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21 de abr de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO - Pátria





     PÁTRIA
           - PEDRO LUSO DE CARVALHO



Há um estranho clamor
vindo da rua.
Ouço os passos
em meio ao rumor,
ameaçadores passos
ritmados perto da casa.


Sou tomado pelo medo
dos gritos
trazidos da rua
pelo vento minuano,
claro sinal da agitação
de homens e de mulheres.

Um breu repentino na janela,
esse breu da noite
aumenta o meu temor
da turba, na rua, próxima
à casa, com ferrolho na porta
incapaz de estancar a avalanche.


Na minha frente, porta e janela
podre porta, de vidro
a janela, frágil proteção.
A turba vocifera; homens
de fortes braços vem unidos,
corpos suados, elos da corrente.

Tantos braços me cercam
na noite avançada,
levam-me para fora,
porta e janela no chão.
Meus braços, agora elos
da corrente pela decência.

Levam-me braços entrelaçados
de homens e de mulheres
unidos pela crença na Pátria,
para erguer seu orgulho, sobra
do esbulho; aproxima-se a hora,
hastearemos a insultada bandeira.




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14 de abr de 2017

(Crônica) PEDRO LUSO - Nosso complexo de vira-latas




- PEDRO LUSO DE CARVALHO

O brasileiro tem o complexo de vira-latas, dizia, há décadas, o grande Nelson Rodrigues - dramaturgo, contista, cronista, jornalista. Na época em que lançou esse primor de definição, havia um encantamento com o socialismo e o comunismo no Brasil. Havia aqui um tempo favorável aos músicos e aos cantores, aos quais se somavam compositores e letristas que enalteciam Lênin, Trotsky, Marx, Engels e por aí afora.
Tendo em vista que Nelson Rodrigues era uma voz desafinada nessa época - católico e com simpatia pela direita - poucos aceitaram a sua constatação de que o brasileiro tem o complexo de vira-latas. Mas o fato é que sabem, os que nasceram aqui nesta terra de tantos políticos e empresários corruptos, que Nelson Rodrigues disse a mais pura verdade. Estivesse ele vivo, nos dias que correm, veria que o complexo de vira-latas do nosso povo piorou muito.
Depois do governo de José Sarney até o ano de 2014, mais ou menos, muitos brasileiros sentiam-se constrangidos por terem posição política de direita. Não ser socialista era uma posição desprezível e burguesa - esse argumento idiota. A pressão imposta a todos nós, que parecia não ter fim, não resistiu à pressão popular, que teve o seu inicio em 2013. Não demorou muito para que se desmanchasse o castelo de cartas.
Não podemos esquecer, no entanto, que continua viva a constatação de Nelson Rodrigues de que o brasileiro tem o complexo de vira-latas. Nada mais exato. Como o mundo nos vê hoje, depois que os empresários da Empreiteira Odebrecht delataram 190 políticos, que aguardam os trâmites legais no Supremo Tribunal Federal? Podemos ter absoluta certeza de que o nosso complexo de vira-latas está fora de controle.
Aceitemos o nosso complexo de vira-latas, em homenagem a Nelson Rodrigues. Agora o mal agravou-se. Os escândalos de corrupção estão tornando crônico esse complexo, pois a todo momento nos assalta a vergonha pelos maus atos de nossos políticos. Uns estão presos, enquanto outros foram denunciados por corrupção: cinco ex-presidentes da República, cinco Ministros do governo Temer, presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado. Esses escândalos não mais permitem a cura do complexo de vira-latas.


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7 de abr de 2017

[Crônica] PEDRO LUSO - Quem tem medo de poesia?






QUEM TEM MEDO DE POESIA?
- PEDRO LUSO DE CARVALHO


Ao pensarmos nos livros que vamos encontrar nas prateleiras das livrarias da nossa cidade vem-nos logo à mente: romance, conto, crônica, artigo, crítica, filosofia, autoajuda, infantil e os livros técnicos. O livro de poesia, que procurarmos, nem sempre será encontrado. Os poetas sabem que os seus livros não irão para a lista dos mais vendidos.
Esse distanciamento da poesia no Brasil não é dos tempos modernos da Internet, tem no mínimo a idade da nossa República. Embora aqui sejam mencionados muitos nomes de nossos poetas, não se pode dizer que temos o hábito da leitura de poemas. No meu entender, os poetas são admirados pelos nomes que construíram ao longo do tempo, embora sua poesia tenha cedido lugar para outros gêneros da literatura.
O que afirmei sobre um quase endeusamento de poetas brasileiros de renome e o fato de a poesia desses homens e mulheres serem praticamente desconhecidas, não é inverossímil. O mesmo se dá com a música de um Bach, de um Mozart. Seus nomes são conhecidos por muitos, embora sejam poucas as pessoas que ouviram ou ouvem a sua música.
Lembro-me de ter ouvido perguntas de médicos, advogados, entre outros, sobre este ou aquele poema de alguns de nossos poetas: "Este poema de Drummond é bom?". Ou então: "Não entendi bem este soneto de Bandeira, será bom mesmo?". Ou ainda: "É muito difícil este poema de João Cabral, ele é bom poeta?" Essas são dúvidas de pessoas adultas e cultas, que não estão habituadas a ler poemas.
Dentre os muitos leitores de outras áreas há ainda quem não tenha aprendido a ler poesia. Há quem ignore que a poesia enriquece nosso vocabulário, e que nos ensina ela, a poesia, a escrever de forma concisa, e também a explorar a cadência e a música das palavras. Essas pessoas, que não têm esse hábito, poderiam reservar um espaço no seu dia, por pequeno que seja, para a leitura da poesia.


    
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31 de mar de 2017

[Crônica] PEDRO LUSO – A importância da leitura



   
    A IMPORTÂNCIA DA LEITURA
          – PEDRO LUSO DE CARVALHO


Pela importância que tem a leitura deve-se começar bem cedo, já na infância, a sua prática. Mas para isso devem os pais estar bem atentos à forma de estímulos a ser empregada, com livros com letras que despertem o interesse da criança, textos curtos e muitos desenhos coloridos. Também devem escolher histórias capazes de diverti-los.
O fato é que muitos são os motivos que desviam crianças e adolescentes da leitura, como, por exemplo, o esporte, o celular e as redes sociais, que poderão resultar em fracasso inicial, mas pais e professores não deverão deixar de insistir nessa importante tarefa, mas sim rever as fórmulas que foram por eles aplicadas, para que possam saber onde se deu o erro, para que possam mudar de método.
Faz-se necessário, também, que se pense no custo dos livros, cuja aquisição pode ser difícil para muitas famílias, que enfrentam sérias dificuldades em razão da grave crise econômica do Brasil. Para os pais que ganham um salário-mínimo, ou um pouco mais, não sobra dinheiro para a compra de livros para os filhos, cujos preços estão alto demais.
Por isso, os pais que ganham salários muito baixos terão que procurar livros sem nenhum custo nas bibliotecas das escolas onde seus filhos estudam, nas bibliotecas públicas (que são poucas, fora das capitais dos respectivos Estados), ou então poderão comprar livros bem baratos nos "sebos", como são conhecidas as concorridas livrarias que vendem livros usados.
As pessoas que não puderam criar o hábito da leitura na infância ou na adolescência não devem desistir, pois sempre haverá tempo para se aproximarem dos livros, o que muitas vezes ocorre. A pessoa adulta poderá tornar-se uma grande leitora, com fôlego para muitas leituras. Também é verdade que a tarefa torna-se mais difícil para a pessoa adulta, mas é sabido que a força de vontade certamente poderá compensará todas as dificuldades.

       


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24 de mar de 2017

[Crônica] PEDRO LUSO – Filhos vencedores




          
                  FILHOS VENCEDORES
                                    - PEDRO LUSO DE CARVALHO


Há pais que educam os seus filhos, às vezes com grande esforço, com o objetivo de vê-los vencedores nas lutas que haverão de travar mais adiante. Sabem eles que o êxito está reservado aos intrépidos.
É natural que se queiram para os filhos o melhor futuro do mundo. Para que isso aconteça, terão eles que passar muitos meses de cada ano sobre os livros, estudando o mais que possam.
Mas não é qualquer aluno que se dispõe a estudar com perseverança. Nem todas as meninas e meninos têm o pendor para o estudo. Esta será a pedra no caminho, qual o poema de Drummond.
O certo é que os pais sabem que não será fácil para os filhos conquistarem as melhores posições na competitiva sociedade. Também sabem, os pais, que o único caminho para o êxito é a dedicação férrea. Outro meio não há, que eu saiba.
Também é certo que alguns pais contam com o talento dos filhos para acumularem riqueza e poder. Eles conhecem muitas pessoas que atingiram esse nível. Mas é bom não contarem com tamanho sucesso para eles, embora se sintam, a priori, recompensados pelos seus tantos esforços.
Que saibam também, esses dedicados pais, que a melhor orientação aos seus filhos, no meu entender, será a de que se dediquem aos estudos, caso queiram cursar uma faculdade, na medida exata de suas condições e de suas aspirações, pois a decisão para o rumo de suas vidas deve ser unicamente deles.


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17 de mar de 2017

[Poesia] PEDRO LUSO – Mágoa





         MÁGOA
                – PEDRO LUSO DE CARVALHO


Agora podes ver, amada,
no que me transformei.
O homem que fui
ficou na ferrugem
do tempo (não sei
quanto tempo faz).

Não mais lembras, amada,
do nosso rosário de juras
para além da vida?


Vês os meus olhos, amada,
com horizontes perdidos,
num mundo de sombras?

Sei, amada, logo passará
esta dor; nada é perene
(o amor morre
com o tempo). Às duas
da madrugada,
também eu estarei morto.





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10 de mar de 2017

[Poesia] PEDRO LUSO – O vento maldito




O VENTO MALDITO
PEDRO LUSO DE CARVALHO
(reedição)


De onde vem este vento pleno
de mau agouro? Virá das tumbas
de tempos remotos? – Gélido frio
perpassa-me o corpo.
Maldito vento, por que não cessas
e voltas para teus mortos?
Ou será teu desejo levar-me
contigo como troféu?
A quem servirá minh’alma?
Troféu algum valerá trabalho
tamanho para essa viagem
das trevas, vento maldito
com presságio de morte.
Não vês que ainda tenho sonhos,
tenho amores para amar,
injustiças para corrigir?
Vai-te daqui, vento agourento!
Irei contigo, mansamente,
maldito vento dos cemitérios,
quando não mais puder sentir
a dor dos homens secos pela fome.




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4 de mar de 2017

[Poesia] PEDRO LUSO - Ansiedade do artista




                 ANSIEDADE DO ARTISTA
 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

Fantasmas cercam o artista
na noite, quase madrugada.
No ateliê vestido de quadros
ainda ecoa o estampido da arma.

Na ânsia de criar, o artista fere
a tela virgem com o sangue
do homem – dançam pincéis
com tantas tintas no alvo tecido.

O artista anseia esquecer
o dia de fúria, esquecer a arma
municiada na mão tensa –
sentença irrecorrível.

Nos contornos de lúgubres figuras,
compostas em grandes telas, homens
e mulheres assombram – a criança
transborda alegria num universo de cores.





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