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26 de mai de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – Acontece comigo






ACONTECE COMIGO
PEDRO LUSO DE CARVALHO


Alguma coisa acontece comigo
sem que possa explicar o que seja.
Minha vida tem sido assim
há sempre alguma bruma
há sempre alguma tristeza,
sem que possa explicar o que seja.

Alguma coisa acontece comigo
sem que possa explicar o que seja.
Esta dor em meu peito
a desgraça tão presente
o país que não se inveja,
sem que possa explicar o que seja.

Alguma coisa acontece comigo
sem que possa explicar o que seja.
O meu desejo de partir
para na distância viver
paz há quem anteveja,
sem que possa explicar o que seja.




*   *   *






19 de mai de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO - Cofres e ladrões





COFRES E LADRÕES
PEDRO LUSO DE CARVALHO




Feche bem essa porta, meu filho,
há muitos ladrões lá fora.
Feche bem essa porta, meu filho,
se entrarem nada sobrará
do que temos.
(Ratos vêm roer nossos pés.)

Sabe onde se escondem os ladrões
dos nossos cofres, meu filho?
Escondem-se em palácios forrados,
tapetes dourados tecidos em ouro
e prata, embriagados pelo poder.

Mas logo tudo passará, meu filho,
essas bocas ilustres dos ladrões
de fala fácil, enganosa fala,
não mais terão o que dizer.

Ouve o vento bater na janela,
meu filho, ouve o suave vento
de harpa tangida, nosso alento,
único discurso para ouvirmos.



  *   *   *





12 de mai de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO - Lembranças





LEMBRANÇAS
  – PEDRO LUSO DE CARVALHO


Música, sonoras notas lembram Bach
igreja, reflexão
e religiosidade,
minhas asas para o voo.


Verei da altura, do nublado céu, a cidade
natal, quase esquecida na serra,
São Joaquim
minha primeira objeção.

Dia santo de São Pedro, neve
na manhã
branca
a tecer tapete no chão.

Lembranças avivadas com a sonata
de Bach, som
e solo do violoncelo
aplanando meu caminho.



*   *   *



5 de mai de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO - O quarto esquecido





O QUARTO ESQUECIDO
PEDRO LUSO DE CARVALHO


Há um quarto de dormir
na casa desperta, neste
dia claro, sem lembrança
opaca ou clara de noites
esquecidas. Há um quarto
de dormir esquecido
feito amor velho
trocado por novo amor
botão de rosa do roseiral.



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29 de abr de 2017

[Crônica] PEDRO LUSO - A frustração




         
  A FRUSTRAÇÃO
 PEDRO LUSO DE CARVALHO


Sempre que estou para realizar algum ato, em meu próprio benefício, procuro ficar atento para uma possível frustração. Nada mais comum, no meu sentir, que se ter reação agressiva diante de uma decepção. Tendo-se a consciência da possibilidade dessa reação, é que se pode manter o controle, sem o qual, o mal da reação poderá ser maior que o sentimento de insatisfação.
Quem não sentiu o desconforto de uma frustração? No meu entender ninguém escapa desse sentimento, que estará presente muitas vezes ao longo da vida. Também é certo que a cada decepção, qualquer que seja o motivo, haverá reação por parte de quem se frustrou. Será distinto, porém, o tipo e o grau da reação, que sempre dependerá da situação e do impulso do desejo, que foi objeto de contrariedade.
Não se pode esquecer, no entanto, que esse mal, que poderá advir da frustração, poderá atingir tanto quem se sente frustrado como a quem dá causa a esse sentimento. Também neste outro lado, que envolve quem frustra, a reação agressiva poderá ter graus nas mais variadas escalas, desde um simples insulto quanto a morte, por ato de quem se sente frustrado, como acontece, por exemplo, no crime passional.
Têm-se muitos exemplos de reação agressiva, por parte de quem se sente frustrado, mas que não chegam a colocar em risco a vida de quem dá motivo à frustração. A vida em família é rica em exemplos de descontentamento por quem se sente insatisfeito no que reivindica, que tanto pode ocorrer entre o casal como com os seus filhos. Essas frustrações variam de acordo com a situação socioeconômica de cada família.
Embora muitos sejam os exemplos de frustração, não se pode esquecer de que se trata de um sentimento absolutamente normal. Será uma boa medida, no entanto, que se tenha cautela diante de uma reação exageradamente agressiva por parte de quem se vê frustrado, pois, nesse caso, poderá estar, essa pessoa, acometida de alguma doença mental, sem que seja percebida por quem é causador da frustração.



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21 de abr de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO - Pátria





     PÁTRIA
           - PEDRO LUSO DE CARVALHO



Há um estranho clamor
vindo da rua.
Ouço os passos
em meio ao rumor,
ameaçadores passos
ritmados perto da casa.


Sou tomado pelo medo
dos gritos
trazidos da rua
pelo vento minuano,
claro sinal da agitação
de homens e de mulheres.

Um breu repentino na janela,
esse breu da noite
aumenta o meu temor
da turba, na rua, próxima
à casa, com ferrolho na porta
incapaz de estancar a avalanche.


Na minha frente, porta e janela
podre porta, de vidro
a janela, frágil proteção.
A turba vocifera; homens
de fortes braços vem unidos,
corpos suados, elos da corrente.

Tantos braços me cercam
na noite avançada,
levam-me para fora,
porta e janela no chão.
Meus braços, agora elos
da corrente pela decência.

Levam-me braços entrelaçados
de homens e de mulheres
unidos pela crença na Pátria,
para erguer seu orgulho, sobra
do esbulho; aproxima-se a hora,
hastearemos a insultada bandeira.




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14 de abr de 2017

(Crônica) PEDRO LUSO - Nosso complexo de vira-latas




- PEDRO LUSO DE CARVALHO

O brasileiro tem o complexo de vira-latas, dizia, há décadas, o grande Nelson Rodrigues - dramaturgo, contista, cronista, jornalista. Na época em que lançou esse primor de definição, havia um encantamento com o socialismo e o comunismo no Brasil. Havia aqui um tempo favorável aos músicos e aos cantores, aos quais se somavam compositores e letristas que enalteciam Lênin, Trotsky, Marx, Engels e por aí afora.
Tendo em vista que Nelson Rodrigues era uma voz desafinada nessa época - católico e com simpatia pela direita - poucos aceitaram a sua constatação de que o brasileiro tem o complexo de vira-latas. Mas o fato é que sabem, os que nasceram aqui nesta terra de tantos políticos e empresários corruptos, que Nelson Rodrigues disse a mais pura verdade. Estivesse ele vivo, nos dias que correm, veria que o complexo de vira-latas do nosso povo piorou muito.
Depois do governo de José Sarney até o ano de 2014, mais ou menos, muitos brasileiros sentiam-se constrangidos por terem posição política de direita. Não ser socialista era uma posição desprezível e burguesa - esse argumento idiota. A pressão imposta a todos nós, que parecia não ter fim, não resistiu à pressão popular, que teve o seu inicio em 2013. Não demorou muito para que se desmanchasse o castelo de cartas.
Não podemos esquecer, no entanto, que continua viva a constatação de Nelson Rodrigues de que o brasileiro tem o complexo de vira-latas. Nada mais exato. Como o mundo nos vê hoje, depois que os empresários da Empreiteira Odebrecht delataram 190 políticos, que aguardam os trâmites legais no Supremo Tribunal Federal? Podemos ter absoluta certeza de que o nosso complexo de vira-latas está fora de controle.
Aceitemos o nosso complexo de vira-latas, em homenagem a Nelson Rodrigues. Agora o mal agravou-se. Os escândalos de corrupção estão tornando crônico esse complexo, pois a todo momento nos assalta a vergonha pelos maus atos de nossos políticos. Uns estão presos, enquanto outros foram denunciados por corrupção: cinco ex-presidentes da República, cinco Ministros do governo Temer, presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado. Esses escândalos não mais permitem a cura do complexo de vira-latas.


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