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16 de set de 2010

[Conto] HEMINGWAY - Carta de Uma Leitora

Ernest Hemingway
                     
                     por  Pedro Luso de Carvalho

     
         Ernest Miller Hemingway, nasceu em Oak Park, Illinois, EUA, em 21 de Julho 1899, e morreu em Ketchum, Idaho, aos 2 de Julho 1961. Foi casado quatro vezes, e teve muitos casos amorosos. Era um dos seis filhos do médico Clarence Edmonds Hemingway (membro fervoroso da Primeira Igreja Congregacional) e de Grace Hall (cantora do coro da igreja). Ernest Hemingway pôs termo à sua vida da mesma forma que o fizera Clarence, seu pai: suicídio.

       Segue o conto, de Ernest Hemingway, Carta de uma leitora (in HEMINGWAY, Ernest. Contos. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1966):



                                                   [ESPAÇO DO CONTO]


                                                CARTA DE UMA LEITORA
                                                                                                            (Ernest Hemingway)



        Sentou-se à mesa do quarto, com o jornal aberto à frente, e parando apenas para olhar pela janela a neve cair e derreter-se no telhado ao cair. Escreveu esta carta, escreveu-a sem parar, sem necessidade de riscar ou reescrever qualquer coisa.

              Roanoke, Virgínia
              6 de fevereiro de 1933


              Prezado Doutor

        Escrevo para lhe pedir um conselho muito importante: Tenho uma decisão a tomar e não sei em quem posso confiar e não ouso perguntar a meus pais. Por isso, escrevo-lhe apenas porque, não tendo de enfrentá-lo cara a cara, posso confiar no senhor. A situação é esta: Casei-me com um rapaz que estava no exército americano em 1929 e, nesse mesmo ano, ele foi mandado para Xangai, China – lá ficou três anos – e depois voltou para casa, dando baixa no exército poucos meses atrás, e foi para a casa da mãe dele em Helena, Arkansas. Escreveu-me que eu fosse ter com ele; fui e descobri que ele estava tomando uma série de injeções e, naturalmente pergunto, descobrindo que ele está sendo tratado por causa de uma doença cujo nome não sei escrever direito, mas que parece ser “sífilus”. O senhor sabe o que eu quero dizer. Agora quero que me diga se posso viver com ele outra vez; não tive nenhum contato mais íntimo com ele desde que voltou da China. Ele me assegurou que está OK depois que terminar o tratamento médico. O senhor acha que está certo? Muitas vezes ouvi meu pai dizer que era melhor morrer do que ter essa doença. Creio em meu pai, mas desejo mais ainda crer em meu marido. Por favor, por favor, diga-me o que devo fazer; tenho uma filha que nasceu enquanto o pai estava na China.

        Agradecendo antecipadamente e confiando inteiramente em seu conselho, firmo-me,
e assinou seu nome.

        Talvez ele possa me dizer o que devo fazer, disse ela de si para si. Talvez possa me dizer. Pelo retrato no jornal, parece saber. Parece mesmo inteligente. Todos os dias diz a alguém o que deve fazer. Deve saber. Quero fazer o que é direito. Mas faz tanto tempo. Muito tempo. E passou mesmo muito tempo. Meu Deus, quanto tempo. Ele tinha de ir para onde era mandado, sei, mas não sei porque tinha de pegar essa doença. Oh!, meu Deus, como desejo que não a tivesse pegado. Não importa o que tenha feito para pegá-la. Mas, meu Deus, como desejo que não tivesse pegado nada. Não vejo porque tinha de pegar coisa assim. Não sei o que fazer. Como peço a Deus que ele não tivesse doença alguma. Não sei porque ele teve de pegar essa doença.



                                                                  * * *

Um comentário:

  1. Gostoso este conto, ótimo por ser bem prosaico, bem cotiano, bem vida-normal-de-gente-como-a-gente.

    Gosto de contos assim. São como fatias de um tempo, amostras de existência. Ainda que sejam contos. Lembrou muito a singeleza dos contos do TCHECHOV... Preciso, nas minhas tentativas contísticas, me arriscar um pouco por este território. O território do prosaico, que esconde beleza e surpresa, justamente pela simplicidade que contém.

    Abraços, Pedro

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PEDRO LUSO