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17 de nov. de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Agitação na Metrópole





AGITAÇÃO NA METRÓPOLE

-- PEDRO LUSO DE CARVALHO




O som da música neste caminhar,
já à míngua,
vem para a ansiedade aplacar,
trégua para a mente
de quem está perdido
em meio a tantas pernas
nervosas
que não param
não param,
de rostos contraídos,
inexpressivos rostos
sem sinal de alegria ou dor,
de tantos braços agitados,
outros contraídos
a segurar bolsas,
pastas, pacotes,
nesta rua aonde passo
com passos serenos
alheio à balbúrdia,
com a alma suspensa
em meio às áureas nuvens
no enlevo das suítes
do Mestre Bach
tocadas pelo encantador de cellos,
Mestre Rostropovich,
rodeado de belezas angelicais.





*   *   *




10 de nov. de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – O Nosso Mundo Mudou




O NOSSO MUNDO MUDOU
– PEDRO LUSO DE CARVALHO


Filho, as flores murcharam!
Acabou a primavera
antes do tempo,
tempo de alegria,
de campos floridos,
de perfume no ar!
As flores murcharam, filho!
Murcharam nossas esperanças!
Estão surdos os tambores
em meio a tantos trovões,
trovões que não param,
não param,
nessa estranha estação
sem primavera,
sem verão,
sem outono!
O que temos é só o inverno, filho!
Aqui tudo mudou!
Não só as estações do ano,
mudou nosso mundo, filho!
Mudaram as estações
no Brasil e na América
do Sul!
Vieram ventos e tempestades
da América
Central!
No chão lamacento
os frutos apodrecidos,
a sobra que nos toca,
para matar nossa fome, filho!


*  *  *




4 de nov. de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Pobres e Ricos





POBRES E RICOS
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



Este não é um bom tempo
para sonhar.
Impõem-se áspera realidade,
fruto da loucura
desmedida lá de trás,
quando o século vinte
dá seus primeiros passos
com brisas e tempestades,
com a promessa aos pobres
de um futuro dourado à frente.

Os dias e os anos passados
antes de nós,
a dormir no leito amarelado
da História,
tem os seus registros
que mostram a vã esperança.

O sonho de ser rico o pobre,
por medidas de governos,
seguirá sendo um sonho,
embora haja quem acredite
em centenárias promessas.

Este não é um bom tempo
para sonhar.
Não houve igualdade
e não haverá.
Que se travem outras lutas,
não mais as lutas perdidas.




 *   *   *




27 de out. de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – O Tempo dos Poderosos






O TEMPO DOS PODEROSOS

– PEDRO LUSO DE CARVALHO




Não sabem esses homens vis,
não sabem essas vis mulheres,
do limite para injustiças
e desmedidas vilanias?

Tem o relógio dois ponteiros
a marcar o tempo que sobra,
pois não são eternos os corruptos.
Sucumbirão sem honra e pompa.

Essas pessoas desalmadas,
no gozo de faustosa vida,
poderosos em seus palácios
sentirão o peso dos ponteiros.

O prazer que terá o povo,
quem virá para mensurar,
quando findar a vilania
no tempo que marca o relógio?

Sequer pensam na finitude,
os servidores poderosos
encharcados de privilégios,
sem verem parar os ponteiros.




  *    *    *




20 de out. de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – No Laboratório




NO LABORATÓRIO
PEDRO LUSO DE CARVALHO


A enfermeira chamou por mim.
O que poderia fazer, senão entrar?
Mostrou-me a cadeira, sentei,
sem relutar, e estendi o braço.
Ela veio com a seringa na mão.
Na veia, álcool para assepsia.
Depois elogiou a minha veia:
A sua veia é boa!
Na mão ameaçadora a agulha,
qual arma apontada para veia,
desviei os olhos e virei o rosto
para o lado. Inútil defesa!
Depois, ouvi da enfermeira:
Não se preocupe,
não se culpe,
os homens são todos iguais!



*   *   *



13 de out. de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Uma Sombra na Casa




UMA SOMBRA NA CASA
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



A casa parece abandonada
na rua precária sob o sol,
num silêncio pesado de pedra,
embora se visse aquela sombra.

A sombra na sala de quem era?
Era sombra de homem, de mulher,
que estava sentada na cadeira
no silêncio da casa vazia?

Na rua precária sob o sol,
vinda da cidade a multidão,
para desvendar esse mistério,
a sombra que foi vista na casa.

Não encontram nenhuma casa
na rua precária sob o sol,
pastavam ali, mansamente,
ovelhas diante do pastor.




*   *   *



6 de out. de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO - Os Perigos da Noite







OS PERIGOS DA NOITE

-- PEDRO LUSO DE CARVALHO




O vazio domina a tarde
que se finda,
sem que se possa dizer
que há vida.

Na tarde não há sombra
para meu abrigo.
Na calçada, meu passeio
e minha fuga.

Já queimei ao sol o corpo
e também a alma
no meu andar sem rumo,
em ruas da cidade.

Vejo que agora se põe o sol
e logo a noite chega,
altera o ritmo do caminhar,
põe em risco a vida.

Tendo os passos inseguros
reajo às sombras,
faço meu caminho de volta
para meu refúgio.




*  *  *




27 de set. de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Soluços e Lágrimas




SOLUÇOS E LÁGRIMAS
– PEDRO LUSO DE CARVALHO


Nos soluços e nas lágrimas
a dor que não passa,
é a mesma coisa todos os dias,
a mesma dor
que não passa.

Mas a mulher tem a janela
para ver o mundo!
Olha a todos com atento olhar,
mas não vê
quem quer ver.

A esperança ameniza a dor,
pois tem os braços
para em abraços envolvê-lo,
depois os beijos
de perder a conta.

Ainda soluços e lágrimas,
a dor que não passa,
é a mesma coisa todos os dias,
a mesma dor
que não passa.




*   *   *



22 de set. de 2019

[Conto] PEDRO LUSO – O Velho Ferroviário (reedição)



O VELHO FERROVIÁRIO
PEDRO LUSO DE CARVALHO

O velho ferroviário acorda antes que soe a campainha do velho relógio. Desliga-o para que a mulher continue dormindo. Ainda falta mais de hora para nascer o sol. Vai até a cozinha, já uniformizado, esquenta água e leite para a primeira refeição. Parte pela metade o pão que se encontra na gasta cesta de vime, sobre a mesa rústica. Apressa-se para chegar no horário. Tem muito que fazer na estação, quando o trem cruzar a fronteira. Vem do Uruguai e segue para o centro do país. A mulher esgueira-se até a janela para ver o marido sair. Lá fora o vento minuano zune fortemente. Curva árvores e moitas. Logo uma nuvem de poeira tira-o de suas vistas.
É quase noite quando ouve barulho na porta. É o marido que retorna da estação. Há brilho nos seus olhos. Nos ouvidos, o som do apito do trem, que se espalha pelo pampa. A densa barba grisalha esconde a melancolia que traz no rosto. Deixa transparecer apenas o tímido sorriso. A mulher vê a mesma cena repetir-se desde o dia em que os trens deixaram de circular. Só não lembra mais quantos anos se passaram desde esse dia.
Até onde o meu pobre velho levará essa maldita ilusão? – pergunta a mulher para si mesma, com voz cansada.



*   *   *


15 de set. de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Força de Vontade





FORÇA DE VONTADE
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



O que pode minha força de vontade
no oceano de maldade que vejo
em atos de autoridades?

O que pode minha força de vontade
diante do pobre povo traído
por falsos defensores?

O que pode minha força de vontade
quando se impõe a violência –
corpos por identificar?

O que pode minha força de vontade
ao ver tantos ladrões na cidade
com suas elegantes vestes?

O que pode minha força de vontade
em frente a togados vampiros –
eles são Deus ou juízes?





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8 de set. de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – O Tempo Marcado





O TEMPO MARCADO
PEDRO LUSO DE CARVALHO




Depois de tanto empenho na conquista,
o prêmio, do qual tinha todo o mérito,

pois conquistara a mulher dos seus sonhos,
que a ele se entregou sem nada pedir.

O amor que tinha no peito a ela entregara,
pois quando a viu quis tê-la nos braços.

É arte do tempo curar e abrir chagas,
esse mesmo tempo cria e mata o amor.

Na tarde cinza encontra-se com a amada,
quando lhe diz ser hora da partida.

Já pronto para os seus novos caminhos,
não vê na mão de sua amada o revólver.

Prazo do tempo para a vida do homem,
agora estrela, do tempo liberta.





*   *   *