>

7 de abr. de 2021

[ Poesia] PEDRO LUSO - Numa tarde vazia

 

Crepúsculo de Porto Alegre / Brasil - foto Stella Breitman



NUMA TARDE VAZIA

     - Pedro Luso de Carvalho




Naquela tarde vazia,

o sol a morrer no horizonte

sento-me à mesa,

no vazio da cafeteria.


Assusta-me este abandono,

os fregueses todos sumidos

Sinto-me invisível ali,

pareço não mais existir.


A garçonete parece-me de cera,

absorta e presa ao balcão

até espremer os olhos esverdeados,

e quem sabe, um leve sorriso.


Pensativo na solidão do crepúsculo,

mal respirando sob a máscara,

vi rodopiar sob a calçada

um velho jornal levado pelo vento.


A garçonete por detrás da máscara,

se sorriu nunca saberei,

mesmo tão próxima de mim,

ao deixar na mesa, quem sabe, o meu último café.



____________________//___________________







30 de mar. de 2021

[poesia] PEDRO LUSO - O Novo Coronavírus

 



O NOVO CORONAVÍRUS

                           - Pedro Luso de Carvalho




Do velho coronavírus não lembro,

mas se presume que existiu,

certamente sem a fúria do novo

que contamina a muitos e mata.



O que sei é que o vírus veio em bando,

está o vírus aqui, ali, acolá,

invisível em todos os lugares,

na mão estendida, no abraço, no beijo.



Mas agora se tem mais fome e luto.

Com tanta morte não se tem descanso,

em especial com os tantos pobres,

pois riscos para ricos são menores.



Depois que esse vírus for derrotado

ficarão ecos das agônicas dores,

do denodado trabalho dos médicos,

enfermeiras – ciência e doação.





_________________________//_______________________






23 de mar. de 2021

[Conto] PEDRO LUSO – Um homem e seu destino



 


                            UM HOMEM E SEU DESTINO

                                                                – Pedro Luso de Carvalho



Esta é a história de Juvenal Lima. Parte dela passou-se na época em que o país vivia as agruras da Ditadura Vargas. Durante certo período de sua adolescência, Juvenal passou ouvindo conversas entre seus pais sobre Getúlio Vargas. O pai dizia que Getúlio era o protetor dos trabalhadores, enquanto a mãe acusava-o de prender e torturar intelectuais de respeito.

Foi nessa época que Juvenal viu-se obrigado a prestar serviço militar. Depois de um ano de farda, voltou ao convívio dos civis. Formou-se como técnico em contabilidade. Em pouco tempo já estava empregado. Casou-se, e dois anos depois nasceu a primeira filha. Não tardou, a mulher já estava outra vez grávida. A expectativa de Juvenal era ter um filho homem. Nasceu mais uma menina.

O trabalho era duro, no escritório. Era um fazer lançamentos de notas fiscais em livros contábeis que não tinha mais fim. Não era sua natureza queixar-se. Quando Juvenal retornava do trabalho, era mal recebido pela mulher, que estava sempre envolvida com as crianças. Mãe e filhas pareciam formar um só corpo. Ele era apenas um estorvo. Com o passar do tempo, mal suportava os fins de semana. Esperava com ansiedade pela segunda-feira.

A vida de Juvenal Lima era desprovida de graça e de emoção. O seu dia-a-dia era um eterno repetir-se. O tempo parecia ter estabelecido uma rígida regra para ele: da casa para o trabalho, do trabalho para a casa. A mulher exigia-lhe pronta obediência. Juvenal obedecia. Quanto aos vizinhos, dividiam-se nos que tinham pena dele e nos que o desprezavam.

Olha lá o Juvenal correndo para a casa – dizia alguém.

Coitado, vai de cabeça baixa, com medo de olhar para as mulheres – comentava outro.

Por todos os motivos, a mulher e as filhas pouco significavam para ele. Apenas dois prazeres davam sentido à sua vida: o trabalho e a música. O tango e a milonga eram suas paixões. Durante o dia, esquecia-se dos aborrecimentos fazendo os seus lançamentos contábeis. À noite, em casa, fechava-se numa pequena sala para ouvir rádios da Argentina e de Montevidéu. Gardel era o seu cantor preferido. Encantava-se com a magia de Troilo ao bandoneon.

Abaixe esse maldito rádio, homem dos infernos – gritava a mulher.

Contrariado, mas sem contestar, Juvenal baixava o volume, e aproximava-se bem do rádio para poder ouvir suas músicas.

O jantar está servido – a mulher avisava. – Apague essa porcaria de rádio, e não me faça esperar.

No dia seguinte, Juvenal caminhava rápido pela Avenida Borges de Medeiros. Estava quase embaixo do viaduto quando um homem deu-lhe um forte esbarrão, que o derrubou. Levantou-se um pouco atordoado. O homem havia desaparecido. Desconfiado, levou a mão ao bolso do paletó, quando se deu conta que a carteira havia sido roubada, com seus documentos. Por sorte, guardava o dinheiro num bolso interno da calça.

Sentia-se ainda um pouco tonto e com forte dor de cabeça. Decidiu-se então não ir para o trabalho. Iria à tarde, e se justificaria ao patrão. Depois de tomar um analgésico na farmácia, dirigiu-se à Praça da Matriz, onde escolheu um banco embaixo de uma árvore e sentou-se.

Já havia passado mais de duas horas quando resolveu almoçar, ali perto. O restaurante estava cheio. Esperou um pouco até vagar uma mesa. Pediu o prato do dia. Na mesa ao lado, um casal comentava o noticiário da rádio. O homem disse à mulher que uma pessoa, de nome Juvenal Lima, havia sido esmagada por um ônibus. Juvenal estremeceu com o que ouviu.

Depois de ouvir a conversa do casal, Juvenal saiu do restaurante. Não estava mais em condições de ir para o trabalho à tarde, como era sua intenção. Desnorteado, voltou à Praça da Matriz, sentou-se num banco e ali ficou por algum tempo.

A mulher e as filhas já devem ter ouvido a notícia de minha morte – disse para si mesmo, um tanto assustado.

Juvenal levou muito tempo para decidir que não iria dormir em casa. "Vou ver se encontro um quarto naquele hotelzinho da Riachuelo", decidiu-se.

Depois de tomar café, no hotel, Juvenal leu o jornal, que trazia na sua primeira página a reportagem sobre a morte de Juvenal Lima. A fotografia do homem esmagado embaixo do ônibus deu-lhe certa euforia. Folheou o jornal para ver se encontrava mais alguma coisa sobre o acidente, e viu, num canto de página, o convite para seu enterro, feito pela mulher e pela firma da qual era empregado.

Naquele mesmo dia, Juvenal comprou passagem de ônibus para Montevidéu. De lá foi de navio para Buenos Aires. Ficou paralisado ante a beleza da metrópole, naquele entardecer. Em poucos minutos estava no centro da cidade. Na Calle Florida, mulheres e homens passeavam, elegantemente vestidos. Muitos deles entravam e saiam de bares, cafés, restaurantes. Palavras eram insuficientes para dizer tudo que sentia.

Com o passar do tempo, Juvenal não estranhou ter se integrado de forma tão definitiva à vida da cidade. Falava com rara destreza o espanhol. Nem parecia ser brasileiro. Mal se lembrava de sua chegada em Buenos Aires, e do homem que falsificou sua nova identidade, a mesma pessoa que lhe encaminhou para uma firma, que precisava de um contabilista, onde foi admitido.

Aos poucos, Juvenal foi observando como se trajavam os portenhos, principalmente aqueles que frequentavam casas de tango. Deixou para trás o seu corte de cabelo, quase raspado. Com os cabelos já crescidos pode penteá-los como faziam os dançarinos de tango, dando-lhe ao rosto um ar de dramaticidade.

À noite, passou a frequentar as famosas casas de tango. Dançava tal qual um bailarino profissional. Perdeu a timidez, e conversava com desenvoltura. Conquistava as mulheres com extrema facilidade. Certa noite, numa casa de espetáculos, excursionistas brasileiros olhavam, em silêncio absoluto, um casal de dançarinos a deslizar pelo salão, corpos unidos, a mulher entrelaçando suas longas pernas nas pernas do homem.

Gente, aquele dançarino não é o Juvenal Lima? – a brasileira perguntou.

Todos os brasileiros, seus companheiros de excursão, riram muito dela por dizer tamanha besteira.

Coitado do falecido – disse outro excursionista.

Enquanto isso, no salão, Juvenal Lima apresentava-se com sua formosa parceira, naquela dança impregnada de paixão e dramaticidade, ao som de La Cumparsita.




_______________________//______________________






15 de mar. de 2021

[Crônica] PEDRO LUSO – O Incentivo de Moacyr Scliar

 

Moacyr Scliar


                                 - Pedro Luso de Carvalho


Moacyr Scliar, nascido na cidade de Porto Alegre, membro da Academia Brasileira de Letras, deixou uma legião de admiradores. Meu interesse por sua obra literária começou quando li o seu livro O anão no televisor, publicado em 1979, em Porto Alegre, pela RBS/Editora Globo, contendo dezenove contos da melhor qualidade.

Quem se acostumou com a presença de Moacyr Scliar na mídia, ainda sente sua falta. Sente falta de suas crônicas aos domingos, na Zero Hora. Sente falta de suas entrevistas no rádio, na televisão, na revista e no jornal. Sente falta de sua presença na Feira do Livro, sempre atencioso com seus leitores.

O escritor – romancista, contista, cronista, ensaísta – não deixava que outra de suas paixões, a medicina sanitarista, ficasse em segundo plano, e, para tanto, a ela se dedicava com entusiasmo. Scliar trabalhou muito para atingir esses dois objetivos. (Deixo de falar na paixão maior de Scliar, que foi a sua família.)

Moacyr Scliar foi um homem bondoso, modesto e sempre disposto a transmitir os seus conhecimentos onde quer que fosse chamado; não achava difícil sair da capital gaúcha, onde morava, para ir a qualquer outra cidade, no país ou fora dele. Tomei conhecimento dessas suas qualidades ao longo dos anos, pela mídia; pois, em que pese minha atenção para com o seu trabalho literário, apenas duas vezes falei com o escritor.

Quando falei com Scliar pela primeira vez, fiquei admirado por sua humildade. E foi justamente por isso que me animei a falar com ele, num dia em que folheava um livro, numa conhecida livraria da Rua da Praia, e lhe perguntei:

Então, Scliar, quando sai teu próximo livro?

Fiz a pergunta e fiquei aguardando a resposta. Ele se voltou para mim, certo de que não me conhecia. Não aparentou surpresa. Devia estar acostumado com esse tipo de abordagem. Nossa conversa durou pouco tempo. E quando já ia me despedir, Scliar respondeu à minha pergunta:

No final do mês, minha editora vai lançar O Centauro no Jardim – disse o Scliar.

O meu segundo encontro com Moacyr Scliar deu-se justamente na tarde de autógrafos desse livro. Comprei O Centauro no Jardim, que foi editado pela L&PM, em 23 de agosto de 1985, e entrei na fila para colher o seu autógrafo.

Como a fila era extensa, levei algum tempo para chegar até onde Scliar se encontrava, curvado sobre cada livro que autografava. De repente vi-me frente a frente com o escritor, que, num gesto de cortesia, levantou-se para me cumprimentar. Falou comigo como se fôssemos velhos amigos:

Fico contente que tenhas vindo – disse ele.

Agradeci e lhe entreguei o livro para ser autografado. Scliar escreveu sua dedicatória e depois me devolveu o livro, com um gesto que denotava gratidão por minha presença, como fazia a todos. Depois de mais um aperto de mãos, deixei o caminho livre para outros leitores.

Eu já estava fora do recinto quando abri o livro para ler a dedicatória. No primeiro momento fiquei surpreso com o elogio a mim dirigido, mas logo entendi tratar-se de um incentivo, o que não era incomum para o grande coração de Moacyr Scliar.




____________________________//________________________





3 de mar. de 2021

[Crônica] PEDRO LUSO – Como conheci Mario Quintana

 



– Pedro Luso de Carvalho


     Eu era ainda estudante da faculdade de Direito quando tive a grata oportunidade de conhecer, pessoalmente, Mario Quintana. Isso ocorreu sem qualquer planejamento. Tudo foi quase por acaso.

Naquele dia, em que caminhava pela Rua da Praia, o que menos poderia me ocorrer seria encontrar-me com Mario Quintana. Para colocar as coisas no seu devido lugar, vamos deixar uma coisa bem clara: eu nunca havia feito planos para ser apresentado ao poeta. Isso estava fora de cogitação.

Não tivesse encontrado a jovem e talentosa jornalista, que trabalhava para o jornal Correio do Povo, de quem me tornara amigo, há mais de ano (naquela época), o convite dela para conhecer o nosso estimado poeta, apanhou-me de surpresa.

 – Apresentar-me o Mario Quintana? – perguntei.

Diante dessa pergunta e da inflexão dada por mim, a jornalista não escondeu o riso.

Vamos até o jornal, ele não vai te morder.

Então, seja o que Deus quiser.

E lá fomos nós, pela Rua da Praia. Na esquina com a Caldas Júnior – rua que se tornou famosa por sediar o jornal Correio do Povo e a rádio Guaíba – fizemos uma inflexão para a direita. Estávamos já diante do prédio do jornal.

Tenho que ir mesmo?

Vamos subir, agora mesmo – disse a jornalista.

A redação do jornal ficava no primeiro andar. Lá, Quintana escrevia sua coluna, como fazia durante toda semana. Em frente ao elevador, ela apertou o já gasto botão de madrepérola. O antigo elevador não demorou a chegar.

A porta de gaita, do velho elevador, abriu-se diante de nós, fazendo um barulho estridente. O educado ascensorista fez um gesto com a mão, sinalizando para entrarmos. Deixou-nos no andar da redação.

É por aqui – disse a jornalista, já no corredor.

Da porta, vi uma sala muito grande, com várias mesinhas enfileiradas. Só não consegui enxergar o Mario Quintana. Andamos um pouco mais. Passamos pelos jornalistas, que escreviam seus textos, nas suas velhas máquinas. As repetidas batidas nas suas teclas arredondadas causavam um som estridente e nervoso.

Mais uns passos, e logo nos deparamos com o poeta. Estava sentado frente à sua mesa, soltando baforadas. O cigarro aceso fazia desenhos no ar, na medida em que o poeta gesticulava. Do cigarro, já quase no fim, desprendia-se uma linha fina de fumaça em espiral. Ao lado da máquina, na qual escrevia, um gordo cinzeiro exibia suas guimbas.

Hoje vai ser o meu grande dia – pensei.

A jornalista aproximou-se de Quintana, com intimidade, quase nas pontas dos pés. Com ela em sua frente, não se demorou a levantar. Fiquei ao lado deles, no pouco tempo em que conversaram. Com discrição, olhei para o poeta, que me pareceu tratar-se de um homem simples. Era mais baixo do que imaginava. No seu rosto, nenhum traço que pudesse indicar qualquer sentimento.

Mario – disse a jornalista – trouxe um amigo para te apresentar...

Solícito, estendi a mão para o poeta. Sua mão mal tocou a minha, nesse cumprimento.

Muito prazer, seu Quintana.

Prazer! – respondeu.

Sua voz era quase inaudível. Seu olhar estava fixo na janela, de onde se via a rua. Demorou muito pouco para que a mão do poeta tateasse as costas de sua cadeira, onde logo iria sentar-se. O papel ali, na máquina, era o que lhe interessava.

Vamos?! – sussurrou a jornalista, puxando-me pela manga do paletó.

Depois de muitos anos decorridos, a contar daquele rápido encontro com Mario Quintana, fiz esta descoberta: no mundo mágico dos poetas, que é feito de sonho e solidão, não há lugar para estranhos e importunos.

"Não vou me enganar mais" – admiti resoluto –, naquele dia em que fomos apresentados, Quintana não disse “prazer”, quando lhe estendi a mão.




__________________________//__________________________




22 de fev. de 2021

[Poesia] MANOEL CAETANO – Outono Estação de Amor

 

Manoel Caetano


                           - Pedro Luso de Carvalho



O maranhense de Caxias, Manoel Caetano Bandeira de Mello, nasceu a 30 de julho de 1918 e faleceu em 2008, aos 90 anos de idade. Passou sua infância e adolescência em São Luís. Com a idade de 19 anos, o acadêmico de Direito muda-se para o Rio, no ano de 1938. Aí passa a colaborar nas colunas do semanário de letras Dom Casmurro.

Quando Manoel Caetano concluiu o curso de Direito já era profissional da imprensa. Durante a Segunda Guerra Mundial – 1939 a 1945 - trabalhou nas Agências Havas e Reuters. Após esse período, ingressou, mediante concurso público, no DASP, como redator, sendo lotado, depois, na Agência Nacional. Mais tarde, foi redator-chefe da Gazeta de Notícias (1951 a 1955), e, em O Jornal, órgão líder dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, passou a escrever a seção “Semana Internacional”.

E nesta altura, encerramos a lista desses poucos dados pessoais Manoel Caetano Bandeira de Mello, para, agora, falarmos de sua obra poética, como segue:

No ano de 1987 a Livraria José Olympio publica, em convênio com a Secretaria da Cultura do Estado do Maranhão, “Outono Estação de Amor”, do poeta Manoel Caetano Bandeira de Mello. Manifestações de acolhimento ao livro são feitas por nomes importantes da literatura brasileira; a esses escritores, poetas e críticos literários, soma-se a contribuição do romancista Josué Montello, membro da Academia Brasileira de Letras, com a brilhante apresentação que faz à obra. Para não nos alongarmos, veremos a seguir o que pensam alguns desses nomes, quais sejam:

ADONIAS FILHO: É possível que os temas, sempre eternos porque integrados na condição da criatura – a morte e o amor -, tenham imposto essa estrutura clássica no sentido do conteúdo universal no fundo do artesanato moderno. Já não aparecem, porém, como uma experiência. Em suas bases líricas, por vezes no plano da reinvenção, a exemplo da configuração valéryana, tudo de tal modo vem da carne e do sangue que a palavra exata é esta: nascida, a poesia nascida.

OCTÁVIO DE FARIA: A forma que alcançou agora, depois de laborioso esforço, é de tal modo, nova e forte, tão rica e segura de si, de tal maneira trabalhada e marcante, seus decassílabos são tão firmes e eufônicos, suas quadras marcham com o ritmo tão desenvolto e consciente de si, tão grande é a liberdade das rimas e das elipses, das sugestões verbais e das ousadias silábicas, que nos encontramos diante de um mundo poético, totalmente diverso do que se encontrava entre os polos extremos, tanto do amor e da morte, como do soneto clássico e do verso livre.

JOSUÉ MONTELLO (trechos da sua apresentação): Manoel Caetano Bandeira de Mello, a quem já defini como poeta de minha geração maranhense, está na fase em que o criador literário tem ao mesmo tempo o domínio de seu ofício e o domínio da vida.

A vida, que é uma adivinhação na juventude - escreve Montello-, constitui um acervo de experiências profundas, sempre que entramos na maturidade. O que, ontem, era intuição, passa a constituir vivência acumulada, que se exprime dispensando a fantasia, para nutrir-se de recordações.

O poeta romântico preferiu a intuição à experiência - prossegue Montello. Não esperou pela vida vivida para recolhê-la à concha do poema. Captou-lhe as vozes líricas, e pôde ser mestre ainda jovem, como Gonçalves Dias e Castro Alves. A imaginação fez o seu ofício, com tal poder de verdade permanente, que a “Canção do Exílio”, escrita aos 20 anos, ajusta-se a todas as idades, sem ter envelhecido com o rolar do tempo.

(...) Manoel Caetano Bandeira de Mello também passou pela fase em que o poeta se deixa conduzir pela intuição da vida. No momento próprio, pôs em versos os seus desencantos de adolescente (...).

Os livros que Manoel Caetano Bandeira de Mello publicou até hoje – enfatiza Montello -, balizando o seu caminho da poesia lúcida, ficariam derrogados, após o aparecimento deste Outono estação de amor, se os livros anteriores não contivessem as raízes deste remate intencional.

Com efeito – diz Montello -, já o poeta de ontem – hoje mais exigente, ontem mais espontâneo. E como a poesia atual é essencialmente técnica, sem prescindir de certa invenção matinal, que lhe confere juventude perene, ocorre que, neste momento, o grande companheiro de geração maranhense, que pretendeu traduzir Milton ao tempo do Liceu, vem dizer-nos com o testamento de seus melhores versos, que o Amor, a primeira matriz da poesia, contemporânea da Primavera, tem no Outono a sua estação adequada.

Segue o primeiro soneto dos trinta e sete que compõem o livro Outono estação de amor, de Manoel Caetano Bandeira de Mello:





     OUTONO, ESTAÇÃO DO AMOR (I)

                                      - Manoel Caetano Bandeira de Mello



No outono desta vida recomponho

as horas que de novo viveria

se pudesse voltar aquele dia

que me semelha o espaço deste sonho.



É o passado de volta de seu sono

como o tempo de outrora voltaria.

Unido o cotidiano com a magia

o amor não muda na estação do outono.



Como se fosse outra primavera

a me trazer de novo ansiedade

agora temperada em experiências



que se não faz da gente o que antes era

nos deixa na lembrança a mesma idade

que ilumina de amor tamanha ausência




________________________//________________________





13 de fev. de 2021

[Poesia] LÊDO IVO – A coruja

Lêdo Ivo


- Pedro Luso de Carvalho



Lêdo Ivo, escritor e poeta, estreou na poesia com As imaginações, livro que foi publicado em 1944, no Rio de Janeiro, pela Pongetti. Dessa data, até 2008, quando publicou Réquiem, pela editora Contra Capa, teve uma produção poética bastante extensa. Às suas inúmeras obras poéticas somam-se às Antologias poéticas, nas quais participou.

O escritor iniciou-se no romance em 1947, com As alianças, com o qual obteve o Prêmio da Fundação Graça Aranha, que teve a sua publicação no Rio de Janeiro, pela Agir. Em 2007, foi publicado o romance A morte do Brasil, em sua 3ª edição, em Belo Horizonte, pela Editora Leitura. Entre 1947 até 2007 produziu outros romances importantes.

A narrativa curta também foi explorada por Lêdo Ivo; o seu primeiro livro de contos, Use a passagem subterrânea, de 1962, foi publicado em São Paulo pela Difusão Européia do Livro, em 1962. Depois, foram publicados: O flautim, Um domingo perdido, entre outros.

A crônica igualmente atraiu Lêdo Ivo: A cidade e os dias, foi publicada pela O Cruzeiro, em 1957 – outras se seguiram. O escritor também se fez presente no ensaio; escreveu, entre outros: Lição de Mário de Andrade, em 1951, O preto no branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira. Na literatura Infanto-juvenil, fez sua estreia com O menino da noite, em 1995 – outros vieram nessa esteira.

Lêdo Ivo nasceu em Maceió, a 18 de fevereiro de 1924, e morreu em Sevilha, no dia 23 de dezembro de 2012. Foi membro da Academia Brasileira de Letras.

Segue o poema A Coruja, de Lêdo Ivo (in Ivo, Lêdo. Calabar: um poema dramático. Rio de Janeiro: Record, 1985, p. 90-91):



A CORUJA

      - Lêdo Ivo 



Minha noite é o dia

que enxota os sóis intrusos.

Qualquer vento enferruja

os portões e os navios

e muda em garatuja

as inscrições latinas

acima das cornijas.

Minha noite é a luz

sem subterfúgios

que atravessa o fundo

das agulhas mais finas

ou a fagulha dormida

em seu leito de hulha.

Só junto aos semáforos

desta capitania

sou a sentinela

das coisas encobertas

velhas botijas de ouro

gárgulas de cimalha

tocaia ou valhacouto.

E na alvura da noite

branca de mandioca

e esplêndida de coitos

estou onde está o homem:

na malha que o cinge

no abraço que o enlaça

na traça que o rói

no passo do sonâmbulo

na prega da mortalha.



_____________________//___________________



REFERÊNCIA:

Disponível em: <http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=767&sid=150> Acesso em 02 jun. 2013.




6 de fev. de 2021

[Poesia] - RAINER MARIA RILKE – A Solidão

 




                                           - Pedro Luso de Carvalho


RAINER MARIA RILKE nasce em Praga, quando esta integra o Império Austro-Húngaro, a 4 de dezembro de 1875. No cartório de registro civil foi averbado o nome de René Karl Wilhelm Josef Maria Rilke. O prenome René foi mudado anos mais tarde para Rainer.

Até aos cinco anos de idade, a mãe de René impõe ao menino uma educação de menina. Esse foi o meio encontrado por ela para aplacar a dor da perda da filha recém-nascida. Tal distorção na educação do filho não impede que ele se torne um dos mais importantes escritores de língua alemã, tanto em prosa como em poesia.

O caminho que Rilke percorre até ser reconhecido como expressivo escritor impõe-lhe determinação para vencer os seus inúmeros obstáculos. Um fato de grande significado, a religiosidade que a mãe Sophie impõe a ele desde a mais tenra idade, deixa para sempre sua marca. Religiosa fanática, Sophie educa o filho de acordo com os ensinamentos da Igreja Católica.

Rilke tem uma infância infeliz. Sofre com a separação dos pais, cujo casamento não pode ser sustentado pelo desnível sociocultural do casal. Sophie Entz vem de uma rica família pequeno-burguesa. Joseph Rilke, um ex-oficial e inspetor ferroviário, é homem simples e rude para os padrões de sua família. Mas é o arrebatamento religioso da mãe que causa maior sofrimento ao menino. Mais tarde Rilke afasta-se do cristianismo, com forte recusa de Cristo e da Igreja.

O que foi dito sobre o arrebatamento religioso de Sophie, pode ser aquilatado pela carta que ela, sua mãe, lhe escreve em 1922, quando Rilke conta na época com 47 anos: “À meia-noite na mesma hora em que nascera nosso Salvador – e já que era noite de sexta-feira para sábado – você se tornou um filho de Maria, com a bênção da madona misericordiosa”.

A fase escolar é para Rilke de tal forma tormentosa que, quando estuda em internato militar (1886-1891), no dia em que completa dezenove anos escreve uma carta para sua amiga Valerie von David Rohnfeld fazendo-lhe um retrospecto de sua vida:

Você conhece a história sem brilho de minha infância falha, e conhece também aquelas pessoas que carregam a culpa por eu não conseguir guardar nada ou quase nada de agradável daqueles dias de minha formação (...). Na minha forma infantil de compreensão, acreditava que minha paciência me aproximava do mérito de Jesus Cristo. Certa vez, ao receber uma forte tapa no rosto, tão forte que meus joelhos tremeram, disse ao meu agressor injusto – posso ouvir ainda hoje – em voz baixa: Eu tolero isto porque Cristo também tolerou, em silêncio, sem lamentação, e enquanto você me batia eu rezava a meu bom Deus para que te perdoasse...”.

Diz mais Rilke, em sua carta para Valerie: “Então fugi, recuando até o último vão da janela, segurando minhas lágrimas para que somente à noite, quando pairasse a respiração regular dos garotos no amplo dormitório, elas rompessem impetuosas e calorosamente. E na noite em que se comemoravam os anos de meu nascimento, não sei quantos, ajoelhei-me na cama e, de mãos postas, pedi pela morte. Naquele tempo, uma doença me pareceria um sinal certo de elevação, só que ela não vinha. Em compensação, começou a se desenvolver naquela época o impulso de escrever, que mesmo no seu princípio, ainda ingênuo, já me servia de consolo”.

O fato de Rilke não se defender ante essa agressão, não respondendo com qualquer meio de defesa, quer física, quer verbal, denota que assume o papel de Cristo, sentindo-se legitimado religiosamente, e, com isso, onde deveria estar presente a autopreservação via em seu lugar assentar-se um sentimento de masoquismo, posição essa que o faz sofrer, até que, adulto, despede-se do culto de Cristo e de sua Igreja, aos dezoito anos, um ano antes de escrever a carta para sua amiga Valerie, quando fez, em 2 de abril de 1893, sua Confissão de Fé, como se vê no primeiro verso do poema:



Vós cristãos piedosos de boca para fora,

a mim julgais ateu e ides embora

para longe de mim,

só porque diferente de vós todos

não me deixo levar pelos engodos

das armadilhas do cristianismo.



Como muda, no tocante à religiosidade, Rilke passa a traçar o seu próprio caminho como escritor; assim passa do simbolismo para a busca do que significaria a arte e a morte, com algumas de suas obras: Livro de horas, Elegias de Duíno, Sonetos a Orfeu – este é considerado por muitos críticos o seu melhor livro de poemas – e Os cadernos de Malte Laurides Brigge (seu único romance).

Rainer Maria Rilke é acometido de leucemia, doença que o leva à morte no dia 2 de janeiro de 1926, aos 51 anos, no sanatório de Valmont, na Suíça.

Segue o poema de Rainer Maria Rilke, A Solidão, in Antologia de Poetas Estrangeiros – Seleção de Afonso Telles Alves, tradução do poema de Jair Campos. São Paulo: Editora Logos 1960 p 198:



A SOLIDÃO

- Rainer Maria Rilke




A solidão é como chuva.

Sobe do mar nas tardes em declínio;

das planícies perdidas na saudade

ele se eleva ao céu, que é seu domínio,

para cair do céu sobre a cidade.



Goteja na hora dúbia quando os becos

anseiam longamente pela aurora,

quando os amantes se abandonam tristes

com a desilusão que a carne chora;

quando os homens, seus ódios sufocando,

num mesmo leito vão deitar-se: é quando

a solidão como os rios vai passando...




____________________//____________________


REFERÊNCIAS:

KOOGAN LAROUSSE. Pequeno Dicionário Enciclopédico. Rio de Janeiro:

Editora Larousse do Brasil, 1979.

KUSCHEL, Karl-Josef. Os escritores e as escrituras. São Paulo: Edições Loyola, 1999.