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10 de mar de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO - As palavras





AS PALAVRAS
- PEDRO LUSO DE CARVALHO




Quem sabe, num dia de sol
possa resgatar as palavras, 
os espinhos no labirinto.

Quem sabe, protegidas d'alma
essas palavras, esquecidas
nos desvãos ácidos do tempo.

Quem sabe, venha a inspiração
com o retorno das palavras,
para o poema que quer luz.

Quem sabe, surja meu poema
com as palavras esquecidas,
em brincadeiras de menino.





*   *   *






2 de mar de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO - Carnaval






CARNAVAL
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Abre a janela do teu quarto,
o sol entrará com calor e luz
sobre a cama desfeita,
na manhã adormecida.

Abre a janela do teu quarto,
solte as amarras da solidão.
A luz para te acalmar,
o sol para te aquecer.

Ouve música alegre no café,
que hoje é dia de carnaval,
seja samba de enredo,
ou apenas marchinha.

Esquece tua tristeza mulher,
e vista o teu melhor vestido,
calce o melhor sapato
e saia com requebros.




*  *  *




21 de fev de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO - Nova Vida





NOVA VIDA
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Joguei ao mar meus pertences
sem valor, resto guardado.
Na mente moram lembranças
de perdas e glórias vãs.

Nos vales farei morada,
meu abrigo, montes e árvores,
desfrute da vida em paz,
onde o vento encrespa as águas.

Terei os pés em terra e grama,
tomarei água nos rios,
dormirei junto às árvores,
em sonho serei criança.

Partirei na hora prevista,
(rege o Tempo normas rígidas)
terei as minhas mãos em prece
na noite, trégua do sol.





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10 de fev de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO — Não é Tempo de Paz






NÃO É TEMPO DE PAZ
— PEDRO LUSO DE CARVALHO




Com esta repentina decisão,
todos os meus temores dissipei,
todos os músculos enrijeci,
para este decidido caminhar.

Agora não é tempo de parar,
já nada mais tenho para sonhar,
n’alma nenhum resquício de luz,
aos fatos sucumbiram os sonhos.

É este o momento de decisão,
músculos rígidos, então caminho,
na estrada, as armadilhas invisíveis,
tantas encruzilhadas e desvios.

Este não é tempo para sonhar,
este é um tempo de ação, de luta,
haverá inimigo à espreita,
na mão, frio punhal para matar.





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25 de jan de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO — Sol do Meio-Dia





SOL DO MEIO-DIA
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Ao meio-dia de pleno sol,
estão agônicas as veias da terra,
todos os sentimentos estão secos —
para o homem o mundo é um espelho.

Na terra seca, ponta de esperança!
Ao homem sobreviverá a terra,
embora seja ela folha caída,
folha quase seca, que ainda respira.

Para a Natureza ainda há salvação,
mas para o homem sequer brisa virá,
vulcânica lava espera pelo homem,
assepsia sob o sol do meio-dia.

Então correrão límpidas as águas
dos rios, em murmúreos e cantares.





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13 de jan de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Castigo





CASTIGO
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



Alguém lembrará do bem que fiz?
Castigo se nada for lembrado,
depois que aplainei tantos caminhos,
para que andassem os pés descalços.

Alguém lembrará do bem que fiz?
Há os que pensam ser devedores
ante a mão que se abre em doação,
como sendo gesto de domínio.

Alguém lembrará do bem que fiz?
Não sendo esquecido pela mão
estendida, pródiga no auxílio,
as marcas não ficarão no tempo.

Alguém lembrará do bem que fiz?
Aguardem os beneficiados,
na caminhada terão castigo
no crepúsculo, beira da noite.




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1 de jan de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – O Relógio do Tempo




O RELÓGIO DO TEMPO
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



Faltava pouco para a meia-noite,
no breu da noite diante da porta
da casa, chave apertada na mão,
procurava refazer-me da ânsia.

Bem diante de mim, a fechadura
da porta, frio metal feito faca,
a desafiar-me sem piedade,
ante às minhas forças exauridas.

Tomado por misterioso ímpeto,
girei a dura chave na fechadura,
a porta abriu-se com leve rangido,
na casa deserta vi apenas sombras.

Caminhei por um longo corredor,
a cada passo portas para abrir,
até chegar na porta derradeira,
onde vi o grave relógio do tempo.




*  *  *



17 de dez de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – O Sonho do Menino





O SONHO DO MENINO
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



A frágil mãe esquenta a sopa,
que faz com batata e arroz.
Nada mais tem no barraco.

Depois do alimento o sono,
na noite estrelada, o sonho,
na esteira de luz envolto.

Do céu vem dourada tenda
(sonho do menino pobre),
viajando entre as estrelas.

Frente a tenda de luz,
embarca o menino pobre.
Com estrelas vai morar.





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3 de dez de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - A Maçã do Pecado




A MAÇÃ DO PECADO
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



É mansa a fala dos dois homens,
a falarem dos bons tempos
na tarde que beira a noite,
com sons ocos dispersos nas ruas.

Fenece a mansidão da conversa,
as ideias não se convergem,
a política, maçã do pecado,
impõe-se com desmedida fúria.

Ninguém mais na sala de visitas,
condôminos de tudo alheios,
braços giram desnorteados,
cessa a fala, amigos enfurecidos. 

Sons ocos chegam mais brandos,
um dos homens agora ferido,
o outro segura na mão a faca,
na noite alta, cúmplice no crime.




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21 de nov de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - O Jazz Na Noite






O JAZZ NA NOITE
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Ouço o som abafado pela surdina,
som rouco e quente do trompete,
no calor da noite espraiada
(segredos mantidos no breu).

Junta-se ao trompete o saxofone,
a derreter-se em tantos lamentos,
a absorver a tristeza da noite,
pela dor do amor desfeito.

A esses dois sons a noite traz outro,
o piano mágico de Duke Ellington,
a impor ordem na noite de lua,
homenagem merecida do Jazz .




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12 de nov de 2018

[ Poema ] PEDRO LUSO - O Circo





O CIRCO 
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Grande era o circo,
a lona enorme,
um mundo à parte,
gente grande e crianças
reunidas no mesmo encanto.

A moça com pouca roupa
num equilíbrio e coragem,
de pé sobre os cavalos,
um homem valente com chicote
e um leão solto num desafio.

Ainda me lembro da girafa:
sem me dar conta,
espichava  meu pescoço
como via a girafa fazer
(como às vezes ainda acontece).

Lembro-me do dia triste
em que o circo partiu,
com o elefante, o leão,
os macacos e os palhaços,
só não sabia que os levaria comigo.




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29 de out de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - Reconstrução






RECONSTRUÇÃO
- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Não nos descuidemos muito,
é grande e acolhedora
a nossa casa.

Não nos descuidemos muito,
a casa está sobre solo firme,
sem danos nos alicerces.

Não nos descuidemos muito,
juntos consertaremos portas,
e também janelas.

Não nos descuidemos muito,
logo a casa estará arrumada,
e nossa alma aliviada.







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