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29 de jul de 2010

ENGELS / Escreve Sobre Balzac




                por  Pedro Luso de Carvalho


        Em abril de 1888, Friedrich Engels escreveu uma carta para Margaret Harkness cujo original encontra-se no Instituto Marx-Engels-Lenin, em Moscou, na qual fala sobre o realismo e o romance, e a certa altura da carta passa a falar de Balzac e sua obra - in Sobre Literatura e Arte, Marx-Engels, com tradução de Olinto Beckerman, 2ª ed. Global Editora, São Paulo, 1980.

        “(...) Balzac – escreve Engels – que considero de longe o maior mestre do realismo de todos os Zolas do passado, presente ou futuro, proporciona-nos na sua Comédie Humaine, uma história maravilhosamente realista da sociedade francesa, descrevendo, no estilo de cronica, quase ano por ano, de 1816 a 1848, a pressão crescente da ascensão da burguesia sobre a sociedade de nobres que se estabeleceu a partir de 1815 e voltou a instalar, na medida do possível (tant bien que mal), o padrão da vieille politesse française (velha delicadeza francesa). Descreve como os derradeiros resíduos daquela, para ele, sociedade modelo que sucumbiram gradualmente ante a explosiva intrusão dos vulgares endinheirados ou foi corrompida por eles.

        Como a grande dame – prossegue Engels -, cuja infidelidades conjugais não passavam de uma maneira de firmar a sua posição, em perfeito acordo com a forma como lhe tinham destinado o casamento, cedeu lugar à burguesia, que adquiriu o marido em troca de dinheiro. E em torno desta imagem central, o autor tece uma história completa da sociedade francesa, com a qual, mesmo em pormenores economicos (como, por exemplo, a redistribuição da propriedade real e privada após a Revolução Francesa), aprendi mais do que com todos os historiadores, economistas e estatísticos profissionais do período.

        Ora, Balzac era - conclui Engels - politicamente um legitimista; a sua obra grandiosa constitui uma elegia permanente da decadencia irreparável da boa sociedade; as suas simpatias para a classe destina à extinção. Mas, apesar de tudo isso, a sua sátira nunca se revela mais mordaz, a sua ironia nunca é mais amarga, do que quando põe em movimento os próprios homens e mulheres com os quais simpatiza mais profundamente – os nobres. E os únicos homens aos quais se refere com clara admiração são os seus antagonistas políticos mais acerrados, os heróis republicanos do Cloitre Saint Mary, aqueles que nessa época (1830-36) eram os verdadeiros representantes das massas populares.
       
        O fato de Balzac se ver compelido a agir contra as suas próprias simpatias de classe e preconceitos políticos – escreve Engels -, de ver a necessidade da queda dos seus favoritos nobres e os descrever como pessoas que não merecem melhor sorte, de ver os verdadeiros homens do futuro onde, temporariamente, se encontravam – tudo isto afigura-se-me um dos maiores triunfos do realismo e das maiores características do velho Balzac (...)”. 



                                                                                 *  *  *  *  *  *


3 comentários:

  1. Pedro,

    Obrigado por mais essa dose de cultura.

    De Balzac li apenas A Mulher de Trinta Anos, aliás um livro sensível e eterno. Escrito em uma época que ter trinta se equiparava a hoje ter sessenta, se relacionarmos a expectativa de vida de 1 século e meio atrás. Preciso ler mais coisas do velho Balzac...

    Abraço

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  2. Pedro...
    confesso...
    preciso...
    ler...
    Balzac...

    Beijos
    Leca

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  3. Interesante. Aportas mucha cultura. gracias por compartirlo con nosotros, para refrescar todos esos conocimientos.

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PEDRO LUSO