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7.11.11

[Conto] MARINA COLASANTI - A Moça Tecelã




                por Pedro Luso de Carvalho


         MARINA COLASANTI nasceu em Asmara, Etiópia, a 26 de setembro de 1937. Mudou-se para a Itália no início da Segunda Guerra Mundial, e, para o Brasil, em 1948, com 11 anos de idade. É uma importante escritora brasileira. Estudou pintura com Catarina Baratelle. É casada com o poeta Affonso Romano de Sant'Anna.

       Na apresentação do conto A moça tecelã, de Marina Colasanti, que integra Contos Brasileiros Contemporâneos, lemos:  

         "Jornalista, Marina Colasanti desenvolve sua criação literária não levantando artificialmente muros entre   uma e outra linguagem, nem as descaracterizando, mas aproveitando todas as possibilidades de cada uma. O conto 'A moça tecelã' é um bom exemplo. Ele reúne alguma coisa da técnica cinematográfica da  animação, da arte da tapeçaria e das baladas medievais. Dentro da linguagem mais corrente, a  autora,com inteligência, ignora qualquer limiteentre o que alguns gostam de rotular como “fantasia” ou  “realidade” e cria uma delicada saga familiar, de ambição e desencanto, onde, com a maior sutileza, o poder feminino faz e desfaz o dentino".

       Marina Colasanti traduziu inúmeros livros. Publicou 33 livros, entre contos, poesia, prosa, literatura infantil e infanto-juvenil. Seus livros principais são:  (contos)  Zooilógico, 1975; A moradora do ser, 1978; A nova mulher, 1980; Contos de amor rasgados, 1986;  (crônicas)  Eu sozinha, 1968; Nada na manga, 1973; (ensaios e artigos) Mulher daqui pra frente; 1981; E por falar em amor, 1984; Aqui entre nós, 1988. Também escreveu muitos livros de literatura infantil, entre os anos de 1979 a 1990. Em 2010, recebeu o Prêmio Jabuti pelo livro Passageira em trânsito.
       
        O conto que segue, de autoria de Marina Colasanti, A moça tecelã, integra o livro Contos Brasileiros Contemporâneos, São Paulo, Editora Moderna, 1991, p. 56-57:

 
[ESPAÇO DO CONTO]
                                       
A MOÇA TECELÃ
 (Marina Colasanti)


       Acordada ainda no escuro, como se houvesse o sol chegado atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se no tear.

        Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto la fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.

        Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

        Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

        Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

        Assim, jogando a lançadeira de um lado para o outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava seus dias.

        Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidados de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranquila.

        Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer. 

       Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou como seria bom ter um marido ao lado.

       Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo , chapéu emplumado, rosto barbeado, corpo emprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponta dos sapatos, quando bateram à porta.

        Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando na sua vida.

        Aquela noite, deitada contra o ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.

        E feliz foi, por algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque, descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar. 

        - Uma casa melhor é necessária – disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.

        Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente. - Por que ter casa, se podemos ter palácio? - Perguntou. Sem querer resposta, imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates de prata.

        Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.

        Afinal, o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre. 

        – É para que ninguém saiba do tapete – disse. E antes de trancar a porta a chave advertiu: - Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!

        Sem descanso tecia a mulher caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que queria fazer.

        E tecendo, ela própia trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou como seria bom estar sozinha de novo.

        Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça para não fazer barulho, subiu a longa escada do torrre, sentou-se ao tear. 

        Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e, jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a defazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.

        A noite acabava quando o marido, estranhando a cama dura, acordou, e espantado olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe o corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

        Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.


         (In Doze reis e a moça no labirinto do vento. 2. ed. Rio de Janeiro, Nórdica, 1985.)



                                                                           *  *  *  *  *  *

4 comentários:

  1. Pedro, muito obrigada pela magnifica partilha, fiquei com curiosidade de conhecer mais, sobre.

    Um abraço
    oa.s

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  2. Pedro...
    Obrigada por compartilhar um pouco desta grande mulher, Manina Colasanti.

    Eu não imaginava que ela era nascida da Etiópia!

    Abço.

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  3. Lembrei-me de Penélope! Li uma mensagem nas entrelinhas. Temos o poder da moça - tecemos... pena que ao desfazer as tramas nem sempre temos a mesma sorte. Assim, com um conto tão bem feito é sempre bom refletirmos a respeito daquilo que nos é possível e daquilo que não nos é ( devido a imprevisibilidade da vida), portanto, tomar cuidado com o tecer - na incerteza de poder desfazer.

    Cada pessoa interpretará de uma forma: e essa é a riqueza da verdadeira arte.

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  4. Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Nayara e cheguei até vc através do Blog Alma de poesia. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir um blog do meu amigo Fabrício, que eu acho super interessante, a Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. A Narroterapia está se aprimorando, e com os comentários sinceros podemos nos nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs





    Narroterapia:

    Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.



    Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.

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PEDRO LUSO