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18 de jul de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Terra Ferida






TERRA FERIDA
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Olhos cansados do velho,
presos olhos no horizonte,
pedras e arbustos,
terras removidas,
rios desviados
dos leitos,
mortandade de peixes,
tristeza e dor
por tudo que se perdeu.

O velho mantém fixos os olhos,
secos olhos,
no horizonte à frente,
sem lágrimas para chorar.

Na linha ao longe,
que separa o céu e a terra,
o último suspiro,
do sol que se afunda.






 *  *  *





10 de jul de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Revolta


[ Reedição ]

REVOLTA  
– PEDRO LUSO DE CARVALHO    
                                              

Ando na calçada da rua
escura, ouço o som oco
dos meus passos
no solitário vagabundear.

Vejo tantas marquises
sobre velhas lojas,
tantas portas gradeadas
e corpos cobertos de trapos.

Assalta-me pena e culpa,
muita culpa – grito
contido da revolta,
da denúncia que não faço.

Os urubus devoraram
os meus projetos,
devoraram os sonhos
todos que tinha, de igualdade.

Foi cômodo desistir da luta,
e agora os párias dormem
sob as marquises
nesta noite de frio cortante.

São os párias derrotados
sem o fragor da batalha,
vivendo em ruas e becos,
são urubus que se regalam
com nossas pútridas consciências.



*    *    *


29 de jun de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Caprichos da Natureza





CAPRICHOS DA NATUREZA
PEDRO LUSO DE CARVALHO


O luar vem no rasto da tarde,
morna tarde desse mês dourado
de outono, neblina já invade
o solo no verão tão queimado.

As folhas secas no outono morno
no chão espalhadas e coloridas,
a cada estação do ano retorno,
na roda do tempo repetidas.

Alteram-se elas no correr do ano,
outono não se fez imutável,
cedeu o seu lugar sem desengano
ao frio inverno, não tão afável.




*    *    *




14 de jun de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - Noite e Fantasmas




NOITE E FANTASMAS
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Escrevo este poema na noite,
meus fantasmas em torno,
breu feito de mistério.


Longa é a noite, vã a espera
de ver brotar uma flor,
feito rosa na roseira.

Meu coração pede que pare,
mas temo os fantasmas,
que castigos impõem.

Perdi noites luminosas, risos
e cânticos, perdi palavras,
a alma perdi na noite.



* * *  




31 de mai de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – As Mãos



AS MÃOS
PEDRO LUSO DE CARVALHO


Eu vi meu pai, as longas mãos,
uma mão sobre a outra, unidas
mãos vistas por outros órfãos,
nas doídas despedidas.

Faz-se presente esse dia
tempo mora na memória –
suas mãos não mais veria,
acabara a luta inglória.

Da infância, recordação
dos perigos protegido,
conduzido pela mão
daquele pai tão aguerrido.

Lembro ter pousado as mãos
sobre as duas águias frias,
eram iguais nossas mãos.
Não sinto estas mãos vazias.



*  *  *



22 de mai de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - Noites e Lembranças





NOITES E LEMBRANÇAS
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Sem aquelas noites iluminadas,
com as longas conversas amigáveis,
jazem ideias e atos inseparáveis.

Calor daquelas noites animadas
é o resto, o que ficou na lembrança,
a realidade sem esperança.

Que retornem as noites encantadas,
reavivem-se todos os encantos,
fiquem nos escombros todos os prantos.

Voltem as noites por todos amadas,
a lua cheia beije nossos rostos,
faça ser ventura nossos desgostos.




*   *   *



14 de mai de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO — A Fome




A FOME
PEDRO LUSO DE CARVALHO


Procuro palavras para o poema —
as dores levo presas no meu peito
para cantar, a escolha como tema,
um canto sem mesuras, deste jeito.

Nas tantas ruas de minhas andanças,
vejo tanta gente pobre, com fome,
homens, mulheres, velhos e crianças,
pessoas sem esperança, sem nome.

O que fazer para aplacar a dor,
dos despossuídos desta cidade?
Com armas, lutaria sem temor,
derrotaria a fome, essa crueldade.


Seja ação geral, da sociedade,
sem ideologia, com gerência,
que tudo seja feito, não a metade,
a fome não espera, pede premência.




*  *  *




1 de mai de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - Um Canto Esquecido




UM CANTO ESQUECIDO
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Não mais os ternos cantos de amor,
dor é inspiração do poeta,
no cruel tempo de sobrevivência.

um canto esquecido no peito,
calado canto de puro amor,
rosa sem vida no roseiral.

Este tempo pede outro cantar,
canto de denúncia, de esperança,
afagos do poeta a quem sofre.

Quem sabe amanhã seja melhor,
com gente honesta em todo lugar,
a alma renovada do Brasil.




*   *   *




22 de abr de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Homenagem a Borges




HOMENAGEM A BORGES
PEDRO LUSO DE CARVALHO



De algum planeta, feito de poesia,
desceu mui suave no solo argentino
nave de luz, a conduzir raro ser,
que tinha por nome Jorge Luis Borges.

Poeta agudo, pleno de humanidade,
Borges contista com os seus labirintos,
longos voos no céu da mitologia,
leitor fiel, intenso, a garimpar sonhos.

Os olhos de Borges viam tão só brumas,
ausentes os seus dias claros de sol,
mas nele ficou uma luz intensa na alma
a clarear o caminho em que trilhava.




*  *  *




14 de abr de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Tristezas do Brasil




TRISTEZAS DO BRASIL
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Neste andar, sinto a tristeza da terra,
há desprezo pela terra ferida,
cortaram árvores em plena vida,
pelo lucro, envenenaram rios.

Neste andar sinto nos pés terra seca,
desprezo dos ávidos pela terra,
importa da terra arrancar ouro
para os poderosos, vida farta.

Neste andar, sinto não ter resistência,
na densa bruma somem meus esforços.
No Brasil, inexpugnável muralha
feita de leis, escudo de apátridas.

Neste andar no nordeste, sol ardente,
secas, áridas terras do sertão,
rezas dos sertanejos pelas chuvas –
Deus dá pão para saciar a fome?




*  *  *




8 de abr de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Os Corvos






OS CORVOS
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Não incorreria no erro indesculpável
de aos corvos negar sabidos méritos.
Não é deles a missão da assepsia?

Limpo o solo de tudo o que é pútrido,
para ser plantada a terra está pronta,
no céu planam os corvos vigilantes.

Quase cometi injustiça, confesso,
não se nivelam corvos e políticos,
que das aves de rapina são presas.

Conhecem as suas presas os corvos.
As putrefatas carnes dos políticos
são, dessas aves, os fartos banquetes.





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2 de abr de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – As Cartas




AS CARTAS
PEDRO LUSO DE CARVALHO


Com zelo guardo as cartas recebidas,
leituras tantas vezes repetidas.
Alívio para minhas dores d’alma.

Dizem essas cartas o que eu não via,
olhos toldados pela ambição vil.
Vejo agora a perda não resgatada.

Consolam-me essas cartas delicadas
nas noites de quieta solidão.
Cânticos daqueles anos perdidos.

Nas cartas vejo a lonjura do tempo,
agora presente nessas missivas.
Aonde andará minha missivista?




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