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16 de set de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – A Marca do Tempo







A MARCA DO TEMPO
PEDRO  LUSO  DE  CARVALHO



Vejo, de onde estou, o homem
marcado pelo tempo, no banco
descolorido pela maresia.

O mar recebe afagos do sol.
As ondas brindam o homem
com a água tépida do mar.

O homem aperta os olhos gastos
para além do horizonte, quer saber
o que lhe espera nas lonjuras.

As horas se sucedem. Apaga-se o brilho
do sol, apenas se ouve o rumor repetido
das ondas que se encrespam na praia.





*    *    *





4 de set de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Museu Nacional






MUSEU NACIONAL

- PEDRO LUSO DE CARVALHO




Faz-se presente a desgraça,
é o fogo que queima,
queima sem cessar,
impiedosamente.

Os responsáveis tentam apagar o fogo,
homens e mulheres falam,
falam sem cessar
querendo o fogo apagar.

Desculpa plausível
não haverá,
o fogo queimou sem cessar
a alma do Brasil.

Parte da História é queimada,
fica empobrecido o país,
o povo sofre e chora
pela memória perdida.





* * *






24 de ago de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - Silenciar





SILENCIAR
- PEDRO LUSO DE CARVALHO




Silenciai,
há cânticos de pássaros
na praça ensolarada.

Silenciai,
há um som de guitarra
adormecendo as estrelas.

Silenciai,
há um choro de criança
no seu primeiro despertar.

Silenciai,
há uma alma serena
a navegar num mar de sonhos.

Silenciai,
há alguém a despedir-se
de uma vida que se finda.




* * *





15 de ago de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Um Mundo Guardado






UM MUNDO GUARDADO

- PEDRO LUSO DE CARVALHO




As mãos trêmulas
da velha senhora
acariciam uma cômoda
de cedro antigo,
a guardar os seus sonhos.

Nas gavetas da cômoda
estão os colares, as cartas,
os brincos lá estão,
como estão os anéis
da velha senhora.

Transforma seu mundo
quando abre as gavetas
vendo a vida que teve,
ao ver o brilho das joias
e nas cartas, juras de amor.

Os olhos ainda a brilhar,
a velha senhora gira a chave
e fecha seu mundo,
mantendo fechado o brilho
das joias e o silêncio das juras.





                  *   *   *





1 de ago de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – A CASA ABANDONADA






A CASA ABANDONADA
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Festas e risos na casa,
inveja de muitos,
amor no seio da casa
duas almas guardadas,
tesouro vigiado.

Um dia Maria partiu
na madrugada fria,
como fazem os ladrões,
sem se importar com quem ficou.

Lá ficou João que amava Maria,
de Maria não mais falava,
na casa triste,
carente dos risos
e da voz doce que o encantava.

Grande demais era a casa
para João,
tão pequeno,
sem Maria.

Hoje, os que passam à noite
em frente da silenciosa casa,
ouvem gritos de dor
e uma voz a chamar:
Maria!  Maria!




*   *   *






18 de jul de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Terra Ferida






TERRA FERIDA
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Olhos cansados do velho,
presos olhos no horizonte,
pedras e arbustos,
terras removidas,
rios desviados
dos leitos,
mortandade de peixes,
tristeza e dor
por tudo que se perdeu.

O velho mantém fixos os olhos,
secos olhos,
no horizonte à frente,
sem lágrimas para chorar.

Na linha ao longe,
que separa o céu e a terra,
o último suspiro,
do sol que se afunda.






 *  *  *





10 de jul de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Revolta


[ Reedição ]

REVOLTA  
– PEDRO LUSO DE CARVALHO    
                                              

Ando na calçada da rua
escura, ouço o som oco
dos meus passos
no solitário vagabundear.

Vejo tantas marquises
sobre velhas lojas,
tantas portas gradeadas
e corpos cobertos de trapos.

Assalta-me pena e culpa,
muita culpa – grito
contido da revolta,
da denúncia que não faço.

Os urubus devoraram
os meus projetos,
devoraram os sonhos
todos que tinha, de igualdade.

Foi cômodo desistir da luta,
e agora os párias dormem
sob as marquises
nesta noite de frio cortante.

São os párias derrotados
sem o fragor da batalha,
vivendo em ruas e becos,
são urubus que se regalam
com nossas pútridas consciências.



*    *    *


29 de jun de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Caprichos da Natureza





CAPRICHOS DA NATUREZA
PEDRO LUSO DE CARVALHO


O luar vem no rasto da tarde,
morna tarde desse mês dourado
de outono, neblina já invade
o solo no verão tão queimado.

As folhas secas no outono morno
no chão espalhadas e coloridas,
a cada estação do ano retorno,
na roda do tempo repetidas.

Alteram-se elas no correr do ano,
outono não se fez imutável,
cedeu o seu lugar sem desengano
ao frio inverno, não tão afável.




*    *    *




14 de jun de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - Noite e Fantasmas




NOITE E FANTASMAS
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Escrevo este poema na noite,
meus fantasmas em torno,
breu feito de mistério.


Longa é a noite, vã a espera
de ver brotar uma flor,
feito rosa na roseira.

Meu coração pede que pare,
mas temo os fantasmas,
que castigos impõem.

Perdi noites luminosas, risos
e cânticos, perdi palavras,
a alma perdi na noite.



* * *  




31 de mai de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – As Mãos



AS MÃOS
PEDRO LUSO DE CARVALHO


Eu vi meu pai, as longas mãos,
uma mão sobre a outra, unidas
mãos vistas por outros órfãos,
nas doídas despedidas.

Faz-se presente esse dia
tempo mora na memória –
suas mãos não mais veria,
acabara a luta inglória.

Da infância, recordação
dos perigos protegido,
conduzido pela mão
daquele pai tão aguerrido.

Lembro ter pousado as mãos
sobre as duas águias frias,
eram iguais nossas mãos.
Não sinto estas mãos vazias.



*  *  *



22 de mai de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - Noites e Lembranças





NOITES E LEMBRANÇAS
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Sem aquelas noites iluminadas,
com as longas conversas amigáveis,
jazem ideias e atos inseparáveis.

Calor daquelas noites animadas
é o resto, o que ficou na lembrança,
a realidade sem esperança.

Que retornem as noites encantadas,
reavivem-se todos os encantos,
fiquem nos escombros todos os prantos.

Voltem as noites por todos amadas,
a lua cheia beije nossos rostos,
faça ser ventura nossos desgostos.




*   *   *



14 de mai de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO — A Fome




A FOME
PEDRO LUSO DE CARVALHO


Procuro palavras para o poema —
as dores levo presas no meu peito
para cantar, a escolha como tema,
um canto sem mesuras, deste jeito.

Nas tantas ruas de minhas andanças,
vejo tanta gente pobre, com fome,
homens, mulheres, velhos e crianças,
pessoas sem esperança, sem nome.

O que fazer para aplacar a dor,
dos despossuídos desta cidade?
Com armas, lutaria sem temor,
derrotaria a fome, essa crueldade.


Seja ação geral, da sociedade,
sem ideologia, com gerência,
que tudo seja feito, não a metade,
a fome não espera, pede premência.




*  *  *




1 de mai de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - Um Canto Esquecido




UM CANTO ESQUECIDO
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Não mais os ternos cantos de amor,
dor é inspiração do poeta,
no cruel tempo de sobrevivência.

um canto esquecido no peito,
calado canto de puro amor,
rosa sem vida no roseiral.

Este tempo pede outro cantar,
canto de denúncia, de esperança,
afagos do poeta a quem sofre.

Quem sabe amanhã seja melhor,
com gente honesta em todo lugar,
a alma renovada do Brasil.




*   *   *