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12 de ago de 2011

GRACILIANO RAMOS / O “S. Bernardo” está pronto

Graciliano Ramos,  Heloísa e filhos

           
                    [PEDRO LUSO DE CARVALHO]


       Em 1º de novembro de 1932, Graciliano Ramos escreveu, de Palmeiras dos Índios, carta para Heloísa de Medeiros Ramos, sua esposa, falando, dentre outras coisas, do término de seu livro "São Bernardo”.  

        A primeira mulher de Graciliano Ramos, Maria Augusta Barros, morreu 1920, deixando-o com quatro filhos menores. Em 1928, Graciliano casou-se, em Maceió, com Heloísa Medeiros. No ano seguinte, conclui Caetés. Em 1930 renuncia ao cargo de prefeito, e é nomeado Diretor da Imprensa Oficial de Alagoas. Em 1932, demite-se do cargo, e retorna a Palmeira dos Índios. Nesse ano, é fundada uma escola na sacristia da Igreja Matriz; aí Graciliano escreveu os primeiros capítulos de São Bernardo.
     
       Segue a carta de Graciliano para sua mulher Heloísa, que o escritor carinhosamente chamava-a de “Ló”. Segue a carta, que integra o livro Cartas, Graciliano Ramos. 7ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1980, p. 134-135.


                  CARTA A HELOÍSA DE MEDEIROS RAMOS


                                     O “S. Bernardo” está pronto


        Ló: Vi agora um envelope para você nas mãos do Múcio e lembrei-me de lhe mandar um bilhete. Recebi sua carta de 28, cheias de coisas doces, que agradeço. Apresente ao nosso amigo Tatá os meus sentimentos por causa dos quatro bolos que levou. Isto por aqui continua na mesma estopada, com muita poeira e muito calor. Para quebrar a monotonia, a velha Iaiá enterrou-se ontem. Morreu anteontem, de ruindade. Os parentes já estão fazendo questão pra voar nos troços que ela deixou. D. Heloísa recebeu carta sua. Disse-me o Chico que você pede à mulher dele para me fiscalizar. Não é possível, que ela não vive comigo. Clélia e Múcio continuam carcamanizados, um no francês, outro no italiano. Júnio também. Apareceu um periquito número 3. Esse meu filho tem um gosto esquisito para os periquitos. Por que será? O S. Bernardo está pronto, mas foi escrito quase todo em português, como você viu. Agora está sendo traduzido para o brasileiro, um brasileiro encrencado, muito diferente desse que aparece nos livros da gente da cidade, um brasileiro de matuto, com uma quantidade enorme de expressões inéditas, belezas que eu mesmo nem suspeitava que existissem. Além do que eu conhecia, andei a procurar muitas locuções que vou passando para o papel. O velho Sebastião, Otávio, Chico e José Leite me servem de dicionários. O resultado é que a coisa tem períodos absolutamente incompreensíveis para a gente letrada do asfalto e dos cafés. Sendo publicada, servirá muito para a formação, ou antes para a fixação, da língua nacional. Quem sabe se daqui a trezentos anos eu não serei um clássico? Os idiotas que estudaram gramática lerão S. Bernardo,  cochilando, e procurarão nos monólogos do seu Paulo Honório exemplos de boa linguagem. Está aí uma página cheia de 'S. Bernardo', Ló. É uma desgraça, não é? Tanta letra e tanto tempo para encher linguiça! Mas isso prova que a minha atenção está virada para os meus bonecos e que não tenho vagar para pensar nas fêmeas do Pernambuco Novo. E adeus por hoje. Beijos em Lulu e em Tatá. Lembranças a tudo. Abrace-se. Ainda não tive tempo de escrever a carta para o Tatá. Graciliano. 1º de novembro de 1932. (P. Dos Índios). 



                                                               *  *  *


9 comentários:

  1. Adorei.

    Beijo. Ótimo fim de semana!
    Mih

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  2. Pedro, o bom e inesquecível "Graça" está aí na carta exatinho como são os que amam a escrita, a literatura, os perfis das letras; ele vive (e se demonstra inteiro nisso à esposa) a alegria de criar seus personagens, e deles ri zombeteiramente, como se estranhos lhe fossem.

    E ainda há quem diga que "Graça" era um sujeito sem humor, não? Humor ele tinha de sobra. Certamente não gostava era de asnices...

    abs, e obrigado Pedro, pela visita no boguinho.

    Seu blog é maravilhoso; nos afinamos. Parabéns

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  3. Pedro,

    Veja você: o Graciliano era tão espetacular como escritor que até uma carta pessoal se transformava numa peça de arte.

    Sou um solitário no gosto que vou manifestar agora, mas já que estou aqui, e o assunto é o Graciliano Ramos, vou dizer o que acho: Para mim ele é o maior escritor brasileiro de todos os tempos.

    Gosto mais dele do que do Machado e do que do Guimarães Rosa, este último sempre confrontado com o Graciliano.

    Pronto, falei.

    E quem duvidar que leia Vidas Secas e São Bernardo. Vida pura, pulsante e rural, sem os excessos empapuçantes do G. Rosa.

    Abço, Pedro

    Cesar

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  4. A simplicidade da escrita, encantadora, pode ser extraída dessa simples carta. Os grandes
    não precisam de excessos para se fazer gostar.

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  5. Marilene,

    Sabemos que Graciliano Ramos era muito exigente com ele mesmo; às vezes escrevia trinta vezes ou mais uma única página, procurando fugir sempre de uma possível escrita frouxa, atento para dar rítmo e melodia ao seu texto, não usando palavras supérfluas.

    Graciliano era inimigo mortal dos adjetivos que nada revelavam. Sabia, que, estando atento a todas essas exigências, escreveria um texto simples e com conteúdo.

    As palavras sem rebuscamento serviam para demonstrar suas ideias, que, via de regra, eram sempre para denunciar a injustiça social.

    Abraços.

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  6. Adoro o Graciliano: Vidas Secas e São Bernardo são incomparáveis. Obrigada por esse presente!

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  7. Já respondi ao comentário da MARILENE, que disse:"A simplicidade da escrita, encantadora, pode ser extraída dessa simples carta".

    Não esqueci dos outros amigos:

    FÊNIX CRUZ, que comentou no dia de hoje, disse: "Vidas Secas e São Bernardo são incomparáveis".

    MICHELE SANTTI: Adorei, disse ela.

    JOSÉ ROBERTO BALESTRA comentou: (...) "o bom e inesquecível "Graça" está aí na carta exatinho como são os que amam a escrita, a literatura (...)"

    CESAR CRUZ disse: "o Graciliano era tão espetacular como escritor que até uma carta pessoal se transformava numa peça de arte".

    NOTA: a todos, recomendo a leitura integral dos comentários supra, aos quais estou me referindo.

    Abraços a todos.

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  8. Responder os comentários recebidos, no próprio blog, é como se alguém escrevesse uma carta e fosse na casa do endereçado, buscar resposta.
    Não gosto disso.
    Graciliano Ramos é muito maior que Guimarães Rosa.

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    1. Liliane, obrigado por sua visita e pelo seu comentário a respeito do Graciliano Ramos.

      Abraços,
      Pedro.

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PEDRO LUSO