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6 de mai de 2014

[crônica] ANTÔNIO MARIA – O Mar



PEDRO LUSO DE CARVALHO

ANTÔNIO MARIA (Antônio Maria Araújo de Morais) nasceu em Recife a 17 de março de 1921. Já com residência fixa no Rio de Janeiro, cidade da qual não mais deixaria, ganhou fama, não apenas na Cidade Maravilhosa, mas praticamente em todo o Brasil. Antônio Maria tinha o dom especial para a crônica, com o estilo quase sempre descontraído da oralidade, e pela poesia que a revestia, sem tirar a característica da crônica, qual seja a simplicidade e a despretensão.
Antônio Maria escreveu suas crônicas para importantes jornais do Rio: O Jornal, onde permaneceu por 15 anos; O Globo, em 1959 (aí ficou por pouco tempo); e Última Hora, colunas nas quais publicava suas crônicas diárias.
Seu dileto amigo, o poeta Vinícius de Moraes, escreveu “Oração para Antônio Maria, Pecador e Mártir”, crônica que foi publicada em O Jornal de Antônio Maria, 1ª ed. Rio de Janeiro, Saga, 1968, da qual extraio este trecho: “Às vezes eu fico pensando. Não sei se você gostaria de estar vivo agora, meu Maria, depois de 1964. Tudo piorou muito, o governo, o meu caráter, a música. Agora só se faz música para Festival e perdeu-se aquela criatividade boa e gratuita da década de 50”.
No dia 15 de outubro de 1964, na cidade do Rio de Janeiro, o coração desse artista versátil, que já vinha dando mostras de cansaço, não aguentou mais. Antônio Maria morreu muito cedo, aos 43 anos.
Segue a crônica de Antônio Maria intitulada O mar (In Crônicas de Antônio Maria. São Paulo: Paz e Terra, 1996, 52-53):


O MAR
ANTÔNIO MARIA

Banho de mar no recife era “banho salgado”, e só se tomava com ordem médica, das cinco às sete da manhã. Antes do sol.
As roupas de banho das mulheres começavam numa touca, seguindo-se um casaco-sunga escuro (com aplicações róseas ou azuis) até os joelhos e sapatos de borracha.
Não devia confessar, mas sou do tempo do “banho salgado”. Acordávamos com a noite fechada, entrávamos em nossas roupas de banho e partíamos. De carro, para a Boa Viagem. Em jejum. Ai de quem tomasse café e caísse no mar. Contavam-se casos de pessoas que envesgaram ou ficaram com a boca torta. Tinha que ser em jejum como o da comunhão. Nem água.
A família só descia do automóvel depois que o chofer, pessoa de confiança, fizesse um reconhecimento da área e garantisse que não havia ninguém (homem) ali por perto.
Na praia, a pessoa mais velha mandava que todos fizesse o “pelo sinal” e tirava uma ave-maria, a que todos respondiam, encomendando a alma a Deus, no caso de afogamento ou congestão.
Botaram algodão nos ouvidos?
Botamos.
Davam-se as mãos, moços e crianças, entravam no mar, até a cintura.
Um, dois três ... e já!
E mergulhavam agoniados, de mãos dadas, olhos, ouvidos, boca e nariz tapados.
Essas minhas lembranças vêm de 1928. Apenas 33 anos. Mas o mar era uma novidade. Um desconhecido. Fazia-se cerimônia com ele. Tinha-se medo dele. Mar de 1928 era ainda o mar de Castro Alves. Soleníssimo: “Stamos em pleno mar!” Fazia medo. O mar de hoje é o de Caymmi. Abrandou. Tornou-se íntimo. Ninguém respeita.
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar...
Daquele mar do Recife, ficou uma lembrança: o cheiro dos sargaços. A quem os teve, sargaços na infância, por mais que ande, por mais feliz que esteja, faltará alguma coisa.
                                                                                             
                                                                                             18/11/1961

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