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5 de dez de 2010

GUY DE MAUPASSANT / Um ardil



             por  Pedro Luso de Carvalho


        O conto Um ardil  integra o livro de Guy de Maupassant, Bola de Sebo e Outros contos. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Ed. Martin Claret, 2001, p. 155-159.
       
        GUY DE MAUPASSANT (Henri René Albert Guy de Maupassant) nasceu na Normandia, França, a 5 de agosto de 1850, e morreu em Paris, a 6 de julho de 1893. 
       
        Maupassant foi o criador do conto na França. Com a ajuda de Flaubert, desenvolveu um método de narrações sintéticas. As personagens de suas histórias de um modo geral deparam-se com pressões sociais constantes. A hipocrisia, por ele desprezada, independentemente das camadas sociais, seria uma constante nas suas narrativas. Guy de Maupassant é o mestre do conto tradicional ou anedótico. 
       
        Sobre a tipologia do conto, ensina Sergius Gonzaga (in Curso de Literatura Brasileira, Porto Alegre, Leitura XXI, 2004, p. 26): (...)  “conto tradicional ou anedótico, cuja ação visa ao desfecho surpreendente. Nesse tipo de história, a narrativa se condensa toda em torno de seu final, que deve causar um formidável impacto no leitor, pelo imprevisto da solução”.
       
        Quanto ao conto, psicológico ou de atmosfera, Sergius Gonzaga aponta como mestres desses tipos de contos Anton Tchekhov e Machado de Assis.
       
        Obras de Maupassant: [romances] Uma vida, 1883; Bel-Ami, 1885; Pedro e João, 1888; [contos] Bola de Sebo, 1880; Les Soirées de Médan, 1880; A pensão Tellier, 1881; Mademoiselle Fifi, 1882; [poesia] De Vers, 1880.


[ESPAÇO DO CONTO]

UM ARDIL
( Maupassant)


        O velho médico e a jovem enferma conversavam no canto do fogo. Ela estava levemente afetada por uma dessas indisposições femininas que com frequência acometem as mulheres bonitas: um pouco de anemia, nervosismo, uma suspeita de fadiga, dessa fadiga que sentem por vezes os recém-casados, no fim do primeiro mês de união, quando fizeram um casamento por amor.
       
        Ela estava deitada em um sofá e dizia:
       
        - Não, doutor, jamais compreenderei que uma mulher engane o marido. Posso admitir que ela não o ame, que não leve em consideração nenhuma das próprias promessas, dos próprios juramentos! Mas como atrever-se a entregar a um outro homem? Como esconder isso de todo o mundo? Como poder amar, imersa na mentira e na traição?
       
        O médico sorria.
       
        - Quanto a isso é fácil, é fácil – disse – Asseguro-lhe que não se pensa em todas essas sutilezas, quando o desejo de errar invade as criaturas. Estou mesmo certo de que uma mulher não está madura para o amor verdadeiro a não ser depois de ter passado por todas as promiscuidades e todos os aborrecimentos do casamento, o qual, na opinião de um homem ilustre, nada mais é do que uma troca de maus humores durante o dia e de maus odores durante a noite. Nada é mais verdadeiro. Uma mulher não pode amar com paixão a não ser depois de ter sido casada. Se a pudesse comparar com uma casa, diria que ela só é habitável depois que um marido lhe secou o reboco. E quanto à dissimulação, todas as mulheres a têm para dar e vender nessas ocasiões. Mesmo as mais ingênuas são maravilhosas, e saem magistralmente das mais difíceis situações. 
       
        Mas a jovem senhora parecia incrédula...
       
        - Não, doutor, só nos lembramos do que deveria ter sido feito nas situações perigosas, depois do caso passado; e as mulheres certamente têm mais propensão para perder a presença de espírito do que os homens.
       
        O médico ergueu os braços.
       
        - Depois do caso passado, diz a senhora! Nós, homens, é que só temos inspiração depois do caso passado. Mas as senhoras!... Escute, vou contar-lhe uma pequena história acontecida a uma das minhas clientes, a quem eu teria dado a comunhão sem confissão, como se costuma dizer.
       
         Isto aconteceu em uma cidade de província.
       
        Certa noite, eu dormia profundamente, com esse pesado primeiro sono tão difícil de interromper, quando, em um sonho obscuro me pareceu que os sinos da cidade badalavam, dando sinal de incêndio.
       
        De repente, acordei: era a minha campainha, a da rua, que tilintava desesperadamente. Como meu criado parecia não responder, puxei por minha vez o cordão pendurado na minha cama, e, pouco depois, houve um barulho de portas batendo e de passos perturbando o silêncio da casa adormecida; depois, João surgiu trazendo uma carta que dizia: “A Sra. Lelièvre pede com insistência ao senhor Dr. Siméon que venha urgentemente à sua casa”.
       
        Refleti por alguns instantes e conclui: uma crise de nervos, vapores, uma bobagem qualquer, e eu estou muito cansado. Respondi: “O Dr. Siméon, não se sentindo bem, pede à Sra. Lelièvre que tenha a bondade de chamar o colega Dr. Bonnet”.
       
        Depois dei o bilhete dentro de um envelope e tornei a adormecer. Meia hora mais tarde, a sineta da rua soou novamente, e João veio dizer-me: “É alguém, um homem ou uma mulher (não consigo dizer com certeza), que desejava falar imediatamente com o senhor. Diz ele que se trata de uma questão de vida ou de morte para duas pessoas”.
       
        Ergui-me do leito:
       
        - Mande entrar.
       
         Aguardei sentado na cama.
       
        Apareceu-me uma espécie de fantasma negro e, logo que João saiu, descobriu-se. Era a a Sra. Lelièvre, uma criaturinha muito jovem, casada há três anos com um grande comerciante da cidade, o qual passava por ter desposado a mais bela jovem da província.
       
        Estava terrivelmente pálida, trazendo no rosto aquele crispar das pessoas enlouquecidas; e suas mãos tremiam; por duas vezes tentou falar, sem que de seus lábios pudesse sair um som. Afinal balbuciou: “Depressa, depressa... depressa... doutor... Venha! Meu... meu amante morreu no meu quarto...” 
       
        Parou, sufocada, depois continuou: “Meu marido vai... vai... voltar do clube...”
       
        Pulei da cama, sem mesmo me lembrar que estava em camisa, e vesti-me em poucos segundos. Depois perguntei: “Foi a senhora mesma que esteve aqui há pouco?” De pé, como estátua, petrificada pela angústia, ela murmurou: “Não, foi minha criada... ela sabe...” Depois de uma pausa: “Eu tinha ficado... perto dele”. Uma espécie de grito de dor terrível saiu-lhe dos lábios e, após uma sufocação que a fez estertorar, ela chorou, chorou desvairadamente com soluços e espasmos durante um ou dois minutos; depois suas lágrimas subitamente pararam, estancaram, como se tivessem sido enxugadas por dentro, com fogo; e, voltando a ser tragicamente calma, disse: “Vamos, depressa!”.
       
        Eu estava pronto, mas exclamei: “Com os diabos, não dei ordem de atrelarem o cupê!” Ela respondeu: “Tenho um, tenho o dele, que o estava esperando”. Cobriu-se até a cabeça e partimos.
       
        Quando a meu lado, na escuridão do carro, ela tomou-me bruscamente a mão e, esmagando-a entre seus dedos finos, balbuciou com abalos na voz, abalos que lhe vinham do coração dilacerado: “Oh! Se soubesse, se soubesse o quanto sofro! Eu o amava, eu o amava perdidamente, como uma insensata, fazia seis meses”.
       
        Perguntei: “Estão acordados em sua casa?” Ela respondeu: “Não, ninguém, salvo Rosa, que sabe de tudo”.
       
        Paramos defronte à casa dela; de fato todos dormiam; entramos sem fazer barulho, com uma chave de trinco, subindo na ponta dos pés. A criada, apavorada, sentara-se no chão no alto da escada, com uma vela acesa ao lado; não se atrevera a ficar junto ao morto.
        
        Entrei no quarto. Estava desarrumado, como após uma luta. A cama desfeita, abarrotada, ficara como à espera de alguém; um dos lençóis estava caído até o tapete; toalhas molhadas, com as quais haviam batido as têmporas do rapaz, estavam no chão, ao lado de uma bacia e de um copo. E um cheiro singular de vinagre de cozinha, misturado a vaporizações de 'Lubin', enjoava-nos desde a porta.
       
        De costas, estendido no meio do quarto, estava o cadáver. Aproximei-me; contemplei-o; apalpei-o; abri-lhes os olhos; toquei-lhe as mãos, depois, voltando-me para as duas mulheres, que tremiam, como se estivessem geladas, eu lhe disse: “Ajudem-me a levá-lo para a cama”. E o deitamos suavemente. Auscultei-lhe então o coração e pus-lhe um espelho em frente da boca; depois murmurei: “Acabou-se, vamos vesti-lo o mais depressa possível”. Foi uma cena terrível de ver!
        
        Eu pegava sucessivamente os membros do rapaz como os de uma enorme boneca e os apresentava às roupas que as mulheres traziam. Calçaram as meias, vestiram as ceroulas, as calças, o colete, a seguir o casado, cujas mangas nos deram bastante trabalho para enfiar.
        
       Quando foi preciso abotoar as botinas, as duas mulheres se ajoelharam, enquanto eu as iluminava; porém, como os pés haviam inchado um pouco, foi espantosamente difícil. Não tendo achado o abotoador, fizeram o serviço com os próprios grampos.
         
        Logo que a terrível toalete terminou, analisei a nossa obra e disse: “É preciso penteá-lo um pouco”. A empregada foi buscar um pente e a escova da patroa; mas como tremesse e arrancasse os cabelos compridos e emaranhados em movimentos involuntários, a Sra. Lelièvre apoderou-se do pente com violência e penteou a cabeleira suavemente, como se a acariciasse. Refez a risca, passou a escova na barba, depois enrolou lentamente os bigodes no dedo, como certamente costumava fazer, nas intimidades do amor.
        
       E, subitamente, soltando o que tinha nas mãos, segurou a cabeça inerte do amante e olhou demoradamente, desesperadamente, aquela face morta, que não mais lhe sorriria; depois, caindo sobre ele, apertou-o nos braços e beijou-o com violência. Seus beijos caiam como pancadas, na boca fechada, nos olhos extintos, nas têmporas, na fronte. Em seguida, aproximando-se da orelha dele – como se ainda a pudesse ouvir, para balbuciar a palavra que torna mais ardente os abraços – repetiu dez vezes seguidas com voz dilacerante: “Adeus, querido”.
        
        Mas o relógio deu meia-noite.
       
        Tive um pressentimento: “Raios! Meia-noite! É a hora em que fecham o clube. Vamos, minha senhora, força!”
       
        Ela se aprumou. Ordenei: “Vamos levá-lo ao salão”. Pegamo-lo nós três, e, tendo-o levado, sentei-o em um sofá; depois acendi os candelabros.
       
        A porta da rua abriu-se e fechou-se pesadamente. Já era ele. Ordenei: “Rosa, rápido, traga-me as toalhas e a bacia e arrume o quarto; por Deus, apresse-se” Eis o Sr. Lelièvre, que vem chegando”.
       
        Ouvi os passos subirem e aproximaram-se. Mãos no escuro apalpavam as paredes. Chamei então: “Por aqui, meu caro; tivemos um acidente”.
       
       E o marido, espantado, surgiu no umbral, com um charuto na boca. Perguntou: “Que há? Que aconteceu? Que é isso?”
        
        Encaminhei-me para ele: “Meu velho, estamos em um penoso embaraço. Eu havia ficado até tarde a tagarelar aqui, com a Sra. Lelièvre e nosso amigo, que me trouxe no seu carro. Subitamente, ele caiu desmaiado, e há duas horas que, não obstante meus cuidados, não consigo fazer voltá-lo a si. Não quis chamar estranhos. Ajude-me a fazê-lo descer; poderei tratá-lo melhor em sua casa”.
       
        O marido, surpreso mas sem desconfiar, tirou o chapéu; depois pegou por baixo dos braços o rival doravante inofensivo. Eu me atrelei entre as pernas do rapaz, como um cavalo entre os varais de um carro; e eis-nos a descer a escada, iluminados agora pela mulher.
       
        Quando chegamos enfrente da porta, pus o cadáver de pé e falei-lhe, animando-o para enganar o cocheiro: “Vamos, meu caro, isso não há de ser nada; já se sente melhor, não é? Vamos, coragem... um pouco de coragem... faça um pequeno esforço e está pronto”.
       
        Sentindo que ele se ia abater, que estava escorregando de minhas mãos, meti-lhe o ombro, o que o projetou para a frente e o fez cair dentro do carro; subi então atrás dele.
       
        O marido, inquieto, perguntava-me: “Acredita que seja grave?” Respondi sorrindo: “Oh! Não!” e olhei para a mulher. Ela passara o braço por baixo do braço do esposo legítimo, e mergulhava o olhar fixo no fundo escuro do carro.
       
         Apertei-lhes as mãos ordenei que partíssemos. Durante todo o caminho o morto me caía sobre a orelha direita.
       
        Ao chegarmos a sua casa, declarei ter ele perdido os sentidos no caminho. Ajudei a levá-lo para o quarto, depois constatei o falecimento; representei uma nova comédia diante da família desesperada. Finalmente, fui para minha cama, não sem praguejar contra os amantes.
       
        O doutor calou-se, sempre sorrindo.
       
        A jovem senhora, inquieta, perguntou: “por que me contou essa história espantosa?”
       
        Ele se inclinou galhardamente:
       
        Para oferecer-lhe os meus serviços em caso de necessidade.



6 comentários:

  1. Pedro,

    Ontem acabei não tendo tempo de ler este, então hoje voltei aqui.

    Sinceridade, eis um doa melhores contos que já li em todos os (meus) tempos. Esplêndido!

    abço
    Cesar

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    1. É verdade, Cesar.
      Gracias, pela visita.
      Um abraço.

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  2. Anônimo21:46

    De minha parte, este é, sem dúvida, um dos melhores contos da extensa safra desse artista extraordinário das letras que foi Guy de Maupassant.

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    1. Concordo com você.
      Obrigado pela visita.

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  3. Simplesmente impagável.

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    1. Obrigado, Robson, pela visita.
      Um abraço.

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PEDRO LUSO