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29 de jan de 2012

[Crônica] LIBERATO VIEIRA DA CUNHA / O Código do Coração



                por Pedro Luso de Carvalho


       
        LIBERATO VIEIRA DA CUNHA nasceu em Cachoeira do Sul, em 1945. É advogado e jornalista. Completou a sua formação em jornalismo na Alemanha. Correspondente internacional na Europa e nos Estados Unidos, laureado no Brasil e no Exterior por seu trabalho na imprensa e na literatura, há muito conquistou posição de relevo entre os principais escritores gaúchos, como dizem os editores da L&PM, que editou Tratado das tentações, em 2002; o escritor, que teve os seus trabalhos traduzidos em países sul-americanos, foi objeto de estudos na Universidade Livre de Berlim e na de Hamburgo e recebeu o título de 'Chevalier des Arts et des Lettres' da República Francesa.  

        Além das antologias em que teve seus trabalhos publicados, Liberato Vieira da Cunha publicou, entre outros livros: Miss Falklands, (contos e crônicas, Martins Livreiro, 1982), Um hóspede na sacada (contos e crônicas, Sulina, 1985), A mulher de violeta (contos e crônicas, Tchê!, 1990), As torrentes de Santaclara (romance, Mercado Aberto, 1993), Um visto para o Interior (crônicas, Artes e Ofícios, 1996), A morte do violinista (contos, Mercado Aberto, 1997), A companhia da solidão (crônicas, L&PM, 2000), Tratado das tentações (crônicas, L&PM, 2002), Um homem que colecionava manhãs (romance, Objetiva, 2004).
       
        A crônica que segue, O código do coração, de Liberato Vieira da Cunha, compõe o seu livro Um hóspede na sacada. Porto Alegre: Sulina, 1985, p. 92-93.

                                       [ESPAÇO DA CRÔNICA]



                                     O CÓDIGO DO CORAÇÃO 

                                                (Liberato Vieira da Cunha)



        Vêm dias em que nos sentimos frágeis brinquedos de forças que não compreendemos. Alguém nos fere com um gesto, uma palavra. Uma peça qualquer deste confuso universo urbano que nos aprisiona cessa de funcionar. Um velho projeto parece de repente irrealizável. Alguém que prezamos parte sem aviso. Ou então, mais simplesmente, um vago, instruso desalento vem nos fazer companhia e nos põe de mal com o mundo.

        Não há receitas prontas para enfrentar nada disso. Os poetas românticos costumavam compor belos versos em homenagem à tristeza. Mais prática, a humanidade de agora deita-se no divã dos analistas e compõe longos monólogos de solidão e nudez.

        Quanto a mim, não faço versos e meu único analista é este inquieto coração que no silêncio da noite me fala coisas em código.

        – Por que não vês as estrelas? – pergunta-me o coração. – Por que não contemplas sua lenta caligrafia de luz e seu tímido pulsar e seus mistérios, que fazem ínfimos todos os pesares?

        – Pouco sei de estrelas – respondo. – Já não as vejo, ocultas que andam pelo clarão artificial desta cidade, perdidas que estão nesta névoa letal que respiramos.

         – Por que não te exilas da cidade? – pergunta-me o coração. Por que não buscas a árvore que plantaste, o pássaro que viste pousar em seus ramos aquela manhã e que saudou o sol com um canto que desconhecias?

       – Não posso deixar a cidade – respondo. – Sou parceiro de um estranho jogo de sobrevivência. Deram-me as cartas, devo armar as sequencias à espera do rei de ouros.

        – Por que não desprezas o rei, por que não rejeitas o ouro?  – pergunta-me o coração. – Por que não voltas despojado àquela praia onde aprendeste o exercício da liberdade?

        – Porque distante ficou aquela praia e já duvido que ainda exista aquele mar. E já não creio que partam os saveiros tocados pela brisa da armação e com eles os navegantes embriagados da incerteza móvel de seus destinos.

        – E por que não soltas as amarras de teu destino? – pergunta-me o coração. – Por que não largas teu leme pelo curso vário de teus sonhos?

        – Não há barcos, não há praias, não há estrelas – respondo. – Perdi-os em algum lugar do passado mais-que-perfeito.

        – Mas ainda há sonhos – diz-me então o coração. – E em cada sonho há um barco, uma praia, uma estrela. Em cada sonho há um pássaro que saúda o sol com uma canção desconhecida. E não há ouro que valha essa canção e não há rei que a cale. Pois que está nos livros que somos feitos de argila e sonho. E que lentamente a sucessão dos anos submete a argila como o vento faz curvar-se a árvore que plantaste. Mas força alguma pode dobrar o sonho.



                                                                        * * *


6 comentários:

  1. Pedro

    Que bonito! Difícil de se classificar este belo texto, hein?

    Seria crônica mesmo? Poesia é, sem dúvida; mas poema, classicamente, não é.

    Crônica também não. Classicamente não. Bem, conto poderia ser, já que é ficção. Porém, tem lá aquela linda poesia que emerge das linhas, vinda do coração e da pena do escritor...

    Difícil de classificar... Mas muito fácil de gostar!

    E é isso o que vale. Às favas com as classificações!

    1 abraço
    Cesar

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  2. Cesar,

    Concordo com a sua avaliação sobre "O código do coração", no que respeita à sua classificação: crônica, poema em prosa ou conto?

    Concordo igualmente que, no caso, o que importa é a beleza do texto.

    A facilidade que tive em classificá-lo como sendo crônica, deveu-se à determinação do autor - Liberato Vieira da Cunha -, que dividiu o seu livro ("Um hóspede na sacada") em duas partes, uma para os contos e outra para as crônicas; e foi justamente nesta segunda parte que, no meu entender, o escritor colocou o seu "O código do coração".

    É possível que o autor tenha classificado como crônica o seu "O código do coração" por entender que a proximidade de seu texto com o conto, a ponto de poder ser tido como crônica-conto, como as escritas por Luís Fernando Verissimo e Fernando Sabino, não deixará de ser crônica, como é classificada pelo Prof. Sergius Gonzaga, em: 1) CRÔNICA LÍRICA OU POÉTICA; 2) CRÔNICA DE HUMOR; 3) CRÔNICA-ENSAIO.

    Sendo esse o caso, o texto de Liberato Vieira da Cunha ("O código do coração") pode ser enquadrada na primeira hipótese (CRÔNICA LÍRICA OU POÉTICA), que, como ensina Sergius Gonzaga, "Caracteriza-se pelo flagrante de aspectos sentimentais, nostálgicos ou de simples beleza da vida urbana". SG diz que "Seu maior expoente é RUBEM BRAGA, seguido por legítimos poetas-prosadores, como CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, ANTÔNIO MARIA, PAULO MENDES CAMPOS e outros".

    Um grande abraço,

    Pedro.

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  3. Pois é, Pedro... Eu tenho a mania de querer rotular os textos, saber em que estilo se encaixam etc. A verdade é que isso importa menos, especialmente quando a obra é híbrida, mutante, como é o caso deste delicioso "O código do coração".

    Porém, quando vejo que o leitor de fato não tem a mínima noção das diferenças mais marcantes entre os estilos, me sinto coibido a dar pequenas aulas, e isso pode estar fazendo de mim um chato.

    Por isso, me meti a catredrático e escrevi o prefácio do meu novo livro de crônicas, A Idade do Vexame, com esse tema: o que caracteriza, afinal, uma crônica.

    O incrível foi ler esta sua resposta e ver que, no meu prefácio, uso EXATAMENTE os mesmos exemplos que vc usou: Verissimo e Sabino na crônica/ conto etc. Cito lá alguns estudiosos e suas considerações. Uma pena que eu, até então, não tivesse conhecimento do trabalho do prof. Sérgius Gonzaga!

    Aí vc me ensinando mais uma!

    abço forte
    Cesar

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  4. Cesar,

    Espero poder ler o Prefácio de seu livro de crônicas, "A Idade do Vexame" (e também todas as crônicas aí publicadas), para continuarmos com esta troca de idéias sobre a crônica, o conto e a crônica-conto.

    Aproveito para dizer que suas intervenções sobre literatura estão longe de colocá-lo na condição de chato; ao contrario, todos os leitores poderão tirar grande proveito com essas suas manifestações, que são próprias de quem escreve e gosta de literatura e se expressa com inteligência.

    Um grande abraço,
    Pedro.

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  5. ANELISE DIAS DE MOURA CUNHA19:19

    AMO A MANEIRA COMO O LIBERATO VIEIRA DA CUNHA ESCREVE. PESSOALMENTE TENHO UM CONTO PREFERIDO:'PARA O NUNCA MAIS'; ESCRITO EM 1986 E FAZ PARTE DO LIVRO A MULHER DE VIOLETA. FOI COMO O CONHECI. DECOREI O CONTO PALAVRA POR PALAVRA E RECITEI PARA ELE NAQUELE PRÉDIO NA ESQUINA DA IPIRANGA COM A ÉRICO VERÍSSIMO. PASSADOS TANTOS ANOS, HOJE SINTO SAUDADE. UMA SUAVE E DOCE LEMBRANÇA DAQUELA ÉPOCA. É ASSIM QUE EU GOSTARIA QUE ELE LEMBRASSE DE MIM. COM CARINHO, ANELISE

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    Respostas
    1. Anelise,

      Qual o escritor que ficaria imune a um gesto de tanto apreço como esse que ocorreu contigo, de ter lido e decorado um conto seu ("Para o nunca mais"), e ainda ter te ouvido recitá-lo? Certamente nenhum escritor ficaria indiferente a um gesto como esse que tu proporcionaste ao excelente escritor Gaúcho, Liberato Vieira da Cunha.

      Abraços,
      Pedro.

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PEDRO LUSO