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21 de mai de 2011

CONTOS DE DEONÍSIO DA SILVA / Márcia Lígia Guidin

Deonísio da Silva

       


       
       É de autoria de Márcia Lígia Guidin o ensaio, escrito em maio deste ano, sobre os contos reunidos de Deonísio da Silva, para seer publicado pelo jornal literário Rascunho, na Seção Gente real, Curitiba, PR, que, pela qualidade do referido ensaio, bem como pela importância do escritor e de suao obra, transcrevo-o na íntegra:

        O volume dos Contos reunidos de Deonísio da Silva, publicado em 2010 pela Editora Leya, é, literalmente, grande e pesado. Com quase 600 páginas, reúne contos de várias épocas da produção do escritor, recolhendo (creio que precocemente — já que o escritor é vigoroso e muito produtivo) em volume único a produção de contos, que, aliás, Deonísio domina muito bem. Sua articulação experiente de cronista se adapta muito bem ao manuseio da narrativa ficcional curta.

        A despeito da desagradável sensação do leitor ao manusear tão extravagante “tijolo” (como seria bom se eu lesse a obra no iPad…), a tarefa não é inglória. Autorizado pela dificuldade — digamos — física, o leitor se dá a liberdade de abrir o livrão neste ou naquele conto e, para seu prazer, todos têm grata autonomia (apesar de muitos se passarem na fictícia cidade de Sanga da Amizade, com personagens que se repetem) — tanto que o leitor sai satisfeito, com a sensação de ter usufruído de um história autônoma, com começo, meio e fim.

        Deonisio é muito bom contador de histórias. E, para nosso conforto “contemporâneo”, não me parece que pretenda, nem pretendeu, aderir a grandes experimentalismos de foco, sintaxe, semântica, muito menos ingressar em alguma vanguarda das vanguardas — daquelas que a USP defenestrava e a PUC aplaudia. Sua narrativa é, sem invenções gratuitas, honesta e eficiente.

        Muitas são as temáticas e, é claro, como em todo escritor descrente da segunda metade do século 20, nela predominam relações interpessoais a mostrar um mundo sem lugar para felicidade plena, ou romantismos miúdos, ou adesão à moral pequeno-burguesa. Como bem diz o prefaciador da obra, Sergius Gonzaga, “alguém que transita de um mundo em decomposição, um mundo agônico, para uma outra realidade, em que o novo começava a se insinuar decisivamente no cotidiano da população urbana do país”.

        Uma das qualidades do autor, nesse universo de narrativas curtas, está em não ter deixado pesar sua vivência biográfica nos textos. Explico-me: sabemos que o autor, de cidade pequena, sob as vicissitudes da vida humilde, buscou na vida do seminário seus caminhos. Dele saiu, já adulto, sem lastros ou travas, para escrever totalmente à vontade — contaminado pelo mundo laico, ao qual se integrou para analisar e ironizar vigorosamente. Sejam seminaristas, campesinos ou latifundindiários, seus personagens nunca se parecem com o autor. Ou seja, sua literatura parece liberta de quaisquer amarras ideologizantes, que poderiam encurtá-la em temas ou estilo: a escatologia, o sexo, a traição aparecem nos textos com grande naturalidade. São apenas e simplesmente parte da vida — da minha, da sua, de todos nós.

         Em entrevista a Pedro Luso de Carvalho, Deonísio da Silva afirmou:

       Acho uma irresponsabilidade o escritor desconhecer sua ferramenta de trabalho. Desde a alfabetização, o que sempre me fascinou não foi a botânica, mas a jardinagem das palavras. Estudo por gosto, por prazer, pela alegria do convívio intelectual com meus pares, infelizmente cada vez mais raros.

       Tal declaração nos oferece uma honesta faceta do autor, que a põe em prática com extrema competência (o que é raro, diga-se): o respeito pela precisão da frase, seja ela egressa da voz erudita do narrador ou da tonalidade mais rasteira dos personagens. Vejamos:

        O milho veio bonito de se ver e a porcada fez uma festa ininterrupta de cento e vinte dias, ao fim dos quais os leitões de trinta quilos haviam se transformado em mastodontes de quase duzentos. Uma porca chegara aos trezentos — quase o peso de uma vaca. (A mesa dos inocentes)

        Neste trecho, por exemplo, percebemos a natural precisão semântica do verbo (o milho veio bonito); ou como ecoa vigorosa a ação coletiva (a porcada fez uma festa ininterrupta de cento e vinte dias); ou ainda o ótimo eufemismo (uma festa) para a glutonaria dos suínos; por sua vez, o tempo transcorre não sob o passar das horas, mas através do escandaloso acúmulo adiposo de uma das porcas (Uma porca chegara aos trezentos – quase o peso de uma vaca). 

        Num outro exemplo, mais fôlego e precisão semântica:

        Em dia de chuva, estando um pouco desinteressada dos papos vazios de suas colegas, Jurema, senhora bem casada, beirando os quarenta e cinco, grande turiferária do próprio marido, ao imiscui-se na vida de suas duas empregadas domésticas, ouviu relatos perigosos, a propósito do maior medo que cada mulher pode ter. (Confidências perigosas)

       Como não tomarmos as palavras “colegas”, “senhora bem casada” “grande turiferária do próprio marido” como perfeitas para a construção irônica da personagem? Estamos, sem dúvida, diante de um contador de histórias que, sem experimentalismos gratuitos, traz à vista do leitor a palavra precisa, que consegue revelar o furtivo, o subliminar, o sugerido.

         Canto de boca
       Ora, ora, dirá um incauto, mas isto são contos de professor, que tudo sabe sobre as palavras? A resposta é não. Deonísio certamente manuseia a língua com destreza superior, mas não é isso que faz de um professor um escritor (e como há professores escrevendo…). O bom contista surpreende o leitor, com recursos à mão, dos quais a ironia é um dos mais interessantes. Veja-se outro trecho do mesmo conto acima:

        As virtudes de Margô não eram reconhecidas apenas pela sua patroa, ao contrário, eram mais bem gabadas na boca de certos seminaristas que juravam de pés separados que o fulgor dos rosários ditos fosforescentes, que tinham de carregar no bolso, não chegava nem perto do alumiar incandescente das receptivas coxas de Margô.

       Que tal? Em poucas linhas, destroem-se a entidade eclesiástica, a seriedade vocacional dos jovens, a reputação da empregada polaca, e a eventual epifania religiosa. Ao leitor cabe um sorriso de canto de boca (bem-vindo, aliás, desde os tempos de Machado de Assis).

        Bom crítico da falsa moralidade, urbana ou suburbana, o autor, como eu disse, sedia várias histórias na fictícia cidade de Sanga da Amizade, no Paraná. Interessante estratégia: é a partir desse pequeno mundo que ecoam grandes situações universais, as quais o autor explora, cruzando personagens e ruas com temas, como a loucura, o adultério, a farsa social e, muitas vezes, o nonsense — tão verossímil num mundo assim fantástico.

        A sexualidade, o erotismo, a sacanagem são elementos vitais na construção destas histórias. Parecem funcionar como traços libertadores — sem pudores inúteis —, tanto dos protagonistas quanto do autor. Sergius Gonzaga, novamente, dirá melhor do que eu:

       Para o escritor, as vivências sexuais não se revestem de dramaticidade; antes, elas possuem tamanha força vital que desencadeiam o humor, a irreverência, o culto ao prazer e o deboche de todos os tabus que impedem a plena realização da libido.

        Se buscarmos influências, talvez encontremos semelhanças de Deonísio da Silva com o melhor de Lobato adulto ou Lima Barreto — sem, é claro, a adesão ideológica destes autores a seus personagens. Mas, como eles, Deonísio está empenhado em destituir o mundo arcaico e dissoluto, que só serve ao riso.

        Aliás, para que isso seja possível, é bom ver o ponto de vista: quanto ao uso do foco narrativo, da Silva opta pela superioridade do narrador onisciente intruso, que lhe oferece melhores subsídios para a ironia ou para a construção estratégica desta ou daquela personalidade.

        Todos os personagens têm afinal o mesmo genótipo. A matéria-prima é o homem institucionalizado em suas cincunstâncias — as quais, passam, num átimo, do solene ao ridículo. Como diz o personagem das confissões de Sedução:

       O bicho homem é que leva a vida mais braba: pra tudo que queira fazer, tem que trabalhar esmurrado antes, tirante os ricos que vivem no bem-bom, mas que também têm que se preocupar com os seus negócios da China. 

       Não sabemos se Dionísio da Silva ficará na história da narrativa brasileira tão vigorosamente como um Dalton Trevisan ou um Rubem Fonseca. Afinal, esse autor pagará o alto preço da atuação cultural multifacetada e eclética. Fazer muitas coisas talvez não seja fazê-las bem. Por ora, entretanto, seu ecletismo (com perdão do paradoxismo) é ecletismo rigoroso. Assim, esse tijolão vale a pena.


                                                                          *        *        *


        


   É editora da Miró Editorial. Vive em São Paulo (SP).






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PEDRO LUSO