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2 de jan. de 2022

[conto] O ROSTO DA MULHER - Pedro Luso de Carvalho

 

A Dor - 1909  /  Lasar Segall


O ROSTO DA MULHER


                                                                          - Pedro Luso de Carvalho



O professor Aderbal tinha vida organizada. Lecionava no período da manhã. À tarde voltava para almoçar com a mãe, viúva desde sua infância. Ao longo do percurso, deleitava-se com a vista do rio Guaíba. Morava na mesma casa que nasceu, há quase quarenta anos. A mãe extremosa esperava-o, como sempre fizera ao longo desses anos. Para ela o tempo não havia passado. Era ainda o seu menino.

Fiz o seu bife com batatas fritas – disse a mãe.

Depois do almoço, Aderbal voltava ao quarto. Acomodado na escrivaninha, preparava a aula do dia seguinte. A satisfação que lhe dava o trabalho era o suficiente para esquecer a mulher que conhecera na livraria, há alguns meses.

Na escola, Aderbal sentiu-se impelido a contar essa sua primeira aventura amorosa a outro professor, mas declinou da ideia.

O que poderá pensar de mim?

Os dias foram passando e o professor guardava o segredo. Mas não esquecia a mulher. Sentia-se hipnotizado pelo perfume que ela usava. Lembrava-se ainda da oportunidade perdida. Ela estava ao seu lado na livraria, mas não ousou olhar. Ficou dela apenas o perfume. Os traços do rosto, a boca e os olhos ficariam para a imaginação.

Aderbal fez da visita à livraria, aos sábados, uma religião. Não conhecia o rosto da amada, mas o perfume seria o aviso. Por isso, não perdia a esperança de encontrá-la. Falou da mulher e do perfume ao gerente da livraria. Tornaram-se quase íntimos, e contava com o auxílio desse homem para encontrá-la.

Depois das férias escolares Aderbal encontrou-se com um dos professores da escola e resolveu falar sobre essa história de amor. Falou da mulher e do perfume. Falou do encontro na livraria e do rosto que não viu. E pediu segredo ao colega.

O segredo fica comigo, não se preocupe.

O colega sabe como são maldosas as pessoas.

A exótica história do professor Aderbal espalhou-se logo entre professores e alunos. Mais tarde chegou ao conhecimento da diretora, que, ainda incrédula, chamou-o com urgência. Aderbal chegou assustado.

Por favor, queira sentar-se.

Aderbal sentou-se. O rosto suado denunciava o seu temor diante da diretora.

Quero ouvir do senhor toda a verdade.

Essas palavras desnortearam Aderbal. Num ímpeto contou toda a história. Falou da mulher, do perfume e do rosto que não viu. Depois ficou calado por algum tempo. O silêncio foi quebrado pela diretora:

O médico da escola espera pelo senhor.

Aderbal saiu abatido. Dirigiu-se ao consultório do médico, que o esperava. Contou mais uma vez tudo que ocorrera com ele, sem tirar nem por uma única palavra.

A partir de hoje o senhor terá de tomar alguns remédios.

Mas, doutor...

O senhor pode retirar-se – ordenou o médico.

Em menos de um mês o professor Aderbal tomou conhecimento de sua aposentadoria por doença. Aposentadoria que não era esperada, que não a queria. Lecionava há pouco mais de uma década, e ainda tinha muitos anos pela frente. Tinha muito que ensinar e muito que aprender com os alunos.

Agora, longe da escola, Aderbal não sabia como preencher o tempo. Sua vida estava limitada a casa, ao lado da mãe. Saia apenas para ir à livraria, aos sábados pela manhã. Não perdera a esperança de encontrar a mulher do inebriante perfume.

Dois anos haviam se passado. Aderbal permanecia por horas olhando pela janela. Da rua as crianças olhavam o professor com curiosidade. Divertiam-se ao vê-lo agitado através da vidraça. Foi nessa época que Aderbal contou à mãe que havia encontrado a mulher.

Meu filho, isso não é possível, disse surpresa. Você nunca viu o rosto dessa moça!

A mãe aos poucos foi se acostumando com essa nova fase do filho e procurava ajudá-lo não o contradizendo. Fingia acreditar na existência da mulher do perfume. Apenas se preocupava com os horários dos seus remédios e com sua alimentação. Quanto ao resto, entregava a Deus.

Aderbal já havia se esquecido da escola e dos alunos. Durante o dia aguardava o jantar com ansiedade, para depois retirar-se para o quarto. Aí esperava a amada. Então ela entrava com uma nuvem a esconder-lhe o rosto.

Ajeite-se ao meu lado, querida, que a cama está quentinha...




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35 comentários:

  1. Olá, amigo Pedro.
    Uma história curiosa e enigmática está que aqui nos trás.
    Mas, na verdade, haverá porventura muitas paixões imaginárias, que na realidade não se concretizam.
    Parabéns, pela inspiração!
    Renovo os meus votos de um Feliz Ano Novo de 2022, com tudo de bom.
    Abraço amigo.

    Mário Margaride

    http://poesiaaquiesta.blogspot.com

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  2. Gostei muito, muito deste texto. Obrigada :)
    -
    A vida recomeça a cada oportunidade
    -
    Beijos. Bom Domingo, e um Ano de prosperidade.

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  3. Un brano valido, e molto interessante, per la sua peculiarità, che ho apprezzato moltissimo nella sua densa lettura..
    Buon anno, Pedro,silvia

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  4. Seria imaginação. Seria realidade? Doença não era, pois nunca foi doença sonhar... Um conto lindíssimo, meu Amigo Pedro.
    Um ano de 2022 muito bom para si e toda a sua família. Que tenham muita saúde, paz e amor.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  5. Maluco de amor acabó el pobre Aderbal.
    Me he pasado un buen rato leyendo tu relato, la verdad es que no esperaba el final, yo tenía la esperanza de que la encontrara.
    Agradeciendo tus buenos deseos para este año que acabamos de comenzar, quiero unir los míos a los tuyos con el cariño de
    kasioles

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  6. Misteriosa y muy buena historia.
    Me ha gustado mucho.
    Que el año 2022 te traiga mucha felicidad y suerte.
    Un beso y siempre gracias.

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  7. Una storia enigmatica che attrae e stuzzica il lettore questo racconto che, ho apprezzato molto nella sua densa scrittura. Nella vita ne capitano di cose strane, ma allo stesso tempo affascinanti perché non scontate né monotone. Auguri di un anno Nuovo che ci porti a tutti la serenità che ci è mancata in questi ultimi anni. Un grande abbraccio e un saluto a te e famiglia, amico Pedro da Grazia.

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  8. Há de se saber quem tem razão: o amigo, os colegas, o médico?
    Este é o conto perfeito sem ponto final. Ao leitor a tarefa de colocá-lo.
    Ou reescrevê-lo segundo seu ponto de vista. Muito bem engendrada essa história!
    Aproveito para agradecer, Pedro, e retribuir os votos de um feliz ano novo.
    Que façamos tudo para merecê-lo como Novo!
    Um forte abraço,

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  9. Era um poeta e ninguém entendeu.
    E, muito além da pobreza da vida real criou um mundo que lhe fez feliz...felizmente. Sou solidária ao sonho! Gostei demais!
    Um abraço

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  10. Una historia fantástica! Me tuvo atrapada esperando el final que me sorprendió. ¿Quién es dueño de la verdad? ¿Quién de la realidad? Mientras se es feliz que sea en la forma que sea. Mis aplausos Pedro!!

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  11. Pedro,
    Venho lá da Taís
    contente e agora leio seu maravilhoso texto.
    Realmente mergulhei na história.
    Que nosso 2022 seja um.ano
    de inspiração e de
    ESPERANÇA.
    Bjins
    CatiahoAlc.

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  12. Interesante y muy entretenido tu cuento, y además triste por la incompresión de los que le rodeaban. ¿Cierto o fantasía? pero con un final que impacta.
    Un placer la lectura.
    Muchas gracias Pedro, yo también te deseo que tengas un gran año junto a tu familia y amigos.
    Abrazos.

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  13. Hermosa historia de la que esperaba otro final. A su manera era feliz esperando ese nuevo encuentro, en el fondo, era un soñador empedernido con mucha sensibilidad.
    Un gran abrazo Pedro con el deseo de un año mejor en el más amplio sentido de la palabra.
    Feliz 2022.

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  14. História com tanto de incrível quanto de maravilhosa, Caro amigo Pedro Luso!
    A ilação que tiro deste Conto não é a paixão pela mulher de sonho, em que ninguém acreditou...eu acredito! Foi o quanto nos pode custar o desabafo de algo que já transborda, de tal forma na nossa alma, que tem necessidade de ser partilhada, para que se consiga continuar respirando. E afinal...

    Gostei imenso, imenso. Muitos parabéns!

    Deixo um abraço com votos de BOM ANO, amigo Pedro.

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  15. Una historia triste la que nos narras ocurrió a este profesor no se cual fue mejor si mantener el secreto o decírselo al compañero que no supo guardar el secreto.
    Que el nuevo año sea muy propicio para ti y aquellos que te rodean.

    Saludos.

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  17. Quando a improbabilidade se materializa através da imaginação... num mundo em que as circunstâncias também não facilitam a que se tornasse realidade... acho que Aderbal lá encontrou a sua própria felicidade...
    Mas que mundo este onde o sonho, se associa logo à loucura... enfim! Acho que é o mundo lá fora... bem real!... Em que nos força a guardar os nossos sonhos só para nós... até que se possam tornar reais... de alguma forma...
    Um conto fantástico, que nos dá muito que pensar... o sonhador não é o louco... mas quem o impede de sonhar, que o é... e por isso, assim vai o mundo... acumulando loucura... em forma de normalidade...
    Adorei a história, onde os sonhos lá arranjaram o seu próprio espaço, ainda que num espaço negativo, forçado pela negativa realidade... a existirem somente no imaginário...
    Estimando que tenham passado o vosso Natal, o melhor possível... desejo-vos um fantástico 2022, com muita saúde, e que vos proporcione tudo o que mais desejarem, em termos de concretizações... peço desculpa pelo meu atraso, em passar por aqui, Pedro... mas Dezembro, foi mesmo a loucura, antecipando muita coisa, para passar a segunda quinzena mais por casa... pois a pandemia disparou por estes lados... e quando parei... o cansaço fez-se sentir, junto com o stress acumulado... mas o objectivo foi cumprido... levar a minha mãe para 2022 sem problema... não houve quaisquer celebrações, nem saídas, pois tinha o Jorge também com vacinação marcada, por essa altura... e foi a melhor opção... muitos amigos nossos que optaram por celebrar em ajuntamentos familiares... nos dias seguintes mesmo com testes feitos já estavam positivos... cuidem-se bem, que esta nova variante, dizem ser mais inofensiva... mas surge repentinamente em quem até já está vacinado... sem ninguém se aperceber como chegou... em meio a imensa testagem...
    Enfim! Vamos torcer, para que 2022, seja bem melhor do que o dececionante 2021...
    Tudo de bom! Saúde para todos! Bom ano!
    Ana

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  18. Ele fez da solidão sua companheira!
    E quantos vivem assim acreditando no imaginário, para que seus dias sejam menos amargos.
    Belissimo e triste conto.

    Um abraço amigo, feliz 2022...

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  19. Um texto intrigante e delicioso, mas, não esperava este desfecho.
    Gosto de finais assim!
    Continuação de boa semana com saúde e harmonia.
    Beijinhos
    :)
    http://olharemtonsdemaresia.blogspot.com/

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  20. Feliz 2022!! que este retoño te colme de mucha salud y Amor.
    A veces la soledad nos aclara el camino.
    Un abrazo Pedro.

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  21. Olá, amigo Pedro.
    Passando por aqui, relendo este excelente conto, e desejar uma excelente semana, e um feliz 2022, com muita saúde, paz e amor.
    Abraço amigo.

    Mário Margaride

    http://poesiaaquiesta.blogspot.com

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  22. O perfume da sua "amada" era seu próprio perfume do bem daqueles que desejam amar e serem amados, amigo Pedro.
    Tenha um novo ano especial, muito feliz e abençoado junto aos seus amados!
    Abraços fraternos

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  23. Fascinante e envolvente do princípio ao fim.
    Bastantes ilações se podem retirar deste seu conto amigo Pedro.
    Primeiro, nunca devemos confiar os nossos sonhos a terceiros, segundo, a imaginação é algo que infelizmente se pode confundir com loucura, terceiro, quem sabe se não é esse perfume que o mantem vivo.

    Um abraço com o desejo de um Feliz 2022 para o meu amigo e sua família.

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  24. Contas tão bem, caro Poeta, que na tua escrita é a Literatura se "faz realidade"
    e a vida, fição-

    adorei

    grande abraço

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  25. O amor, ainda que platónico, pode levar à loucura...
    Magnífico conto, escrito com uma narrativa muito apelativa. Os meus aplausos para o seu talento literário.
    Bom fim de semana, caro amigo Pedro.
    Um abraço.

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  26. O amor para muitos é taxado como loucura, bobo e incabível, amigo Pedro.
    Pena que seja assim e pode ser muito mais puro do que os que sentem os cabeças duras.
    Tenha um final de semana abençoado junto aos seus amados!
    Gostei muito e vim temer. o final é muito ímpar e está comovente.
    Abraços fraternos

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  27. Vim desejar um domingo Feliz e uma boa semana.
    Obrigada!
    Beijinhos

    :)

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  28. Amar é parecido com loucura caro Pedro. Seu conto é maravilhoso no evoluir da paixão, que vira doença ou as pessoas já não se acreditam no amor puro amor. A mente cria e recria e desta criação se vive e até se mata.
    Bela arte amigo.
    Aqui reiniciando nossa viagem pelas quatro estações e com sua companhia fica mais interessante.
    Um abraço de paz amigo e vamos neste trem.

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  29. Nunca sabrá Aderbal qué habría sido mejor. Imaginemos:

    Si acabar viviendo en el recuerdo vaporoso de un amor ideal....
    O descubrir de nuevo en la librería el amado perfume y al girarse para mirar a la bella...
    Encontrarse con la cara sonriente de un luchador de Sumo.

    La vida siempre nos sorprende, Pedro.

    Un saludo de Año Nuevo.

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  30. Boa tarde Pedro,
    Magnífico conto rico em inspiração e criatividade.
    Parabéns, por esta bela obra literária.
    Beijinhos e feliz 2022!
    Ailime

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  31. Olá, amigo Pedro.
    Passando por aqui, relendo este excelente texto, que muito apreciei, e desejar uma boa semana, com muita saúde.
    Abraço amigo.

    Mário Margaride

    http://poesiaaquiesta.blogspot.com

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  32. Técnica e emoção sobressaem deste seu Conto, caro Pedro.
    Como sempre, surpreende-nos com os finais das histórias
    que nunca são previsíveis.
    Parabéns.
    Abraço
    Olinda

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  33. Gostei demais Pedro, eis a linha tênue entre a realidade e a ilusão, e as consequências da vida! Sua escrita é fluida! Gosto demais deste estilo!

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Pedro Luso de Carvalho