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17 de jul de 2014

[Crônica] PEDRO LUSO - A consulta pelo plano de saúde




                                             [ESPAÇO DA CRÔNICA]


                                     
                                  CONSULTA PELO PLANO DE SAÚDE
                                                                                                    [ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


Anualmente consulto o oftalmologista. Há muitos anos, é sempre o mesmo. Na época em que tinha que aferir se as lentes dos meus óculos ainda estavam boas, soube que o médico encontrava-se no exterior. E que, por um ano, ficaria ausente do país. Então, marquei consulta com outro especialista. Mas não achei nada confortável consultar com um desconhecido.

O médico escolhido para a consulta tinha seu consultório instalado dentro de uma clínica oftalmológica, localizada num dos bairros nobres da cidade. Na recepção da clínica, fui atendido por uma elegante recepcionista. Ela pediu-me que aguardasse a chamada. Foi o que fiz.

Logo o meu nome foi pronunciado por uma delicada voz feminina. Entrei no consultório do médico desconhecido. Um homem alto fez sinal para que me sentasse. A cadeira era parte de uma peça única de duas cadeiras, uma frente à outra, tendo ao centro um suporte para a colocação do queixo.

O médico pediu-me para colocar o queixo no suporte. Em seguida, olhou os meus olhos, um de cada vez, através de uma lente luminosa. Depois, dirigiu-se à escrivaninha ao lado, onde escreveu alguma coisa num receituário. Entregou-me o papel e indicou-me a porta. Já no corredor, ouvi, pela primeira vez, a voz do oftalmologista:

 O laboratório para os exames fica no andar de baixo!

Saí do consultório, sem ir ao laboratório. Já acomodado no carro, e ainda espantado ante o atendimento do médico, concluí que a síndrome do SUS  Serviço Único de Saúde   já havia atingido os usuários dos planos de saúde, para meu azar.



        *  *  *

3 comentários:

  1. Olá Pedro, parece-me de norte a sul desse Brasil
    a "síndrome do Sus" já se instalou nos planos de saúde.Seu texto muito lembrou uma das minhas consultas....Parabéns!!Bjs.

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  2. Excelente essa cronica, Pedro. Nao pelo tema em si, mas pela forma como vc narra: enxuta e rica de um certo vazio, um útil vazio, que se exime de mostrar a indignacao, deixando espaço para que o leitor a sinta, por si so. Abco!
    Cesar

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  3. Pedro, amigo!

    Obrigado pela indicação e pelo apoio de sempre!

    Bem, depois que eu postei esse comentário, me arrependi, pois não falei exatamente o que queria dizer. Ou melhor, não falei tudo...

    Vamos à complementação:

    Creio que uma crônica possa ser olhada, pelo menos, por dois importantes ângulos: o conteúdo e a forma.

    Aí no caso dessa sua ótima crônica, o conteúdo é indiscutível, visto que vivemos um momento tão inimaginável na saúde, que a saúde privada (que pelo menos era tida como boa, já que por ela se paga, e caro) está se igualando, paradoxalmente, à saúde pública.

    Pondo de lado o conteúdo. O que admiro e observo nas boas crônicas é a forma que, quando é acertada, faz dos assuntos mais efêmeros um tratado digno de humor e/ou emoção. Quem leu o Antônio Maria e o Mario Prata (só pra citar dois - um morto e um vivo), entenderá o que estou falando.

    Acho que esse não-mostrar a indignação, no caso dessa sua crônica social, produziu um efeito muito mais retumbante do que fazer o que a maioria dos escritores faria: enchê-las de exclamações, palavras de ordem e frases do tipo "me diga, leitor, se isso é possível!?"; "Até quando vamos ter que...!".

    Você, Pedro, como escritor elegante e dominador de sofisticadas técnicas, sabe bem disso, e deixou a mim e aos demais leitores indignados e impactados frente ao absurdo, usando "só" do poder do não-dizer; isto que chamo de "o vazio".

    Pena vc escrever tão pouco de próprio punho...

    Abço grande!
    Cesar Cruz


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PEDRO LUSO