[ PEDRO LUSO DE
CARVALHO ]
Há mais ou menos um ano
eu passeava com minha mulher na Avenida Beira-Mar, em Florianópolis, na faixa
destinada a pedestres, quando conhecemos um homem beirando aos sessenta anos,
com pretensão de atleta. Então se somou a nós, no percurso que fazíamos. Não
fosse o mau cheiro que vinha do mar, o passeio poderia ter sido perfeito. Mesmo com
esse desagradável odor, caminhávamos determinados naquela manhã de sol de fevereiro.
No curso da caminhada,
nosso novo amigo começou a falar de si (pouco tempo depois constataríamos que o
assunto central de sua conversa era sobre sua pessoa); dizia ter sido pobre,
que seu pai trabalhou muito para sustentar oito filhos, mas mesmo com todos os
percalços conseguiu uma boa posição social, graças ao emprego público que
tivera e aos negócios paralelos que fazia.
– Posso me considerar um
homem rico – disse com indisfarçável orgulho.
No ritmo da caminhada
procurei mudar de assunto, levando a conversa para o mundo dos livros; então o
vi atrapalhado. Notei que de repente se fez humilde, mas isso levou pouco
tempo, pois logo ele reagiu e decidiu se mostrar um homem culto, para não
destoar de seu status social. Era um homem rico, como disse.
Então fez referência a
alguns escritores como, por exemplo, Tchekhov, Dostoiévski, Borges, Kafka, Poe,
entre outros; e foi nesse ponto da conversa que fiquei animado, a despeito do mau
cheiro que vinha do mar, e que me desagradava.
Foi nessa altura da
conversa que percebi que ele, esse homem rico, nunca lera nenhum desses
autores; cita-os para não se sentir inferiorizado, para parecer culto. Minha
mulher e eu nos despedimos do homem rico; deixamos a Avenida Beira-Mar e nos
livramos do mau cheiro que vinha do mar, e nos livramos também do homem que não
sabia que se adquire cultura com dedicação aos livros por uma vida inteira.
No dia seguinte, pegamos
o primeiro voo da tarde e retornamos a Porto Alegre, para nossa alegria.
* * *

Pois é Pedro, as pessoas geralmente atrelam classe social à cultura.
ResponderExcluirConheço pessoas que de bens não possuem nada, mas de saberes são um imenso manancial que nunca se esgota.
Uma crônica, rápida, simples e objetiva.
Disse tudo!
Abraço
Pedro, divertido. Cheguei a achar que o cheiro ruim, vc revelaria no final, vinha do seu novo amigo. Ainda bem que não!
ResponderExcluirVocê se lembra de um cara que há cerca de 5 anos lançou um livro que ensinava a citar grandes clássicos sem ter lido nenhum, só para impressionar? Eu nunca li o tal livro do cara, mas lembro de ter pensado que era, no mínimo, um deserviço à cultura.
Se seu amigo da orla o tivesse lido, poderia ser que enganasse você... Não, não... pensando bem, seria improvável, já que seu conhecimento é sólido como sei que é. Vc o desmascararia de todo o jeito!
abço
Cesar
Cesar,
ResponderExcluirNunca ouvi falar desse livro. Quem escreve uma coisa como essa, é, no mínimo, idiota.
Mais interessante é "POR QUE LER OS CLÁSSICOS", de Ítalo Calvino, publicado pela Companhia Das Letras.
Aproveito para dizer que vale a pena visitar o blog do Cesar - OS CAUSOS DO CESAR; basta um clique na sua foto para conhecer seus contos e suas crônicas. Recomendo.
Um abraço amigo,
Pedro.
Vou dar uns "googles" e ver se acho o livro e o cara, um americano. Depois te conto.
ResponderExcluirQuanto ao do Calvino, boa dica!
E obrigado pelo prestígio!
abço,
Cesar
Um gosto estar aqui no seu blogue. Estive a ler o último post,mas preciso de
ResponderExcluirvir com mais tempo para ler mais.
Um abraço
Irene Alves
Obrigado, Irene. Você será sempre bem-vinda aqui.
ExcluirEstive em seu blog para me tornar seguidor, mas vi que os blogs da WordPress não possuem a ferramenta de "seguidores".
Aproveito o ensejo para recomendar o blog da Irene, cujo conteúdo é muito bom.
Abraços.
Olá, Pedro.
ResponderExcluirInteressantíssima, sua crônica. Podemos certamente compreender que algumas praias do mar carreguem o cheiro que os homens lhe deram, e que por vezes injustamente lhe atribuimos. Será mais difícil compreender ou perdoar o odor das fraquezas humanas falseadas. Mas uns como outros nos incomodam, de fato. E somados, toda a paciência e indulgência nos abandonam rapidamente, como você magistralmente registrou.
A questão de ser rico foi muito interessante, também. Alguém disse "a sabedoria é a coisa principal. Adquire, pois, a sabedoria; sim, com tudo que possuis, adquire o conhecimento". Não poderia discordar. Talvez a maior riqueza do mundo seja esta.
Apenas penso que o objetivo de tal sabedoria e de tal conhecimento é a vivenciação do amor e do bem. É onde a riqueza encontra a utilidade que não a deixa estéril.
Perdoe-me a divagação.
Um grande abraço.
Obrigado, Ângelo.
ExcluirGostei muito do conteúdo do seu comentário, que não saiu da esteira do objeto de minha crônica. Concordo com tudo o que você disse, com tanta sabedoria, tanto a respeito das ações dos homens como do conhecimento e da finalidade que se pode dar ao dinheiro. Parabéns.
Um abraço.