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25 de jan. de 2020

[Poesia] PEDRO LUSO – A Maldade





     A MALDADE

      - PEDRO LUSO DE CARVALHO




A maldade já vem pronta,
terá seu jeito aos poucos
em definitiva forma,
e estará à vista
dos que queiram ver.

A maldade já vem pronta,
vem nos olhos,
na boca,
no jeito de falar
com voz em falsete.

A maldade já vem pronta,
precisa tão só de espaço,
então se mostrará
e fará vítimas,
sem delas se condoer.

A maldade já vem pronta,
não se importará com a dor
da mão estendida
para o afago perdido,
sol que se apaga no peito.

A maldade já vem pronta,
descuido da genética,
não o sonho dos pais,
vem mansamente
ao nascer o ente maldoso.




*  *  *




15 de jan. de 2020

[Poesia] PEDRO LUSO – Os Cupins





OS CUPINS

-- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Neste verão os cupins vivem aqui,
na querida Porto Alegre,
cidade de todos
que aqui moram,
minha cidade por adoção
e de outros filhos adotivos,
como o ilustre poeta
Mário Quintana,
que aqui chegou bem antes.

Meu canto é sobre cupins,
do tema não fugirei,
já que são assuntos
em conversas tantas
de mulheres aflitas
e de homens zonzos,
com tantas falas e zumbidos.

Há tantos cupins na casa,
voando na tarde,
na noite adentro,
por aqui
por ali
com ares de trapezistas
dos melhores circos,
depois perdem as asas
qual flores despetaladas.

Sem asas furam madeiras
deixando no chão
sobras dos seus jantares
e suas asinhas incolores.

Pensei em vender a casa,
mas Taís, mulher de fibra,
não concordou,
daqui não quer sair.

A impressão que ficou
é que Taís amor pegou
aos bichinhos voadores,
destruidores de móveis,
portas e janelas
bem longe de nossas vistas,
num trabalho silencioso,
devastador trabalho.

Como recordação,
ficam as madeiras
corroídas
e as asinhas
descoloridas
em todas as peças da casa.




*  *  *



1 de jan. de 2020

[Poesia] PEDRO LUSO – Trevo-de-quatro-folhas





TREVO-DE-QUATRO-FOLHAS

-- PEDRO LUSO DE CARVALHO




Pousei minha mão na grama
do jardim,
ainda úmida,
em meio a tantas flores,
cravos, dálias, lírios, rosas,
na manhã ensolarada
de verão
(festa de cores e perfumes),
em busca de um trevo,
não o trevo comum,
queria o trevo da sorte,
o trevo-de-quatro-folhas,
minha garantia de sorte
para todo o ano,
como aprendi
com os mais velhos,
quando criança.

Achei muitos trevos
no jardim,
mas todos trevos comuns,
de quatro folhas não achei.

Se alguém achar o trevo,
que não achei,
o trevo-de-quatro-folhas,
terá certamente muita sorte
neste ano,
que se inicia.
Que a sorte seja para todos!




*   *   *




13 de dez. de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Sol de Verão





SOL DE VERÃO
-- PEDRO LUSO DE CARVALHO



Filha, agora é tempo de sol!
Tempo de dias ensolarados,
tempo de enoites estreladas,
tempo de noites enluaradas!
Sol ao amanhecer,
sol ao meio-dia,
sol na tarde quente!
Sol, muito sol, filha!
Turistas chegando,
agitação nas cidades,
cidades nas serras,
gente nas matas,
gente nos rios,
gente nas ruas enfeitadas!
Cidades do mar,
gente nas praias,
com pés submersos
em crespas águas,
na maciez da areia!
Há tanta gente alegre, filha!
Sorrisos voam
como pássaros,
de um lugar para outro!
Voltou o sol de verão, filha!
Veio com a luz da esperança.




*   *   *



1 de dez. de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Os Judeus





OS JUDEUS
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



Do dia para noite,
ricos respeitados
no desfrute de iluminadas vidas,
homens instruídos
instruídas mulheres,
veem seus castelos ruírem
ante a loucura
de quem via o invisível,
a superioridade
da ariana raça,
impondo humilhação
e dor ao povo judeu.

Os germânicos acreditaram,
não todos, mas foram muitos,
no celerado líder
com a força do aval
para submeter aos judeus,
crianças, mulheres e homens,
à prisão e à fome,
à tortura e à morte
(sem compadecimento)
nas câmaras de gás,
em campos de concentração,
onde o silêncio amedrontava.

Depois da tortura e da morte
de milhões e milhões de judeus,
foram abertos os campos
(concentração do terror)
para permanecer no tempo
(como sinal de alarme),
a denúncia de tantos crimes,
com heróis semivivos
a lembrar a barbárie,
para que nada fique escondido
no tempo presente e futuro,
para que nada fique esquecido.




   *   *   *




24 de nov. de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Desencanto






DESENCANTO

— PEDRO LUSO DE CARVALHO



Há um navio atracado no porto.
Quem sabe seja esta a hora
para mudar o rumo
da vida que leva,
para fugir das teias,
dos laços emaranhados,
que o aprisionam.

Não há tempo para dúvida,
vida melhor poderá existir
lá adiante, onde se põe o sol,
onde tudo é novo,
águas da nascente
a correr para o mar,
protegidas pelas margens.

Não se justifica o atraso.
O navio atracado não espera,
partirá com os corajosos,
que levam em suas malas
unicamente o necessário,
deixando para trás as dores
e as feridas abertas.





*   *   *





17 de nov. de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Agitação na Metrópole





AGITAÇÃO NA METRÓPOLE

-- PEDRO LUSO DE CARVALHO




O som da música neste caminhar,
já à míngua,
vem para a ansiedade aplacar,
trégua para a mente
de quem está perdido
em meio a tantas pernas
nervosas
que não param
não param,
de rostos contraídos,
inexpressivos rostos
sem sinal de alegria ou dor,
de tantos braços agitados,
outros contraídos
a segurar bolsas,
pastas, pacotes,
nesta rua aonde passo
com passos serenos
alheio à balbúrdia,
com a alma suspensa
em meio às áureas nuvens
no enlevo das suítes
do Mestre Bach
tocadas pelo encantador de cellos,
Mestre Rostropovich,
rodeado de belezas angelicais.





*   *   *




10 de nov. de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – O Nosso Mundo Mudou




O NOSSO MUNDO MUDOU
– PEDRO LUSO DE CARVALHO


Filho, as flores murcharam!
Acabou a primavera
antes do tempo,
tempo de alegria,
de campos floridos,
de perfume no ar!
As flores murcharam, filho!
Murcharam nossas esperanças!
Estão surdos os tambores
em meio a tantos trovões,
trovões que não param,
não param,
nessa estranha estação
sem primavera,
sem verão,
sem outono!
O que temos é só o inverno, filho!
Aqui tudo mudou!
Não só as estações do ano,
mudou nosso mundo, filho!
Mudaram as estações
no Brasil e na América
do Sul!
Vieram ventos e tempestades
da América
Central!
No chão lamacento
os frutos apodrecidos,
a sobra que nos toca,
para matar nossa fome, filho!


*  *  *




4 de nov. de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – Pobres e Ricos





POBRES E RICOS
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



Este não é um bom tempo
para sonhar.
Impõem-se áspera realidade,
fruto da loucura
desmedida lá de trás,
quando o século vinte
dá seus primeiros passos
com brisas e tempestades,
com a promessa aos pobres
de um futuro dourado à frente.

Os dias e os anos passados
antes de nós,
a dormir no leito amarelado
da História,
tem os seus registros
que mostram a vã esperança.

O sonho de ser rico o pobre,
por medidas de governos,
seguirá sendo um sonho,
embora haja quem acredite
em centenárias promessas.

Este não é um bom tempo
para sonhar.
Não houve igualdade
e não haverá.
Que se travem outras lutas,
não mais as lutas perdidas.




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27 de out. de 2019

[Poesia] PEDRO LUSO – O Tempo dos Poderosos






O TEMPO DOS PODEROSOS

– PEDRO LUSO DE CARVALHO




Não sabem esses homens vis,
não sabem essas vis mulheres,
do limite para injustiças
e desmedidas vilanias?

Tem o relógio dois ponteiros
a marcar o tempo que sobra,
pois não são eternos os corruptos.
Sucumbirão sem honra e pompa.

Essas pessoas desalmadas,
no gozo de faustosa vida,
poderosos em seus palácios
sentirão o peso dos ponteiros.

O prazer que terá o povo,
quem virá para mensurar,
quando findar a vilania
no tempo que marca o relógio?

Sequer pensam na finitude,
os servidores poderosos
encharcados de privilégios,
sem verem parar os ponteiros.




  *    *    *