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5 de out de 2014

[Crônica] PEDRO LUSO - Aquela mulher de Meia Idade



Anita Malfatti (1889 - 1964)
Obra: A mulher de cabelos verdes, 1915, 1916,óleo s/ tela (61x51) 
  
       
       [ESPAÇO DA CRÔNICA]

      AQUELA MULHER DE MEIA IDADE
           – PEDRO LUSO DE CARVALHO
  
Acho que a cada eleição, para presidência da República, me lembrarei daquela mulher de meia idade. Digo isto porque desde o dia em que se realizaram essas eleições, há quatro anos, ela permanece em minha memória; pressentia que no pleito deste ano, neste domingo, nos cruzaríamos novamente.
Interessante é que, pelas atuais eleições, não senti nenhuma emoção e tampouco interesse, mas quanto ao encontro que poderia ter ocorrido com a mulher de meia idade, foi bem diferente, senti-me inquieto em razão dos fatos ocorridos naquela época.
Naquele dia eu deixava a sala de votação, da seção eleitoral de meu bairro, quando vi a mulher de meia idade fazendo um esforço sobre-humano para chegar até a sala onde deveria votar; ela se apoiava em duas muletas e as colocava diante de si para poder projetar seu corpo para frente, arrastando suas pernas atrofiadas sobre a calçada.
Naquele dia, tive o ímpeto de ajudar a mulher, para que pudesse chegar a tempo à urna, mas depois desisti desse intento, por entender que qualquer gesto meu  para ajudar poderia magoá-la.
Neste domingo, depois de ter votado, permaneci por algum tempo na minha seção eleitoral, na esperança de encontrar mais uma vez aquela senhora, que vi arrastar-se para exercer o seu direito ao voto, mas minha espera foi em vão.
No pátio do prédio, onde votei, caminhei sobre as folhas de velhas árvores, derrubadas pelo vento; no trajeto, que me conduzia à rua, ainda mantinha a esperança de encontrar aquela obstinada mulher de meia idade. Então, me ocorreu que ela poderia ter perdido a esperança nos políticos.


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PEDRO LUSO