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15 de jun de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – A Noite e as Crianças





A NOITE E AS CRIANÇAS
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



Está vazia a cidade na noite,
há luzes de velório nos postes,
olhos amedrontados do cão
aos tropeços por ermas ruas.

Quem adentrar por ruas e becos
sentirá frio no corpo e na alma –
são muitos os perigos na noite,
um punhal à espera na esquina.

Da janela avisto a rua em névoas,
sem que passe única viva alma –
cidade entristecida no caos
à espera das luzes da aurora.

Depois da aurora o dia virá,
o sol virá dar calor e luz
à cidade abraçada por todos,
num ir e vir com ávidos olhos.

A esperança não estará perdida,
enquanto brincarem as crianças.




*  *   *




5 de jun de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – A Noiva






A NOIVA
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



Esta foi estação ferroviária,
pessoas partiam, chegavam
em sonhos no percurso do trem,
nas longas ou nas curtas viagens.

Um dia, ordem superior dada
fechou as portas da velha estação.
Nos trilhos locomotivas presas,
em áspero sono na ferrugem.

Nos corações dos ferroviários
vivem estação e locomotivas,
os encantos das viagens vivem
com ruídos das rodas nos trilhos.

Há boatos na cidadezinha
de que nas noites de lua cheia
uma moça vestida de noiva
espera seu noivo na estação.

Quem esperar pela lua cheia,
verá a noiva à espera do trem.




  *   *   *






27 de mai de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – No Divã do Psicanalista





NO DIVÃ DO PSICANALISTA
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



O homem sabe do tempo
de cada sessão,
sabe da corrente freudiana,
sabe ser preciso falar
para os males aflorarem.

O homem quer a bússola
doutor,
quer ter um norte na vida
sem rumo,
o inconsciente nada vale.

De que vale esse retorno
à infância,
onde estão sentimentos
doces da mãe,
guardados pelo homem?

Do pai, não foi o seu rival –
absurda ideia.
O homem quer antever
seus horizontes,
e sair das brumas do divã.




    *   *   *




15 de mai de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – O Centro da Cidade





O CENTRO DA CIDADE
– PEDRO LUSO DE CARVALHO




Eu vi nas ruas tanta gente,
pessoas vindas de bairros,
e de outras cidades
de perto ou de longe –
nas mentes o bem e o mal.

Eu vi tanta gente apressada
para não perder o trabalho,
outras à espreita
de fáceis presas
para a posse do bem alheio.

Eu vi nessas ruas do centro
pessoas tristes e solitárias
à busca de alguém
para ter seu calor,
e outras que nada esperavam.




*   *   *




6 de mai de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – A Busca Interior






A BUSCA INTERIOR
PEDRO LUSO DE CARVALHO




Vi nascer mais um dia, como outros
dias nascidos com o dourado do sol,
na praia escondida.

Ouvi o cativante murmúreo das ondas
do mar nas noites de um verão de fogo
em insoldável mistério.

Interminável recomeço de dias e noites,
ondas crespas e tontas com o borbulho
sob o sol e as estrelas.

Inútil a sondagem interior, meu intento,
queria apenas saber um pouco de mim,
mas havia o sol e o mar.





*   *   *





26 de abr de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – A Imagem Refletida





A IMAGEM REFLETIDA
– PEDRO LUSO DE CARVALHO




Vejo-me refletido na vitrine,
a imagem quase diluída
mostra o cansaço
do corpo
que resiste,
já com os sinais de alarme.

Vejo minha imagem estática
refletida na vitrine de luz,
meu corpo magro
e sem alma
(entre manequins)
sem força e sem esperança.

Como explicar meu desespero,
quando estava ali na calçada
diante da vitrine,
naquela noite
triste,
quando se apagaram as luzes?





*   *    *




17 de abr de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Plange o Violão





PLANGE  O  VIOLÃO
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



De onde este som
choroso de violão,
nesta madrugada
estendida, toque
triste a propagar?

Quem está a tocar
o violão choroso
nesta madrugada
silenciosa e triste,
na dor incontida?

Ouço seu dedilhar,
violão em lamento
coração nos dedos
a solidão à mostra
no aço das cordas.

Violão plange ainda
no seu triste cantar,
choro do violonista,
as cordas em ânsias
em cores da aurora.




*  *  *






6 de abr de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Outono




   OUTONO

   - PEDRO LUSO DE CARVALHO




O sereno dorme nas folhas
secas do outono,
dorme na relva
úmida do jardim,
ainda na ressaca da noite.

Os primeiros raios de sol
acordam o jardim,
pobre em cores
que eram ostentadas
na vaidosa primavera.

Mas o jardim sonolento
tem outras cores
- não as da primavera -
elas são sóbrias,
um tanto introspectivas.

Ainda é muito cedo no jardim,
quando raios de sol
brilham nas gotas
de orvalho,
e fazem uma manhã estrelada.




*  *  *







31 de mar de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – A Casa





A CASA
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Está ali a minha velha casa,
ali está ela onde sempre esteve,
presa ao chão, pássaro sem asas,
ia partir quando me reteve.

Está ali a minha velha casa,
dela muitas lembranças tenho
que não se sepulta em terra rasa,
nela tive vida com empenho.

Muitas vezes a quis deixar,
para viver então em nova casa.
Nesta poderia confiar?
Velha casa, segredo não vaza!

Então, risco nenhum correrei.
Onde todos segredos estão,
nesta velha casa ficarei,
aqui não me alcança a solidão.




 *   *   *




20 de mar de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Segredo





SEGREDO
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Eu tenho um segredo, dizer
não posso, é para guardar,
como se guarda amor secreto:
com a ânsia para contar.

Então, às brilhantes estrelas
no céu dourado contarei
o segredo perturbador,
numa noite que escolherei.

E quando chegar essa noite
terei as palavras anotadas,
para que faleça o segredo
antes de vir a madrugada.

Eis que chega a noite esperada!
Ouço as estrelas a pedir-me
que conte o segredo guardado,
quando a voz não consegue sair.

(Depois do segredo contado,
peso para ombros arqueados.)





 *   *   *




10 de mar de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO - As palavras





AS PALAVRAS
- PEDRO LUSO DE CARVALHO




Quem sabe, num dia de sol
possa resgatar as palavras, 
os espinhos no labirinto.

Quem sabe, protegidas d'alma
essas palavras, esquecidas
nos desvãos ácidos do tempo.

Quem sabe, venha a inspiração
com o retorno das palavras,
para o poema que quer luz.

Quem sabe, surja meu poema
com as palavras esquecidas,
em brincadeiras de menino.





*   *   *