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18 de mai de 2010

[Poesia] JOÃO CABRAL - A Paul Valéry





A PAUL VALÉRY
JOÃO CABRAL DE MELO NETO




É o diabo no corpo
ou o poema
que me leva a cuspir
sobre meu não higiênico?

Doce tranquilidade
do não-fazer; paz,
equilíbrio perfeito
do apetite de menos.

Doce tranquilidade
da estátua na praça,
entre a carne dos homens
que cresce e cria.

Doce tranquilidade
do pensamento da pedra,
sem fuga, evaporação.
Febre, vertigem.

Doce tranquilidade
do homem na praia:
o calor evapora,
a areia absorve.

As águas dissolvem
os líquidos da vida.
E o vento dispersa
os sonhos, e apaga

a inaudível palavra
futura (que, apenas
saída da boca,
é sorvida no silêncio).




*    *


(In Duas Águas. Poemas Reunidos.João Cabral de Melo Neto. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1956, p. 137-138)

*    *    *




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