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4 de out. de 2020

[Poesia] VINICIUS DE MORAES – Soneto de Separação

 

Vinicius de Moraes


       – PEDRO LUSO DE CARVALHO


VINÍCIUS DE MORAES (Marcus Vinícius Cruz de Moraes), nasceu na Gávea, Rio de Janeiro, a 19 de outubro de 1913, e aí faleceu a 9 de julho de 1980. Era filho de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes e de D. Lídia Cruz de Moraes. Teve uma infância muito livre e despreocupada, numa chácara do avô, na Gávea, até os cinco anos; depois, na ilha do Governador; aí viveu com sua família até os quatorze anos de idade, de onde saiu para matricular-se na Escola Afrânio Peixoto, na Rua da Matriz, onde concluiu o primário; depois, estudou no Colégio Santo Inácio.

Foi na ilha do Governador que o poeta ensaiou os seus primeiros versos, por volta dos sete anos, rabiscando quadrinhas e trovas, que os dava para suas namoradinhas. Daí a grande importância que a ilha teve em sua vida. A professora da escola pública, Dona Zuleica Autran, lia essas produções a seu pedido; mais tarde, no ginásio, seus colegas faziam esse papel da professora Zuleica.

Pode-se dizer que era hereditária essa inclinação para a poesia; descendia de uma família de escritores: seu pai, funcionário público municipal, era poeta, e foi aconselhado por Bilac, de quem era amigo, a publicar seus versos; seu tio-avô, Moraes Filho, era poeta, folclorista e membro do grupo Garnier, tendo sido amigo de Machado de Assis.

Na infância, Vinicius era um leitor voraz de literatura infantil e juvenil; lia de Julio Verne a Zevaco. Dois livros destacavam-se para ele: Coração, de Edmondo de Amicis, e Através do Brasil, de Bilac e Coelho Neto. Dessa fase de leitura, passou para a 'literatura de moças': Delly, Ohnet e Ardel. Na escola, tinha preferência pela leitura de antologias, o que lhe rendeu o conhecimento dos grandes poetas brasileiros e portugueses, alguns modernos, inclusive: Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia, Júlio Dantas.

No Colégio Santo Inácio, depois de ter repetido um ano, em razão da aversão que tinha pela matemática, Vinicius concluiu o curso ginasial. Participava como ator em peças teatrais, escreveu uma farsa, que foi representada por colegas, cantava no coro do colégio, tendo sido escolhido para cantar como solista de uma “Ave Maria”, durante uma Missa do Galo, na igrejinha da Rua Marquês de São Vicente. Nessa fase de sua vida, era um católico fervoroso; após o terceiro ano ginasial, passou a negligenciar seus deveres religiosos – a monotonia, a reincidência dos pecados, que não desejava evitá-los, justificaria esse afastamento da Igreja.

Com o incentivo da família e dos colegas, continuava escrevendo versos. Certo dia, resolveu procurar o poeta João Lira Filho, a quem muito admirava, para mostrar os seus trabalhos, já que se tratava de um amigo da família. Essa iniciativa, contudo, resultou numa das suas maiores decepções: o poeta Lira Filho aconselhou-o a abandonar definitivamente a literatura. Em 1929, Vinicius deixou o colégio, quando se formou, levando consigo os conhecimentos adquiridos e os muitos amigos que aí fez.

O sentimento para a música deveu-se ao ambiente da Ilha do Governador, com a exuberante paisagem e a presença do mar, e do jovem pescador – Augusto –, que lhe ensinou a apreciar as velhas valsas, que tocava na clarineta. Vinicius também ouvia em casa músicas tocadas por sua mãe, que era pianista, além de sofrer influência da avó, que tinha grande sensibilidade musical.

Foi no período em que já estava no fim do ginásio que passou por essas experiências, ligando-se aos compositores Paulo e Haroldo Tapajós. Com eles, formou um grupinho para tocarem nas festas de amigos. Daí para participar em composições musicais, como letrista, foi um pulo. Alcançou dois grandes sucessos: ‘Loura e Morena’ e ‘Canção da Noite’, que se tornaram conhecidas no Brasil em pouco tempo.

Vinicius de Moraes acreditava que a sua verdadeira vocação era a medicina, mas, por influência de seus colegas de ginásio, ingressou, em 1930, na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, na qual foi colega de Jorge Amado. Aí conheceu outros colegas que também se tornariam importantes: Otávio de Faria, Hélio Viana, Américo Lacombe e San Tiago Dantas. Sua fase de iniciação literária deveu-se a esses colegas, em especial a Otávio. Vinicius familiarizou-se então com os romancistas russos; depois conheceu escritores como: Julian Green, Mauriac, Bernanos, Ibsen, Nietzsche, Kierkegaard, Pascal.

Encerro este trabalho com um famoso poema de Vinicius de Moraes, intitulado Soneto de Separação (In Antologia Poética, Editora A Noite. Rio de Janeiro, 1953, p. 166):



SONETO DE SEPARAÇÃO

Vinicius de Moraes



De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.


De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama.


De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente


Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.



________________//__________________



REFERÊNCIA:

PEREZ, Renard. Escritores brasileiros contemporâneos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1960.



                                                  




28 comentários:

  1. Um belo soneto dum poeta que me encanta. Dir-se-ia que este soneto se pode adaptar ao momento atual. "De repente, não mais que de repente" tudo mudou.
    Abraço saúde e boa semana

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  2. Bela biografia e lindo poema escolhido. Aliás, tudo dele é muito lindo ! abraços, ótima semana,chica

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  3. "Não mais que de repente" encontro aqui um dos meus poetas favoritos: Vinícius de Moraes. E logo com este poema, que tantas vezes li como se de uma oração se tratasse.
    Uma boa semana com muita saúde, meu Amigo Pedro.
    Um beijo.

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  4. Vinicius de Moraes um poema exemplar de eleição. Gosto muito de ler os seus poemas. Deixou fascinante obra poética.
    .
    Início de semana feliz
    Cumprimentos

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  5. Fantástica publicação! Muito rica!:))
    -
    O silêncio que deslumbra pensamentos
    -
    Beijos e uma excelente semana!

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  6. Muy interesante biografía y un poema muy bello.
    Te deseo un Feliz Octubre.
    Un beso.

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  7. Una splendida poesia, di un autoreche ho conosciuto tramite il tuo bell'articolo.
    Cari saluti, Pedro,silvia

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  8. Un buen resumen de su vida y un bello poema, para concer una parte de su autor.

    Ahora para conocerlo más , sólo hay que seguir leyendo sus obras. Esto es el principio del camino, para conocerlo con mayor profundidad.

    Besos

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  9. Cheguei, Pedro! Finalmente! Sabes, o caminho é longo e aqui a tua amiga é bastante desorientada no que diz respeito a estradas, caminhos ou simples veredas...perde-se com muita facilidade; o que vale é o celular para ligar ao meu marido e pedir socorro. Be..estou a brincar, mas o que a brincar disse é uma bela verdade...sou desorientadinha de todo...
    Mas, vamos lá ao Vinicius, poeta fantástico conhecido em todo lado; gosto muito dele, mas, agora que soube que detestava matemática o meu apreço ficou ainda maior; penso que já disse muitas vezes que " não posso ver números à minha frente "...fico até mal disposta. Pelos vistos, não sou só eu...
    Quanto ao soneto, concordo com a Graça, parece " uma oração " e leva-nos a reflectir na vida e a pensar que não valem a pena as discórdias , os preconceitos, o egoismo, porque " de repente tudo muda, de repente " dos olhos se foi a última chama" , de repente o melhor amigo se foi, de repente perdemos quem muito amamos e de repente, muito de repente o nosso caminho chega ao fim, naquele instante da última despedida. A vida passa num repente, querido Amigo. Demorei a chegar e, de repente já me vou, não antes de te deixar um abraço carregadinho de amizade; a distancia é grande, enorme, mas, num repente ele chegará aí, levando junto um beijinho para a Taís Boa noite...sem insônias...
    Emilia

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    1. Emília querida, me intrometi aqui no teu lindo comentário, afinal, mandaste um beijinho pra mim. Comentei com o Pedro a beleza, a simpatia e o teu carinho. A querida Graça disse lindamente, parece uma oração! Um dos mais belos sonetos que conheço. E aí, amiga, é que a gente pensa nas discórdias, nas brigas, e que se ficássemos quietas muito poderíamos evitar, quantas coisas poderíamos deixar passar, não? Mas a humanidade parece que nasceu para guerrear. E a última despedida, essa, minha amiga, não tem volta, faz um estrago imenso! Quanto arrependimento vem!
      Gosto imensamente de Vinicius, está no topo da minha lista, fala de amor e da vida com imensa naturalidade.
      Beijinho, querida! Recebi teu carinho, sim!

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    2. Bem, Tais, se o Pedro não se importou que te intrometesses, quem sou eu para o fazer? Aliás, foi muito bom, pois são tantos os elogios que esta vossa amiga até " se benzeu ". Tem um aí que eu, tenho a certeza, mereço, sim, tenho um carinho muito grande por vocês e sou muito grata ao Começar de novo por me ter dado a chance de vos conhecer. Muito obrigada, Taís, obrigada Perdro. Sois uns amores! Beijinhos e SAÚDE
      Emilia

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  10. Grande Vinicius de Moraes! Nossa, como gosto dele! Esse poema é dos meus favoritos. Tudo passa na fração de um segundo. Ele não. Seu legado é rico demais. Foi ótimo ler sua postagem pois mencionou fatos sobre ele que eu desconhecia. Creio que o talento é inato. Não obstante pertencer a uma família ligada às artes e à escrita, poderia ter fugido à regra, como tantos outros, dedicando-se a algo completamente diferente. Adorei, Pedro! Grande abraço para você e Tais.

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  11. Un poema precioso. La separación es algo que sufrimos todos a lo largo de la vida, y de repente sucede todo, y así de bonito en este soneto lo dijo este poeta cuya biografía me ha parecido muy interesante.
    Un placer volver a leerte.
    Un abrazo Pedro.

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  12. Oi Pedro, gostei muito de ler a biografia de Vinícius de Moraes, faz muito tempo que li, mais precisamente em 1988 quando fiz supletivo do 2º grau, nas aulas de literatura, lembro que este foi um dos poemas que junto à professora estudamos interpretações da linguagem poética.
    É um soneto maravilhoso, o de repente muitas vezes é longo, é preciso muito afeto e racionalidade nestas horas.
    Lendo o soneto hoje, penso que talvez exista depressão no sentimento descrito no soneto.
    Abraço, boa semana!

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  13. Um belo trabalho deste nosso poetinha, que eternizou minha Itapuã.
    Onde sempre vou para reverencia-lo em sua praça em frente sua casa.
    Que a Bahia que aqui se fixasse o nosso Vina como é carinhosamente chamado aqui.
    O soneto é lindo profundo Pedro e está numa placa junto sua estátua aqui.
    Grato pela partilha com detalhes que até então não sabia dele.
    Abraços e feliz semana leve e alegre mestre.

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  14. O poetinha...sempre um apaixonado pelas mulheres...e por viver em estado de apaixonamento!!!
    Abraços carinhosos a ti Pedro.

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  15. Bom dia. Obrigado pela excelente matéria do poetinha Vinicius de Morais.

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  16. Esse é o cara, meu caro!
    Cara que de cara cheia,
    Corria versos na veia
    Do artista o mais preclaro!

    Esse era o cara de "faro"
    Farejando a alma alheia
    "E que me perdoe a feia"
    Beleza, o tesouro raro

    Que amava e a idolatrava
    Como expressão de uma brava
    Ofensiva ao seu amor

    Que rendia-se sem trava
    E tudo ele engendrava
    Para perder o pudor!

    Tive oportunidade de conviver com quem convivia com esse cara. E uma das vezes em que eu iria conhecer a fera em reunião marcada à noite, ele tomou um porre à tarde e não compareceu ao encontro em um barzinho da Barra da Tijuca quando ainda era um brejo e residências de pobres pescadores artesanais - hoje zona mais exaltada do Rio. Bela postagem, grande amigo! Abraço! Laerte.

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  17. oi,Pedro, inesquecível Poeta para toda minha geração...alguém que amava a vida e tinha um carinho intenso por todos os amigos, amava o Amor e as mulheres. Era também e à sua maneira um místico e um homem piedoso com a humanidade .Gostei demais!
    Um abraço

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  18. "de repente e não mais que de repente ..."
    de repente e até ao tutano - atrevo-me a dizer
    que o o Poeta Vinícius não se fazia rogado

    e não perdoaria!

    Forte abraço
    meu Ilustre Amigo Pedro Luso

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  19. Bom dia de sábado, amigo Pedro!
    Vinícius,imortal, romântico e conquistador dos corações apaixonados pela poesia.
    Aprendo a gostar pela sua sensibilidade.
    Aqui, um trabalho refinado de cada escritor que figura na semana.
    Tenha um ótimo final de semana abençoado!
    Abraços fraternos de paz e bem

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  20. Todo lo escrito por Vinicius, de una u otra manera me toca. Mi madre, de raíces portuguesas, era una enamorada del fado y la poesía lusa, Pessoa, Amado: "la luna se escondió en el horizonte, los árboles tejieron melodías" y de ahí que se interesara por Vinicus como poeta. Algo que yo amplié porque sus letras se fundían en una especie de magia con la música de Toquinho: "Tarde em Itapoa", un tema que cualquiera que haya crecido junto al mar y haya vagueado por su orilla, entenderá. Buena parte de mi vida lleva por banda sonora sus canciones, válidas para cualquier estado de ánimo.
    Felicidades por su perfil y por darme a conocer que "Corazón" de Amicis, era uno de sus libros preferidos de infancia, algo que añado a mis puntos de encuentro con Vinicius. Saludos, Pedro.

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  21. Uma separação é sempre triste.
    Nostálgico e belo soneto de um poeta que muito aprecio.
    Bom domingo
    Beijinhos

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  22. Boa noite, Pedro. Ah, meu amigo como é bom ler sobre o grande Vinicius de Moraes, sem dúvida é um dos melhores.Na época em que não havia internet eu copiava os poemas dele, ainda devo ter um caderno repleto com seus poemas. Muitas vezes pensei se perdemos de tê-lo como um grande médico, mas logo me vem à mente como seriam os poemas, as músicas sem ele. Sua postagem sempre assertiva, obrigada por mais esta aula de literatura poética. Tenha um feriado abençoado junto á amiga ,Tais.Abraço!

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  23. Olá, amigo!

    É sempre bom saber-se um pouco mais, do que sabia...
    (na circunstância)
    da vida do poeta!

    Saudações poéticas!

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  24. Olá amigo Pedro,
    "O Poetinha" maravilhoso, inegualável!!Que delicia ler sobre o poeta que muito admiro. Parabéns pela bela escolha!!
    Tenha uma Boa semana produtiva.
    Beijos!

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  25. Magnífico poeta, y estupenda la idea de saber algo más de él a través de ti.
    Gracias.

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  26. É mesmo um prazer encontrar Vinícius de Moraes por aqui, caro amigo Pedro. E o soneto da separação baila-nos na boca, do tanto que se adapta em variadas circunstâncias.

    Beijo de boa noite.

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Pedro Luso de Carvalho