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11 de nov de 2010

W. FAULKNER / Ambiente para um escritor

       

        Nos primeiros meses de 1956, a conceitura revista The Paris Review entrevistou, na cidade de Nova York, o importante romancista norte-americano William Faulkner. Esssa entrevista, como outras, com escritores de renome, europeus e americanos, foram reunidas em 1963 no livro Writers at Work, sob a coordenação de Malcolm Cowly. No trecho que escolhemos para ser transcrito, o entrevistador pergunta qual seria o melhor ambiente para um escritor, ao que Faulkner responde.

        A arte nada tem que ver, tampouco, com o ambiente; pouco se importa onde se encontra. Se o senhor se refere a mim, o melhor emprego que me foi jamais oferecido foi o de dirigente de um bordel. Em minha opinião, é o meio perfeito para um artista trabalhar. Dá-lhe perfeita liberdade econômica; vê-se livre do medo e da fome; tem um teto em cima de sua cabeça e coisa alguma para fazer, salvo cuidar de umas escriturações simples e ir mensalmente pagar à polícia local. O lugar é quieto durante as horas matinais, o melhor momento do dia para trabalhar. Há bastante vida social à noite, se ele quiser participar dela, evitando que se enfade; dá-lhe certa posição em sua sociedade; não tem nada a fazer, porque a madame toma conta dos livros; todos os inquilinos da casa são mulheres, e o tratam com deferência, chamando-o “senhor”. Todos os contrabandistas de bebidas das vizinhanças também também o chamam de 'senhor”. E ele pode tratar os policiais pelos seus nomes de batismo.

        Assim, o único ambiente de que o artista necessita é o que lhe possa proporcionar paz, solidão e qualquer prazer que possa obter por um preço não muito elevado. Tudo o que um ambiente impróprio pode fazer é subir sua pressão arterial: passará mais tempo frustrado ou ofendido. Segundo minha própria experiência, as únicas ferramentas de que necessito para meu ofício são papel, comida e um pouco de uísque.


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        Trecho da entrevista que William Faulkner concedeu à famosa revista The Paris Review na cidade de Nova York, em princípios de 1956 (in Escritores em ação. Coordenação de Malcolm Cowly. Trad. Brenno Silveira. 2ª ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982, p. 39). [Uma curiosidade: na época dessa edição, integrava o Conselho Editorial da editora Paz e Terra, Antônio Cândido, Celso Furtado, Fernando Gasparian e Fernando Henrique Cardoso.]


        William Faulkner nasceu em New Albany, Mississipi, em 25 de agosto de 1897 e faleceu, nessa mesma região, em 6 de julho de 1962.

        Obras principais de Faulkner:  [romances]: Intruder in the Dust (1948), Requiem for a Nun (1951), A Fable (1954) e The Dust (1954), The Town (1957) The Mansion (1959), The Reivers (1962). As suas Collected Stories receberam o National Book Award, em 1951. Esse mesmo prêmio lhe foi concedido novamente por A Fable, em 1954. Além dessas obras, outras foram escritas por Faulkner, muitas delas no gênero conto, poesias e roteiros para o Cinema. O seu último romance, The Reivers, escrito em 1962; no Brasil, foi publicado com o título de Os Desgarrados, pela Civilização Brasileira. Bem antes, em 1949, Faulkner foi distinguido com o Prêmio Nobel de Literatura.



2 comentários:

  1. Pedro,

    Excelente e magistral, dada a simplicidade, a explicação do Faukner. Cada vez mais acredito que, na literatura, como na vida, menos é mais. Quando mais simples e pragmático, mais eficaz. A finalização da narrativa, que reproduzo abaixo, é prova disso. Veja que preciosidade:

    "Segundo minha própria experiência, as únicas ferramentas de que necessito para meu ofício são papel, comida e um pouco de uísque."


    Abraços, Pedro
    Cesar

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  2. O nome de Faulkner me chamou a atenção. Aliás, todos os nomes de que v. trata chamam a atenção. Conheço a entrevista. Conheço bem menos de Faulkner do que mereço. A gente merece o melhor do melhor: Faulkner.
    Abração.

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PEDRO LUSO