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25 de nov. de 2020

[Poesia] ÁLVARES DE AZEVEDO – Se eu morresse amanhã!

 



               – Pedro Luso de Carvalho


ÁLVARES DE AZEVEDO, cujo nome completo era Manoel Antônio Álvares de Azevedo, nasceu em São Paulo a 12 de setembro de 1831. Seus pais, Inácio Manoel Álvares de Azevedo e D. Luísa Silveira da Nota Azevedo, mudaram-se para o Rio de Janeiro, em 1833.

Nos anos de 1848-1851, Álvares de Azevedo cursa a Faculdade de Direito de São Paulo. Convive com Bernardo Guimarães, Aureliano Lessa, José de Alencar. Em 1849, funda a Associação do Ensaio Filosófico. Estuda, lê muito e escreve toda sua obra.

Em fins de 1851 e início de 1852, passa em Itaboraí, onde espera recuperar a saúde. O poeta, no entanto, é assaltado pelo pressentimento da morte. Então, pensa em mudar-se para Recife e terminar a faculdade, pois sente que morrerá em São Paulo.

No dia 10 de março de 1852, sofre uma queda ao voltar de um passeio a cavalo; sente, depois, disso que os sintomas da tuberculose agravam-se. Seus médicos diagnosticam um tumor na fossa ilíaca, e o operam. Depois da operação melhora, mas em 25 de abril, desse mesmo ano, vem a falecer, com apenas vinte e um anos de idade. Foi sepultado no cemitério Pedro II, na Praia Vermelha, depois seu corpo foi transladado para o Cemitério São João Batista.

Álvaro Lins e Aurélio Buarque de Hollanda dizem que “Álvares de Azevedo foi talvez o mais bem-dotado de todos os poetas brasileiros”. (In Roteiro Literário de Portugal e do Brasil, vol. II. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, p. 106).

Segue o poema de Álvares de Azevedo intitulado Se eu morresse amanhã! (In Álvares de Azevedo, Poesia, Antologia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1960, p. 91):




SE EU MORRESSE AMANHÃ!

ÁLVARES DE AZEVEDO




Se eu morresse amanhã, viria ao menos

Fechar meus olhos minha triste irmã;

Minha mãe de saudades morreria

Se eu morresse amanhã!



Quanta glória pressinto em meu futuro!

Que aurora de porvir e que manhã!

Eu perdera chorando essas coroas

Se eu morresse amanhã!



Que sol! que céu azul! que doce n’alva

Acorda a natureza mais louçã!

Não me batera tanto amor no peito

Se eu morresse amanhã!



Mas essa dor da vida que devora

A ânsia de glória, o doloroso afã...

A dor no peito emudecera ao menos

Se eu morresse amanhã!





REFERÊNCIA:

LINS, Álvaro. BUARQUE de Hollanda, Aurélio. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Rio de Janeiro: Antologia da Língua Portuguesa, Ed. Civilização Brasileira, 1966.




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13 de nov. de 2020

[Poesia] ARMINDO TREVISAN - Comunhão

Armindo Trevisan

 


                - PEDRO LUSO DE CARVALHO

        

ARMINDO TREVISAN nasceu em Santa Maria, Rio Grande do Sul, em 1933, e passou a viver, há muitos anos, em Porto Alegre, capital do Estado. Professor universitário, poeta, ensaísta, tradutor e conferencista. Doutorou-se em Filosofia pela Universidade de Fribourg, Suíça, com curso de aperfeiçoamento em Paris. Lecionou História da Arte e Estética na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Por duas vezes, na década de setenta, foi bolsista da Fundação Calouste Gulbekian, em Lisboa. Dedica-se à crítica de arte, publicando ensaios em livros e colaborações em periódicos e suplementos culturais do país e do exterior. Em 1996, publicou Versi puri e impuri (Antonio Pellicani Editore), antologia bilíngue, português-italiano, com tradução de Brunello de Cusatis. Em 1997, recebeu o prêmio Aplub de Literatura por A dança do fogo.


Armindo Trevisan recebeu o Prêmio de Poesia “Gonçalves Dias”, da União Brasileira de Escritores (1964), por “A Surpresa de Ser”. A Comissão Julgadora, que decidiu pela sua premiação, era composta por Carlos Drummond de Andrade, Manoel Bandeira e Cassiano Ricardo. Esses três poetas, que estão, sem dúvida, entre os que melhor representam a poesia brasileira, formavam esse juri, que, no dizer de Moysés Velhinho, era “o juri mais rigoroso e credenciado já organizado no Brasil”. Armindo Trevisan não ficaria apenas com esse prêmio; em novembro de 1972, concorrendo com mais de 150 obras, ganhou o Prêmio Nacional de Brasília, para poesia inédita, com “O Abajur de Píndaro”.

Trevisan escreveu cerca de 40 livros, sendo 9 livros de poesia, dos quais menciono apenas estes:


Funilaria no ar, Editora Movimento – Mec, Porto Alegre, 1973

Em pele e osso, Editora Movimento, Porto Alegre 1977

Os olhos da noite, Editora Uniprom – Porto Alegre 1997

Orações para o novo milênio, Editora Unipron, Porto Alegre 2000

A dança do fogo, Editora Artes e Ofício – Porto Alegre 2001

A serpente na grama, Editora Mercado Aberto – Porto Alegre 2001

O sonho nas mãos, Editora AGE, Porto Alegre 2004.


Os dados acima, sobre Armindo Trevisan, colhi-os no seu livro “Em Pele e Osso”, publicado pela Editora Movimento em convênio com o Instituto Nacional do Livro – Ministério da Educação e Cultura, em 1977.

Os que ainda não conhecem a poesia de Armindo Trevisan, vamos dar, adiante, uma mostra do seu talento com “Comunhão”, um dos poemas que compõem o seu livro “A dança do fogo”, editado pela Artes e Ofícios, Porto Alegre, 2001, p. 102.




               COMUNHÃO

- Armindo Trevisan



À noite, quando os ventos se extrovertem,

o faroleiro enrola-se em si mesmo,



e à luz, que ele vigia, arranca um verso

para curtir a solidão, a esmo,



entre duas faces, que o contemplam rígida:

o céu, com suas estrelas tiritantes,



e o mar que brame contra as penedias

Não tens, acaso, a solidão uivante



do faroleiro? Tens, também, o lume,

que ele vigia. E sabes que, dormindo,



teus olhos vão subindo, vão subindo,

para caírem, tontos de doçura,



numa outra luz, que o sol tece na boca

da aurora que, excitada, fica rouca.



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5 de nov. de 2020

[ Poesia ] ALPHONSUS DE GUIMARAENS - Soneto n° VI




             - Pedro Luso de Carvalho


ALPHONSUS DE GUIMARAENS era o pseudônimo usado por Afonso da Costa Guimarães, nascido em Ouro Preto, Minas Gerais, a 24 de julho de 1870. Passou a maior parte de sua vida em Mariana, nesse Estado, onde exerceu o cargo de Juiz, onde realizou sua obra e onde morreu, a 15 de julho de 1921.

Na cidade de Mariana o poeta tinha uma vida discreta, que lhe dava o sossego necessário para elaborar sua obra poética. A sua existência apagada, sem fortuna pessoal ou literária, no entanto, levou-o ao isolamento, condição não apropriada para dar conhecimento aos meios literários do que produzia. Daí ter sua poesia obtida a glória somente depois de sua morte.

Alphonsus de Guimaraens foi, ao lado de Cruz e Souza, o maior dos poetas simbolistas do nosso país. A sua contribuição ao Simbolismo, na época uma nova escola, foi a inspiração mística. Sobre o poeta, escreveu o grande crítico José Veríssimo:

Pela sua compostura, pela seriedade de sua vida, pela sinceridade de sua inspiração, pelas qualidades da sua arte, distingue-se desses rapazes, espirituosos e inteligentes alguns, outros sem nenhuma destas qualidades, para quem a arte é um divertimento frívolo, uma postura da Rua do Ouvidor, um meio de ter nome nas folhas e de se dar ares de gênio incompreendido.

Livros escritos por Alphonsus de Guimaraens: Centenário das Dores de Nossa Senhora e Câmara Ardente, Rio de Janeiro, 1899; Dona Mística, Rio de Janeiro, 1899; Kiriale, Pôrto, 1902; Mendigos, Ouro Preto, 1920; Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte, São Paulo, 1923 – entre outros. O Ministério da Educação publicou o volume Poesias, de Alphonsus Guimaraens, cuja edição foi dirigida e revista por Manuel Bandeira (Rio de Janeiro, 1938).

Segue o soneto n° VI, de Alphonsus de Guimaraens (In Alphonsus de Guimaraens / Gladstone Chaves de Melo. Rio de Janeiro: Agir Editora, 1958, pg. 94):



SONETO N° VI

Alphonsus de Guimaraens




Ando em meio de flores e de sonhos,

Gorjeios de aves, aromais de lírios…

As açucenas gostam dos velhinhos,

Estrelejam de branco os seus martírios.



Lençóis de neve dos mais alvos linhos

Bem cedo amortalharam meus delírios…

Como sonho com o céu, pelos caminhos

Segue-me sempre a luz de quatro círios.



A sombra vespertina do desgosto

(Como descamba tristemente o dia!)

Vestiu de luto as linhas do meu rosto…



Não sei se longe ou perto surge o porto:

Sei que aos poucos me morro e calmaria,

Pois não há ondas mais neste Mar Morto






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27 de out. de 2020

[Poesia] ANTERO DE QUENTAL - À uma amiga

 




- PEDRO LUSO DE CARVALHO


ANTERO DE QUENTAL, que foi registrado no Cartório Civil como Antero Tarquínio de Quental, nasceu a 18 de abril de 1842, em Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Açores, onde passou sua infância. Era filho de Fernando de Quental e D. Ana Guilhermina da Maia, ele açoriano, ela natural de Setúbal.

Em São Miguel, fez seus primeiros estudos até ser matriculado no Colégio do Pórtico, dirigido por António Feliciano de Castilho, no Continente. Aprendeu desde tenra idade as línguas francesa e inglesa. Na intimidade que viveu com a família Castilho, recebeu as primeiras luzes de latim, em curso por este ministrado.

Estudou em Coimbra, onde se fez notar pelas atitudes revolucionárias e pelo arrojo inovador das ideias. Foi o provocador e líder da célebre “Questão Coimbrã”, a qual, mais que um combate a Castilho, representou um golpe contra o romantismo e a afirmação de um espírito novo: o da chamada Geração de 1865.

Vida agitada e dramática, sua figura humana ainda se distingue mais do que a figura intelectual. Teve ímpetos para a ação, e chegou a fundar sociedades revolucionárias (movimentos políticos filiados à doutrina socialista); esses ímpetos sucediam, porém, crises de solidão e pessimismo. Então, refugiava-se em Ponta Delgada, e por muito tempo ninguém tinha notícia de sua existência.

Estudou filosofia e problemas sociais, chegando a elaborar um sistema pessoal de ideias, do qual só publicou fragmentos. Essa tendência filosófica está refletida na sua poesia, das mais altas e originais da língua portuguesa. É de se lhe notar a predileção pelo soneto, forma que havia sido desdenhada pelos românticos.

Em data de 28 de setembro de 1858, matricula-se na Faculdade de Direito de Coimbra. Estava então, com dezessete anos. Eça de Queirós dirá, na sua evocação da mocidade de Antero de Quental:

Coimbra vivia então uma grande atividade, ou antes num grande tumulto mental. Pelos Caminhos de Ferro, que tinham aberto a Península, rompiam cada dia, descendo da França e da Alemanha (através da França) torrentes de coisas novas, ideias, sistemas, estéticas, formas, sentimentos, interesses humanitários Cada manhã trazia a sua revelação, como um sol que fosse novo. Era Michelet que surgia, e Hegel, e Vico, e Proudhon; e Hugo tornado profeta e justiceiro dos reis; e Balzac com o seu mundo perverso e lânguido; e Goethe, vasto como o Universo; e Poe; e Heine, e creio que já Darwin, e quantos outros!

No período que compreende os anos de 1858 a 1860, época em que Antero termina o segundo ano da faculdade, publicou os seus primeiros versos no jornal O Acadêmico, que não passou de três números, estreava nas colunas dos Prelúdios Literários em 1859, com o poema Quero-te muito, assinando apenas as iniciais de seu nome A. T. Q.

Na época de sua estreia, 1859, que não foi brilhante, a poesia portuguesa sofria o baque com a perda de nomes representativos do romantismo; cinco anos antes, morria Garret, Herculano faria uma nova edição sua, Poesias em 1860 – fazia dez anos que não as reeditava. O ano de 1863 marca o início da prosa de Antero, quando começa a afastar-se do romantismo.

Concluiu o curso de Direito em julho de 1864. Nos últimos anos do curso, eram seus companheiros preferidos os cientistas, matemáticos e naturalistas. Mudara com determinação a forma de encarar a sua atividade literária. A fase sentimental de Antero de Quental – o poeta das Primaveras românticas – estava finda.

Antero de Quental chegara aos quarenta e nove anos, depois de ter trilhado um caminho com êxito no plano intelectual, mas sem ter tido tempo para realizar todos os seus sonhos dos vinte anos de idade, quer no campo do pensamento e da mentalidade, quer no território da política e da organização social.

A neurose que acometera Antero foi responsável pelo seu abatimento físico e mental que cerceou seus planos em várias áreas de sua atuação, quer como crítico e moralista, quer como filósofo e poeta.

O poeta retorna de S. Miguel para escolher uma família que pudesse cuidar de suas duas filhas adotivas, mediante uma mesada. Sua intenção, depois disso, era voltar com sua irmã para Lisboa, mas é na ilha que vive os seus últimos dias.

Depois de comprar um revólver numa loja de quinquilharias da parte baixa da cidade, o caixeiro a embrulha em três folhas de papel; como diz João Gaspar Simões, pretendia Antero dirigir-se ao Campo de São Francisco, mas antes resolveu passar pela casa onde deixara suas filhas adotivas.

O Campo de São Francisco está deserto. Antero de Quental senta-se num dos bancos, junto ao Convento da Esperança, desfaz o embrulho, retira o revólver e leva o cano à boca e detona a arma; muito ferido, puxa novamente o gatilho, e desta vez o tiro atinge-lhe o cérebro.

Isso ocorreu às oito horas da noite. O poeta teria ainda que suportar grande sofrimento, pois somente às nove horas, assistido por médicos, chamados de emergência, numa cama da enfermaria do Hospital da Misericórdia, dá o seu último suspiro. (Antero de Quental falece no dia 11 de novembro de 1891, em Ponta Delgada, Açores, aos 49 anos de idade.)

No Pequeno Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse, sob a direção de Antônio Houaiss, o verbete sobre Antero de Quental está assim redigido:

Poeta e prosador português, Ponta Delgada, Açores (1842-1891), espírito angustiado pela dúvida metafísica e religiosa, e, ao mesmo tempo, homem de ação voltado para as ações revolucionárias da época, foi líder de sua geração literária e de movimentos políticos filiados à doutrina socialista. Atacado de grave neurastenia acabou por suicidar-se. O timbre filosófico de sua poesia, trabalhada com lavor, é reflexo de pungentes conflitos interiores, que lhe marcaram a vida. Antero forma com Camões e Bocage, a trindade dos grandes sonetistas portugueses, Obras principais: Odes modernas (1865), Sonetos (1890).

Obras principais de Antero de Quental: Sonetos de Antero, 1861; Odes modernas, 1865; Primaveras românticas, 1871; Os sonetos completos de Antero de Quental, 1886; Raios de extinta luz, 1892; Bom senso e bom gosto, 1865; A dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais, 1865; Sonetos (1890), Prosas (3 vols.), 1923, 1926 e 1931.

Segue o Soneto de Antero de Quental intitulado:

À uma amiga (in João Gaspar Simões, Antero de Quental. Lisboa: editora 1962, p. 245):



À UMA AMIGA

Antero de Quental



Àqueles, que eu amei, não sei que vento

Os dispersou no Mundo que os não vejo

Estendo os braços e nas trevas beijo

Visões que à noite evoca o sentimento



Outros me causam mais cruel tormento

Que a saudade dos mortos que eu invejo

Passam por mim, mas como que têm pejo

Da minha soledade e abatimento!



Daquela primavera venturosa

Não resta uma flor só, uma só rosa

Tudo o vento varreu, queimou o gelo!



Tu só foste fiel - tu, como dantes,

Inda volves teus olhos radiantes

Para ver o meu male escarnecê-lo!




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REFERÊNCIAS:

SIMÕES, João Gaspar. Antero de Quental. Lisboa: Editora Presença, 1962.

LINS, Álvaro. HOLLANDA, Aurélio Buarque de. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Vol. I. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1966.

LAROUSSE, Koogan. Pequeno Dicionário Enciclopédico Koogan Larousse. Direção de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Editora Larrousse do Brasil, p. 1476.





15 de out. de 2020

[Poesia] JORGE DE LIMA / Inverno

 


Jorge de Lima


          - Pedro Luso de Carvalho



JORGE DE LIMA (Jorge Mateus de Lima) nasceu a 23 de março de 1893 em União dos Palmares, Alagoas, e morreu no Rio de Janeiro em 15 de novembro de 1953. Iniciou os seus estudos na Escola de Medicina da Bahia e formou-se médico aos 21 anos de idade, no Rio de Janeiro, para onde se mudara. Foi professor de História Natural e Higiene Escolar da Escola Normal de Maceió. Lecionou História da Literatura Brasileira e Portuguesa do então Liceu Alagoano. Foi nomeado para exercer esses dois cargos depois de ter sido aprovado em concurso público. Foi eleito deputado estadual no seu Estado (Alagoas), mas não chegou a terminar o seu mandato, pois sofreu um atentado à bala. De volta ao Rio de Janeiro estabeleceu-se com consultório médico no centro da cidade, num edifício de cor amarela que se tornaria conhecido de muitos por lá reunir amigos para longas conversas e atender seus pacientes, os pobres atendidos de graça pelo médico poeta. Lecionou Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil.

Prêmios recebidos por Jorge de Lima: 1) Prêmio da Fundação Graça Aranha, em 1934, com o seu romance 'O Anjo'; 2) Grande Prêmio de Poesia, em 1940, pela Academia Brasileira de Letras, à obra ‘A Túnica Inconsútil’.

Jorge de Lima foi parnasiano nos primeiros tempos. O soneto ‘O acendedor de Lampiões’ deu-lhe fama. Mas a verdadeira importância de sua poesia deu-se em 1927, com o livro ‘Poemas’, com inspiração regional nordestina. Outros poemas seus, dessa fase, foram: Essa Negra Fulô e Bangüê.

Mas, como diz Álvaro Lins, o livro 'Tempo e Eternidade' adquire feição mística 'Restauremos a poesia em Cristo'. Torna-se então o lema do poeta e de seu amigo Murilo Mendes, coautor da obra, feição que culminaria em ‘A Túnica Inconsútil’ e nos poemas de ‘Anunciação e Encontro de Mira Celi’ que, incorporados à Obra Poética, não foram publicados em volume à parte. Então, assume um tom épico em ‘Invenção de Orfeu’.

Uma amostra da criação poética de Jorge de Lima está bem representada por seu poema ‘Inverno’ (in Jorge de Lima, Melhores Poemas. São Paulo: Global Editora, 2ª edição 2001 p. 46, 47.



INVERNO

- JORGE DE LIMA



Zefa, chegou o inverno!

Formigas de asas e tanajuras!

Chegou o inverno!

Lama e mais lama

chuva e mais chuva, Zefa!

Vai nascer tudo, Zefa,

Vai haver verde,

verde do bom,

verde nos galhos,

verde na terra,

verde em ti, Zefa,

que eu quero bem!

Formigas de asas e tanajuras!

O rio cheio,

barrigas cheias,

mulheres cheias, Zefa!

Águas nas locas,

pitus gostosos,

carás, cabojes,

e chuva e mais chuva!

Vai nascer tudo:

milho, feijão,

até de novo

teu coração, Zefa!

Formigas de asas e tanajuras!

Chegou o inverno!

Chuva e mais chuva!

Vai casar, tudo,

moça e viúva!

Chegou o inverno!

Covas bem fundas

pra enterrar cana;

cana caiana e flor de Cuba!

Terra tão mole

que as enxadas

nela se afundam

com olho e tudo!

Leite e mais leite

pra requeijões!

Cargas de imbu!

Em junho o milho,

milho e canjica

pra São João!

E tudo isto, Zefa...

E mais gostoso

que isso tudo:

noites de frio,

lá fora o escuro,

lá fora a chuva,

trovão, corisco,

terras caídas,

corgos gemendo,

os caborés gemendo,

os caborés piando, Zefa!

Os cururus cantando, Zefa!

Dentro da nossa

casa de palha:

carne-de-sol

chia nas brasas,

farinha d'água,

café, cigarro,

cachaça, Zefa...

...rede gemendo...



Tempo gostoso!

Vai nascer tudo!

Lá fora a chuva,

chuva e mais chuva,

trovão, corisco,

terras caídas,

e vento e chuva,

chuva e mais chuva!

Mas tudo isso, Zefa,

vamos dizer,

só com os poderes

de Jesus Cristo!



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REFERÊNCIA:

Lima, de Jorge. Melhores Poemas. São Paulo: Global Editora, 2ª edição 2001.p. 46,47.Lins, Álvaro e Buarque de Hollanda, Aurélio. 

Roteiro Literário de Portugal e do Brasil vol. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira , 1966 p. 429 – 436.




4 de out. de 2020

[Poesia] VINICIUS DE MORAES – Soneto de Separação

 

Vinicius de Moraes


       – PEDRO LUSO DE CARVALHO


VINÍCIUS DE MORAES (Marcus Vinícius Cruz de Moraes), nasceu na Gávea, Rio de Janeiro, a 19 de outubro de 1913, e aí faleceu a 9 de julho de 1980. Era filho de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes e de D. Lídia Cruz de Moraes. Teve uma infância muito livre e despreocupada, numa chácara do avô, na Gávea, até os cinco anos; depois, na ilha do Governador; aí viveu com sua família até os quatorze anos de idade, de onde saiu para matricular-se na Escola Afrânio Peixoto, na Rua da Matriz, onde concluiu o primário; depois, estudou no Colégio Santo Inácio.

Foi na ilha do Governador que o poeta ensaiou os seus primeiros versos, por volta dos sete anos, rabiscando quadrinhas e trovas, que os dava para suas namoradinhas. Daí a grande importância que a ilha teve em sua vida. A professora da escola pública, Dona Zuleica Autran, lia essas produções a seu pedido; mais tarde, no ginásio, seus colegas faziam esse papel da professora Zuleica.

Pode-se dizer que era hereditária essa inclinação para a poesia; descendia de uma família de escritores: seu pai, funcionário público municipal, era poeta, e foi aconselhado por Bilac, de quem era amigo, a publicar seus versos; seu tio-avô, Moraes Filho, era poeta, folclorista e membro do grupo Garnier, tendo sido amigo de Machado de Assis.

Na infância, Vinicius era um leitor voraz de literatura infantil e juvenil; lia de Julio Verne a Zevaco. Dois livros destacavam-se para ele: Coração, de Edmondo de Amicis, e Através do Brasil, de Bilac e Coelho Neto. Dessa fase de leitura, passou para a 'literatura de moças': Delly, Ohnet e Ardel. Na escola, tinha preferência pela leitura de antologias, o que lhe rendeu o conhecimento dos grandes poetas brasileiros e portugueses, alguns modernos, inclusive: Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia, Júlio Dantas.

No Colégio Santo Inácio, depois de ter repetido um ano, em razão da aversão que tinha pela matemática, Vinicius concluiu o curso ginasial. Participava como ator em peças teatrais, escreveu uma farsa, que foi representada por colegas, cantava no coro do colégio, tendo sido escolhido para cantar como solista de uma “Ave Maria”, durante uma Missa do Galo, na igrejinha da Rua Marquês de São Vicente. Nessa fase de sua vida, era um católico fervoroso; após o terceiro ano ginasial, passou a negligenciar seus deveres religiosos – a monotonia, a reincidência dos pecados, que não desejava evitá-los, justificaria esse afastamento da Igreja.

Com o incentivo da família e dos colegas, continuava escrevendo versos. Certo dia, resolveu procurar o poeta João Lira Filho, a quem muito admirava, para mostrar os seus trabalhos, já que se tratava de um amigo da família. Essa iniciativa, contudo, resultou numa das suas maiores decepções: o poeta Lira Filho aconselhou-o a abandonar definitivamente a literatura. Em 1929, Vinicius deixou o colégio, quando se formou, levando consigo os conhecimentos adquiridos e os muitos amigos que aí fez.

O sentimento para a música deveu-se ao ambiente da Ilha do Governador, com a exuberante paisagem e a presença do mar, e do jovem pescador – Augusto –, que lhe ensinou a apreciar as velhas valsas, que tocava na clarineta. Vinicius também ouvia em casa músicas tocadas por sua mãe, que era pianista, além de sofrer influência da avó, que tinha grande sensibilidade musical.

Foi no período em que já estava no fim do ginásio que passou por essas experiências, ligando-se aos compositores Paulo e Haroldo Tapajós. Com eles, formou um grupinho para tocarem nas festas de amigos. Daí para participar em composições musicais, como letrista, foi um pulo. Alcançou dois grandes sucessos: ‘Loura e Morena’ e ‘Canção da Noite’, que se tornaram conhecidas no Brasil em pouco tempo.

Vinicius de Moraes acreditava que a sua verdadeira vocação era a medicina, mas, por influência de seus colegas de ginásio, ingressou, em 1930, na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, na qual foi colega de Jorge Amado. Aí conheceu outros colegas que também se tornariam importantes: Otávio de Faria, Hélio Viana, Américo Lacombe e San Tiago Dantas. Sua fase de iniciação literária deveu-se a esses colegas, em especial a Otávio. Vinicius familiarizou-se então com os romancistas russos; depois conheceu escritores como: Julian Green, Mauriac, Bernanos, Ibsen, Nietzsche, Kierkegaard, Pascal.

Encerro este trabalho com um famoso poema de Vinicius de Moraes, intitulado Soneto de Separação (In Antologia Poética, Editora A Noite. Rio de Janeiro, 1953, p. 166):



SONETO DE SEPARAÇÃO

Vinicius de Moraes



De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.


De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama.


De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente


Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.



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REFERÊNCIA:

PEREZ, Renard. Escritores brasileiros contemporâneos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1960.