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15 de set de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Força de Vontade





FORÇA DE VONTADE
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



O que pode minha força de vontade
no oceano de maldade que vejo
em atos de autoridades?

O que pode minha força de vontade
diante do pobre povo traído
por falsos defensores?

O que pode minha força de vontade
quando se impõe a violência –
corpos por identificar?

O que pode minha força de vontade
ao ver tantos ladrões na cidade
com suas elegantes vestes?

O que pode minha força de vontade
em frente a togados vampiros –
eles são Deus ou juízes?





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8 de set de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – O Tempo Marcado





O TEMPO MARCADO
PEDRO LUSO DE CARVALHO




Depois de tanto empenho na conquista,
o prêmio, do qual tinha todo o mérito,

pois conquistara a mulher dos seus sonhos,
que a ele se entregou sem nada pedir.

O amor que tinha no peito a ela entregara,
pois quando a viu quis tê-la nos braços.

É arte do tempo curar e abrir chagas,
esse mesmo tempo cria e mata o amor.

Na tarde cinza encontra-se com a amada,
quando lhe diz ser hora da partida.

Já pronto para os seus novos caminhos,
não vê na mão de sua amada o revólver.

Prazo do tempo para a vida do homem,
agora estrela, do tempo liberta.





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2 de set de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Os Sonhos Perdidos (reedição)





OS SONHOS PERDIDOS
– PEDRO LUSO DE CARVALHO




No enigma da noite,
no nevoeiro intenso na cidade,
garimpa a mulher.

No coração mantém
da infância os tantos sonhos,
dourados sonhos.

Sabe ela dos sonhos,
sabe que os sonhos nada valem
para sobreviver.

Tem o corpo para exibir,
habituais clientes, bolsos cheios,
virão atraídos.

No facho de luz,
homem leva na mão o dinheiro –
o preço do prazer.





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24 de ago de 2019

[Conto] PEDRO LUSO – O Homem e sua Sina (reedição)





O HOMEM E SUA SINA
– PEDRO LUSO DE CARVALHO


Sentado num banco da Praça da Alfândega, Licurgo Pereira espera com ansiedade e medo. Levanta-se do banco e dá alguns passos em círculo, tentando acalmar-se. Torna a sentar-se. Olha para o relógio. Mal vê as pessoas que passam à sua frente. Preocupado, estica o pescoço para ver a rua em perspectiva. Então, se recorda do que lhe disse o homem de voz grave: “Aguarde-me na praça. E seja discreto”. Licurgo levanta-se para dar mais alguns passos. Precisa controlar-se. Volta a caminhar em círculo. Move-se com agitação. A noite que se aproxima agrava o seu estado. Vem-lhe a lembrança os tempos de jovem e do que lhe dizia seu pai sobre a retidão. As cores avermelhadas do crepúsculo contrastam com a cor cinza dos prédios que se amontoam no centro da cidade. Logo a noite apagará essas cores. Lâmpadas acendem-se clareando ruas e praças. Vitrines iluminadas atraem olhares curiosos. De repente um homem aperta o braço de Licurgo, como uma ameaça. Assustado, levanta-se do banco da praça. “O senhor está me esperando?”, pergunta o homem. Licurgo não responde. O homem faz uma advertência com rispidez: “Quieto. Sejamos discretos.” Depois, a um gesto seu, dois homens se aproximam e levam Licurgo Pereira para o carro. O homem de voz grave entra por último, e diz ao motorista: “Vamos.” E acrescenta: “Ainda temos que terminar o serviço”. O carro deixa o centro da cidade sem pressa, em direção à larga avenida. Daí, parte em alta velocidade para sumir ao longe, no breu da noite.





*   *   *




12 de ago de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – O Velho Homem





O VELHO HOMEM
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



Uma lágrima a luzir, clara lágrima
descia pelo rosto do velho homem,
refletido nessa nesga de luz
do sol, que via sumir no horizonte.

Havia na rua gente apressada,
gente atenta apenas ao seu mundo,
que passava pelo homem invisível,
prisioneiro do pranto contido.

A noite descia sobre edifícios.
Aflito, enxugava molhado rosto
de lágrimas brotadas no silêncio.
Então se levantou do banco o velho,

para sumir numa rua iluminada,
como somem as nuvens de verão.





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28 de jul de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – A Mãe e o Filho





A MÃE E O FILHO
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



No caminhar sem rumo pelas ruas,
nesta triste e fria tarde de inverno
anoitecendo com os sons da igreja,
o coral e o encantamento das vozes.

Quero seguir, mas aquelas vozes,
lindas vozes de cristais do coral,
aqueles acordes dos violinos,
apelo para que ingresse na igreja.

Segui àquelas vozes de cristais
para reviver o dourado tempo
de criança, junto de minha mãe,
na igreja de mistério, de beleza.

Deixei a igreja com a doce lembrança:
eu menino e a minha bondosa mãe,
mãe que agora aqui já não mais está.
Mas eu a vejo em noites enluaradas.

As mães estarão por perto dos filhos:
serão flores, conchas na praia, brisa,
vento forte, sol ou as cores da aurora.




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13 de jul de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Meu Cansaço




MEU CANSAÇO
PEDRO LUSO DE CARVALHO




Cansei de muitas coisas da vida,
como o penoso trabalho de ouvir
as queixas dos que sentem arqueados
os ombros, pelo peso que levam.

Agora terei ombros para meus pesos.
Que compartilhem suas alegrias,
que as terei como meu prêmio da vida
por tudo o que de bom eu tenho feito.

Então serão mais calmos os meus dias,
ouvirei o zunir do vento entre árvores,
verei as claras águas do riacho
a correr serenas rumo ao mar.

Neste inverno com generoso frio,
com suas manhãs brancas de geadas,
aguardo pela primavera em flor
com amarelos e roxos ipês.

Mas a vida segue como os ponteiros
do relógio, a marcar o nosso tempo.





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29 de jun de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Poema para a amada




POEMA PARA A AMADA
PEDRO LUSO DE CARVALHO


Para Taís Luso de Carvalho



Hoje eu queria escrever um poema
que saísse do peito como um hino
à amada, que fosse hino de amor,
com as palavras certas como setas.

Diante de mim o papel em branco,
pronto para as palavras do poema,
mas não achava preciosas palavras –
no lugar das letras nasciam flores.

Pouco valiam todos os esforços,
palavras modificadas por flores
e eu extasiado feito jardineiro
entre flores do mágico jardim.

Que cante às flores o jardineiro,
na beleza do jardim inspirado.





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18 de jun de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – A Noite e as Crianças





A NOITE E AS CRIANÇAS
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



Está vazia a cidade na noite,
há luzes de velório nos postes,
olhos amedrontados do cão
aos tropeços por ermas ruas.

Quem adentrar por ruas e becos
sentirá frio no corpo e na alma –
são muitos os perigos na noite,
um punhal à espera na esquina.

Da janela avisto a rua em névoas,
sem que passe única viva alma –
cidade entristecida no caos
à espera das luzes da aurora.

Depois da aurora o dia virá,
o sol virá dar calor e luz
à cidade abraçada por todos,
num ir e vir com ávidos olhos.

A esperança não estará perdida,
enquanto brincarem as crianças.




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5 de jun de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – A Noiva






A NOIVA
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



Esta foi estação ferroviária,
pessoas partiam, chegavam
em sonhos no percurso do trem,
nas longas ou nas curtas viagens.

Um dia, ordem superior dada
fechou as portas da velha estação.
Nos trilhos locomotivas presas,
em áspero sono na ferrugem.

Nos corações dos ferroviários
vivem estação e locomotivas,
os encantos das viagens vivem
com ruídos das rodas nos trilhos.

Há boatos na cidadezinha
de que nas noites de lua cheia
uma moça vestida de noiva
espera seu noivo na estação.

Quem esperar pela lua cheia,
verá a noiva à espera do trem.




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27 de mai de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – No Divã do Psicanalista





NO DIVÃ DO PSICANALISTA
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



O homem sabe do tempo
de cada sessão,
sabe da corrente freudiana,
sabe ser preciso falar
para os males aflorarem.

O homem quer a bússola
doutor,
quer ter um norte na vida
sem rumo,
o inconsciente nada vale.

De que vale esse retorno
à infância,
onde estão sentimentos
doces da mãe,
guardados pelo homem?

Do pai, não foi o seu rival –
absurda ideia.
O homem quer antever
seus horizontes,
e sair das brumas do divã.




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15 de mai de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – O Centro da Cidade





O CENTRO DA CIDADE
– PEDRO LUSO DE CARVALHO




Eu vi nas ruas tanta gente,
pessoas vindas de bairros,
e de outras cidades
de perto ou de longe –
nas mentes o bem e o mal.

Eu vi tanta gente apressada
para não perder o trabalho,
outras à espreita
de fáceis presas
para a posse do bem alheio.

Eu vi nessas ruas do centro
pessoas tristes e solitárias
à busca de alguém
para ter seu calor,
e outras que nada esperavam.




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