11.3.13

[Crônica] PEDRO LUSO - O homem que queria parecer culto



   [ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


Há mais ou menos um ano eu passeava com minha mulher na Avenida Beira-Mar, em Florianópolis, na faixa destinada a pedestres, quando conhecemos um homem beirando aos sessenta anos, com pretensão de atleta. Então se somou a nós, no percurso que fazíamos. Não fosse o mau cheiro que vinha do mar, o passeio poderia ter sido perfeito. Mesmo com esse desagradável odor, caminhávamos determinados naquela manhã de sol de fevereiro.

No curso da caminhada, nosso novo amigo começou a falar de si (pouco tempo depois constataríamos que o assunto central de sua conversa era sobre sua pessoa); dizia ter sido pobre, que seu pai trabalhou muito para sustentar oito filhos, mas mesmo com todos os percalços conseguiu uma boa posição social, graças ao emprego público que tivera e aos negócios paralelos que fazia. 

– Posso me considerar um homem rico – disse com indisfarçável orgulho.

No ritmo da caminhada procurei mudar de assunto, levando a conversa para o mundo dos livros; então o vi atrapalhado. Notei que de repente se fez humilde, mas isso levou pouco tempo, pois logo ele reagiu e decidiu se mostrar um homem culto, para não destoar de seu status social. Era um homem rico, como disse.

Então fez referência a alguns escritores como, por exemplo, Tchekhov, Dostoiévski, Borges, Kafka, Poe, entre outros; e foi nesse ponto da conversa que fiquei animado, a despeito do mau cheiro que vinha do mar, e que me desagradava.

Foi nessa altura da conversa que percebi que ele, esse homem rico, nunca lera nenhum desses autores; cita-os para não se sentir inferiorizado, para parecer culto. Minha mulher e eu nos despedimos do homem rico; deixamos a Avenida Beira-Mar e nos livramos do mau cheiro que vinha do mar, e nos livramos também do homem que não sabia que se adquire cultura com dedicação aos livros por uma vida inteira.

No dia seguinte, pegamos o primeiro voo da tarde e retornamos a Porto Alegre, para nossa alegria. 



*  *  *


8 comentários:

  1. Pois é Pedro, as pessoas geralmente atrelam classe social à cultura.
    Conheço pessoas que de bens não possuem nada, mas de saberes são um imenso manancial que nunca se esgota.
    Uma crônica, rápida, simples e objetiva.
    Disse tudo!
    Abraço

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  2. Pedro, divertido. Cheguei a achar que o cheiro ruim, vc revelaria no final, vinha do seu novo amigo. Ainda bem que não!

    Você se lembra de um cara que há cerca de 5 anos lançou um livro que ensinava a citar grandes clássicos sem ter lido nenhum, só para impressionar? Eu nunca li o tal livro do cara, mas lembro de ter pensado que era, no mínimo, um deserviço à cultura.

    Se seu amigo da orla o tivesse lido, poderia ser que enganasse você... Não, não... pensando bem, seria improvável, já que seu conhecimento é sólido como sei que é. Vc o desmascararia de todo o jeito!

    abço
    Cesar

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  3. Cesar,

    Nunca ouvi falar desse livro. Quem escreve uma coisa como essa, é, no mínimo, idiota.

    Mais interessante é "POR QUE LER OS CLÁSSICOS", de Ítalo Calvino, publicado pela Companhia Das Letras.

    Aproveito para dizer que vale a pena visitar o blog do Cesar - OS CAUSOS DO CESAR; basta um clique na sua foto para conhecer seus contos e suas crônicas. Recomendo.

    Um abraço amigo,
    Pedro.

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  4. Vou dar uns "googles" e ver se acho o livro e o cara, um americano. Depois te conto.

    Quanto ao do Calvino, boa dica!

    E obrigado pelo prestígio!

    abço,
    Cesar

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  5. Um gosto estar aqui no seu blogue. Estive a ler o último post,mas preciso de
    vir com mais tempo para ler mais.
    Um abraço
    Irene Alves

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    1. Obrigado, Irene. Você será sempre bem-vinda aqui.
      Estive em seu blog para me tornar seguidor, mas vi que os blogs da WordPress não possuem a ferramenta de "seguidores".

      Aproveito o ensejo para recomendar o blog da Irene, cujo conteúdo é muito bom.

      Abraços.

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  6. Olá, Pedro.
    Interessantíssima, sua crônica. Podemos certamente compreender que algumas praias do mar carreguem o cheiro que os homens lhe deram, e que por vezes injustamente lhe atribuimos. Será mais difícil compreender ou perdoar o odor das fraquezas humanas falseadas. Mas uns como outros nos incomodam, de fato. E somados, toda a paciência e indulgência nos abandonam rapidamente, como você magistralmente registrou.
    A questão de ser rico foi muito interessante, também. Alguém disse "a sabedoria é a coisa principal. Adquire, pois, a sabedoria; sim, com tudo que possuis, adquire o conhecimento". Não poderia discordar. Talvez a maior riqueza do mundo seja esta.
    Apenas penso que o objetivo de tal sabedoria e de tal conhecimento é a vivenciação do amor e do bem. É onde a riqueza encontra a utilidade que não a deixa estéril.
    Perdoe-me a divagação.
    Um grande abraço.

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    1. Obrigado, Ângelo.

      Gostei muito do conteúdo do seu comentário, que não saiu da esteira do objeto de minha crônica. Concordo com tudo o que você disse, com tanta sabedoria, tanto a respeito das ações dos homens como do conhecimento e da finalidade que se pode dar ao dinheiro. Parabéns.

      Um abraço.

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PEDRO LUSO