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8 de dez de 2010

JORGE LUIS BORGES – Conselhos aos Escritores



        Tivéssemos de dar conselhos aos escritores (e não acho que precisem, porque todos têm de descobrir as coisas por si mesmos), lhes diria simplesmente isto: pediria que mexessem o menos possível em seu próprio trabalho. Não acho que remendos sejam de algum proveito. Chega uma hora em que a pessoa descobre o que é capaz de fazer – em que descobre a sua voz natural, o seu ritmo. Não acho que, nesse momento, ligeiras emendas se revelem úteis.

        Quando escrevo, não penso no leitor (porque o leitor é um personagem imaginário) e não penso em mim mesmo (talvez eu também seja um personagem imaginário), mas penso no que tento transmitir e faço de tudo para não estragá-lo. Quando eu era jovem acreditava na expressão. Eu lera Croce, e a leitura de Croce de nada me serviu. Eu queria expressar tudo. Pensava, por exemplo, que, se precisava de um pôr-do-sol, devia encontrar a palavra exata para o pôr-do-sol – ou melhor, a mais surpreendente metáfora. Agora cheguei à conclusão (e essa conclusão talvez soe triste) de que não acredito mais na expressão: acredito somente na alusão. Afinal de contas, o que são as palavras? As palavras são símbolos para memórias partilhadas. Se uso uma palavra, então vocês devem ter alguma experiência do que essa palavra representa. Senão a palavra não significa nada para vocês. Acho que podemos apenas aludir, podemos apenas tentar fazer o leitor imaginar. O leitor, se for rápido o suficiente, pode ficar satisfeito com nossa mera alusão a algo.

        Isso favorece a eficiência – e no meu próprio caso, favorece também a preguiça. Por que nunca experimentei um romance, me perguntaram. Preguiça, claro, é a primeira explicação. Mas há outra. Nunca li nenhum romance sem sentir um certo fastio. Romances incluem recheio; penso que o recheio pode ser uma parte essencial do romance, pelo que me consta. Mas li muitos contos várias e várias vezes. Penso que um conto, por exemplo, de Henry James ou Rudyard Kipling, se tira tanta complexidade, e de modo mais prazeroso, do que se pode tirar de um longo romance.



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O texto supra é um trecho do capítulo 6 – O Credo de um Poeta -, do livro de Jorge Luis Borges, Esse Ofício do Verso. Tradução de José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia Das Letras, 2007, p. 122-123.

        Sobre Jorge Luis Borges, escreveu Cali-Andrei Mihailscu (ob. cit. p.127): Quando Borges chegou a Harvard no outubro de 1967 para ministrar a Norton Lectures, havia muito ele era tido em alta conta. Com seu jeito auto-irônico, alegou ser uma espécie de Homem Invisível em seu próprio país, porém seus contemporâneos norte-americanos pareciam certos (educado entusiasmo à parte) de que ele era um dos nomes destinados a sobreviver através dos tempos. Sabemos que, até aqui, não se enganaram: Borges resistiu à habitual obliteração do tempo, e o encanto e o poder dessa obra esquiva ao esquecimento restam incólumes.



Um comentário:

  1. Pedro,

    Entrei no Estante Virtual e comprei o meu exemplar do Esse Ofício do Verso. Acabei de fazê-lo. Tudo, acerca de ensino de qualidade para escritores noviços, me interessa. Ainda mais vindo de Borges!

    Quando ele joga luz sobre a forma que considera mais adequada de narrar, que é se fazendo simples alusões, me faz concordar 100%. Eu, em minha pequena experiência como escritor, já aprendi (a trancos e barrancos, diga-se) que querer explicar, querer ser surpreendente em metáforas e figuras de linguagem sensacionais, é pura perda de tempo, e puro aborrecimento para quem lê. As boas e inéditas metáforas surgem sem querer, mas entendo que são como pequenos milagres (e por serem milagres, raros), que não adianta persegui-los loucamente. Acontecem quando tem de acontecer. Sendo assim, sobra ao escritor a mera (e poderosa) alusão, que se mostra, ao fim e ao cabo, uma ferramenta poderosa, no momento em que deixa livre o terreno para a criatividade do leitor. Menos é mais, mas só o tempo ensina que essa simplicidade é a mais eficaz e sofisticada arma dos mestres.

    Quando Borges afirma ter preguiça, por isso não ter se dedicado aos romances, o entendo perfeitamente. Que bom poder confessar isso aqui, com o aval e a companhia do mestre! Como é difícil e entediante ter de criar recheio para uma história que poderia ser um poderoso conto! Estou vivendo isso agora que estou me metendo a escrever um romance. Nem sei de fato se vou conseguir... Já estou com saudades do poder de síntese e de impacto de um bom conto; e, como diz Borges, de sua por vezes imprevisível complexidade.

    Abço e obrigado por esta dica
    Cesar

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PEDRO LUSO