão, essas pessoas, a dialogar. Sentem-se o centro do mundo, mas por não dialogarem, os que com eles conversam logo estarão em fuga. Ficarão para ouvi-los apenas os enganadores, que nada tem a perder; estes estarão sempre dispostos a ouvir o falastrão, desde que haja alguma vantagem, como recompensa.





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19 de jun. de 2022

[Poesia] NOITE DE FRIO – Pedro Luso de Carvalho

 

Moradores de Rua 




NOITE DE FRIO

         – Pedro Luso de Carvalho




Nesta fria noite de inverno,

noite de vento minuano,

vento minuano zunindo

nas cumeeiras de casas,

vento rangendo nas árvores,

e cá dentro o fogo ardendo,

fogo crepitando na lareira

diante de corpos aquecidos.


Lá fora os desafortunados,

corpos cobertos por trapos,

corpos imundos e a fome,

castigo do vento na noite,

vento gélido na alma,

vento martirizando,

zunindo nas ruas e avenidas,

onde dormem os miseráveis.


Não se nega a força do vento,

como nobreza não se nega

ao sentir como sua a dor

e de todos ser solidário

prato de sopa quente,

sopa que ao vento desafia

na gélida noite de inverno,

diante da dor dos desvalidos.




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