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21 de ago de 2016

[crônica] PEDRO LUSO – Talento perdido




  [ESPAÇO DA CRÔNICA]


TALENTO PERDIDO
PEDRO LUSO DE CARVALHO


Como vem se repetindo há anos, sempre que os políticos se mexem para escolher os seus candidatos à presidência da República vem-me à lembrança o feito daquele amigo extrovertido e carismático, que meteu na cabeça que poderia voar.
Em pouco tempo, ele me convenceu de que o seu projeto de voar daria certo. Eu e alguns amigos ficamos convencidos que ele iria realizar a proeza de voar, com as asas que ele mesmo havia construído, e que pretendia patenteá-las.
Embora eu tivesse sido convencido, por força da sua capacidade de persuasão, de que não seria difícil para ele voar, arrisquei-me aconselhá-lo a candidatar-se a vereador. Ele argumentou que voar daria menos trabalho.
Certo dia, ele combinou encontrar-se comigo e mais três amigos para falar de seu voo. “Vai ser na próxima segunda-feira”, afirmou. Saltaria de um edifício de vinte andares, no centro da cidade. Nesse dia, lá estávamos para presenciar o feito do amigo.
Escolhemos um prédio alto, que ficava em frente ao edifício escolhido por ele para empreender o seu voo. Ficamos, meus amigos e eu, no terraço, acima do vigésimo andar, ao lado das duas caixas de água do prédio.
De repente nosso amigo surgiu no terraço do prédio em frente ao que estávamos, também acima do vigésimo andar, com duas asas enormes presas nos seus braços, estampando no rosto avermelhado um largo sorriso.
Ele então acenou para nós, numa espécie de aviso de que iria voar, e depois foi até os fundos do terraço, de onde voltou correndo até a beira do prédio e saltou com as asas abertas para o voo, quando vimos seu corpo projetar-se no espaço vazio.
Eu fiquei ali, no alto do edifício, com meus três amigos, com medo de olhar lá para baixo. Lembro-me apenas de ter dito a eles que o nosso falecido amigo bem que poderia ter escolhido a política, pois para isso talento não lhe faltava.

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14 de ago de 2016

[crônica] PEDRO LUSO – O hábito da leitura






      [ESPAÇO DA CRÔNICA]


       O HÁBITO DA LEITURA
     – PEDRO LUSO DE CARVALHO



Não raro recebo mensagens de jovens e de adultos que dizem que gostariam de ter o hábito da leitura, pois não se sentem com o ânimo necessário para se aventurarem em leituras que exigem deles o dispêndio de muito tempo.
Dizem alguns, que se sentem frustrados quando fecham o livro iniciado sem chegarem ao final da história ou do poema. Dizem, ainda, que gostariam de continuar com a leitura iniciada, mas desistem.
Então, pedem que lhes indique qual o método que poderá levá-los a aprendizagem da leitura. (Isso, em se tratando de ficção, já que muitos estão interessados em outras leituras, que não ficção ou poesia.)
A resposta para essa pergunta, que pode parecer fácil é, ao contrário, bastante difícil. Para cada pessoa deve-se aplicar um método que se adapte com sua idade, escolaridade, sensibilidade, aspirações.
Daí podemos concluir que as pessoas mais indicadas para dar esse tipo de orientação são os professores, já que no dia a dia da vida escolar podem observar quais são as tendências e aspirações de seus alunos.
Quanto aos adultos, que não mais frequentam bancos escolares, deverão eles escolher o que mais se aproxima de seu gosto, que pode ser romance, conto, crônica ou poesia. Isso não quer dizer que não possam aderir a todos esses gêneros.
Depois que esse adulto estabelecer uma hora adequada para a prática da leitura, em lugar igualmente adequado, estará iniciada a rotina para as suas leituras, desde que não desista dessa importante empreitada.
Portanto, para as pessoas adultas, que não mais frequentam os bancos escolares, a aquisição do hábito da leitura dependerá unicamente deles próprios. Portanto, vontade e determinação é a receita para atingirem esse objetivo.


  
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7 de ago de 2016

[crônica] PEDRO LUSO – Pintor Antonio Dias





       [ESPAÇO DA CRÔNICA]
      
       PINTOR ANTONIO DIAS

         – PEDRO LUSO DE CARVALHO                                                                                                


                
Na visita que fiz a Pedro Escosteguy e sua esposa Marília, no Rio de Janeiro, há algumas décadas, conheci Antônio Dias, que havia chegado de Paris com sua mulher e se encontravam hospedados no apartamento do casal, no Leme. Essa reunião com a família do Escosteguy deveu-se às festividades natalinas e à entrada do novo ano.
Ainda guardo as boas lembranças daqueles trinta dias que passei no Rio, onde travei conhecimento com o movimento de vanguarda das artes plásticas, no qual estavam inseridos Antonio Dias, Pedro Escosteguy, Carlos Vergara, Glauco Rodrigues, Helio Oiticica, Rubens Gerchman, entre outros.
Para quem era ainda estudante e não estava ligado às artes plásticas, como era o meu caso, essa experiência foi enriquecedora. O que eu conhecia de pintura não era nenhum pouco parecido com o que criavam aqueles pintores, que escandalizavam os adeptos da pintura clássica e moderna com uma arte plástica de vanguarda que rompia os padrões predominantes.
Numa das madrugadas que Antonio Dias pintava no ateliê de Escosteguy, nessas férias de fim de ano, ouvi dele uma queixa contra a Escola Nacional de Belas Artes, do Rio, na qual havia ingressado e desistido depois de seis meses: “Levei quase um ano para reencontrar minha pintura, depois que deixei a escola belas artes”.
Os anos foram se sucedendo, mas aqui e ali sempre li alguma coisa sobre Antonio Dias em livros, revistas ou jornais do Rio e de São Paulo. Há alguns anos encontrei numa livraria de livros usados Caminhos da danação, de Péricles Leal, romance cuja capa tem a arte de Antonio Dias (ed. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1966).
Pessoalmente, tive apenas um segundo encontro com Antonio Dias, que se deu no Auditório da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no dia 24 de junho de 1996, quando ele veio a Porto Alegre para apresentar e autografar o livro póstumo de Pedro Geraldo Escosteguy, Poesia reunida, a convite da viúva Marília Escosteguy.
Compareci nessa noite de autógrafos com Taís, minha mulher; ouvimos Antonio Dias falar sobre o livro de Pedro Geraldo Escosteguy, Poesia reunida, e depois colhemos de Antonio o seu autógrafo: “Para Taís e Pedro com a minha amizade. Antonio Dias”.
Quando conversávamos com Antonio Dias no salão nobre da universidade, após a sessão de autógrafos, ele retirou o livro de minhas mãos e desenhou uma espécie de bandeira com longa haste no alto da mesma página autografada; depois nos despedimos de Antonio. (No blog de artes da Taís há uma excelente matéria sobre o pintor; para ler, clique em: Antonio Dias.)
  

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30 de jul de 2016

[crônica] PEDRO LUSO – Políticos profissionais




  [ESPAÇO DA CRÔNICA]


POLÍTICOS PROFISSIONAIS
PEDRO LUSO DE CARVALHO


No mundo da política profissional, não se espera que existam homens e mulheres que militem em prol da sociedade. Eles escolhem esse caminho para facilitar as suas próprias vidas, com seus elevados salários, se comparados com a maioria dos salários dos demais brasileiros.
São esses homens e essas mulheres – os políticos – que estão sempre atentos para a criação de fórmulas mágicas para, na penumbra das casas legislativas, aumentarem os seus vencimentos e, assim, engordarem mais ainda as suas contas bancárias.
Esses mesmos políticos não pensam nos aposentados, que veem murcharem os valores de suas aposentadorias ao longo do tempo. Sequer se preocupam com a injustiça do que lhes cobra o Imposto de Renda, como se fosse renda a aposentadoria.
Para que essas deformações e injustiças sociais deixem de existir faz-se necessário que seja abolida a reeleição para todos os cargos, de vereador a presidente da República. O mandato único dificultará a prática de atos ilícitos, com a apropriação do dinheiro público.
Como o ser humano é ávido, em grande parte, o mandato único limitará a ação desonesta dos políticos. A reeleição, ao contrário, presta-se para o uso indevido do dinheiro que é do povo; dinheiro que deve ser canalizado para saúde, segurança, educação.
Muitos homens e muitas mulheres poderão passar toda uma vida sem cometer quaisquer atos ilícitos, desde que, no poder do cargo público, fiquem longe das poderosas empresas privadas, que lhes poderá acenar com as famigeradas propinas, quando contratam grandes obras.
Não me iludo, no entanto, que fica no plano do ideal a mudança, pelos políticos, da Constituição da República, com novo regramento para um único mandato – sem possibilidade de reeleição - em todos os âmbitos. O certo é que, com reeleição, o nosso dinheiro sumirá.



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24 de jul de 2016

[crônica] PEDRO LUSO – Hoje tem reunião de condomínio


          [ESPAÇO DA CRÔNICA]


      HOJE TEM REUNIÃO DE CONDOMÍNIO
            – PEDRO LUSO DE CARVALHO


O marido ouve o toque da campainha, mas como não é seu feitio atender ao telefone, interfone e tampouco campainha, deixa esse incômodo para sua mulher.
A campainha tocou, mulher.
A mulher sai correndo em direção à porta. Chega esbaforida, depois de ter tropeçado no tapete e batido a perna na quina da mesa. Abre a portinhola e recebe uma rajada de vento.
Desculpe lhe acordar, dona – diz o zelador do prédio.
Não me acordou, é quase meio dia...
O zelador entrega-lhe um envelope e pede que assine o protocolo de recebimento. A mulher assina na linha sobre o nome do marido.
Era o zelador – diz a mulher ao marido. – Ele deixou este envelope.
O homem abre o envelope e lê a convocação do síndico para uma reunião extraordinária.
No dia e hora marcados, lá estão alguns moradores na sala de reunião. Como não há quórum, o síndico aguarda algum tempo para a segunda chamada, e depois abre a reunião com quinze condôminos.
Boa noite a todos. Hoje vamos analisar três orçamentos para a pintura do edifício.
Quanto vai custar a pintura? – pergunta um homem, já curvado pela idade.
Nos orçamentos temos preços diferenciados, talvez possamos ficar com o mais barato.
E quanto é esse mais barato? – pergunta uma mulher. – Todos aqui sabem que o meu falecido marido deixou uma minguada pensão.
Eu também ando apertada – manifesta-se outra moradoura. – Como vocês também sabem, o meu marido está desempregado a um bom tempo.
Então mande esse folgado parar de beber e procurar um emprego – diz a solteirona do prédio.
Isso não é da sua conta, mal educada. Por que você não procura um marido e deixa de encher o saco?
O síndico diz que todos devem contribuir para que a reunião corra com normalidade, para que possam resolver o problema da pintura externa do prédio.
Vou ler aos senhores os itens que fazem parte do orçamento com o menor preço – fala com voz baixa, para que se esforcem para ouvi-lo.
É bom que essa leitura termine antes que comesse minha novela – diz a mulher vistosa, com as pernas à mostra.
A novela, meu Deus! – exclama outra moradora. – Eu não posso perder o último capítulo. – Se me dão licença...
Depois que a mulher deixa a sala, antes que se decida pela pintura, uma após outra, das nove mulheres, levantam-se e saem. Ficam na sala apenas seis condôminos.
O síndico mal recomeça a falar sobre os orçamentos quando os seis homens entreolham-se cúmplices, numa surda troca de ideias, e retiram-se com discrição.
Na sala fica apenas o síndico, com o olhar fixo nos orçamentos. Logo, diz para si mesmo: “eu é que não vou ficar aqui plantado, justamente hoje, e perder o final da minha novela”.


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17 de jul de 2016

[crônica] PEDRO LUSO – Pessoas Desiguais





[ESPAÇO DA CRÔNICA]

PESSOAS DESIGUAIS
  PEDRO LUSO DE CARVALHO


Sabemos que pessoas extrovertidas usam a palavra inadequadamente mais vezes que o fazem as introvertidas. As pessoas extrovertidas não têm dificuldade em expressar-se verbalmente; não há acanhamento que lhes possa atrapalhar, quando querem expor suas ideias.
Com pessoas introvertidas acontece o contrário. Para se manifestarem sobre algum assunto, reservam tempo para pensar. Às vezes, mantêm-se caladas e apenas nos ouvem, ou fingem estarem ouvindo. Parece que conhecem melhor o peso da palavra.
Alguém poderá perguntar-nos com qual dessas pessoas preferimos conviver – extrovertidas ou introvertidas? Não há resposta fácil. Talvez a convivência com pessoas extrovertidas seja menos difícil, porque podemos antever como será seu comportamento.
Por outro lado, não temos dúvida de que pessoas introvertidas dificilmente tentam impor suas ideias, como fazem as extrovertidas. A discrição é uma de suas boas qualidades. Então, nos assalta outra dúvida: não seria melhor o convívio com pessoas introvertidas?
Não encontramos a solução para esse dilema.



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10 de jul de 2016

[conto] PEDRO LUSO – Casal discute a relação




         [ESPAÇO DO CONTO]


CASAL DISCUTE A RELAÇÃO
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Iolanda mal podia esperar pela hora do jantar, que havia preparado para o marido. A expectativa da conversa, que teria com ele, deixava-a apreensiva. Há muito tempo queria discutir a relação do casal.
Leopoldo chega na hora que havia combinado com Iolanda. Demora-se no banheiro. Quer fazer boa figura para sua bela esposa. Acordes de música muito suave, chegavam até ele.
O jantar correu como havia sido planejado por Iolanda. Sente-se tranquila, com o resultado. Não lhe passou despercebido que o marido havia gostado dos pratos servidos.
Depois, sentados em confortáveis poltronas, Iolanda inicia a conversa. O marido fica um pouco desconfortável com o que poderia ocorrer. Não acha razoável que contem, um para o outro, suas intimidades.
– Querido, o que você fez , nestes sete anos?
– Por favor, Iolanda! O que poderia ter feito?
Iolanda já havia estudado tudo o que teria para dizer ao marido. Destaca muitos momentos bons que viveram, mas não esquece dos maus momentos. E diz ter ciúmes das mães dos seus pacientes.
– Iolanda, eu sou médico dessas crianças!
– Então, por que tanta atenção com as mães delas?
Leopoldo não gosta do tom da conversa. Está arrependido por ter se deixado convencer pela mulher. Sabe que estava certo quando lhe disse que não deviam falar sobre suas vidas de casados.
– Querido, quer dizer que não teve amante?
– Claro que não, Iolanda!
Nessa altura da conversa, Leopoldo diz que é melhor para eles que parem. A mulher insiste em continuar. O marido reafirma sua intenção de parar. Diz que não lhe agrada esse rumo da conversa.
– Querido, você pode ser sincero, e falar da outra mulher.
– Por favor, Iolanda!
Está bem, querido, eu tive um amante, por dois anos.
Leopoldo fica chocado. Está cansado e abatido. Não se sente em condições físicas e emocionais para continuar. Iolanda parece não ver o que se passa com ele, e continua:
– Conheci ele no shopping...
Leopoldo permanece calado. Procura levantar-se da poltrona, mas a mão da mulher no seu ombro faz com que se recoste novamente. Seu desejo é deixar a sala rapidamente.
– Fomos amantes por mais de dois anos...
Leopoldo olha para mulher sem compreender direito o que está acontecendo. Não consegue sequer imaginar outro homem na vida de Iolanda. “É inconcebível essa ideia”, diz num sussurro.
– Agora, homem, fale de sua amante.
– Não tenho nada para dizer.
O casal fica em silêncio por algum tempo. Iolanda custa a acreditar ter confessado seu adultério ao marido. Desorientada, diz para si mesma: “Meu Deus, se pudesse voltar atrás”. Não tem ânimo para levantar-se.
Leopoldo levanta-se e sai da sala. Depois de alguns minutos, retorna puxando uma mala de viagem, e se dirige à porta social. Aí fica parado por alguns segundos, depois sai. Iolanda sabe que não há nada mais que possa fazer.



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3 de jul de 2016

[conto] PEDRO LUSO – Drama em família





    [ESPAÇO DO CONTO]


     DRAMA EM FAMÍLIA

          – PEDRO LUSO DE CARVALHO


No quarto, em frente ao espelho, Teobaldo dá os últimos retoques na gravata. Passa as duas mãos sobre a cabeça para fixar os cabelos lisos. Depois, coloca com cuidado o paletó no espaldar da cadeira, quando ouve a voz da mulher, que o chama: “O café está na mesa, Teobaldo”.
Antes de deixar o quarto, senta-se para calçar os sapatos lustrosos, prova da dedicação de Elsa. Fecha a porta do quarto e se dirige à cozinha, onde a mesa está posta para o café da manhã. “Pode chamar o menino”, diz Teobaldo.
Elsa entra no quarto de Marcos e diz a ele que o pai o espera para o café. “Já vou, mãe!”, responde num fio de voz. “Não demore, para não irritar o seu pai”, pede-lhe a mãe.
Na cozinha, Marcos senta-se à mesa, ao lado do pai, sem falar. O menino fixa o olhar no pai, de um modo esquisito. “Você não vai comer, menino?”, pergunta Teobaldo. “Vou”, responde o filho.
Enquanto come, Marcos mantém o olhar fixo no pai, que não gosta do jeito que ele mastiga. Da outra ponta da mesa, Elsa preocupa-se com o modo que o filho encara o pai. “É assim que o provoca”, pensa a mãe.
– Menino, pare de me olhar desse jeito – diz Teobaldo.
– Não paro – responde Marcos, em tom áspero.
Mal pronuncia a frase, Teobaldo desfecha um forte tapa no rosto do filho.
– Meu Deus, não faça isso – suplica Elsa.
Teobaldo dirige-se ao filho e levanta-o do chão, com energia.
– Peça desculpa ao seu pai – ordena Teobaldo.
– Não peço.
Marcos sente mais uma vez no rosto o peso da mão do pai. O menino levanta-se e corre em direção à porta da casa, tentando escapar dos golpes do pai, mas logo é atingido por forte pontapé.
– Pare com isso, homem – pede-lhe a mulher.
No pátio da casa, Teobaldo atinge o filho com um pedaço de pau. O menino cai. Os golpes do pai não cessam. Marcos tenta proteger-se colocando os braços em frente ao rosto.
– Não vai chorar cretino? – pergunta Teobaldo.
– Não – responde Marcos ao pai, quase sem fôlego.
O menino prende o choro. O pai bate em seus braços e em suas costas, com o pedaço de madeira.
– Não mate o menino, Teobaldo – grita Elsa. – Você está louco?
– Esse safado merece.
Elsa segura o marido com força. No chão, Marcos sente o corpo moído. Não chora. É a sua forma de vingar-se.
Teobaldo senta-se num degrau da escada, arfando. Marcos levanta-se e sai correndo do pátio. Elsa vê o menino caminhando entre a vegetação de um terreno, já bem distante dali, quando tem o pressentimento de que não mais verá o filho.



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26 de jun de 2016

[conto] PEDRO LUSO – Marido traído



         [ESPAÇO DO CONTO]

    MARIDO TRAÍDO
        – PEDRO LUSO DE CARVALHO


Não falta muito para Apolônio completar cinquenta anos. Por isso, anda chateado, mais que isso, amedrontado por pensar que está velho. Somente agora ele se preocupa com a idade, antes sua atenção esteve sempre voltada para Berenice, com quem está casado há mais de vinte anos, e para os dois filhos.
Esses cinquenta anos, que está por fazer, têm levado Apolônio a pensar no passado. Em casa, quando descansa, vem-lhe à mente sons e imagens da infância e da adolescência. Para ele, que sempre disse ser importante apenas o futuro, agora se incomoda com lembranças, que nunca as quis ter.
Dia destes, Apolônio lembrou-se do seu pai, quando lhe pediu para estudar medicina, como ele. Naquele dia, faltou-lhe coragem para dizer que tinha outros planos. Não o contrariou. No dia da formatura, sentiu que os esforços empreendidos foram compensados pela alegria refletida no rosto do velho médico.
Formou-se, mas não prometeu que teria a mesma dedicação ao trabalho, que o pai sempre teve. Não quis sequer especializar-se. Na primeira oportunidade, prestou concurso e ingressou no serviço público. Ficou feliz ao ser designado para a perícia médica, onde teria pouco contato com doentes.
Nesta tarde, Apolônio não se sente bem. O médico, chefe da repartição, aconselha-o a voltar para casa. Na avenida, por onde vai, avista o carro de Berenice à sua frente, dando sinal de luz para dobrar à direita; ele segue a mulher, que se dirige para uma casa, quase escondida entre árvores, onde termina a rua.
Apolônio estaciona seu carro perto da casa, cuidando para que sua presença não seja notada. Em meio às árvores, ele consegue ver outro carro estacionado, e desconfia que se trata de um homem à espera Berenice. Apolônio olha para o relógio, no painel do seu carro, que marca dezesseis horas e alguns minutos.
Atento, Apolônio vê o carro de Berenice aproximar-se de um pátio, em frente à casa ensolarada, e estacionar ao lado de outro carro, que ali já se encontrava. Ansioso para saber quem espera por Berenice, Apolônio vê que ela sai do carro vai ao encontro de uma mulher elegante, que a abraça e a beija.
No pátio, em meio às árvores, Apolônio espera pacientemente. Logo Berenice e a mulher elegante entram abraçadas na casa e desaparecem de suas vistas. Mais calmo, Apolônio resolve ir à cafeteria de um shopping, aonde fica até o início da noite, para não chegar em casa antes de Berenice, que irá à porta para recebê-lo.

   
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