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24 de jun de 2012

[Conto] CHARLES KIEFER – O Chapéu



           por  Pedro Luso de Carvalho


        CHARLES KIEFER nasceu na cidade de Três de Maio, Rio Grande do Sul, em 1958.  Formou-se em Letras na PUC-RS. É mestre e doutor em Teoria da Literatura e professor de Literatura.    É contista, romancista, cronista, tradudor e ensaísta. Um de seus livros, Caminhando na chuva, é um dos mais vendidos na história editorial do Rio Grande do Sul.  O escritor reside em Porto Alegre, RS.

        Alguns dos prêmios conferidos a Charles Kiefer: em 1984, 1993 e 1999 recebeu o Prêmio Jabuti; em 1993 recebeu o Prêmio Afonso Arinos; em 1987 participou do International Writing  Program, em Iowa (USA).

        Livros escritos por Charles Kiefer, entre outros: Caminhado na chuva, 1982; O pêndulo do relógio, 1983; A dentadura postiça, 1984; Valsa para Bruno Stein, 1986; A face do abismo, 1988; Dedos de pianista, 1989; Quem faz gemer a terra, 1991; Um outro olhar, 1992; Os ossos da noiva, 1996; O elo perdido, e outras histórias, 1996; Antologia pessoal, 1998; O poncho, 1999; A última trincheira, 2002; Logo tu repousarás também, 2006; A revolta das coisas, 2009.

        Segue, na íntegra,  o conto  O chapéu, de Chales Kiefer (In Kiefer, Charles. Antologia pessoal.  Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998, p. 21-23):


                                             [ESPAÇO DO CONTO]

                                                   O    C H A P É U
                                                          (Charles Kiefer)


        Planejei miticulosamente o assassinato de Manoel Soares. Podia fazê-lo com as próprias mãos; preferi, porém, contratar um pistoleiro.

        Para que Isabel não sofra, ou não sofra tanto, é imprescindível  tirá-lo do caminho. Se eu próprio o matasse, o complexo de culpa iria atormentá-la, tornando impossível o grande e mais intenso amor de sua vida, fogo em que se tem consumido lentamente (emagrece e chora em silêncio, tem os olhos ardidos e o corpo trêmulo), e entre um gemido e outro de prazer  eles haveriam de ouvir seu riso sarcástico e maldoso.

        Mas pra eliminá-lo da face da terra, arrancá-lo da cidade como se fosse uma erva maldita, foi preciso antes que eu o odiasse. Por isso, dia após dia – somos colegas de repartição -, procurei descobrir nele atitudes dissimuladas, falsidades, orgulho, mesquinharias que dessem motivação para levar adiante o meu intento. O ódio foi se  alimentando do conhecimento. Hoje pela manhã atingiu o limite máximo quando entreguei ao pistoleiro a quantia estipulada para o crime.

        – Exatamente às vinte horas, todas às noites, ele sai de seu apartamento à rua G, prédio 203. Hoje é segunda-feira, portanto estará vestido de calça de linho branco, camisa azul-marinho e chapéu de feltro. Preste atenção ao chapéu. É um dos últimos homens a usá-lo nesta cidade. Atire assim que atravessar a porta de vidro do edifício.

        O pistoleiro recuou e, sem dizer sequer uma palavra, saiu da sala.

        Os muitos anos de convívio, e o plano longamente arquitetado, me possibilitaram conhecer todos os hábitos de Manoel Soares. Sim, não há possibilidade de engano. Exatamente às vinte horas estará na calçada, tirará o chapéu e baterá com a mão no feltro, como que a retirar o pó, olhará indeciso para ambos os lados e, enfim, optará pelo direito, caminhará quarenta e cinco minutos, ora fumando, ora assobiando  uma velha canção portuguesa, e depois retornará ao apartamento. Suponho que antes de dormir mergulhe a dentadura postiça num copo d'água, displicentemente.

        Hoje, durante o expediente, surpreendi-o agitado em diversas circunstâncias, esfregando as mãos com impaciência. Duas ou três vezes foi ao banheiro, atitude totalmente inabitual.

        Pressente alguma coisa? E se na hora H resolver não fazer o passeio? E se estiver com cólica? Um medo insconsciente? E se no exato momento passar pela rua um sujeito quelquer vestido de forma semelhante e o meu contratado disparar sobre um inocente?

     Não. Absolutamente não é hora de pensar em tais possibilidades. Manoel Soares será assassinado dentro de cinco minutos. O relógio da sala avança para o instante fatal.

      Vou apanhar o chapéu e descer de encontro à bala que me espera.


                                                                 *


REFERÊNCIA:
QUIROGA, Horácio. Decálogo do perfeito contista. Org. Sergio Faraco. São Leopoldo, RS: Editora Unisinos, 1999, p. 86.


                                                              *  *  *

31 comentários:

  1. Bom dia Pedro
    Um belo conto... mas o final ficou no ar. De propósito? rsrsrs Te desejo momentos sublimes!
    Momentos simples, alegres, divertidos...
    Momentos de risos, de improvisos.
    Momentos bons, de luz e paz
    Momentos felizes e inesquecíveis...
    De satisfação e de pura emoção!
    Que neste domingo
    Permaneçam os momentos de imensa alegria
    E que eles sejam extremamente vibrantes!!!
    Beijinhos doces
    Gracita

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    1. Anônimo10:25

      Gracita,

      Concordo que é um belo conto, mas não que o final tenha ficado no ar.

      Leia novamente desde o início e com atenção redobrada no final.

      A última frase fecha o conto - e é a grande sacada da história.

      Boa leitura!

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    2. Gracita,

      Obrado por sua visita e pelos votos para o ano de 2013. Tabém desejo a você nesse no ano muita alegria, saúde e paz.

      Abraços,
      Pedro.

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  2. Você, poderia colocar um texto sobre Leonardo Bof.
    Beijos!

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    1. Janice,

      Claro que poderei trabscrever algum texto de Leonardo Boff.

      Abraços,
      Pedro.

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  3. O que seria um ensaísta? rsrsr
    Desculpe.
    É que eu não conheço esta atividade.
    Beijos!

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    1. Janice:

      Deveria ter repondido antes a sua pegunta, mas andei um pouco atrapalhado no escritóro.

      Você pegunta, em outras palavras o que escreve um ensaísta. Ensaísta, homem ou mulher,escrevem sobre um assunto técnico, das mais variadas áreas, como, por exemplo, literatura. Neste caso, analisam sob vários aspectos a obra, digamos um romance, procurando situar a obra em determinado plano literário, a que escola pode pertencer,dizer como atua na história a personagem central e também os secundários, bem como dizer se se trata de romance polical, dramático, histórico, etc.

      Caso necessite de uma explicação mais pormenorizada e com prfunddade,terei prazer e atender o seu pedido.

      Abraos,
      Pedro.

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    2. Anônimo18:56

      Eu amei o conto mas nao curti o final

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  4. Li esse conto mais de cem vezes e sempre me surpreende as amarrações do autor ao longo da narrativa. O clímax e o desfecho me encanta e ma faz amar ainda mais esse gênero narrativo.

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    1. Obrigado, Rosa, por sua visita.
      Você tem razão, "O chapéu"é mesmo muito bom - o Kiefer é um escritor de muito talento.
      Abraços.

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  5. quem e manuel soares desse texto

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    1. Antonio:
      O conto de Charles Kiefer, "O chapéu", é ficção; o nome do personagem, Manoel Soares, nasceu da imaginação do autor.
      Obrigado pela participação.

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  6. qual a nacionalidade de Manuel soares

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    1. Gleicy,
      Manoel Soares é apenas uma personagem criada por Charles Kiefer
      Um Abraço.

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  7. Muito Bom esse conto , professora de Língua Portuguesa passou para nós esse conto rs , muito legal mesmo .

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    1. Volte sempre que precisar, Marcos.
      Um abraço.

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    2. Com certeza , vlw abraço.

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  8. Olá, vc poderia me explicar o porque que a História termina com essa frase "Vou apanhar o chapéu e descer de encontro à bala que me espera." ???? Obg'

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    1. No meu entender, Manoel teve essa premonição de sua morte, e não se fez esperar pela bala: sua morte.

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  9. Qual o objetivo principal do narrador ao planejar a morte de manoel soares ? Pq ele queria mata-lo ?

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  10. Anônimo18:05

    Qual o objetivo principal do narrador ao planejar a morte de manoel soares ? Pq ele queria mata-lo ?

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  11. Como posso refazer o que eu entendi na continuidade do final do texto me ajudem como posso fazê lo

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  12. Quem é Isabel,qual a sua ligação com Manuel soares,como você descobriu isso ?

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  13. Porque não se percebi logo de início sua identidade?

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  14. Anônimo20:04

    Quero a resposta da pergunta d

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  15. Anônimo02:30

    Isabel é a mulher de Manoel Soares.

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  16. Anônimo02:32

    Manoel é a própria esposa de Manoel Soares, ele mesmo é o narrador do texto, ele está querendo se matar. Porque ele quer deixar a Isabel sua mulher, livre e feliz!

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  17. De que tipo é o narrador do conto?

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  18. De que tipo é o narrador do conto?

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  19. Anônimo18:16

    Manoel Soares encomendou sua própria morte!
    Sujeito andava desgostoso e percebia que sua infelicidade fazia ouyras pessoas infelizes, como por exemplo sua esposa Isabel que de certo já notara suas atitudes mesquinhas porém Manoel Soares precisou se autoanalisar para perceber seus erros e não se via em condições de corrigir-se ou não o queria!
    Não teria coragem para dar cabo de sua vida por si mesmo e também para que sua mulher, Isabel, não se sentisse culpada pois provavelmente ha tempos ele vinha demonstrando sua insatisfação com o que o marido se tornara ao longo dos anos e sua dureza moral em persistir em inclinar-se para tais gostos e atitudes ou que fosse sua própria natureza. Seja como for, o desfecho escolhido por Manoel Soares era graciosamente sublime em não querer que interferisse no futuro de sua esposa ao requisitar que o pistoleiro fizesse o serviço. O serviço final! Com requintes de grandesa de alma, não quis faltar ao seu último compromisso!

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  20. Amei o texto! Só faltou respostas para facilitar a correção dos professores.

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PEDRO LUSO