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12 de nov de 2010

[Entrevista] MARGUERITE YOURCENAR – Da forma na criação



       
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]     


MARGUERITE YOURCENAR (Marguerite Cleenewerck de Crayencour) nasceu em 8 de junho de 1903, em Bruxelas, e cresceu na França. Depois residiu na Itália, Suiça, Grécia e, por fim, nos Estados Unidos, em Mount Desert Island, no Maine, por cerca de 50 anos, onde se isolou com sua amiga Grace Frick , e onde faleceu, em 17 de dezembro de 1987.

A escritora concedeu uma entrevista a Patrick de Rosbo na rádio France- Culture em janeiro de 1971. Rosbo inicia a sua entrevista com Marguerite Yourcenar (in Entrevistas com Marguerite Yourcenar/Patrick Rosbo, tradução de Raquel Ramalhete – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987, p.15-16):



[ESPAÇO DA ENTREVISTA]


DA FORMA NA CRIAÇÃO
 (Marguerite Yourcenar)



ROSBO - Pergunta nº1 – Como se coloca para a senhora o problema da forma na criação de sua obra?

MARGUERITE YOURCENAR - Resposta nº 1 – O problema da forma desempenha um papel particular no pensamento crítico na França e, na minha opinião, damos-lhe muitas vezes um lugar importante demais. O respeito de nossos compatriotas pela literatura é tal que, quando se diz que um livro foi bem escrito, tudo foi dito. Na verdade, para mim, não há antítese entre fundo e forma.

A forma de um ser é o aspecto visível, tangível de sua natureza. Este cão fraldeiro que está a meu lado, nós o reconhecemos com fraldeiro por sua forma. É pela sua forma que ele é o que é e não um são-bernardo. Quando olhamos num museu uma velha de Rembrandt ou, ao contrário, a Vitória de Samotrácia, é só através de uma certa forma que conhecemos o pensamento que o pintor ou o escultor quiseram nos transmitir: por um lado o patético da velhice, a dignidade da velhice, por outro o impulso heroico, a tempestade feita mulher, uma espécie de grande anjo feito de velocidade e vento. Nos dois casos, a forma não é outra coisa senão o fundo tornado visível e a essência tornada palpável: aqui um emaranhado de rugas, lá dobras de pano, escavadas e infladas pelo vento do mar. Se não houvesse essa forma pintada ou esculpida não haveria nem pensamento, nem obra, nem obra-prima. E o mesmo acontece com tudo o que nos toca na vida. É pela forma que nos reconhecemos, como é pela ação que nos mostramos tal como somos. Proponho então que o problema da forma enquanto oposto, superimposto do pensamento, seja de certo modo deixado de lado, porque é um falso contraste e um falso problema.



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